Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 6 nº 1 - Jan/Mar - 2009

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Páginas 48 a 56


Gravidez na adolescência: falta de informação?

Pregnancy in adolescence: lack of information?


Autores: Cristiane Albuquerque C. dos Santos1, Kátia Telles Nogueira2

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescência; gravidez; sexualidade; informações sobre contracepção
Keywords: Adolescence; pregnancy; sexuality; information on contraception

Resumo:
A gravidez na adolescência tem sido apontada como um problema de saúde pública. Pretende-se, neste artigo, conhecer os motivos que levam a adolescente a engravidar, apesar do grande número de informações. Mediante revisão bibliográfica levantou-se o histórico de gravidez na adolescência, mudanças sociais, estrutura familiar e elementos que podem levar a adolescente a iniciar sua vida sexual, além dos meios de informação nos quais o adolescente busca saber sobre o que acontece no seu dia-a-dia, os métodos contraceptivos e suas implicações. Os dados obtidos nessa revisão mostram que os adolescentes possuem conhecimento acerca dos métodos contraceptivos, porém não sabem como administrá-los corretamente. A pílula e o preservativo masculino aparecem como os mais conhecidos. Os jovens muitas vezes negam o risco de engravidar devido a um pensamento "mágico" característico da adolescência e de sua imaturidade psicoemocional. Ao engravidar, as adolescentes acreditam obter a auto-realização e a independência. Outro fator relevante a ser discutido é que, culturalmente, a mulher ainda é vista como a única responsável por evitar uma gravidez. Construir um espaço onde pais, familiares, escola, adolescentes, professores e profissionais de saúde possam dialogar é um importante instrumento para se obter resposta social com vistas à superação das relações de vulnerabilidade às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), assim como à gravidez precoce e não-planejada.

Abstract:
Pregnancy in adolescence has been considered a problem of public health. This work intends to find the reasons that take an adolescent to get pregnant, in spite of the great amount of information. This article reviews the history of pregnancy in adolescence, the social changes, the familiar structure, and the elements that can take the adolescent to begin his sexual life, as well as the means from which he or she tries to get information about daily life, contraceptive methods and their implications. The data obtained in the bibliographical review show that adolescents have knowledge on contraceptive methods, however they do not know how to use them correctly. The pill and the condom appear as the most known ones. Adolescents very often deny the risk of getting pregnant due to the magical thinking characteristic of adolescence and to their psycho-emocional immaturity. They believe pregnancy will bring them self-fulfillment and independence. Another relevant factor to be discussed is that culturally the woman is still seen as the only person in charge of avoiding a pregnancy. It is important to provide opportunity of dialogue for parents, relatives, school, adolescents, teachers and health professionals. That would act as an instrument to help overcome the vulnerability to sexually transmitted diseases (STDs), as well as to precocious and not planned pregnancy.

INTRODUÇÃO

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que a adolescência corresponde ao período de vida entre 10 e 19 anos. É nessa fase que o adolescente passa por várias mudanças: físicas, psíquicas, sociais e, principalmente, no relacionamento com os pais. Ele está em transformação. Já não é mais criança, mas também ainda não é adulto. Seu corpo dá demonstrações de que mudanças estão ocorrendo.

O crescimento é rápido nos dois anos anteriores e posteriores à puberdade. Além de rápido é desproporcional: os membros se alongam, o corpo emagrece, os ângulos se salientam. O adolescente encontra-se perplexo por um corpo que é seu, mas que lhe soa estranho. Ele tem diante de si a descoberta de um mundo novo. Ama os pêlos que lhe dão status de adulto, mas apavora-se com as alterações que o jogam num caminho ainda desconhecido. Essas mudanças, nas quais perde a sua identidade de criança, implicam a busca de uma nova identidade, que se vai construindo nos planos consciente e inconsciente. O adolescente não quer ser como determinados adultos, mas, em troca, escolhe outros como ideais.

