Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 6 nº 2 - Abr/Jun - 2009

Artigo Original Imprimir 

Páginas 36 a 46


Projeto Adolescentro: experiência e significados

Project Adolescentro: experience and meanings


Autores: Flávia Cristina Morone Pinto1, Flávia de Barros Neme2, Lílian F. B. de Araújo2, Malka S. de Oliveira2, Valter Norberto Ferreira2

PDF Português            

Resumo:
O presente artigo está relacionado com as atividades desenvolvidas pelo projeto Adolescentro do Centro Universitário Celso Lisboa (CEUCEL), voltado a jovens e adolescentes residentes em comunidades no entorno do CEUCEL. Na perspectiva de desenvolver ações de promoção da saúde e estimular o protagonismo social, busca-se contribuir socialmente para o progresso civilizacional das comunidades. O projeto possui 25 adolescentes cadastrados, dos quais 16 participaram de todas as etapas. O objetivo de identificar as dificuldades nos processos de promoção da saúde, com ênfase no protagonismo social, prioriza as relações interpessoais de jovens e adolescentes, relacionando as dificuldades socioculturais. Trata-se de pesquisa qualitativa não-experimental, do tipo observacional, seguindo o enfoque social de Minayo. A análise observacional refere-se à anotação do comportamento nas condições em que ele ocorre em ambiente natural. Sendo a adolescência um período de transição, esse projeto discutiu crises e conflitos vividos por adolescentes, seja no âmbito familiar ou social. O desafio foi sensibilizar os adolescentes para os princípios de responsabilidade e corresponsabilidade para atuação na comunidade onde residem, de modo a estimular a tomada de decisão e multiplicar informações sobre promoção da saúde. O projeto possibilitou a integração social e o desenvolvimento que levou a mudanças comportamentais.

Abstract:
The present article is made a list to the activities developed by the project Adolescentro of the University Centre Celso Lisboa (CEUCEL), turned to young persons and resident adolescents in communities in I tip over of the UCL. In the perspective of developing actions of promotion of the health and stimulating the social protagonismo, it looks to contribute socially to the progress civilizatório of the communities. The project has 25 set up adolescents, of whom 16 participated of all the stages. The objective to identify the difficulties in the processes of promotion of the health, with emphasis in the social protagonismo, prioriza the interpersonal relations of young persons and adolescents when culturalpartner is making a list of the difficulties. It the question is qualitative inquiry not experimental the type observacional, following the social approach of Minayo. The analysis observacional tells to itself to the annotation of the behavior in the conditions in which he takes place in natural environment. Being the adolescence a transition period, this project dit discussed the crises and conflicts survived by adolescents, be in the familiar or social extent. The challenge moved the adolescents for the beginning of responsibility it is a co-responsibility for acting in the community where they reside, in way to stimulate the taking decision, where they could multiply informations on promotion of the health. This project made possible the social integration and development that led to changes comportamentais.

INTRODUÇÃO

O presente artigo está relacionado com as atividades desenvolvidas pelo projeto Adolescentro do Centro Universitário Celso Lisboa (CEUCEL), o qual está voltado a jovens e adolescentes residentes no entorno do CEUCEL (complexo de comunidades, incluindo as da Matriz e Sampaio, Rio de Janeiro).

O projeto possui, atualmente, 25 adolescentes cadastrados e visa à articulação social, educação em saúde e cidadania, com a perspectiva de desenvolver ações de promoção da saúde, estimulando o protagonismo social. Logo, pretende-se com ele contribuir socialmente para o progresso civilizacional das comunidades que estão localizadas nas redondezas do CEUCEL, tendo como compromisso social a busca por alternativas que possam transformar a realidade e formar multiplicadores no campo da promoção da saúde.

O ponto de referência desse projeto é estimular o pensamento crítico-reflexivo, a postura ética e o compromisso com a transformação de comunidades em situação de risco e à margem da sociedade.

A discussão em nível acadêmico tange iniciativas de estímulo ao raciocínio e incentivo às ações sustentáveis no propósito da intervenção social. Adicionalmente, a articulação social elaborada pelo projeto favorece a construção de um espaço de capacitação, equidade e "empoderamento".

