Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 1 nº 4 - Out/Dez - 2004

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Páginas 20 a 22


Anabolizantes e seus riscos


Autores: Anderson Geraldo Machado1, Paulo César Pinho Ribeiro2

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Como citar este Artigo

INTRODUÇÃO

Atualmente, vivemos um momento do culto exagerado ao corpo e à estética: triplicaram as cirurgias plásticas no país, observa-se um aumento crescente dos freqüentadores de academias de ginástica e nunca se venderam tantos cosméticos e produtos para emagrecer, apesar da crise econômica. É imperativo ser bonito, musculoso, magro e saudável. Aliado a isso, um consumo exagerado de tudo: dinheiro, imagem, roupas, perfumes, adornos, grifes, amor, sexo, bens de consumo e substâncias lícitas e ilícitas.

Agravando o consumo exagerado de substâncias, um novo mito se incorpora às práticas esportivas, o de que substâncias diversas estão disponíveis para ganho de massa muscular e conseqüente melhoria do rendimento e do desempenho físico. Entre elas os esteróides androgênicos anabolizantes.


DEFINIÇÃO

Os esteróides anabolizantes são medicamentos que funcionam como esteróides produzidos pelos próprios seres humanos.

Podem ser classificados em androgênicos e corticóides. Aqueles usados indevidamente são, na maioria, esteróides androgênicos (que agem como testosterona). Os esteróides usados para tratamentos de reações inflamatórias são os corticóides (prednisolona, cortisona, beclometasona, budesonida, dexametasona e vários outros), e todos têm diferentes graus de efeitos anabólicos. Os esteróides androgênicos, secretados pelas glândulas supra-renais ou pelos testículos, são hormônios sexuais masculinos, que incluem a testosterona, a diidrotestosterona e a androstenediona. A testosterona, proveniente do colesterol, é produzida, nos homens, principalmente nos testículos, e uma pequena quantidade, nas glândulas adrenais. A testosterona e seus metabólitos, como a diidrotestosterona, agem em várias partes do corpo humano produzindo as características sexuais masculinas secundárias (calvície, pêlos no rosto e no corpo, voz grossa, maior massa muscular, pele mais grossa e maturidade dos genitais); na puberdade, produz acne, crescimento peniano e testicular (em relação a comprimento e diâmetro) e fusão da epífise óssea, cessando assim o crescimento em altura.

A produção normal no homem adulto é de cerca de 4 a 9mg por dia, podendo ser aumentada pelo estímulo do exercício físico intenso. As mulheres produzem somente 0,5mg de testosterona/dia, daí a dificuldade em adquirir massa muscular


HISTÓRIA DA DROGA

Os esteróides anabólicos obtiveram certa proeminência para uso médico no início dos anos 1950, para o tratamento de pacientes com deficiência nos estrogênios naturais ou que sofriam de doenças caracterizadas por desgaste muscular. Outras indicações clínicas e terapêuticas são para o tratamento da osteoporose em mulheres e para neutralizar um declínio excessivo na massa corporal magra e um aumento na gordura corporal observados freqüentemente em homens idosos. Entretanto, ultimamente os esteróides anabólicos passaram a fazer parte integral do ambiente de alta tecnologia dos desportos competitivos, sendo utilizados por cerca de 90% dos fisiculturistas profissionais do sexo masculino e por 80% dos do sexo feminino, com a esperança de melhorar o desempenho físico.

Em 1994, nos Estados Unidos, mais de um milhão de jovens já tinham utilizado esteróides anabolizantes. Preocupa-nos saber que o motivo do uso tem causa social, destacando-se os efeitos benéficos do produto no desempenho físico sem preocupação com os graves danos à saúde. As autoridades federais estimaram, parcimoniosamente, que o emergente negócio do tráfico ilegal de esteróides, que é um importante fator econômico do uso ilegal da droga, ultrapassa os 100 milhões de dólares por ano, número que está aumentando rapidamente.

No Brasil, apesar de o problema estar se agravando, não localizamos estudos sobre incidência e prevalência do uso ilícito de esteróides anabolizantes entre adolescentes. Entretanto podemos estimar que o usuário ou consumidor preferencial se encontra na faixa etária de 18 a 34 anos de idade e é, em geral, do sexo masculino.


INDICAÇÃO

Os anabolizantes possuem vários usos clínicos, tendo como função principal a reposição da testosterona nos casos em que, por algum motivo patológico, tenha ocorrido um déficit desse hormônio. Muitos similares da testosterona são usados em tratamento médico, como nos casos de deficiência de testosterona, problemas testiculares, câncer de mama, angioedema hereditário, anemia aplástica, endometriose grave e estímulo do crescimento em caso de puberdade masculina tardia. Além do uso médico, eles têm a propriedade de aumentar os músculos e, por esse motivo, são muito procurados por atletas ou pessoas que querem melhorar o desempenho e a aparência física. O uso estético não é indicação médica, portanto é ilegal e ainda acarreta problemas à saúde.


EXEMPLOS DE MEDICAMENTOS ESTERÓIDES

Os esteróides podem ser injetáveis ou orais. A forma preferida dos usuários é a aplicação intramuscular, posto que a substância age mais rapidamente do que por via oral.