O amor, além disso, é só um aspecto da problemática da adolescência: quase todos os adolescentes já sabem que a liberdade sexual não é promiscuidade, porém sentem e expressam a necessidade de ter experiências que nem sempre são totais, mas que precisam viver.

Segundo Doreto et al. (2006), tal descompasso de expectativas nem sempre corresponde às vivências individuais, mas dificulta o diálogo aberto sobre o sexo e o compartilhamento de estratégias para que o início da vida sexual não traga surpresas desagradáveis.

Godinho et al.(8) afirmam que, durante o período de transformações, o apoio dado às adolescentes é muito importante, para que elas tolerem as mudanças a que estão sujeitas e não se sintam vulneráveis às transformações biopsicossociais. Para tanto a família deve estar bem estruturada, a fim de não facilitar a ocorrência, comum entre as adolescentes, de violência, uso de drogas e gravidez precoce.

Na adolescência o relacionamento com os pais é bastante abalado pelo questionamento que o jovem faz em relação a valores, estilo de vida, fé, ideologia etc. Esse questionamento geralmente cria um ambiente de tensão familiar. Os pais muitas vezes se sentem ansiosos e desorientados, sem saber como lidar com seus filhos. Na fase de busca, procura, enfrentamento, desestruturação e discussões com os pais, o adolescente passa a dar grande importância ao grupo de amigos e muitas vezes se identifica com as experiências pelas quais seus amigos estão passando. É muito comum, no grupo de amigos, o surgimento de namoros e experiências sexuais. A sexualidade é imperativa na adolescência, os sentimentos são vividos com enorme intensidade e o jovem, ainda imaturo, não sabe como lidar com ela.

A família é o primeiro modelo, é o referencial para que o adolescente possa enfrentar o mundo e as experiências que ainda estão por vir. Daí a necessidade de diálogo entre pais e filhos para que estes não busquem informações erradas ou incompletas com amigos ou parceiros que também não detêm conhecimento suficiente.

Brandão et al.(2) informam que a gravidez na adolescência tem sido apontada como um "problema social". Parir antes dos 19 anos, décadas atrás, não se constituía assunto de ordem pública. As alterações no padrão de fecundidade feminina brasileira, as redefinições na posição social da mulher, gerando novas expectativas para as jovens no tocante à escolarização, e o fato de a maioria dos nascimentos ocorrer fora de uma relação conjugal despertaram a atenção para esse fato.

Este estudo baseia-se na importância de se reconhecerem os reais motivos que levam as adolescentes a engravidar e as implicações sociais, psíquicas e econômicas envolvidas no universo adolescente. Visa, ainda, apresentar informações que contribuam de forma significativa para a realização de projetos voltados para o público adolescente, os quais sejam didáticos, incisivos e accessíveis, possibilitando, assim, não só o diálogo, mas também a escuta do discurso adolescente.

Este artigo tem como objeto a gravidez na adolescência e visa refletir sobre as causas que levam as adolescentes a engravidar, tendo como questão o que elas acreditam possuir com a gravidez.

Apesar da grande quantidade de informações sobre sexualidade e métodos anticoncepcionais, as adolescentes continuam engravidando, o que gera implicações sociais, psíquicas e econômicas. Sociais porque geralmente abandonam os estudos devido à gravidez; psíquicas porque ainda não estão emocionalmente prontas para assumir uma gravidez; e econômicas porque quase sempre as famílias assumem a criança e a adolescente, aumentando as despesas da casa.

Esse fato tem se tornado um problema de saúde pública que precisa ser mais bem compreendido.


HISTÓRICO DA GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

A gravidez na adolescência acontece desde os primórdios da civilização. A mulher começava a sua vida reprodutora muito próximo da puberdade e raras eram as que ultrapassavam a segunda década de vida em conseqüência de complicações advindas da gravidez e do parto. O mesmo ocorria na Idade Média, quando meninas mal saídas da infância, ao primeiro sinal da menarca, eram casadas com homens cuja idade girava em torno dos 30 anos.

