Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 8 nº 4 - Out/Dez - 2011

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Páginas 48 a 54


Conhecimento, acerca da consulta ginecológica para adolescentes, produzido no campo da medicina

Knowledgment, regarding the gynecology appointment for adolescent women, produced in the field of medicine


Autores: Vera Lúcia de Oliveira Gomes1; Cristiane Lopes Amarijo2; Cristine Coelho Cazeiro3; Jaqueline do Espírito Santo Costa3

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Como citar este Artigo

Descritores: Saúde do adolescente, ginecologia, saúde sexual e reprodutiva.
Keywords: Health of adolescent, gynecology, sexual and reproductive health.

Resumo:
Objetivo: analisar o conhecimento produzido, no campo da medicina, acerca da consulta ginecológica de adolescentes, no período compreendido entre 2004 e 2009. Métodos: estudo qualitativo realizado por meio de Revisão Sistemática de Literatura. A busca pelos estudos originais foi efetuada por duas pesquisadoras que, adotando um protocolo norteador, consultaram os periódicos com classificação igual ou superior a B2, pelo Qualis da Enfermagem, excetuando-se apenas os periódicos específicos de enfermagem que foram incluídos na pesquisa intitulada "conhecimento produzido, no campo da enfermagem, acerca da consulta ginecológica para adolescentes". Resultados: integraram a amostra três artigos, que submetidos à análise temática, originaram as seguintes categorias: dificuldades das adolescentes com relação à consulta ginecológica e necessidade dos profissionais de saúde para realização da consulta ginecológica para adolescentes. Entre as dificuldades relacionadas pelas adolescentes figuram vergonha, medo e falta de coragem; questões de gênero e falta de informação. Entre as necessidades listadas pelos profissionais figuram a de sistematização do atendimento, de capacitação profissional, de multidisciplinaridade no atendimento e de implantação de um programa específico para adolescentes. Conclusão: embora seja escassa a produção científica referente à temática, os autores já apontam fragilidades que precisam ser superadas para um adequado atendimento a adolescentes, nos serviços de saúde.

Abstract:
Objective: It aimed to analyze the knowledge produced, in the field of medicine, regarding the gynecological appointment of adolescents, from 2004 to 2009. Methods: Qualitative study carried out as Systematic Review of Literature. Original studies were retrieved by two researchers who, adopting a leading protocol, consulted journals whose ranking was equal or above B2 by Qualis Nursing, except those specifically for nursing, which were included in the research named: knowledge produced, in the field of Nursing, regarding the gynecological appointment for adolescents. Results: Three articles took part in the study, they were submitted to thematic analysis, originating the following categories: difficulties of adolescents regarding the gynecological appointment and need of health professionals for gynecological appointment with these adolescents. Among the setbacks by adolescents, there are shame, fear and lack of courage; gender issues and lack of information. Among the necessities listed by the professionals are service systematization, professional training, multidisciplinary focus on the service and the launch of a specific program for adolescents. Conclusion: although there is rare scientific production concerning such theme, authors have pointed out fragilities that need to be tackled so as to provide proper service to adolescents, in the health services.

INTRODUÇÃO

De acordo com o CENSO divulgado pelo IBGE, em novembro de 2010, aproximadamente 18% da população brasileira é formada por adolescentes1, ou seja, jovens com idades entre 10 e 19 anos2. Representando a transição entre a infância e a adultidade, a adolescência caracteriza-se por mudanças biológicas, psicológicas e sociais.

Nessa etapa, geralmente ocorrem crises, conflitos e desordens, uma vez que os jovens precisam adaptar-se ao novo corpo, integrar-se ao novo grupo, desfrutar de vivências até então desconhecidas e assim reconstruir sua identidade3.

Além de passarem por uma transição conflitante, adolescentes sofrem a pressão do grupo para agirem de forma mais descompromissada no que se refere às primeiras aproximações com o sexo oposto. As transformações decorrentes da puberdade, inclusive as alterações hormonais, levam esses jovens a buscar novas formas de satisfazer seus desejos, sejam eles afetivos, interpessoais ou sexuais4. Tais situações os expõem a inúmeros agravos que podem ser dimensionados por meio da análise do resultado de alguns estudos.

Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada em 2009 nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, aponta que 30,5% dos 618.555 estudantes, com idade média de 15 anos, já haviam iniciado sua vida sexual. Desses 24,1% afirmaram não ter usado preservativo na última relação, apesar de 88,5% deles terem recebido informações sobre DST's/HIV/AIDS, 81,6% sobre prevenção de gravidez e 68,4% sobre a distribuição gratuita de preservativos nos postos de saúde5.

Tais dados tornam-se mais preocupantes quando se constata que a prevalência de infecções por HIV subiu de 0,09% para 0,12% em cinco anos, mantendo tendência à elevação. Atualmente, a incidência do vírus está em torno de 20 para cada mil habitantes, havendo muitos registros de casos de jovens infectados pelo HIV e outras DST's6. Desde 1980, quando foi iniciado o mapeamento da AIDS no Brasil, até junho de 2010, foram registrados 592.914 casos, sendo 12.693 em jovens de 13 a 19 anos de idade7.

Além disso, a taxa de fecundidade precoce no país ainda é muito elevada. Do total de partos realizados, 20% ocorrem em adolescentes com idade entre 15 e 19 anos. Somente em 2007 ocorreram 594.205 (21,3%) partos de mães com idade entre 10 e 19 anos6. Deve-se também atentar para a reincidência de gravidez. Estudo realizado em uma Unidade Básica de Saúde no Estado de São Paulo em 2009 evidenciou que 84,37% das adolescentes estavam enfrentando a segunda gestação8.

Tais dados não significam ineficiência ou ausência de ações de saúde em nível coletivo, como as campanhas no carnaval e dia dos namorados, ampliação do acesso ao planejamento familiar e implementação de programas de promoção da saúde sexual e reprodutiva de adolescentes, os quais foram fundamentais para a queda em 22,4% no número de gestações nesse grupo populacional nos últimos cinco anos9. O que se pretende enfatizar é a necessidade de intensificação das ações de saúde em nível individual, entre elas o acesso à consulta ginecológica como rotina de atendimento a adolescentes. Para tanto, acredita-se que seja inicialmente indispensável a desmitificação desse procedimento junto aos adolescentes.

Durante a adolescência, pouco ou nada se fala acerca da consulta ginecológica como procedimento de promoção de saúde, necessário antes mesmo da iniciação sexual. Assim, inúmeras são as moças que a percebem apenas como um procedimento constrangedor, capaz de detectar patologias ou de revelar sua própria intimidade. Por desconhecerem que a consulta ginecológica pode estar desvinculada do exame ginecológico, procedimento indicado apenas às adolescentes que iniciaram atividades sexuais ou apresentam algum problema ginecológico10, por desconhecerem também que é legalmente dispensável a presença de mães, pais ou seus responsáveis, muitas adolescentes temem e evitam essa importante ação preventiva, buscando-a apenas em situações patológicas ou de gravidez.

Por outro lado, todo profissional de saúde que atua junto a adolescentes precisa estar ciente de que sua interação com o adolescente, que busca atendimento, deve ser baseada no respeito, na liberdade de expressão dos sentimentos, medos, dúvidas, na autonomia e nos princípios de ética, privacidade e confidencialidade que são fundamentais no seu cotidiano. Entendese que a "privacidade é caracterizada pela não permissão de outrem no espaço da consulta"11 e com a confidencialidade fica garantido que as informações discutidas durante e após a consulta não serão reveladas sem a permissão do adolescente10. De forma muito esclarecedora, a caderneta de saúde da adolescente orienta as jovens acerca de seus direitos durante e após as consultas, destacando que o sigilo só poderá ser quebrado com sua permissão ou se houver danos à própria saúde ou a terceiros10.

Pressupondo que a consulta ginecológica represente um significativo insumo para a promoção da saúde sexual dos adolescentes, optou- se por realizar este estudo com o objetivo de analisar o conhecimento produzido, no campo da medicina, acerca da consulta ginecológica de adolescentes, no período compreendido entre 2004 e 2009.


MÉTODOS

O presente trabalho consiste em uma investigação exploratório-descritiva, com abordagem qualitativa, realizada por meio de uma Revisão Sistemática de Literatura (RSL). Esse método científico é uma síntese objetiva e reproduzível de pesquisas, disponíveis em dado momento, sobre um tema específico. Os princípios que norteiam uma RSL são: exaustão na busca das pesquisas, definição clara dos critérios de inclusão e exclusão das mesmas e avaliação da qualidade metodológica das pesquisas selecionadas12.

