Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 12 nº 1 - Jan/Mar - 2015

Artigo Original Imprimir 

Páginas 35 a 41


Características dos adolescentes usuários de um centro de atençao psicossocial infantil da regiao sul do Brasil

Characteristics of adolescent users of a children's psychosocial care center in southern Brazil

Características de los adolescentes usuarios de un Centro de Atención Psicosocial Infantil de la región sur de Brasil


Autores: Letícia Saldanha de Lima1; Hericka Zogbi Jorge Dias2; Cristiane Camponogara Baratto3; Gabriela Zuchetto4

1. Mestrado em Psicologia Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil. Psicóloga e Docente do Curso de Psicologia, Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Santa Cruz do Sul, RS, Brasil
2. Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Coordenadora do Curso de Psicologia Laureate International Universities (Uniritter). Porto Alegre, RS, Brasil
3. Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS. Brasil. Psicóloga e Residente do Programa de Residência Integrada em Saúde, Grupo Hospitalar Conceiçao. Porto Alegre, RS, Brasil
4. Psicóloga Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil. Psicóloga e Residente no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil

Letícia Saldanha de Lima
Rua Veríssimo Rosa, nº 321 (apt 804)
Porto Alegre-RS, Brasil. CEP: 90610-280
lesaldanha@gmail.com

Recebido em 10/06/2013
Aprovado em 19/05/2014

PDF Português            

Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Saúde mental, adolescente, serviços de saúde mental.
Keywords: Mental health, adolescent, mental health services.
Palabra Clave: Salud mental, adolescente, servicios de salud mental.

Resumo:
OBJETIVO: Este artigo tem como objetivo apresentar a caracterizaçao de adolescentes usuários de um Centro de Atençao Psicossocial Infantil da regiao sul do Brasil.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo transversal de análise descritiva, em que foi utilizada como instrumento de pesquisa uma ficha sociodemográfica.
RESULTADOS: Participaram desta pesquisa 52 adolescentes usuários do CAPSi, 33 (64%) do sexo masculino e 19 (36%) do sexo feminino; a média de idade foi de 14 anos (Dp=1,81). Quanto à relaçao do usuário do serviço e ao seu diagnóstico, ainda se observa a necessidade de haver melhor comunicaçao entre equipe e usuário. Também foi possível ressaltar que o estado de saúde relatado pelos adolescentes com maior percentagem foi categorizado como "bom" por 18 (36,35%) usuários.
CONCLUSAO: A partir desta pesquisa foi possível realizar a caracterizaçao da populaçao adolescente que frequenta o serviço de saúde mental. O ato de caracterizaçao é o primeiro movimento para o planejamento de atividades que possam proporcionar a promoçao de saúde a estes jovens.

Abstract:
OBJECTIVE: This paper presents the characterization of adolescents attending a Children and Adolescents' Psychosocial Care Center (CAPSi) in southern Brazil.
METHODS: This is a transversal study with descriptive analysis, in which a socio-demographic datasheet was used as a research tool.
RESULTS: In this survey, 52 adolescents attending this center were analyzed, 33 (64%) males and 19 (36%) females, with a mean age of 14 years (SD= 1.81). Examining the relationship between patients and their diagnoses, the need for better communications between staff and patients was noted. It was also noteworthy that the health status reported by adolescents at the highest percentage was rated as "good" by 18 users (36.35%).
CONCLUSION: From this survey, it was possible to characterize the adolescent population attending this mental health facility. This characterization is the first step for planning activities designed to promote the health of these youngsters.

Resumen:
OBJETIVO: Este artículo tiene como objetivo presentar la caracterización de adolescentes usuarios de un Centro de Atención Psicosocial Infantil de la región sur de Brasil.
MÉTODOS: Se trata de un estudio transversal de análisis descriptivo, en que fue utilizada como instrumento de investigación una ficha sociodemográfica.
RESULTADOS: Participaron de esta pesquisa 52 adolescentes usuarios del CAPSi, 33 (64%) del sexo masculino y 19 (36%) del sexo femenino; el promedio de edad fue de 14 años (Dp=1,81). Respecto a la relación del usuario del servicio y a su diagnóstico, aún se observa la necesidad de haber mejor comunicación entre equipo y usuario. También fue posible resaltar que el estado de salud relatado por los adolescentes con mayor porcentaje fue categorizado como "bueno" por 18 (36,35%) usuarios.
CONCLUSION: Desde esta pesquisa fue posible realizar la caracterización de la población adolescente que frecuenta el servicio de salud mental. El acto de caracterización es el primer movimiento para la planificación de actividades que puedan proporcionar la promoción de salud a estos jóvenes.

