Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 13 Supl. 1 - Ago/Set - 2016

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Páginas 16 a 26


Insatisfaçao corporal e rastreamento do risco para Transtornos Alimentares em adolescentes

Body dissatisfaction and risk assessment for Eating Disorders in adolescents


Autores: Aline Neves Costa1; Nayara Vieira de Lima2; Giovana Eliza Pegolo3

1. Graduaçao em Nutriçao pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Campo Grande, MS, Brasil
2. Graduaçao em Nutriçao pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Campo Grande, MS, Brasil
3. Doutora em Alimentos e Nutriçao pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Araraquara, SP, Brasil. Professor Adjunto II da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Campo Grande, MS, Brasil

Giovana Eliza Pegolo
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) - Curso de Nutriçao
Cidade Universitária, s/n
Campo Grande, MS, Brasil. CEP: 79070-900
giovana.pegolo@hotmail.com

Recebido em 22/04/2015
Aprovado em 31/05/2015

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, estado nutricional, imagem corporal, transtornos da alimentaçao.
Keywords: Adolescent, nutritional status, body image, eating disorders.

Resumo:
OBJETIVO: Identificar o estado nutricional, avaliar a insatisfaçao corporal e o risco de desenvolvimento de Transtornos Alimentares (TA) em adolescentes.
MÉTODOS: Este estudo transversal, descritivo e analítico foi desenvolvido com adolescentes de ambos os sexos, matriculados em uma escola municipal de Campo Grande (MS). A avaliaçao do estado nutricional foi realizada por meio do Indice de Massa Corporal. Para a avaliaçao da insatisfaçao corporal adotou-se a Escala de Evaluacíon de Insatisfacíon Corporal para Adolescentes, e a Escala de Silhuetas. Além do Eating Attitudes Test (EAT-26) foi utilizado para identificar adolescentes do sexo feminino com risco de desenvolverem Transtornos Alimentares.
RESULTADOS: Dos 213 alunos que aceitaram participar, 133 (62,4%) eram do sexo feminino. O percentual de excesso de peso (sobrepeso/obesidade) foi de 32,5% entre os meninos e 31,6% entre as meninas. Em relaçao à insatisfaçao corporal, 80,3% dos adolescentes de ambos os sexos mostraram-se insatisfeitos - as meninas pelo desejo de perder peso e os meninos em ganhar peso. Entre as meninas, 24,3% foram classificadas em risco para TAs. Foi significativo o percentual de meninas eutróficas (55,5%) classificadas como em risco, maior que os outros estados nutricionais (p<0,05).
CONCLUSAO: Uma expressiva proporçao de adolescentes indicaram insatisfaçao com sua imagem corporal. Sugere-se a implementaçao de estratégias direcionadas ao acompanhamento do estado nutricional e à compreensao da imagem corporal mesmo antes do período da adolescência.

Abstract:
OBJECTIVE: To identify the nutritional status, evaluate body dissatisfaction and risk of development of eating disorders in adolescents.
METHODS: This cross-sectional, analytical descriptive study was developed with adolescents of both sexes, enrolled in a public school of Campo Grande (MS). The assessment of nutritional status was performed using body mass index. For the evaluation of body dissatisfaction it was adopted the Evaluation Scale of TeensBody Dissatisfaction, and Silhouette Scale. The Eating Attitudes Test (EAT-26) was used to identify the female adolescents at risk for developing eating disorders.
RESULTS: Of the 213 students who agreed to participate, 133 (62.4%) were female. The percentage of overweight (overweight/obesity) was 32.5% among boys and 31.6% among girls. In relation to body dissatisfaction, 80.3% of adolescents of both sexes proved to be unhappy - girls the desire to lose weight and boys to gain weight. Among girls, 24.3% were classified at risk for TAs. Was significantly the percentage of eutrophic girls (55.5%) rated as at risk, higher than the other nutritional states (p<0,05).
CONCLUSION: A significant proportion of teens indicated dissatisfaction with their body image. It is suggested to implementstrategies targetto monitor the nutritional status and better understanding of body image even before the period of adolescence.

INTRODUÇAO

A imagem corporal é definida como a imagem que se tem na mente sobre o tamanho e a forma do próprio corpo, incluindo sentimentos em relaçao a essas características e as partes constituintes do corpo, sendo influenciada por fatores psicológicos, biológicos, culturais e sociais1. A insatisfaçao com a imagem corporal é uma realidade durante a adolescência2 e representa fator de risco para o desenvolvimento de comportamentos alimentares prejudiciais à saúde, especialmente para o desenvolvimento de Transtornos Alimentares (TAs)3.