Esse projeto está inserido na Coordenação de Ações Comunitárias do CEUCEL e possui os seguintes componentes: professor supervisor, representante da comunidade e monitores do projeto (alunos do curso de graduação). A função dos monitores é primordial para o êxito do projeto, uma vez que são eles os responsáveis por identificar as dificuldades do grupo. Portanto, além de embasamento teórico, é necessário flexibilidade para ouvir, fazer sugestões e intervir, considerando-se os direitos de escolha das informações e os conhecimentos, ou seja, respeitando- os nas suas pluralidade.

A adolescência é um período de transformação, no qual o jovem busca identidade e inserção no grupo social, e que corresponde à fase da vida em que os direitos e privilégios da criança são trocados pelos direitos e responsabilidades do adulto. Os distúrbios, transtornos e problemas de comportamento do adolescente são influenciados pela família, que, por sua vez, sofre influência, no seu desenvolvimento, de problemas decorrentes da situação socioeconômica, do nível de escolaridade dos pais, das complicações de saúde, dos nichos sociais, das causas genéticas e culturais, bem como da política do país.

Quando o adolescente tem conhecimento sobre as questões do adolescer, como situações de risco, cidadania, projeto de vida, entre outros, pode ser o responsável por suas ações, pois terá maiores possibilidades de escolha. Com isso, passa a ser o transmissor da informação no seu grupo multiplicador e promotor de saúde.

O Adolescentro aborda a importância do estabelecimento de limites e discute problemas essenciais nesse período de transição que é a adolescência. A proposta didático-pedagógica para o desenvolvimento das atividades do projeto Adolescentro segue o padrão do Ministério da Saúde (MS) e de outras entidades que visam à instrumentalização dos adolescentes para que atuem como atores sociais e sejam multiplicadores de saúde, repassando o que aprenderam aos jovens que fazem parte do seu convívio.

Essa estratégia permite ao adolescente atuar como protagonista das suas ações e como transmissor do conhecimento construído. O protagonismo é um meio de potencializar o desenvolvimento saudável de adolescentes e promover mudanças de atitude e de comportamento deles próprios e de seus pares, levando-os a refletir e fazer escolhas mais saudáveis de vida.

Os objetivos deste estudo foram identificar as dificuldades encontradas nos processos de promoção da saúde, com ênfase no protagonismo social e priorizando as relações interpessoais de jovens e adolescentes, e relacionar as dificuldades socioculturais entre adolescentes de uma comunidade carente no desenvolvimento do projeto Adolescentro.


CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Trata-se de pesquisa qualitativa não-experimental, do tipo observacional, seguindo o enfoque social de Minayo. A análise observacional refere-se à anotação do comportamento nas condições em que ele ocorre em ambiente natural. Utilizou-se para a condução desse estudo a técnica do grupo focal(1, 6).

As dinâmicas das sessões de grupo focal, seguindo um roteiro previamente elaborado incluíram:

  • apresentação dos participantes;
  • aquecimento e dinâmica de grupo;
  • produção de conhecimento propriamente dita.


O roteiro de entrevista compunha-se de cinco questões:

  • Como os adolescentes ocupam o tempo livre?
  • Quais as principais dificuldades dos adolescentes?
  • Por que acontecem esses problemas?
  • Como esses problemas podem ser enfrentados?
  • O que vocês podem fazer?


Ao final dos encontros, as anotações feitas pelos observadores (monitores) e pelo diretor do grupo focal serviram de base para análise e apresentação dos resultados. A operacionalização do grupo focal foi baseada no estudo de Muza G. M. e Costa M. P.(9).

Os sujeitos desses estudo foram adolescentes cadastrados no projeto. Apesar de termos 25 adolescentes cadastrados, apenas 16 participaram de todas as etapas.

Todos os procedimentos e técnicas realizados seguiram a Resolução no 196/96(2), respeitando-se a autonomia, o sigilo e o anonimato dos sujeitos entrevistados. O termo de consentimento livre e esclarecido foi passado para os responsáveis e adolescentes entrevistados. Foi realizada também uma reunião com os responsáveis, a fim de informar e esclarecer quaisquer dúvidas referentes ao projeto.