INTRODUÇAO

No atual contexto da atençao em saúde mental à infância e à adolescência, os Centros de Atençao Psicossociais Infanto-Juvenis (CAPSi) sao, no Brasil, um dos mais significativos dispositivos de atendimento a esta demanda na rede pública de saúde. Este serviço foi estabelecido a partir da portaria GM 224/92 do Ministério da Saúde1 e regulamentado pela portaria nº. 336/GM de 19/02/20022, em um momento de redirecionamento da lógica de tratamento oferecido a esses pacientes, ocorrido com o advento da Reforma Psiquiátrica que, no Brasil, criou a Lei Federal 10.216 em 2001. Os CAPS caracterizam-se enquanto serviços de acolhimento diário, que atendem demandas de sujeitos com transtornos mentais graves, ou seja, autismos, psicoses e neuroses graves3.

Estes locais tornam-se importantes devido às altas taxas de transtornos mentais em crianças e adolescentes. Esta afirmaçao corrobora achados em estudos4,5, que demonstram a prevalência de 10% a 20% de um ou mais problemas mentais em crianças e adolescentes (que nao inclui sintomas psicóticos). Pinheiro et al.6 tiveram como objetivo avaliar a prevalência e os fatores associados aos transtornos mentais comuns entre adolescentes na cidade de Pelotas (RS). Dos 960 adolescentes, com idades de 15 a 18 anos, 28,8% apresentaram transtornos mentais comuns6.

Sobre sintomas psicóticos e outros de maior gravidade, identifica-se a incidência de 1 a 4% de casos com início antes dos 15 anos7. Assim como ocorre a prevalência 4,7% de queixas relativas a problemas dos nervos (irritaçao, agitaçao, nervoso, choro) em crianças e adolescentes pesquisados na cidade de Sao Paulo8.

Partindo dos dados relatados anteriormente, o Grupo de Pesquisa Psicologia das Relaçoes e Saúde da Universidade Federal de Santa Maria elaborou o projeto de pesquisa e extensao intitulado PROCONVIVE - projeto de implantaçao do espaço de convivência permanente para crianças usuárias do CAPS infantil e avaliaçao do impacto da intervençao terapêutica em usuários e funcionários do CAPSi.

Este artigo tem como objetivo apresentar os dados sociodemográficos e características que constituem o perfil dos adolescentes usuários do local, obtidos através do Projeto de Pesquisa PROCONVIVE.

Investigaçoes acerca das implicaçoes de doenças de cunho mental no desenvolvimento humano tornam-se importantes, já que a fase da adolescência é caracterizada por mudanças nas esferas biológica, cognitiva, interpessoal, social e também emocional9. Em decorrência dessas transformaçoes, a adolescência é uma fase crucial para o entendimento global da pessoa e de seu papel dentro da sociedade, já que sua identidade e personalidade estao se constituindo neste período10. A especificidade desta fase do desenvolvimento humano aponta para a necessidade de que estudos, dentro do campo psicológico e da saúde em geral, voltem seu olhar para tal populaçao.


MÉTODOS

Este estudo caracteriza-se como transversal de análise descritiva. Os dados obtidos foram adquiridos a partir da aplicaçao da ficha sociodemográfica formulada primeiramente para o projeto "CAPS e os Cuidados Psicossociais: Cenários e Possibilidades na Evoluçao dos Portadores de Sofrimento Psíquico em Pelotas-RS" (CNPq - Edital 07/2005 Saúde Mental - Processo: 554554/2005-4, sob a coordenaçao da Dra. Elaine Tomasi UCPEL/UFPEL) - Questionário do Usuário. Os dados apresentados neste artigo foram coletados de janeiro a julho de 2011.

A aplicaçao dos instrumentos com os usuários no projeto PROCONVIVE os divide em crianças e adolescentes. Este artigo apresenta os dados correspondentes aos adolescentes, compreendendo aqueles na faixa etária dos 12 aos 18 anos, de acordo com padrao estabelecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)11.


ANALISE DOS DADOS

Para a realizaçao da análise estatística dos dados foi utilizada Estatística Descritiva (Média, Moda, Mediana, Frequências e Percentuais), e estes cálculos foram realizados através de pacote estatístico SPSS 19.0.