No Brasil, no século passado, as chamadas "sinhazinhas" também eram casadas com maridos escolhidos pelos pais e geravam filhos para seus maridos, só deixando de fazê-lo quando havia alguma complicação(11).

As grandes mudanças ocorridas no final do século passado, decorrentes da Revolução Industrial na Europa e, principalmente, as conseqüentes à I Guerra Mundial, abriram amplo campo de trabalho às mulheres em vários setores de atividades até então exercidas por homens e as puseram em condições totalmente diferentes daquelas preexistentes. Essas mudanças, porém, não foram acompanhadas por políticas que lhe assegurassem condições para dividir as responsabilidades pessoais com as do emprego.

Surgia então uma nova concepção: a da adolescente que se lançava no mercado de trabalho. A gravidez nesse momento a impedia de evoluir na profissão, além de comprometer a estrutura financeira da família num dos período mais difíceis economicamente(7).

O fim da II Guerra Mundial foi o marco das transformações sociais. Houve uma quebra nos valores sociais importantes, levando os jovens, que por natureza já possuíam a característica de viver em grupos, a se unir cada vez mais, estabelecendo padrões de convivência em que a atividade sexual é considerada o símbolo da liberdade, do uso do corpo em sua totalidade(12).

Uma das descobertas dos anos 1950, que talvez tenha sido a principal responsável pela mudança na vida e no papel social da mulher, foi a pílula anticoncepcional, que propiciou sua maior inserção no mercado de trabalho e também uma liberdade sexual que ela ainda não conhecia. A pílula é um contraceptivo hormonal desenvolvido por Gregory Pincus e John Rock. Apesar de já existirem outros contraceptivos que permitiam que as decisões sobre a maternidade estivessem sob o controle da mulher, como a capa cervical (1838), o diafragma (1882), o método Ogino e Knaus ou "tabelinha" (início do século XX ) e o dispositivo intra-uterino (DIU) (década de 1920), foi a pílula que carregou consigo o emblema de "libertadora". Se antes as decisões contraceptivas - com exceção do aborto - estavam sob o controle dos homens, os novos métodos mudaram as relações, e a possibilidade anteriormente masculina de separar prazer de reprodução passou a ser também das mulheres.

O comércio da pílula anticoncepcional teve início, no Brasil, em 1962, dois anos depois de ela ter sido aprovada nos EUA pela Food and Drug Administration (FDA).

Hoje, com a liberação sexual e a grande variedade de contraceptivos, os relacionamentos sexuais iniciam-se mais cedo. Além disso, uma jovem ainda virgem é considerada "espécie em extinção". As jovens de hoje buscam se identificar com a imagem de uma mulher que toma iniciativa e procura manter o controle sobre sua sexualidade(11).

Para Godinho et al.(8), há uma precocidade da iniciação sexual (de 14,7 anos) e da menarca (12,3 anos), indicando a ausência de programas de educação sexual nas escolas e planejamento familiar nos serviços públicos como fatores que podem favorecer a ocorrência de uma gravidez indesejada. Há adolescentes que engravidam idealizando independência e liberdade, porém acabam frustrando-se com a falta de apoio do companheiro, o que termina por acarretar maior dependência dos pais.

Ganham destaque também a impulsividade, a baixa auto-estima, a aspiração à maturidade e o fato de a gravidez fazer parte do projeto de vida da adolescente na tentativa de alcançar autonomia econômica e emocional em relação à família de origem(10).

A sociedade tem passado por profundas mudanças em sua estrutura, inclusive aceitando melhor a sexualidade dos adolescentes, o sexo antes do casamento e também a gravidez na adolescência. Basta fazer a comparação com algumas décadas atrás, quando o fato de perder a virgindade era motivo de desonra para a adolescente e a família, além de, na maioria das vezes, culminar com sua expulsão da casa dos pais. Portanto tabus, inibições e estigmas estão diminuindo, e a atividade sexual entre jovens, aumentando.