Visando atender a tais princípios, inicialmente elaborou-se um protocolo norteador contendo a questão a ser investigada, as estratégias de busca, os critérios de inclusão e exclusão das pesquisas encontradas12. Assim, investigouse: "qual o conhecimento, acerca da consulta ginecológica para adolescentes, produzido por médicos(as), no período compreendido entre 2004 e 2009"? Para tanto, buscaram-se textos resultantes de pesquisas inéditas, disponíveis integralmente on-line, publicadas entre 2004 e 2009, com pelo menos um(a) autor(a) médico(a) atuante no Brasil, e cuja abordagem contemplasse o objeto deste estudo.

A coleta de dados foi realizada de junho de 2009 a agosto de 2010 por duas pesquisadoras que atuaram de forma independente para garantir objetividade ao método adotado. A localização do material foi efetuada por meio de busca digital de estudos publicados em periódicos com classificação igual ou superior a B2, pelo Qualis da Enfermagem, excetuando-se os periódicos específicos de enfermagem que foram incluídos na pesquisa intitulada: conhecimento produzido, no Campo da Enfermagem, acerca da consulta ginecológica para adolescentes.

O material selecionado foi submetido a dois testes de relevância. No primeiro, efetuou-se a leitura dos títulos dos artigos constantes nos 474 fascículos que integram os 15 periódicos analisados, bem como se avaliou a formação e procedência dos(as) autores(as). Assim, selecionaramse pesquisas com foco na consulta ginecológica de adolescentes com pelo menos um(a) autor(a) médico(a), atuante no Brasil.

A seguir, foram lidos os resumos, excluindo- se artigos de revisão, relatos de caso e de experiência. Entre os artigos que enfocavam a saúde sexual ou reprodutiva de adolescentes, a maior parte versava sobre o conhecimento acerca da prevenção de DST's, pré-natal, parto e puerpério, os quais também foram excluídos. Assim, com a aplicação do primeiro teste de relevância, foram selecionados cinco artigos.

Construiu-se, então, um banco de dados, elaborando-se para cada artigo um arquivo identificado pela letra A acrescida de números de um a cinco, seguindo a ordem cronológica de publicação. Os arquivos continham: nome do periódico, ano da publicação, objetivo, tipo de pesquisa e amostra/informantes.

Para o segundo teste de relevância, os artigos foram lidos na íntegra. Percebeu-se que dois tinham a mesma autoria e discutiam os mesmos dados, por isso selecionou-se o mais abrangente. Outro excluído referia-se aos diferenciais de gênero presentes no início da vida sexual de adolescentes. Assim, integraram a presente revisão sistemática, três artigos, identificados, segundo a ordem cronológica de publicação, pelos códigos A1, A2 e A3, os quais foram submetidos à análise de conteúdo temática13 (Quadro 1).




RESULTADOS E DISCUSSÕES

Para a apresentação dos resultados, inicialmente procurou-se caracterizar cada um dos estudos. Assim, com o objetivo de "descrever o padrão de comportamento de adolescentes do sexo feminino, de 15 a 19 anos, relacionado a práticas sexuais e uso de drogas" (A1:208), esse estudo, com abordagem quantitativa, selecionou uma amostra composta por 464 jovens; outro, com abordagem qualitativa, teve o objetivo de "analisar a percepção dos médicos e enfermeiras das equipes da saúde da família sobre a atenção à saúde de adolescentes" (A2:2491); nesse foram entrevistados 47 profissionais. Finalmente, num estudo quantitativo, o objetivo foi "analisar os fatores determinantes do acesso de adolescentes primigestas a serviços de atenção primária à saúde, anteriormente à ocorrência da gravidez" (A3:888). A amostra desse foi composta por 200 adolescentes com 10 a 19 anos de idade.

A seguir, adotando-se os critérios de repetição e relevância13, os dados foram agrupados nas seguintes categorias: dificuldades das adolescentes com relação à consulta ginecológica e necessidade dos profissionais de saúde para realização da consulta ginecológica para adolescentes.

Dificuldades das adolescentes com relação à consulta ginecológica

Pela análise dos artigos selecionados, evidenciou- se que a procura pela consulta ginecológica foi baixa. Somente 44,6% das adolescentes com vida sexual ativa a realizaram nos últimos dois anos, e a procura foi nula entre as que não tinham atividade sexual (A1). Assim, foi possível perceber que inexistiu a consulta ginecológica com finalidade de esclarecimento das dúvidas que comumente antecedem a iniciação sexual, da mesma forma que não houve registro de casais de adolescentes buscando consultas com finalidade educativa.