O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa seja processada após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ou por seus representantes legais manifestem sua anuência à participação na pesquisa(2).

No que se refere ao anonimato dos sujeitos, eles foram identificados por códigos, como segue: adolescentes, numerados de 1 a 16 (A1, A2... A16), e responsáveis, numerados também de 1 a 6 (R1, R2... R6).

Esse projeto foi aprovado e é patrocinado pelo CEUCEL.


DISCUTINDO AS EXPERIÊNCIAS E OS SIGNIFICADOS RELACIONADOS COM O PROJETO ADOLESCENTRO

APRESENTANDO OS ENCONTROS

O primeiro encontro serviu de base para o levantamento de problemas e necessidades a serem trabalhados no projeto. Nele foram definidos os seguintes eixos temáticos: valores, direitos humanos, solidariedade, ética, responsabilidade social e sexualidade. A definição desses temas foi feita por meio de dinâmicas, jogos e debates entre monitores do projeto e adolescentes.

Em seguida, construiu-se um planejamento (cronograma) de encontros quinzenais para o primeiro semestre de 2008. Para cada encontro, foi estipulado um assunto a ser abordado de acordo com os eixos temáticos. Ao total, foram 10 encontros com os seguintes temas:

  • 1º: cidadania e comportamentos;
  • 2º: crescimento e desenvolvimento (adolescer);
  • 3º: debate sobre o filme Confissões de uma Adolescente em Crise;
  • 4o: consulta individual com cada adolescente;
  • 5º: visita ao museu da vida na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
  • 6º: alimentação saudável;
  • 7º: expressão corporal - corpo em movimento;
  • 8º: protagonismo social;
  • 9º: promoção da saúde e vulnerabilidade
  • 10º: imagem pessoal - o cuidado com o corpo e preparativo para a festa de encerramento denominada "Atitude jovem".


Um dos grandes desafios do projeto é sensibilizar os adolescentes quanto ao princípio de responsabilidade e corresponsabilidade com relação aos problemas encontrados no próprio local onde residem, de modo a estimular a tomada de decisão e multiplicar informações no contexto de promoção da saúde, cidadania e controle social. Nesse sentido, o projeto funciona como uma possibilidade de integração social e desenvolvimento pessoal (identidade, autonomia, vocação, atitude e protagonismo) e coletivo (relações interpessoais, valores, respeito), que acabam refletindo mudanças estruturais, em que os adolescentes passam a assumir uma postura responsável.

A seguir, serão apresentados encontros, temas, dinâmicas e resultados encontrados.

1º ENCONTRO: CIDADANIA E COMPORTAMENTO (26/1/08)

Neste dia, nove adolescentes participaram da dinâmica. Com o objetivo de refletir sobre a condição atual da sociedade e da geração futura, desenvolveu- se um exercício de reflexão sobre o real presente e o futuro desejado. As respostas dos adolescentes remeteram a sonhos pelo desconhecido.

Segundo Gonçalves e Knaulth(4), "o espaço de experimentação e de valorização social que é dado de modo geral à juventude, percebido por meio de expressões como 'aproveitar a vida', ressalta as associações entre práticas e valores alocados no modo de vida jovem"(4).

De forma geral, como pode ser visto na Tabela 1, os adolescentes demonstram indignação com a sociedade de hoje. A preocupação pela vida das crianças foi mencionada duas vezes por A8 e A10. A palavra "violenta" foi dita por três adolescentes (A9, A3 e A11). As respostas de A14, A13 e A10 intercalaram-se no sentido de responsabilizar alguém pelos danos da sociedade. Puderam-se analisar o despreparo e a ausência de políticas públicas. Em contrapartida, quando se perguntou sobre a expectativa de uma sociedade para o futuro, a esperança ainda reinou nos pensamentos juvenis. Acreditar na possibilidade de um futuro melhor, com uma sociedade "maravilhosa" (A3), sem "morte de inocentes para a guerra do tráfico" (A10), é um pensamento aceso na perspectiva do grupo.