É mister mencionar que o mundo vem passando por inúmeras transformações nos mais diversos campos: econômico, político, social etc. O excesso de informações e a liberdade recebida pelos adolescentes os levam à banalização de assuntos como, por exemplo, o sexo. Essa liberação sexual, acompanhada de certa falta de limite e responsabilidade, é um dos motivos que favorecem a incidência de gravidez entre as adolescentes.

Outros fatores que devem ser ressaltados são o afastamento dos membros da família e a desestruturação familiar. Seja por separação, seja pelo corre-corre do dia-a-dia, os pais estão cada vez mais afastados de seus filhos. Isso, além de dificultar o diálogo, dá ao adolescente uma liberdade sem responsabilidade. Ele passa, muitas vezes, a não ter a quem dar satisfações de sua rotina diária, procurando os pais ou responsáveis apenas quando o problema já se instalou(14).

Vários são os elementos que podem levar o adolescente a iniciar sua vida sexual precocemente: falta de apoio familiar e de expectativas de vida, perda da auto-estima, baixo rendimento escolar, maus exemplos familiares, curiosidade natural, necessidade de expressar amor e confiança, solidão, carência afetiva, necessidade de auto-afirmação etc.

Dias et al.(4) relatam que o ato sexual poderia representar uma função relacionada com o status adulto e uma promessa de união a um outro que substituiria a figura dos pais.

Belo et al.(1) observaram em sua pesquisa os motivos pelos quais as adolescentes engravidam: falta de conhecimento sobre métodos contraceptivos, objeção ao uso de preservativos pelo parceiro e pensar que não engravidam.

É fato que a utilização de métodos contraceptivos não ocorre de modo eficaz na adolescência, embora muitos adolescentes conheçam os contraceptivos mais comuns, como a camisinha e a pílula anticoncepcional. Uma das razões que poderia justificar esse comportamento seria a imaturidade psicoemocional, característica da adolescência(1).

As reações da família diante da adolescente grávida tendem a ser contraditórias, sendo comum a sobreposição de sentimentos de revolta, abandono e aceitação do "inevitável"(10).

A adolescente muitas vezes nega a possibilidade de engravidar pensando erroneamente que, se a relação sexual for mantida de forma eventual, não haverá necessidade de utilizar métodos anticoncepcionais. Outro pensamento pueril é de que não se engravida na primeira relação sexual.

Godinho et al.(8) afirmam que, na adolescência, o indivíduo ainda não possui capacidade para racionalizar as conseqüências de seu comportamento sexual, deparando-se freqüentemente com situações de risco, como gravidez não-planejada ou indesejada.

As estatísticas são motivos de preocupação. Para se ter uma idéia, mais de um terço dos adolescentes brasileiros (cerca de 8 milhões) vive em famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo. Esses adolescentes possuem, em média, pelo menos três anos de defasagem escolar, considerando- se a relação entre idade e série. Entre eles encontra-se mais de 1 milhão de adolescentes analfabetos. Desestimulados pelo fracasso escolar, pela baixa qualidade da educação e pela necessidade de gerar renda, tendem a abandonar o sistema educacional, tornam-se pais e mães precocemente, passam a constituir a principal força do mercado informal de exploração do trabalho e tornam-se as maiores vítimas da violência(14).

No Brasil, é na camada social com menor poder aquisitivo que se encontram os maiores índices de fecundidade. A baixa perspectiva de vida, a violência, a baixa escolaridade e, muitas vezes, a repetência, aliada à falta de recursos materiais, financeiros e emocionais, fazem com que a adolescente veja na gravidez a sua única expectativa de futuro e independência. Além disso, algumas adolescentes não orientadas pelo ambiente familiar, na fase pré-púbere, querem se auto-afirmar como mulheres, somando-se a esse desejo o espírito de imitação, por saberem que algumas amigas já têm vida sexual ativa. Outras perdem a virgindade apenas com o intuito de provocação à família(9).