Os TAs afetam adolescentes e adultos jovens, principalmente do sexo feminino. Sabe-se que tais transtornos podem acarretar prejuízos biológicos e psicológicos, com risco aumentado de morbidades e mortalidade. As principais características do TA compreendem o medo extremo de engordar, a reduçao voluntária do consumo alimentar, a ingestao exagerada de alimentos seguida de vômitos, e o uso abusivo de laxantes e/ou diuréticos4.

Diversos fatores podem influenciar o desenvolvimento de TAs. Entre adolescentes, ressaltam-se as influências da mídia e do ambiente social, associadas ao culto à magreza, onde também se destaca a influência familiar. O comportamento alimentar da família, especialmente no momento das refeiçoes, pode atuar positivamente na determinaçao do comportamento alimentar ou de forma prejudicial, contribuindo para o desenvolvimento e manutençao de TAs5.

Tendo em vista a expressiva preocupaçao com a imagem corporal e a predisposiçao para o desenvolvimento de TAs, este estudo teve como objetivos identificar o estado nutricional, a insatisfaçao corporal e o risco para TAs em adolescentes.


METODOLOGIA

Trata-se de estudo transversal, descritivo e analítico, realizado com adolescentes de ambos os sexos, com idades entre 10 e 19 anos, matriculados nos períodos matutino e vespertino de uma escola pública da rede municipal de ensino de Campo Grande, Mato Grosso do Sul (MS). Foram convidados a participarem do estudo todos os adolescentes a partir de 10 até 19 anos (n = 529). Os critérios de exclusao adotados foram: indivíduos com problemas de saúde já diagnosticados (informados pelos pais e/ou responsáveis), como hipertensao, doenças cardiovasculares, adolescentes em tratamento de depressao, transtornos de ansiedade e pertencentes a populaçoes indígenas e quilombolas. A coleta de dados foi realizada no período de maio a agosto de 2014.

Os adolescentes foram pesados e medidos em espaço reservado, utilizando-se balança digital (Marca Tanita®) e estadiômetro portátil (Marca Sanny®), devidamente calibrados e posicionados. A classificaçao do estado nutricional foi realizada por meio do Indice de Massa Corporal (IMC), conforme pontos de corte para a faixa etária estabelecidos pela Organizaçao Mundial da Saúde6.

Para a avaliaçao da insatisfaçao corporal adotou-se a Escala de Evaluacíon de Insatisfacíon Corporal para Adolescentes, composta por 32 questoes de autopreenchimento na forma da escala Likert de pontos. Nesta escala, o escore é calculado pela soma das respostas e varia de 0 a 96 pontos. Quanto maior a pontuaçao, maior a insatisfaçao corporal do adolescente7.

A insatisfaçao corporal também foi avaliada por meio da Escala de Silhuetas de Tiggeman e Wilson-Barret (1998)8. Esta escala contém 9 figuras de cada sexo, ordenadas da menor para a maior silhueta. Os adolescentes foram orientados a indicar a figura que acreditavam ser mais parecida com seu corpo atual, em seguida deveriam eleger aquela silhueta que desejavam ter. Se a resposta das duas questoes forem iguais considera-se que o adolescente está satisfeito com sua imagem corporal. Se esta resposta for diferente, considera-se como insatisfeito com a imagem corporal, desejando ter uma silhueta maior ou menor, de acordo com a resposta escolhida.

A identificaçao de adolescentes em risco para o desenvolvimento de TAs foi realizada com a aplicaçao do questionário de Atitudes Alimentares (Eating Attitudes Test - EAT-26). Este é formado por 26 questoes do tipo Likert com 6 opçoes de resposta, validado para meninas com idade a partir de 12 anos9.

As variáveis foram submetidas aos testes do qui-quadrado segundo Kruskal-Wallis (quando pertinente) e o teste Binomial para proporçoes utilizando-se o programa BioEstat 5.310, ambos testes com nível de significância de 5%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Protocolo 575.087/2014). Todos os adolescentes que participaram do estudo foram autorizados pelos pais ou responsáveis (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido) e, além disso, manifestaram concordância por meio do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido.