Vale ressaltar que a preocupação com o futuro é fator fundamental em suas respostas, posto que, em parte, atribuem à violência a sociedade que os cerca. Embora os adolescentes não relatem a importância dos pais na sociedade, o papel da família é fundamental neste momento. Quando se lê que "falta para ela (sociedade) ser direita porque a prefeitura ainda não chegou onde eu moro" (A14), observa-se a criação de um estigma de que o poder público é responsável por a comunidade viver à margem da sociedade.

Rena(10) afirma que a prática das oficinas consiste, justamente, no ofício de pensar sobre a vida e senti-la a partir de cada componente e das histórias de todos que poderão ser reveladas e transformadas pela força dos argumentos e dos sentimentos compartilhados.

Sobretudo pode-se destacar significativa mudança no que diz respeito ao futuro. Todos almejam continuar estudando, formar-se e conquistar seu espaço na sociedade.

2º ENCONTRO: CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO (16/1/08)

Treze adolescentes participaram do segundo encontro. No primeiro momento, houve uma reflexão sobre as marcas do crescimento, quando se contou uma história na qual uma árvore tem seu tronco marcado com pregos a cada decepção de um pai com seu filho e, à medida que o filho obedece, os pregos são retirados, porém as marcas jamais sairão do tronco, sempre a recordá-lo das escolhas ruins. Os adolescentes assistiram impactados, o que levou a acreditar que houve um feedback positivo da mensagem na comunicação. Após a reflexão, com o auxílio de objetos sintéticos representando os aparelhos reprodutores masculino e feminino, foi realizado estudo sobre as estruturas anatômicas e suas funções. Os adolescentes completaram um esquema de fixação em forma de exercício e tiraram suas dúvidas pertinentes à relação sexual.

Segundo Monteiro(8), "o que marca a passagem de uma fase para outra não é a celebração como rito, mas sim as experiências vividas no cotidiano, as exigências, os compromissos, as responsabilidades".

Uma dinâmica do DNA como herança genética também foi realizada, de forma que os adolescentes analisassem as características hereditárias de seus pais e avós.

3º ENCONTRO: DEBATE SOBRE O FILME CONFISSÕES DE UMA ADOLESCENTE EM CRISE (1/3/08)

A maioria dos adolescentes entende que ser rico e estar na moda é legal. Quando surge uma discussão sobre o comportamento de "patricinhas", a postura é referente à falta de responsabilidade com as coisas sérias da vida. Os adolescentes do projeto assistiram a um vídeo que fala sobre uma adolescente mimada, acostumada a ser o centro das atenções, que é obrigada a se mudar com a família para a periferia. Ela é capaz de mentir para conseguir popularidade e, embora se considere "adulta" para certas responsabilidades, demonstra comportamento infantil em vários momentos. No debate, surgiram as expressões "Eu não posso reclamar porque às vezes me comporto como criança" (A13); "eu fico nervosa" (A7); "muito irritada" (A3); "eu sinto vergonha" (A9) como respostas de algumas adolescentes quando arguidas em relação ao comportamento da personagem principal e suas reações pessoais. Procurou-se mostrar, de forma objetiva, a falta de verdade da personagem do filme, que foi desacreditada por todos os seus amigos. A reflexão dos benefícios de falar a verdade, mesmo que se sofra o dano, desempenhou favoritismo para a construção de um caráter responsivo.

4º ENCONTRO: CONSULTA INDIVIDUAL COM ADOLESCENTES (15/3/08)

Serão apresentados, a seguir, os conteúdos das entrevistas realizadas com os adolescentes, chamadas de consulta individual.

APRESENTANDO AS ENTREVISTAS

O objetivo dessas entrevistas foi identificar e subsidiar a população acerca de estratégias utilizadas na adesão dos adolescentes ao projeto "Adolescentro Celso Lisboa", servindo como material de referência para a elaboração de medidas que visem à melhoria e ao bem-estar na relação entre pais, adolescentes e profissionais habilitados para o atendimento.