Entretanto há as que percebem a gravidez como uma forma de auto-realização, vontade de "ter filho", por gostarem de crianças e por "terem alguém para cuidar"(16).

No livro Gravidez na Adolescência, de Monteiro et al.(11), o perfil psicossocial proposto por Monteiro (1994) informa que, em 70% dos casos estudados, a mãe da adolescente também foi mãe na adolescência. Os cuidados com irmãos menores já eram praticados por 56% das adolescentes, ou seja, o exercício da maternidade já não era de todo desconhecido, pois já havia sido aprendido nos cuidados com irmãos, parentes e vizinhos. O autor revela também que as adolescentes possuem um pensamento mágico de que não engravidarão ao iniciarem a vida sexual. Esse tipo de pensamento parece dissociado da teoria e da prática.

Apesar da maior difusão de conhecimentos sobre o assunto, cerca de 45% a 60% dos adolescentes brasileiros iniciam a vida sexual sem nenhum método contraceptivo, conforme dados do ano de 2003 do Ministério da Saúde (MS).


A ADOLESCÊNCIA E OS MEIOS DE INFORMAÇÃO

Sabe-se que a mídia tem grande poder de influência. Não só sobre a população adulta, mas também sobre os jovens. A televisão é uma grande incentivadora e desencadeadora de todo tipo de informação, atuando como formadora de opinião. O "bombardeio" de informações e imagens da mídia induz uma aceleração do ingresso no mundo adulto quando o jovem ainda não tem orientação, estrutura emocional e psíquica para isso.

No que se refere à comunicação, registrese o papel crescente da mídia na socialização. Como se sabe, a socialização é um processo contínuo que vai da infância à velhice e é por meio dela que o indivíduo internaliza a cultura de seu grupo e interioriza as normas sociais(6).

No Brasil, apesar de serem poucos os dados disponíveis sobre o processo de socialização, é possível identificar a tendência histórica comparando- se duas pesquisas: uma realizada na década de 1960, antes, portanto, da existência de um sistema nacional de comunicações , e outra do Instituto DataFolha, realizada em 1997.

Crianças brasileiras entre 6 e 14 anos de idade citavam os pais, o cinema, as revistas e os amigos entre suas principais fontes de informação nos anos 1960. Cerca de 30 anos depois havia uma presença ainda mais decisiva da mídia. Respondendo à pergunta "você poderia nos dizer qual a importância que cada uma das fontes de informação abaixo tem para você saber o que acontece no mundo?", a televisão (75%), os jornais (55%), as revistas (52%) e a internet (50%) receberam a resposta "muito importante"(6).

Observemos a programação oferecida pela televisão: a grande maioria é composta por programas que estimulam padrões de comportamento, quaisquer que sejam eles. Podemos citar aqui o culto ao corpo, a valorização da beleza, o "corpo sarado" e escultural que homens e mulheres exibem de maneira insinuante, passando o indivíduo a ser visto como objeto. Novelas, seriados e filmes com conteúdos adultos muitas vezes são exibidos em horários em que ainda há a presença de pré-adolescentes e crianças. As últimas são profundamente afetadas pelo estímulo visual, como cenas de insinuação de relacionamento sexual, sexo descartável, carícias e corpos nus, o que desperta a sua sexualidade de maneira precoce. Isso não significa que o jovem esteja passivo diante dessa situação, apenas absorvendo o conteúdo transmitido. Entretanto não podemos negar que a possibilidade de uma leitura crítica e de uma transformação do conteúdo recebido não são facilitadas, considerando-se a massificação de informações transmitidas pela televisão(3).

Além da televisão, outros meios de informação procurados pelos jovens são as revistas voltadas para o público adolescente e as conversas com amigas(os).