Por outro lado, as adolescentes que consultaram um ginecologista antes da gravidez atual o fizeram por problemas ginecológicos gerais, coleta de citologia oncológica, contracepção e por doenças sexualmente transmissíveis (A3). Entre os fatores que impediram a busca pela consulta ginecológica antes da gravidez, os autores destacam "vergonha, medo e falta de coragem"; questões de gênero e "falta de informação" (A3:889).

Entre as dificuldades para a realização da consulta, o constrangimento surgiu muito associado às questões de gênero. Os autores enfatizam que "68% das entrevistadas declararam ter preferência no atendimento por ginecologista do sexo feminino, por terem vergonha ou se sentirem constrangidas ao serem atendidas por homens" (A3:890). Cabe enfatizar que nenhum dos artigos analisados enfocou a importância do casal comparecer à consulta ginecológica, para juntos se responsabilizarem pela sua saúde sexual.

A falta de informação (A3), apresentada como um aspecto que dificulta a realização das consultas pode estar associada à representação que muitas adolescentes cultivam acerca da consulta ginecológica, reduzindo-a exclusivamente ao exame ginecológico e como tal requerendo a retirada da roupa e exposição do corpo a um estranho. Essa representação precisa ser modificada. Apregoa-se que as ações realizadas em escolas, junto a adolescentes, constituem excelentes oportunidades para que se aborde a consulta ginecológica como uma atividade de Educação em Saúde, na qual dúvidas são discutidas, situações problematizadas e a presença do parceiro incentivada com vistas ao compartilhamento da responsabilidade pela saúde sexual e reprodutiva. Cabe salientar que, na primeira consulta, muitas vezes, o exame ginecológico é desnecessário, tendo indicações precisas10.

A consulta ginecológica de adolescentes precisa ser encarada como um momento privilegiado no qual se deve enfocar a importância do afeto e do prazer nas relações amorosas, esclarecer dúvidas e aconselhar acerca de práticas sexuais responsáveis e seguras com ênfase na dupla proteção14.

A exigência de responsável no momento da consulta (A3) pode ter representado uma pequena dificuldade, citado por apenas duas jovens, porém não se pode esquecer que tal exigência pode afastar ou impedir o exercício pleno de seu direito fundamental à saúde e à liberdade, representando uma violação ao direito a uma vida saudável15.

Esses impeditivos evidenciam que os serviços de saúde não estão preparados para atender as peculiaridades dos adolescentes. Nesse sentido, para que as políticas públicas de saúde atendam às reais necessidades dos adolescentes, principalmente no que se refere à saúde sexual e reprodutiva, é necessário que se dê voz aos adolescentes. É preciso que eles sejam reconhecidos como sujeitos, protagonistas do seu processo de viver, capazes de agir com autonomia16. No entanto, há poucos profissionais capacitados para o atendimento dessa clientela e os serviços são pouco atrativos. Quem nessa etapa da vida se interessa por um serviço de planejamento familiar? Essa nomenclatura, comum aos serviços destinados à oferta de métodos contraceptivos, afasta os jovens cujas expectativas estão centradas na descoberta, na curtição e no prazer e não na constituição familiar16.

Como medidas solucionais às dificuldades encontradas pelas adolescentes pode-se indicar a implementação de novas estratégias que minimizem as questões de gênero, respeitem a autonomia das adolescentes e, nessa abordagem, levem em consideração o vínculo mantido com os parceiros. O acompanhamento ginecológico de rotina deve ser incentivado inclusive àquelas que não iniciaram atividade sexual, tendo como foco a promoção da saúde sexual.

Necessidade dos profissionais de saúde para realização da consulta ginecológica para adolescentes

Os aspectos abordados pelos médicos e enfermeiros da estratégia de saúde da família para a realização da consulta ginecológica de adolescentes referem-se à necessidade de sistematização do atendimento, de capacitação profissional, de multidisciplinaridade no atendimento e de implantação de um programa específico para esse grupo (A2).