Tal pesquisa contribui como base de estudos para outros projetos e profissionais, servindo também como reflexão de que a enfermagem não está somente ligada ao cuidado do cliente, mas também à promoção e ao incentivo de novas estratégias para a adesão a novos projetos.

Para a análise de dados, buscou-se estabelecer o perfil dos adolescentes atendidos pelo projeto e de seus responsáveis, sendo contempladas as variáveis relativas a idade, condições de moradia, hábitos alimentares e nível de escolaridade, categorizadas em protagonismo social, vulnerabilidade, crescimento e desenvolvimento (Tabela 2).




Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 16 de um total de 25 adolescentes cadastrados no projeto e com os responsáveis (6) dos respectivos adolescentes.


PERFIL DOS ADOLESCENTES

No que diz respeito ao local onde moram (Figura 1), 10 (62,5%) adolescentes relataram achar a comunidade muito boa ou boa, citando que "ninguém perturba ninguém" (A1) e que "mesmo que tenha tiros, os bandidos não deixam pegar em nenhuma criança" (A7).


Figura 1 - O que os adolescentes acham do local onde moram



Os outros seis (37,5%) classificaram o lugar em que moram como regular ou ruim, destacando caracteres como violência, tiros, polícia, crime, tráfico de drogas e bandidos, citando que "não é agradável para minha família, é muito violento e não nos sentimos bem, queremos nos mudar de lá" (A2) e que "minha casa é do lado do morro e, quando a polícia chega, corremos risco de vida" (A8).

Perguntados se trabalham ou já trabalharam, dois (12,5%) adolescentes disseram prestar serviços domésticos para ajudar na renda da família, os outros 14 (87,5%) relataram nunca terem trabalhado e dois (12,5%) afirmaram já ter ficado um dia inteiro sem se alimentar.

Quanto ao acesso às atividades de lazer, as mais citadas pelos adolescentes foram parque, praia, teatro, cinema, pizzaria, restaurante, lanchonete, baile funk e sorveteria.

Quando arguidos se são felizes, 15 (93,75%) jovens responderam que sim, que consideram felicidade "ter o amor dos pais e colegas e ter família" (A4) e "ter a família perto" (A9); 16 (100%) relataram ter amigos, 14 (87,5%) disseram demonstrar carinho pelos pais, 13 (81,25%) afirmaram que os pais são atenciosos como gostariam que fossem e sete (43,75%) relataram já terem se sentido desprezados por alguma outra pessoa.

Quanto à vulnerabilidade às drogas, 12 (75%) adolescentes disseram ter pais fumantes, dois (12,5%) já experimentaram cigarro e nove (56,25%), bebida alcoólica, sendo que três (18,75%) bebem frequentemente em festinhas e quatro (25%) têm alguém na família com problemas de alcoolismo.

Um (6,25%) adolescente disse já terem lhe oferecido drogas ilícitas, mas ele não aceitou; sete (43,75%) disseram não conhecer os efeitos das drogas, e, quando perguntados que tipos de drogas conhecem, as mais citadas foram cocaína, crack, lança-perfume, ecstasy, boa-noite-cinderela, maconha, loló, álcool e cigarro.

A conduta do jovem contribui para a determinação do seu estado de saúde, para o de sua família e para o da própria comunidade(11), o que salienta as condições de saúde como resultados do estilo de vida que o jovem leva.

Com relação à atividade sexual, oito adolescentes (50%) relataram já terem namorado, mas apenas dois (12,5%) afirmaram já ter tido relação sexual.

Lira e Dimenstein(5) relatam que: "Não existe uma fórmula pronta, uma perfeita mistura de mensagens e serviços que ajudem os adolescentes a tomarem decisões seguras acerca de sua sexualidade e saúde e, por outro lado, os programas para adolescentes enfocando sexualidade, gravidez e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) devem, antes de tudo, levar em conta os aspectos sociais, culturais e econômicos da realidade em que se inserem".

Quanto aos métodos anticoncepcionais, 12 deles (75%) os conhecem, citando, principalmente, a camisinha e a pílula, e 13 (81,25%) dizem que usam ou pretendem usar camisinha, mesmo conhecendo outros métodos.