CONSIDERAÇOES ÉTICAS

O projeto PROCONVIVE foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria em seus aspectos éticos e metodológicos de acordo com as diretrizes estabelecidas na Resoluçao 196/96 e complementares do Conselho Nacional de Saúde12. Os participantes e seus responsáveis assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para a participaçao da pesquisa.


RESULTADOS E DISCUSSOES

Para a compreensao dos dados obtidos nesta pesquisa, é relevante apresentar que 11 (20,3%) dos adolescentes responderam ao presente questionário sem ajuda alguma, 27 (53,1%) necessitaram de ajuda em alguns momentos, 9 (18,4%) necessitaram que outra pessoa respondesse parte do questionário, e 5 (8,2%) necessitaram que outra pessoa respondesse completamente a ficha sociodemográfica. Esses valores se devem ao fato de alguns adolescentes nao desejarem responder a ficha por terem dificuldades no entendimento das questoes ou possuírem limitaçoes graves que nao os permitiam a interaçao com o pesquisador. A partir dessas informaçoes foi possível seguir os dados sociodemográficos e as discussoes construídas com estes dados. Observou-se que, dos adolescentes atendidos no CAPSi, 33 (64%) sao do sexo masculino e 19 (36%) sao do sexo feminino, como é apresentado na Tabela 1.




Esses dados correspondem aos achados de outros estudos realizados com adolescentes atendidos em CAPSi, que também encontraram que o sexo masculino compoe a maior parte da populaçao atendida por essas instituiçoes3,13,14,15,16.

No que se refere às idades dos usuários do CAPSi, foi possível verificar que a média de idade foi de 14 anos (Dp=1,81), sendo que a faixa etária que obteve maior concentraçao foi aquela situada entre a faixa dos 15 aos 18 anos (62,2%). Esse dado nao se torna unânime nos estudos analisados anteriormente, já que, muitas vezes, em alguns CAPS, sao atendidas somente crianças. Além disso, nao há uma orientaçao clara sobre o lugar de encaminhamento e atendimento dos adolescentes; essa populaçao acaba sendo atendida em diferentes centros de atençao à saúde mental13,14,16.

Na presente pesquisa observou-se que todos os adolescentes, na época da aplicaçao da ficha sociodemográfica, estavam frequentando a escola, como é evidenciado na Tabela 2, na qual sao apresentados os dados sobre a escolaridade dos adolescentes atendidos no CAPSi estudado.




No estudo17 que descreveu as características clínicas e sociodemográficas da populaçao adolescente usuária de um serviço de saúde mental na cidade de Sao Paulo verificou-se que dos 107 jovens pesquisados, com idades entre 12 e 18 anos, 59% estavam frequentando a escola na ocasiao da entrevista e 8% nunca frequentaram. Todos os 52 participantes desta pesquisa estavam estudando na época do desenvolvimento da presente pesquisa.

Foi constatado que 38 (74%) dos adolescentes deste estudo sabem ler e escrever, 9 (18%) sabem somente assinar o nome, 3 (5%) nao sabem ler e escrever, 2 (3%) apenas escrevem, os demais nao responderam a esta questao. Nesse sentido, mesmo nao tendo sido foco deste trabalho a análise específica de informaçoes referentes à escola no dia a dia desses adolescentes, os dados observados suscitam uma reflexao. Percebeu-se que os adolescentes que vao à escola apresentam enormes e consideráveis dificuldades no desempenho escolar, já que alguns informaram ter grandes dificuldades de compreensao (leitura) e escrita (elaboraçao de textos).

No que se refere ao tempo em que o usuário é atendido no CAPSi, pode ser observado que muitos adolescentes estavam há um longo tempo em atendimento na instituiçao, como é possível observar na Tabela 3.




No estudo18 que visou conhecer as representaçoes que usuários, familiares e profissionais construíram acerca de um CAPS no município do Rio de Janeiro, foi observado que, dos 11 usuários que participaram da pesquisa, 33,3% deles estavam em atendimento há mais de dois anos. Na presente pesquisa, 68,09% dos participantes estavam em atendimento há mais de dois anos. Isso pode refletir uma boa adesao ao tratamento e vinculaçao com o serviço por parte do usuário, já que ele permanece no local após um período em que deveria ter ocorrido considerável melhora. Por esse período de atendimento estar se prolongando também pode haver outra razao: o CAPSi nao estar contribuindo o suficiente para a melhora deste usuário. Diz-se isso considerando que o objetivo do CAPSi é promover a autonomia e reinserçao social e, na medida em que este paciente nao se desvincula do serviço, pensa-se que ele ainda nao obteve o olhar terapêutico necessário para ter os atendimentos adequados que promovam sua alta.