RESULTADOS

Dos 529 alunos compreendidos na faixa de idade deste estudo, 213 aceitaram participar (40,3%), sendo 133 (62,4%) do sexo feminino. As meninas apresentaram idade média de 12,3±1,6 anos, enquanto os meninos, 12,2±1,6 anos.

Na Tabela 1 é apresentada a distribuiçao dos adolescentes de acordo com o estado nutricional e sexo. Embora nao tenham sido constatadas diferenças significativas entre os sexos (p>0,05), foram observadas proporçoes importantes de sobrepeso e obesidade em ambos os sexos. 32,5%dos adolescentes do sexo masculino apresentavam algum grau de excesso de peso, e 31,6%das meninas. Em relaçao à análise do estado nutricional estratificado por idade, nao foi observada diferença significativa (p>0,05) para ambos os sexos.




Observando os resultados obtidos por meio da Escala de Avaliaçao da Insatisfaçao Corporal para Adolescentes constatou-se que tanto os meninos quanto as meninas com obesidade apresentaram maior insatisfaçao com seus corpos quando comparados com os adolescentes classificados com baixo peso, eutrofia e sobrepeso (p<0,05). As meninas com obesidade tiveram média de 35,0 pontos, enquanto os meninos, 30,6 pontos.

As principais respostas obtidas por meio da Escala de Avaliaçao da Insatisfaçao Corporal (Tabela 2) foram: 23% dos adolescentes relataram que nunca pensam que a forma do seu corpo é a forma considerada atraente atualmente (questao 6); 21,6% gostariam de ter mais força de vontade para controlar o que comem (questao 15); 18,3% sempre dedicam tempo para pensar em sobre como melhorar a sua imagem (questao 19); 23,5% nunca se sentem magros (questao 27); 33,8% nunca ou quase nunca se sentem satisfeitos com seu aspecto físico (questao 29); e 69,5% nunca gostariam de estar mais gordos (questao 32).




Ao analisar os resultados referentes à imagem corporal a partir da aplicaçao da Escala de Silhuetas (Tabela 3), constatou-se que 17,5% dos meninos e 21,1% das meninas encontravam-se satisfeitos com sua imagem corporal. Por outro lado, 43,8% dos meninos e 26,3% das meninas indicaram desejo de ganhar peso, e 38,7% dos meninos e 52,6% das meninas indicaram desejo de perder peso. Cabe salientar que nao foram constatadas diferenças significativas entre imagem corporal, sexo e idade.




Na Tabela 4 sao apresentados os resultados da imagem corporal de acordo com estado nutricional e sexo. Nesta análise, 78,9% das meninas estao insatisfeitas com sua imagem, sendo que 52,6% desejam perder peso. Entre os meninos, 82,5% mostraram-se insatisfeitos, e destes, 43,8% desejam ganhar peso. Para ambos os sexos, os adolescentes com sobrepeso e obesidade mostraram-se significativamente insatisfeitos (p<0,05) em relaçao ao desejo de perder peso. Ao estratificarmos por idade, nao foi observada diferença significativa quanto ao desejo de ganhar ou perder peso, para ambos os sexos.




Sobre o risco de desenvolvimento de TAs (EAT-26), 24,3% (n=18) das meninas foram classificadas nesta condiçao. O percentual de meninas com eutrofia (55,5%) classificadas em risco para TAs foi significativamente maior que os outros estados nutricionais. O risco também foi significativamente maior (p<0,05) aos 12 anos de idade (38,9% dos casos) do que para as meninas com idades de 13 a 17 anos.


DISCUSSAO

Neste estudo o percentual de adolescentes com algum grau de excesso de peso mostrou-se bastante importante, tendo em vista principalmente o fato de tratar-se de indivíduos ainda em fase de crescimento/desenvolvimento e com risco de instalaçao precoce de patologias associadas ao excesso de gordura corporal. 12,5% dos meninos e17,3% das meninas apresentaram sobrepeso e 20% dos meninos e 14,3% das meninas foram considerados obesos. Os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), publicados em 2008-2009 para adolescentes com idades entre 10 e 19 anos, apontou os seguintes percentuais: 21,5% dos adolescentes e 19,4% das adolescentes apresentavam sobrepeso e 5,8% dos meninos e 4,0% das meninas, obesidade11. Portanto, na presente pesquisa, os percentuais de adolescentes com sobrepeso mostraram-se menores aos da pesquisa citada anteriormente. Porém, as proporçoes de obesidade para ambos os sexos alcançaram percentuais três vezes superiores aos registrados na POF 2008-2009.