A maioria dos adolescentes não lê jornal ou acompanha o noticiário. Diz que não o faz pelos conteúdos cheios de violência e "política". Mas eles reconhecem a importância de se manterem atualizados. Para eles as revistas são os veículos de informação mais instrutivos, uma vez que trazem orientações acerca de saúde, comportamento e formação.

A opinião de meninos e meninas sobre a mídia é, muitas vezes, contraditória. Eles não acreditam em seu papel dominador sobre o comportamento das pessoas, tendo a mídia apenas a função de informar. Contudo reconhecem que os meios de comunicação são capazes de influenciar o comportamento, mas que isso depende de cada pessoa e que é importante desenvolver um pensamento crítico, como com relação às propagandas de cigarro, que usam exemplos da vida cotidiana(14).

No entanto podemos citar iniciativas como a da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), organização não-governamental (ONG) brasiliense que vem acompanhando a evolução do comportamento editorial da mídia jovem desde março de 1997 e desenvolvendo uma série de projetos voltados para apoiar os profissionais de imprensa a realizar uma cobertura das questões relativas à infância e à adolescência a partir da ótica dos direitos humanos. Denominado "Os Jovens e a Mídia", o projeto dedicado aos suplementos de jornais, revistas e programas de televisão gerados para o público adolescente vem radiografando, de forma sistemática, as principais características desses veículos, podendo-se citar alguns temas mais abordados e que são considerados de relevância social: Aids e DSTs, cultura, drogas, educação, família, formação profissional, gravidez, mídia, portadores de deficiência, projetos sociais, saúde, sexualidade e violência.


CONHECIMENTO E MÉTODO CONTRACEPTIVO

O conhecimento sobre métodos anticoncepcionais é um tema importante, especialmente na adolescência, uma vez que previne não só uma gravidez indesejada como também evita que o jovem se exponha às DSTs e à AIDS, podendo vivenciar o sexo de maneira saudável e sem riscos.

A menarca precoce vem expondo a adolescente aos riscos de uma gravidez em idades também precoces, e vários estudos referem que a média de idade da menarca no Brasil está em torno de 12 a 13 anos(15).

Quanto mais precoce é a iniciação sexual, menores são as chances de uso de métodos contraceptivos e, conseqüentemente, maiores as possibilidades de gravidez.

Com base na revisão de artigos observou-se que, em relação ao conhecimento dos adolescentes sobre métodos contraceptivos, o anticoncepcional oral (94,2%) e a camisinha (91,7%), respectivamente, são os mais conhecidos e usados, seguidos por coito interrompido (39,1%), tabela (60,9%) e diafragma (39,1%). Este estudo mostrou que as principais justificativas para a ocorrência da gravidez foram: 51,2% queriam ser mães; 18,6% disseram que gostavam de crianças; 9,3% referiram ser desejo do casal; e 4,7% não queriam perder o parceiro.

Para Belo e Silva(1), "as adolescentes grávidas têm conhecimento elevado em relação à existência dos métodos anticoncepcionais, embora tenham uma prática inadequada para a sua utilização", e acrescenta: "uma das razões que poderiam justificar esse comportamento seria a imaturidade psicoemocional, característica da adolescência".

Em estudo realizado pela Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil em 1996 a respeito do comportamento reprodutivo dos jovens brasileiros, a totalidade dos inquiridos "conhecia" algum tipo de método contraceptivo e a maioria já havia utilizado algum deles pelo menos uma vez. Porém o "nível de conhecimento" estava relacionado com o simples "ter ouvido falar" sem detalhar questões acerca da utilização adequada.

Durante pesquisa realizada em São Paulo, em 2004, para conhecer a sexualidade e o plano de vida dos adolescentes, foram levantados os seguintes dados: 87% dos jovens declararam conhecer os métodos contraceptivos e 70% tiveram a primeira relação sexual sem nenhuma proteção. O texto menciona ainda que, entre as jovens que conversaram com seus parceiros sobre contracepção, houve maior taxa no uso de contraceptivos na primeira relação e menor índice de gravidez. Do mesmo modo, aquelas cujos pais e mães conversavam sobre sexo, gravidez e modo de evitar filhos, ou que tiveram alguma orientação sexual na escola, engravidaram menos.