As profissionais afirmam que a demanda de adolescentes às unidades de saúde é baixa. No entanto consideram "difícil afirmar se a relativa ausência dos adolescentes nos serviços de saúde se deve a pouca oferta de ações voltadas para eles ou à baixa procura dos mesmos, uma vez que esses dois fatores estão interligados" (A2: 2492). Assim, o atendimento por demanda faz com que inúmeros programas direcionados a outros grupos etários sejam priorizados em detrimento dos adolescentes. Com maior frequência, as jovens procuram o serviço de saúde para realização de exames que confirmem a gestação, e coleta de material para preventivo de câncer uterino, enquanto os meninos pouco participam das atividades propostas.

Documento publicado pelo Ministério da Saúde16 enfoca situação semelhante ao referir que jovens do sexo masculino pouco utilizam os serviços de saúde com o intuito de promoção de sua saúde sexual e reprodutiva, sua presença na atenção básica se dá principalmente em virtude de doenças, acidentes e lesões. Dessa forma, o atendimento centra-se na resolução do problema.

Segundo as autoras, "para viabilizar o acesso do adolescente ao serviço de saúde é fundamental que a atividade seja interessante e escolhida por eles" (A2:2492). Além disso, para a implantação de programas direcionados a essa população, há necessidade de formação de equipes multiprofissionais capacitadas e sensibilizadas para compreender as peculiaridades dos jovens.

No entanto, as dificuldades de médicos e enfermeiros frequentemente têm início na graduação, pois as grades curriculares não contemplam os temas adolescência e sexualidade humana e, quando o fazem, o foco do ensino é direcionado para o processo reprodutivo, ou o controle normativo e tecnológico da sexualidade. Esta formação equivocada, muitas vezes, leva os profissionais a emitirem julgamentos preconceituosos acerca da sexualidade na adolescência, como o evidenciado no seguinte discurso médico: "Devíamos orientar o sexo no casamento e desaconselhar essa permissividade atual" (A2:2493). Evidentemente, tais posturas precisam ser questionadas. Não basta ser médico e enfermeiro para atuar com eficiência junto a adolescentes. É preciso ter empatia, conhecimento e disponibilidade para ouvir os anseios. Só assim poderá ser instituído um diálogo livre, aberto, transformador e democrático, capaz de promover a inserção dos adolescentes, no sistema de saúde, na qualidade de sujeitos, com direitos, inclusive à promoção da saúde sexual16.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Constatou-se que o conhecimento produzido por médicos acerca da consulta ginecológica para adolescentes é reduzido. Apesar da relevância do tema, apenas três trabalhos foram encontrados. Pelos relatos, percebeu-se que tal carência se estende aos serviços de saúde, onde muito precisa ser estudado, adequado e reformulado, para que ocorra maior aproximação entre adolescentes e serviços, bem como maior adesão aos programas propostos. Entre os aspectos indispensáveis ao adequado atendimento dessa clientela figuram o investimento em educação permanente e continuada para que os profissionais de saúde se mantenham capacitados para atender os adolescentes de forma holística.

Além disso, os programas de promoção de saúde sexual e reprodutiva, realizados em escolas, devem enfocar a consulta ginecológica como uma ação promotora de saúde. Devem ainda desmitificar a consulta ginecológica como geradora de medo e constrangimento, bem como valorizar seu aspecto educativo, centrado na problematização das dúvidas. Por outro lado, os serviços não podem desconsiderar as questões de gênero que desencadeiam o constrangimento, devem sim procurar proporcionar às jovens um ambiente acolhedor, com profissionais capacitados para ouvir, questionar, problematizar, para assim educar.

Este artigo é parte integrante do projeto de pesquisa intitulado "CONSULTA GINECOLÓGICA PARA ADOLESCENTES", realizado pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Enfermagem, Gênero e Sociedade/GEPEGS da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande. Apoio CNPq.


REFERÊNCIAS

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16. Ministério da Saúde(Brasil). Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Marco Teórico e Referencial: saúde sexual e saúde reprodutiva de adolescentes e jovens. Secretaria de Atenção à saúde. Brasília, Ministério da Saúde; 2007. p.56.










1. Enfermeira; Doutora em Enfermagem; Professora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande/FURG; Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Enfermagem Gênero e Sociedade/GEPEGS, Tutora do Grupo PET/Enfermagem.
2. Bolsista de Iniciação Científica; Acadêmica da 5º série da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande.
3. Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) Enfermagem e acadêmica da 5º série da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande.

Vera Lúcia de O. Gomes
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Recebido em 19/04/2011
Aprovado em 15/06/2011
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