Uma pesquisa realizada em Sao Paulo com 106 adolescentes com idades entre 15 e 19 anos mostrou um resultado semelhante, em que 11,8% dos meninos apresentaram sobrepeso, enquanto entre as meninas o percentual alcançou 15,1%. Já os números de obesos foram menores, 13,2% para as meninas e 5,9% para os meninos12. Para o presente estudo foram considerados adolescentes a partir de 10 anos, período pré-estirao pubertário, entendendo-se que ainda poderao vivenciar alteraçao do estado nutricional para a condiçao de eutrofia. Martins et al.13 desenvolveram um estudo na cidade de Maringá (PR) com 130 estudantes de 10 a 17 anos, econstataram que 22,8% das meninas apresentaram sobrepeso e 8,8% obesidade, enquanto que 20,5% dos meninos apresentaram sobrepeso e 26% obesidade. Estudos com adolescentes mostram que a adolescência representa período crítico para o acúmulo de gordura corporal. Um outro estudo de acompanhamento do estado nutricional de adolescentes até a fase adulta constatou que 90% dos adolescentes obesos permaneceram obesos conforme envelheciam. Percentual inferior a 2% dos adolescentes inicialmente obesos tornaram-se eutróficos14.

Em relaçao à análise da Escala de Avaliaçao da Insatisfaçao Corporal para Adolescentes, as pontuaçoes deste estudo variaram de 5 a 66 pontos. Do total de adolescentes estudados, 3 apresentaram valor igual ou superior a 60 pontos. Cabe salientar que a pontuaçao desta escala varia de 0 a 96 pontos e considera-se que quanto maior a pontuaçao mais insatisfeito o adolescente encontra-se7. A determinaçao de um ponto de corte para classificar a pontuaçao resultante da aplicaçao da Escala poderia auxiliar a identificaçao de adolescentes de acordo com o grau de insatisfaçao com sua imagem corporal.

Conti et al.7, no estudo de validaçao da referida escala, apontaram as questoes que tiveram maior percentual da resposta "nunca", caracterizando maior insatisfaçao corporal. Para a questao "Com que frequência você sente que gostaria de estar mais gordo?" (questao 32), 75,4% afirmaram "nunca". No presente estudo, o percentual foi de 69,5%. Na questao 27, 23,5% dos adolescentes de Campo Grande responderam que nunca se sentiam magros, valor aproximado aos 27,5% apontado pelo estudo de validaçao. Sobre a frequência que sentiam que sua forma física era considerada atraente (questao 6) e a frequência que sentiam-se satisfeitos com seu aspecto físico (questao 29), 23% e 16,9% dos adolescentes da pesquisa responderam "nunca", enquanto Conti et al.7 constataram percentuais de 19,7% e 13,7%, respectivamente.

Nas questoes que apresentaram a maioria das respostas "sempre", também caracterizando insatisfaçao corporal, destaca-se a pergunta 15: "Com que frequência você pensa que gostaria de ter mais força de vontade para controlar o que come?". Nesta pesquisa constatou-se que 21,6% responderam "sempre" para esta pergunta, enquanto o estudo de validaçao apontou 13,2%. Na pergunta 19, "Com que frequência você dedica tempo para pensar sobre como melhorar a sua imagem?"18,3% dos adolescentes desta pesquisa responderam "sempre", sendo que Conti et al.7, no estudo de validaçao deste instrumento, encontrouapenas 7,3%, demonstrando maior percentual de insatisfaçao no presente estudo do que o observado no estudo de validaçao da escala. Cabe ressaltar que a análise das perguntas da Escala de Avaliaçao da Insatisfaçao Corporal para Adolescentes possibilita conhecer mais detalhadamente o comportamento/sentimento dos adolescentes, fato que justifica a apresentaçao da escala na íntegra, inclusive possibilitando questoes de referência para abordagens educacionais.