Diagnóstico: sempre uma individualidade

Uma questao que permeia a vida institucional de um CAPS é com relaçao ao diagnóstico. Assim como é questao para a equipe, também é para os usuários e familiares no que se refere à forma com que eles se relacionam com seu tratamento e com o diagnóstico. Neste trabalho optou-se por apresentar a representaçao oferecida pelos adolescentes acerca de seu diagnóstico, com a finalidade de observar como estes usuários e seus responsáveis, quando estes responderam ao questionário, constroem seu entendimento acerca dos diagnósticos.

Deve-se salientar que as nomenclaturas citadas pelos participantes surgiram do entendimento pessoal dos usuários e seus cuidadores acerca dos motivos de tratamentos, sendo importante entender que muitas vezes ideias errôneas e sem critérios diagnósticos sao construídas. Assim, observou-se que dentre todos os motivos de tratamento no CAPSi apresentados, o aspecto "Nao Sei", apresentado na ficha sociodemográfica utilizada, foi dito por 7 (14%) dos usuários, apontando o nao conhecimento do motivo que os leva ao tratamento.

Desse resultado, pode-se inferir uma série de razoes para o nao saber. Inicialmente, pensa-se em uma falha na comunicaçao entre quem estabelece o diagnóstico do adolescente (seja por parte de quem encaminhou ao CAPSi ou da equipe) e o adolescente. Outra possibilidade pode ser o nao entendimento por parte do jovem da linguagem utilizada por quem o diagnosticou. Por fim, também se considera o receio que muitas vezes existe com relaçao a dar ou nao o diagnóstico, pois se questiona se este funcionaria como uma rotulaçao ou como ajuda para o paciente estar implicado em seu tratamento, o que pode acabar gerando uma alienaçao com relaçao ao significado de ocupar aquele espaço de atendimento.

Além do nao saber, foram relatados como motivos pelo tratamento no local: depressao, estresse, hiperatividade, agitaçao, agressividade, dificuldades escolares e problemas de relacionamento. Estes últimos diagnósticos também sao ressaltados em pesquisas atuais3,16. Relataram, ainda, como outros motivos: nervoso, deficiência mental, problemas para falar, problema psicológico, retardante, para melhorar, falha na cabeça, confusoes e esquecimentos, nao gosta de ficar em casa e tem medos. Apenas um usuário (2%) representou seu motivo de tratamento como uma nomenclatura diagnóstica, que foi transtorno do desenvolvimento global.

Diferentemente da exigência de serviços de atendimento, nos quais os diagnósticos devem ser colocados de forma mais clara e comprovada, mostra-se, neste momento, a necessidade de um melhor entendimento por parte do técnico responsável e dos usuários do serviço acerca deste aspecto. Ou seja, torna-se necessária uma reavaliaçao da forma como estes transtornos estao sendo trabalhados junto ao usuário e, principalmente, um esclarecimento do motivo pelo qual este sujeito está sendo submetido a determinado tratamento. Este aspecto do diagnóstico pode nao estar categorizado, como é indicado no sistema internacional de classificaçao diagnóstica.

Já em outro momento foi questionado aos usuários e responsáveis que relatassem o que os médicos haviam dito como a causa para o tratamento dos adolescentes no CAPSi. Vale ressaltar que esta pergunta se refere a como o usuário entendeu seu diagnóstico. Com isso, foram observados apenas alguns diagnósticos reconhecidos pelos manuais diagnósticos, e até mesmo transtornos que correspondem aos propostos pelo atendimento do CAPSi, estes foram: hiperatividade e agitaçao, esquizofrenia, fobia social, desatençao, bipolaridade, sintomas depressivos, autismo, transtornos do desenvolvimento global, retardo mental, dislexia e epilepsia.

Além disso, foi possível constatar outros "diagnósticos". Esta palavra encontra-se entre aspas, já que se entende a partir dos dados observados e da experiência no local em que os diagnósticos citados sao muitas vezes construídos de forma pessoal por cada usuário, ou seja, nao apresentam critérios diagnósticos reconhecidos nacional e/ou internacionalmente. Dentro desta perspectiva, foi possível perceber que os motivos respondidos foram: estresse, nervoso e agressividade.