No que se refere ao protagonismo social, o que se observou foi que todos os adolescentes do projeto Adolescentro querem, por meio de atitudes, de mudanças de comportamento e de reflexão de suas escolhas, um autodesenvolvimento saudável e demonstraram isso por suas perspectivas com relação ao projeto.

Os adolescentes mostraram-se esperançosos com relação ao futuro, mesmo com toda a vulnerabilidade das condições em que residem.

Segundo relato dos adolescentes, "eu espero mudar meu jeito de falar, de me expressar, que seja bom pra mim e para os outros" (A2).

Alguns jovens já conseguem se ver lá na frente e percebem como é importante lapidar o raciocínio, como disse A2. "Eu espero evoluir meus pensamentos e ser alguém na vida" (A10).

Com relação às expectativas quanto ao projeto, os adolescentes disseram, principalmente, que querem aprender mais coisas e se socializarem melhor: "espero ser menos tímida, conversar mais com os outros e fazer novas amizades" (A1); "ter mais informações sobre drogas, relações sexuais etc." (A5); "nos tornarmos pessoas mais cultas em relação à saúde" (A 15).

Quando o adolescente, individualmente ou em grupo, envolve-se na solução de problemas reais, atuando como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso, tem-se um quadro de participação genuína no contexto escolar ou sociocomunitário, o qual pode ser chamado de protagonismo juvenil(3).

A partir dos resultados levantados, percebeuse que as estratégias estão eficientes, havendo cada vez mais adesão de novos adolescente ao projeto, e que o atendimento por profissionais qualificados para orientar quanto a educação em saúde, apoio nas horas de pânico ou depressão de toda ordem tem sido um sucesso.

No que tange ao perfil econômico e à escolaridade (Tabela 3 e Figuras 2 e 3), verificou-se que apenas um responsável (16,6%) possui nível superior, um (16,6%), nível médio, e quatro (66,6%), fundamental incompleto. Com relação à renda, três famílias recebem menos de um salário mínimo e três ganham até dois salários mínimos.





Figura 2 - Perfil econômico dos responsáveis


Figura 3 - Percentual de escolaridade dos responsáveis



Observou-se que a comunicação facilitou a relação interpessoal entre pais e adolescentes junto com todo cuidado humano profissional, que constitui estratégia essencial no processo de adesão dos conceitos.

Torna-se, então, primordial que seja difundida a necessidade de reflexão sobre o processo. Por fim, verificamos também que urge a necessidade de iniciativa em desenvolver cada vez mais temáticas, investindo em pesquisas que mostrem a realidade e proponham soluções.

5º ENCONTRO: VISITA AO MUSEU DA VIDA (FIOCRUZ) (29/3/08)

A visita externa aos compartimentos da FIOCRUZ, além de educativa e cultural, proporcionou um momento de diversão e lazer aos adolescentes do projeto, que, na maioria das vezes, reúnem-se nos laboratórios da instituição de ensino Celso Lisboa. O contato com os monumentos históricos e os equipamentos do parque da ciência, associados aos entretenimentos, favoreceram a construção de um pensamento reflexivo, contribuindo para o empedramento do protagonismo no que diz respeito à integração entre ciência, cultura e sociedade. Os temas centrais do museu abordam a vida como objeto do conhecimento, saúde como qualidade de vida e a intervenção do homem sobre a vida. Um grande móbile ilustrando a relação de tamanho entre vírus, bactérias e células do sangue provocou interesse e descoberta entre os adolescentes. Jogos de associação e memória discutiram a relação entre micro-organismos, ambientes de risco e saúde. Em bancadas de experimentos, foi possível brincar com temas de física, química e biologia. No parque da ciência, parabólicas sonoras, tubos musicais, pilha humana, praça solar e jardim dos códigos deferiram maior conhecimento aos adolescentes.