Esteróides nacionais - Decanoato de nandrolona (Deca-Durabolin® - um esteróide injetável com resultado de ganho de massa muscular e pequenos efeitos colaterais); derivados da testosterona, como propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona (quatro tipos de testosterona sintética muito bons para ganho de massa e força, mas muito carregados de efeitos colaterais); oximetolona (esteróide oral que tem o maior poder de ganho de massa e força de todos os existentes no Brasil e no exterior, mas de longe também o mais tóxico, podendo causar hepatites instantâneas, independentemente da dose); mesterolona (toxicidade mediana e poucos efeitos em ganho de massa).

Esteróides importados - Estazanol, oral e injetável (tóxico ao fígado); enantato de metolona (pouco efeito em ganho de massa e menos tóxico); oxandrolona (não tem muitos efeitos colaterais, sendo o preferido das mulheres).


EFEITOS COLATERAIS

O uso abusivo de esteróides pode levar a tremores, acne grave, retenção hídrica, dores nas articulações, aumento da pressão sangüínea, alteração do metabolismo do colesterol (diminuindo o HDL e aumentando o LDL com elevação do risco de doenças coronarianas), alterações nos testes de função hepática, icterícia e tumores no fígado, policitemia, exacerbação da apnéia do sono, estrias e maior tendência às lesões do aparelho locomotor (pois as articulações não estão aptas para o aumento de força muscular). Além disso, os indivíduos que fazem o uso de anabolizantes injetáveis correm o risco de compartilhar seringas contaminadas e se infectar com os vírus da AIDS ou da hepatite B ou C.

  • No homem - Diminuição ou atrofia do volume testicular, redução da contagem de espermatozóides, impotência, infertilidade, calvície, oligúria e disúria, hipertrofia da próstata e desenvolvimento de mama com ginecomastia nem sempre reversível.
  • Na mulher - Crescimento de pêlos com distribuição masculina, alterações ou ausência de ciclo menstrual, hipertrofia do clitóris, voz grave e diminuição de seios (atrofia do tecido mamário).
  • No adolescente - Maturação esquelética precoce com fechamento prematuro das epífises ósseas, baixa estatura e puberdade acelerada, levando a crescimento dismórfico.


  • O abuso de anabolizantes pode causar problemas emocionais como variação de humor, incluindo agressividade e raiva incontroláveis, e levar a episódios violentos como suicídios e homicídios, principalmente conforme a freqüência e o volume utilizado. Usuários apresentam sintomas depressivos de síndrome de abstinência ao interromper o uso, o que pode contribuir para a dependência. Ainda podem experimentar ciúme patológico, quadros maníacos e esquizofrenóides, extrema irritabilidade, ilusões (podendo haver uma distorção de julgamento em relação aos sentimentos e invencibilidade), distração, confusão mental e esquecimentos, além de alterações da libido e suas conseqüências.

    Algumas causas apontadas para o uso de esteróides anabolizantes incluem insatisfação com a aparência física e baixa auto-estima. A pressão social, o culto ao corpo que a nossa sociedade tanto valoriza, a falsa aparência saudável e a perspectiva de se tornar símbolo sexual constituem motivos para o uso/abuso dessas drogas. Uma boa aparência física ajuda na aceitação pelo grupo, promove a admiração de todos e faz surgir novas oportunidades.




    Nessa busca frenética pelo corpo ideal, o indivíduo faz uso de uma série de substâncias e acaba acontecendo um distúrbio de percepção de sua imagem corporal, o que o inclui no grupo de jovens com problemas emocionais, apresentando quadros clínicos hoje denominados como disformismo muscular ou bigorexia/vigorexia (apesar do ganho muscular corporal enorme, o indivíduo sempre se acha fraco em relação ao outro).

    Na linguagem dos jovens, "bombar" significa ficar mais atraente para as garotas e mais forte e poderoso frente ao grupo de amigos/inimigos.


    CONCLUSÃO

    Os anabolizantes devem ou não ser usados? A aprovação e o uso de qualquer droga são questões de decisão, isto é, se seus benefícios terapêuticos compensam, ou não, seus efeitos adversos. Em doses terapêuticas adequadas e sob controle e supervisão médicos, os esteróides causam poucos efeitos colaterais. O uso por razão estética ou frívola, sempre em doses elevadas (uso abusivo), é que traz conseqüências graves.

    O Comitê Olímpico Internacional classificou 20 esteróides anabolizantes e compostos relacionados a eles como drogas banidas, ficando o atleta que fizer uso deles sujeito a duras penas disciplinares.

    É importante que os profissionais da saúde que atendem os adolescentes estejam atentos ao fato e questionem, durante a entrevista, o uso dessas substâncias. Pais, educadores e profissionais da saúde devem sempre debater valores pré-concebidos de nossa sociedade, racionalizando o culto ao corpo e trabalhando o resgate da prudência e a prevenção dos riscos à saúde. Também devem incentivar as outras habilidades positivas internas que todos nós possuímos (principalmente os jovens, que as possuem e não têm consciência dessa posse).


    REFERÊNCIAS

    1. McArdle WD, Katch FI. Fisiologia do Exercício 1998;435-8.

    2. Ribeiro PC. O uso indevido de substâncias: esteróides anabolizantes e energéticos. Adolescência Latino-Americana 1999;97:102.

    3. Site: www.planetavida.com.br.











    1. Médico.
    2. Pediatra e hebiatra; professor do Curso de Especialização em Adolescência da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

    Trabalho de graduação realizado por A.G.M. durante o curso de Medicina da Universidade Estácio de Sá (UNESA).
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