Outro dado relevante citado sobre uma pesquisa em seis escolas de diferentes níveis socioeconômicos, com 128 estudantes de ambos os sexos, entre 11 e 19 anos selecionados ao acaso, revelou que 81,7% conheciam alguns métodos anticoncepcionais, sendo o preservativo e a pílula os mais citados.

Entre os motivos mencionados pelas adolescentes quanto ao não-uso da anticoncepção, encontram-se dificuldade de diálogo com o parceiro, não-valorização das chances de engravidar, esquecimento, qualidade e/ou inadequação da informação a respeito de contracepção e reprodução, assim como sobre o uso correto dos métodos anticoncepcionais(15).

No caso das jovens, a não-utilização do método contraceptivo se deu segundo relatos por: "não esperar ter relações naquele momento"; e para os rapazes porque "não se preocupou com isso, pois a responsabilidade da contracepção é da parceira" e "os homens quase não pensam; as mulheres que têm de se cuidar mais do que os homens. Quando vai pensar, já é tarde, vai se arrepender. Eu acho que elas tinham que se cuidar mais".

O que se percebe nesses relatos é que, culturalmente, a responsabilização pela contracepção recai diretamente sobre as mulheres desde o surgimento do anticoncepcional oral. O que deve ser considerado é que essa jovem, assim como o rapaz, ainda não possui maturidade suficiente, juntando-se a isso a inexperiência e o total despreparo diante de tamanha responsabilidade.

Ainda falando sobre as razões para o não-uso de qualquer método na primeira relação sexual, podemos citar outras alegações, como: "não pensaram nisso na hora", "os parceiros não quiseram usar", "não se importam de engravidar", "confiança no parceiro", "dificuldade de acesso a métodos contraceptivos", "não tiveram cuidado", "achavam inconveniente o método contraceptivo" e "achavam o método contraceptivo desnecessário"(1).

Em estudo realizado por Dias et al.(4) a nãoutilização de métodos contraceptivos foi devida a: não-manutenção de relações sexuais, seguida por despreocupação com os riscos de uma gravidez e temor dos efeitos colaterais dos contraceptivos.

A deficiência dos serviços de saúde pode ser apontada como outro fator relevante com relação à não-utilização dos métodos contraceptivos, principalmente se associada à questão do acesso à informação e à escolaridade dessas adolescentes. Uma vez que os serviços disponíveis são insuficientes, nossa população tem o hábito cultural de obter informações sobre medicamentos em farmácias, principalmente quanto ao anticoncepcional oral.

É comum o uso desse remédio mediante indicação do farmacêutico, o que muitas vezes implica a utilização de maneira incorreta, e, quando surgem efeitos colaterais, a tendência é substituí-lo, de maneira aleatória, sem avaliação médica, o que pode acarretar abandono do método e, conseqüentemente, gravidez(5).

Como podemos perceber, muitas vezes o método contraceptivo pode estar disponível, mas o adolescente não sabe como usá-lo corretamente. Os jovens, apesar da grande variedade de informações, ainda têm dúvidas sobre o uso adequado e idéias equivocadas acerca dos métodos anticoncepcionais. Esse fato pode ser evidenciado, por exemplo, na colocação da camisinha e nas tomadas das pílulas, principalmente em relação ao intervalo entre as cartelas - muitas adolescentes se confundem e as iniciam erroneamente ou não respeitam o intervalo recomendado entre uma e outra cartela. O coito interrompido, apesar de ser muito utilizado na adolescência, também apresenta um grau enorme de dificuldade, pois pressupõe controle da ejaculação, e, como nessa fase é comum a ocorrência de ejaculações precoces, torna-se complexa sua utilização.