6º ENCONTRO: ALIMENTA ÇÃO SAUDÁVEL (12/4/08)

Com o objetivo de criar uma prática saudável de alimentação entre os adolescentes, no sexto encontro, o projeto utilizou o laboratório de nutrição e dietética da faculdade com a finalidade de preparar uma salada de frutas de modo econômico e prático, demonstrando as características nutricionais e a função na composição do organismo humano. A higiene das mãos e dos alimentos como parte fundamental foi estimulada no primeiro momento. O aproveitamento dos alimentos de forma econômica no preparo da salada relacionou-se com o debate sobre nutrientes numa dinâmica sobre o preparo do prato ideal. Diversos recortes de alimentos diferentes (frituras, legumes, grãos etc.) foram oferecidos para que cada um tivesse a oportunidade de fazer de seu prato o mais saudável possível.

7º ENCONTRO: AÇÃO SOCIAL "TENDA DO ADOLESCENTRO" NA COMUNIDADE (26/4/08)

Esse encontro deu-se na própria comunidade (moradia) dos adolescentes. Os temas de combate à dengue e reciclagem vs. lixo foram expostos por profissionais da prefeitura. Os adolescentes elaboraram um pôster com as letras L, I, X e O gigantes feitas em cartolina e com fotos da comunidade coladas nelas, identificando áreas de risco referente a descarte de lixo em encostas ou ruas. Após a divulgação do projeto social, foi oferecido um delicioso churrasco pela faculdade Celso Lisboa.

8º ENCONTRO: VULNERABILIDADES E PROTAGONISMO SOCIAL (10/5/09)

Em nossa sociedade, circulam ideias sobre a adolescência associadas à noção de crise, desordem e irresponsabilidade: um problema social a ser resolvido e que merece atenção pública(7).

Os adolescentes estão vulneráveis a riscos relacionados com gravidez precoce, HIV drogas, uso e abuso de álcool, DSTs, morte ante a violência, entre outros, que acabam definindo negativamente esse período da vida e gerando expressões, ações e posturas erradas.

A análise da dinâmica sobre perguntas e respostas individuais e escritas mostrou que a prevenção de um mau comportamento refere-se a 100% dos adolescentes pelas suas respostas. Outras questões, como sentimentos em relação aos maus-tratos de outros jovens e condições de se tornar um promotor de saúde, também foram abordadas. As habilidades dos adolescentes podem conduzir a bons relacionamentos, a um bom emprego e a muitas outras conquistas (Tabela 4). O protagonismo juvenil significa que o jovem participa como ator principal em ações relativas ao bem comum, na escola, na comunidade ou na sociedade mais ampla. É a concepção do jovem como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso como forma de responsabilidade; o comportamento preventivo, o desenvolvimento de habilidades que permitam a resistência às "pressões da turma", a expressão de sentimentos, opiniões, dúvidas, inseguranças, medos e preconceitos, de forma a dar condições para o enfrentamento e a resolução de problemas e dificuldades do dia-a-dia.






9º ENCONTRO: IMAGEM PESSOAL E HIGIENE CORPORAL (31/5/08)

A ideia que o adolescente tem sobre o próprio corpo e suas experiências criam um referencial do seu corpo. A mudança sugere comparações entre os colegas, favorecendo uma avaliação da nova situação, o que gera uma mudança na sua imagem corporal. Entende-se que o fato de ser gordo ou magro, alto ou baixo, negro ou branco deve ser muito bem trabalhado, principalmente nessa fase da vida, de forma que haja orgulho e satisfação nas características pessoais de cada indivíduo e estabilização da autoestima.

De certa forma, os distúrbios alimentares estão associados à imagem corporal. O fato é que uma alimentação saudável interfere na estrutura do corpo humano, e nem sempre os alimentos providos são suficientes para um crescimento saudável.

Esta oficina engloba os temas abordados nos encontros anteriores, condensando as devidas informações na entrevista individual.

O aspecto "higiene corpórea" foi bastante citado, mas quando se falou em higiene mental, os adolescentes não souberam responder, demonstrando falta de conhecimento sobre o assunto. Eles próprios começaram a relacionar o que para eles era higiene mental após arguidos com perguntas do tipo: "ler um livro é higiene mental?"; "qual música costuma ouvir para relaxar?"; "ir ao teatro ajuda na construção de um pensamento sadio?".