Saúde dos adolescentes usuários do CAPSi

Foi abordada, no presente trabalho, a percepçao subjetiva dos adolescentes sobre como estava a sua saúde nos últimos 30 dias antes da aplicaçao dos instrumentos da pesquisa. Foi possível observar que o estado de saúde relatado pelos adolescentes com maior percentagem foi categorizado como bom 18 (36,35%), seguido do estado de saúde regular 16 (32,15%) e, por fim, do estado de saúde excelente 8 (15,45%). Esse resultado nos leva a observar que mais de 50% acham que a saúde vai do conceito de bom para muito bom ou excelente, como é possível observar na Tabela 4.




Na pesquisa19 que avaliou a prevalência dos principais agravos à saúde na adolescência, de acordo com a percepçao de 253 adolescentes do Distrito Federal, os autores indicaram que 76% dos entrevistados apresentaram um estado de saúde muito bom ou bom, 22,4% descreveram um estado de saúde regular, e 2,0% relataram um estado de saúde ruim ou muito ruim. Nesse sentido, acredita-se que a realidade da percepçao da saúde dos usuários do CAPSi investigado coincide com outros locais devido às semelhantes proporçoes encontradas.

Investigou-se a utilizaçao de diferentes tipos de drogas lícitas e ilícitas efetuada pelos adolescentes nos últimos 30 dias antecedentes à coleta das informaçoes. No que se refere às drogas lícitas, detectou-se que 42 (80%) adolescentes nunca fumaram, 6 (12%) fumam e 4 (8%) já fumaram cigarros. Questionou-se sobre o uso de bebidas, e observou-se que 49 (94 %) adolescentes relataram nao ter ingerido bebida alcoólica nos últimos 30 dias e 4 (6%) haviam ingerido. Quanto à utilizaçao de drogas ilícitas pelos adolescentes, identificou-se que somente a maconha foi citada, sendo que apenas 1 (2%) adolescente relatou o uso.


CONSIDERAÇOES FINAIS

A partir das informaçoes observadas a respeito da caracterizaçao dos usuários do CAPSi, inicia-se um processo de reflexao sobre quais pontos dos atendimentos podem ser melhorados, e quais devem ser reforçados no sentido da saúde dos adolescentes. Por mais que alguns questionários tenham sido respondidos tanto por adolescentes, quanto por cuidadores/responsáveis, percebeu-se que a necessidade de um melhor trabalho com a utilizaçao de diagnósticos deve ser estudada. Visando, assim, a nao banalizaçao desta ferramenta, e sim uma seriedade no seu uso, sem priorizá-la antes da realizaçao da avaliaçao das potencialidades dos sujeitos. Este aspecto torna-se fundamental no processo de tratamento de pessoas que se encontram com transtornos mentais.

O aspecto relativo ao uso de drogas, apresentado nesta pesquisa, é delicado e merecedor de atençao. Por um lado, podem-se considerar positivos os índices de uso apresentarem-se de forma baixa, pensando que o CAPS possui um viés preventivo (por ter poucos usuários que fazem uso) e combativo (para os casos de adolescentes que pararam de fumar). Porém, nao se pode chegar a conclusoes concretas sobre esse aspecto investigado até o momento, mas indicam possibilidades de futuras investigaçoes.

Na construçao do presente artigo, ficou evidente a necessidade de um maior número de pesquisas nestes locais de atendimento a crianças e adolescentes com transtornos mentais, que sao relativamente novos e construídos e construtores de uma nova lógica de atençao em saúde mental. Novos estudos devem abarcar também a especificidade que é a fase da adolescência, a qual é de grande importância para a formaçao da identidade de sujeitos.

Estudos acerca da caracterizaçao dos usuários de um serviço como o CAPSi sao de suma importância, considerando que nao apenas quem está realizando se beneficia ao conhecer a realidade do local, mas também a equipe que, ao saber as características de seus usuários, possibilitará o planejamento terapêutico de acordo com a necessidade e realidade do usuário, visando adaptar os atendimentos do serviço de saúde mental a estes indivíduos.

Notou-se, também, a necessidade de maior interlocuçao do serviço de saúde com outros meios de convivência dos jovens, principalmente com a escola, tendo em vista quanto este ambiente é significativo para os mesmos e pensando na perspectiva de uma noçao mais ampliada de saúde. As ferramentas terapêuticas devem ser expandidas, visando estimular o desenvolvimento dos adolescentes em todos os âmbitos de seu ser e estar no mundo. Com isso, este trabalho de caracterizaçao dos adolescentes atendidos em um CAPSi constitui um primeiro passo na busca por um melhor e maior entendimento das características de usuários do serviço de saúde mental público.