Além do mais, o pensamento mágico é inerente ao desenvolvimento psicológico do adolescente. Corresponde à idéia preconcebida de que nada de ruim poderá acontecer independente das ações praticadas. Na realidade, é uma exposição ao risco, partindo do pressuposto de que o dano não pode acontecer. Representa ter relações sexuais sem preservativo achando que não poderá contrair alguma DTS ou engravidar. Enfim, é andar no "limite de sua capacidade".

Conforme citado por Domingues(5), "vivenciar situações de perigo não é só um grande desafio, mas pode ser o determinante da condição de adolescente. Isso porque tais situações abrem a possibilidade de descobrir o novo, de testar os próprios limites e de experimentar 'emoções inusitadas'".


CONCLUSÃO

Pensar a sexualidade como um processo que eclode na adolescência é pensar num universo de desejos, excitações, descobertas, sentimentos etc., portanto esse assunto não pode ser ignorado ou adiado, devendo ser elaborado, discutido e construído. Assim, nesse período de vida, é fundamental uma adequada educação sexual, por meio da qual o adolescente tenha a possibilidade de aprender a cuidar não só de sua saúde reprodutiva e da do seu parceiro(a), como também tenha abertura para falar de dúvidas, medos, desejos, emoções etc. Em relação à escola, ao abordar a sexualidade, é importante que essa não fique presa somente aos termos da fisiologia dos aparelhos genitais masculino e feminino, mas que discuta uma prática saudável da sexualidade, repassando informações sobre anticoncepção e resolvendo dúvidas e expectativas.

A família é o referencial para que o adolescente possa enfrentar o mundo e as experiências que ainda estão por vir. Mesmo diante de situações adversas, e até mesmo estruturas desgastadas, é inegável o sentimento de que a família é o "porto seguro" que todos os jovens precisam ter. É mister que ela participe e esteja mais presente na vida do adolescente apoiando-o, orientandoo, incentivando o diálogo e a escuta para que ele adquira segurança e confiança em seu meio familiar, evitando que se sinta perdido diante de acontecimentos como a gravidez precoce e outros que podem surgir em sua vida.

Outro fator relevante a ser discutido é que, culturalmente, a mulher ainda é vista como a única responsável por evitar uma gravidez, já que o homem é tido como "viril". Portanto ser homem significa ter menos controle sobre seus impulsos sexuais, diferentemente da mulher, que deveria se "cuidar mais".

Em relação à informação sobre anticoncepção, evidenciou-se que o jovem possui conhecimentos sobre a existência de métodos contraceptivos, porém não sabe administrá-los corretamente, apresentando dúvidas e idéias equivocadas sobre os mesmos. Muitas vezes, os jovens negam a possibilidade de uma gravidez devido ao pensamento "mágico" característico da sua faixa etária.

Ao responder à pergunta inicial, "o que as adolescentes acreditam possuir com a gravidez?", elas mencionaram ganhar independência, expectativa de um futuro melhor, auto-realização. Mas, em minha opinião, o que elas buscam inconscientemente é preencher um vazio existencial com o fato de serem mães e, a partir disso, "tentar, de certa forma, reescrever a sua história".

Criar espaços de diálogo entre adolescentes, jovens, professores, profissionais de saúde, pais, responsáveis e comunidade é, comprovadamente, um importante instrumento para construir uma resposta social com vistas à superação das relações de vulnerabilidade às DSTs, à infecção pelo HIV e à AIDS, assim como à gravidez precoce e não-planejada. Para tanto as ações desenvolvidas devem ir além da dimensão cognitiva, levando em conta aspectos subjetivos, questões relativas às identidades e às práticas afetivas e sexuais no contexto das relações humanas, da cultura e dos direitos humanos.


REFERÊNCIAS

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1. Pós-graduanda em Saúde Pública pelo Centro Universitário Celso Lisboa.
2. Médica do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NESA/UERJ); doutora em Epidemiologia pelo instituto de Medicina Social (IMS) UERJ.
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