As respostas foram diversas: "não gosto de ler" (A 8); "o melhor ritmo é o funk" (A11); "teatro é cultura" (A 1).

No tocante às explicações fornecidas pelos monitores, observou-se primeiramente o impacto que o termo oferecia. O entendimento sobre saúde mental antes da dinâmica não era claro. Após a oficina, a compreensão tornou-se efetiva.

10º ENCONTRO: ATITUDE JOVEM (28/6/08)

No último encontro do primeiro semestre, uma festa de confraternização foi realizada no pátio da faculdade com a participação de alunos e moradores da comunidade. Os adolescentes do projeto atuaram como protagonistas, explicando os seus trabalhos, e se apresentaram na forma de desfile na passarela. A coordenadora de ações sociais ofereceu brindes para os adolescentes do projeto.


CONCLUSÃO

Entendendo que a adolescência configura-se como um período de transição, esse projeto discutiu os conflitos e as crises vividas por adolescentes, seja no âmbito familiar ou social. O desafio foi sensibilizar os jovens para o princípio de responsabilidade e corresponsabilidade para atuação na comunidade onde residem, de modo a estimular a tomada de decisão e multiplicar suas informações sobre promoção da saúde. O projeto possibilitou integração social e desenvolvimento pessoal (identidade, autonomia, atitude e protagonismo) e coletivo (relações interpessoais, valores e respeito), o que levou a mudanças comportamentais dos adolescentes envolvidos.


AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao Centro Universitário Celso Lisboa (CEUCEL), pelo apoio e incentivo financeiro às atividades do projeto, desempenhando seu papel na responsabilidade social, e a Claudia Santos, coordenadora de Ações Comunitárias do CEUCEL, por viabilizar as iniciativas do projeto.


REFERÊNCIAS

1. Carlini-Cotrim B. Potencialidades da técnica qualitativa grupo focal em investigações sobre abuso de substâncias. Rev Saúde Públ. 1996;30(3):285-93.

2. Conselho Nacional de Saúde. Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas envolvendo Seres Humanos: Res 196/96. Disponível em: <http://conselho.saude.gov.br/docs/Resolucoes/Reso196.doc>. Acesso em: out 2008.

3. Costa M. Sexualidade na adolescência. Porto Alegre: LP & M Editores. 1999.

4. Gonçalves H, Knaulth DR. Aproveitar a vida, juventude e gravidez. Rev. Antroplo. 2006;49(2).

5. Lira JB, Dimenstein M. Adolescentes avaliando um projeto social em uma unidade básica de saúde. Psicologia em Estudo. 2004; 9(1). Disponível em: <http://www.scielo.br>. Acesso em: maio 2008.

6. Minayo MCS. A violência social sob a perspectiva da saúde pública. Cadernos de Saúde Pública. 1994.

7. Ministério da Saúde. Marco Legal. Saúde, um direito de adolescentes. Brasília. 2005.

8. Monteiro S. Um estudo de rituais femininos em camadas de baixa renda. Norte e Nordeste. Estudos em Ciências Sociais. ANPOCS, Inter-American Foundation. 1998;141-85.

9. Muza GM, Costa MP. Elementos para a elaboração de um projeto de promoção à saúde e desenvolvimento dos adolescentes: o olhar dos adolescentes Cad. Saúde Pública. 2002;18(1).

10. Rena LCCB. Sexualidade e adolescência. As oficinas como prática pedagógica. Autêntica: Belo Horizonte. 2001.

11. Yunes J, Primo E. Características da mortalidade em adolescentes brasileiros: In: Coletânea sobre saúde reprodutiva do adolescente brasileiro. Brasília: OPAS/OMS. 1988;17-33.









1. Coordenadora do projeto no Centro Universitário Celso Lisboa (CEUCEL).
2. Acadêmico de enfermagem do CEUCEL.
adolescencia adolescencia adolescencia
GN1 © 2004-2014 Revista Adolescência e Saúde. Fone: (21) 2868-8456 / 2868-8457
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente - NESA - UERJ
E-mail: secretaria@adolescenciaesaude.com