NOTA

Suporte Financeiro: PROGRAMA PESQUISA PARA O SUS/ Fundaçao de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (PPSUS/FAPERGS - 02/2009), número de processo 09/0098-2.


REFERENCIAS

1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria Nacional de Assistência à Saúde. Portaria Nº 224, de 29 de janeiro de 1992. Diretrizes e normas para o atendimento em saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde; 1992.

2. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Nº 336/GM, 19 de fevereiro de 2002. Construçao de uma rede de Centros de Atençao Psicossocial Infanto-juvenis em território Nacional. Brasília: Ministério da Saúde; 2002.

3. Hoffmann MCCL, Santos DN, Mota ELA. Caracterizaçao dos usuários e dos serviços prestados por centros de atençao psicossocial infanto-juvenil. Cad Saude Publica. 2008;24(6):633-42.

4. Organizaçao Mundial da Saúde. Relatório sobre a saúde no mundo 2001 - saúde mental: nova concepçao, nova esperança. Geneva: OMS; 2001.

5. Feitosa HN, Ricou M, Rego S, Nunes R. A saúde mental das crianças e dos adolescentes: consideraçoes epidemiológicas, assistenciais e bioéticas. Rev Bioet. 2011;19(1):259-75.

6. Pinheiro KAT, Horta BL, Pinheiro RT, Horta LL, Terres NG, Silva RA. Common mental disorders in adolescents: a population based cross-sectional study. Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(3):241-5.

7. Tengan SK, Maia AK. Psicoses infantis. J Pediatr. 2004;80(2 Suppl ):3-10.

8. Lauridsen EPP, Tanaka OY. Morbidade referida e busca de ajuda nos transtornos mentais na infância e adolescência. Rev Saude Publica.1999;33(6):586-92.

9. Santrock JW. Adolescência. 8a ed. Rio de Janeiro: Editora LTC; 2003.

10. Erikson EH. Identidade juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar Editores; 1976.

11. Brasil. Presidência da República. Lei Nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispoe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, e dá outras providências. Brasília: Casa Civil; 1990.

12. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resoluçao nº. 196/1996 de 10 de outubro de 1996. Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos. Brasília: CNS; 1996.

13. Delfini PSS, Dombi-Barbosa C, Fonseca FL, Tavares CM, Reis AOA. Perfil dos usuários de um Centro de Atençao Psicossocial Infanto-juvenil da grande Sao Paulo, Brasil. Rev Bras Crescimento Desenv Hum. 2009;19(2):226-36.

14. Silveira MS, Vargas MM, Reis FP, Silva P. Caracterizaçao dos usuários com esquizofrenia e outros transtornos psicóticos dos Centros de Atençao Psicossocial. Cad Saude Colet. 2011;19(1):27-32.

15. Carvalho MDA, Silva HO, Rodrigues LV. Perfil epidemiológico dos usuários da rede de Saúde Mental do município de Iguatu, CE. Rev Eletron Saude Mental Alcool Drog. 2010;6(2):337-49.

16. Ronchi JP, Avellar LZ. Saúde mental da criança e do adolescente: a experiência do Capsi da cidade de Vitória-ES. Psicol Teor Prat. 2010;12(1):71-84.

17. Espósito BP, Savoi MG. Atendimento especializado a adolescentes portadores de transtornos psiquiátricos: um estudo descritivo. Psicol Teor Prat. 2006;8(1):31-40.

18. Mello R, Furegato ARF. Representaçoes de usuários, familiares e profissionais acerca de um centro de atençao psicossocial. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2008;12(3):457-64.

19. Souza EM, Abrao FPS, Motta IA, Almeida JO. Autopercepçao do estado de saúde: um estudo de prevalência com adolescentes de Ceilândia, Distrito Federal, Brasil. Comun Cien Saude. 2006;17(1):9-15.
adolescencia adolescencia adolescencia
GN1 © 2004-2019 Revista Adolescência e Saúde. Fone: (21) 2868-8456 / 2868-8457
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente - NESA - UERJ
Boulevard 28 de Setembro, 109 - Fundos - Pavilhão Floriano Stoffel - Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ. CEP: 20551-030.
E-mail: revista@adolescenciaesaude.com