Ainda em relaçao à Escala de Avaliaçao da Insatisfaçao Corporal para Adolescentes, outro fato a ser destacado refere-se à confirmaçao da insatisfaçao corporal entre os adolescentes classificados com obesidade (p<0,05). Para ambos os sexos, aqueles classificados com obesidade apresentaram pontuaçao média maior do que os adolescentes com baixo peso, eutrofia e sobrepeso. Desta forma, a obesidade assume dimensao significativa além dos prejuízos físicos e metabólicos. Neste contexto, diante do desejo persistente de emagrecer e do medo de engordar, os adolescentes elaboram mudanças de comportamentos alimentares que podem caracterizar TAs. Estudo com adolescentes brasileiros ressaltou a influência da imagem corporal na adoçao de práticas extremas para o controle do peso, sendo mais frequente entre aqueles que se consideravam gordos15.

Os resultados referentes à imagem corporal, constatados por meio da Escala de Silhuetas, mostraram que a maioria dos adolescentes desta pesquisa indicou insatisfaçao com a imagem corporal. Considerando ambos os sexos, 32,8% indicaram desejo de ganhar peso e, 47,5%, desejo de perder peso. Petroski et al.16, em estudo realizado em Saudades (SC) com 651 adolescentes, mais da metade dos participantes apresentavam insatisfaçao com sua imagem corporal (60,4%) e concluiu-se que as principais causas associavam-se aos padroes estéticos, autoestima e saúde. O presente estudo encontrou percentual ainda maior, chegando a 80,3% de insatisfaçao entre os participantes (adolescentes que desejam ganhar ou perder peso - Tabela 3). Dentre as meninas insatisfeitas, 52,7% desejavam perder peso, já os meninos apresentaram maior desejo em ganhar peso, atingindo 43,7%. Ainda observando o estudo de Petroski et al.16, o número de meninas com o desejo de perder peso mostrou-se aproximado (52,4%) ao observado neste estudo. Os resultados observados entre os adolescentes de Campo Grande (MS) assemelham-se aos de Ferreira et al.17, onde os meninos se sentem menores do que realmente sao fisicamente e buscam um corpo mais forte e robusto, enquanto as meninas se sentem maiores do que sao e almejam um corpo mais magro.

Dumith et al.18 realizaram estudo com 4325 adolescentes de 14 e 15 anos e encontraram insatisfaçao corporal presente em 65,6% das meninas, sendo que 45,9% desejavam ter uma silhueta menor. Entre os meninos, 51% demonstraram alguma insatisfaçao, onde 27,6% gostariam de ter uma silhueta menor, valor maior que aqueles que desejavam uma silhueta maior (23,4%). Em nosso estudo, um maior percentual de meninos manifestaram desejo de ganhar peso (43,8%) e nao de perder peso (38,7%).

Ainda em relaçao à imagem corporal, inicialmente esperava-se que os percentuais de insatisfaçao fossem menores entre os adolescentes mais jovens, porém, mesmo que nao tenha sido detectada diferença estatisticamente significativa em relaçao à idade, ao analisar os resultados obtidos por meio da Escala de Silhuetas, especialmente entre as meninas, observou-se que quanto menor a idade, maiores foram as proporçoes constatadas (Tabela 3). Sabendo-se que distorçoes da imagem corporal representam risco para o desenvolvimento de TAs, tal fato indica a importância de estratégias específicas para esse momento de transiçao entre a infância e a vida adulta que visem o acompanhamento das inquietaçoes em relaçao à imagem corporal e, consequentemente, com direcionamento para a prevençao de TAs.

No que diz respeito aos resultados observados a partir da aplicaçao do EAT-26, observou-se que quase ¼ das adolescentes (24,3%), independente do estado nutricional, tem risco para o desenvolvimento de algum TA. Vale et al.19 em pesquisa com adolescentes de Fortaleza observaram proporçao muito próxima (25,2%) a observada entre as adolescentes sul-mato-grossenses. Alves et al.20 encontraram 15,6% de adolescentes em risco.

Destaca-se no presente estudo o elevado percentual de adolescentes eutróficas (55,5%) com pontuaçao indicativa de risco para o desenvolvimento de TAs. Ou seja, mesmo estando com o peso adequado, as meninas demonstraram, a partir do questionário EAT-26, que sao "expressivamente preocupadas com a ideia de engordar, sentem culpa após ingerirem algum alimento, evitam comer ao sentir fome, gostam da sensaçao de estômago vazio e fazem regime para emagrecer"9. Ainda considerando o estado nutricional, Alves et al.20 identificaram 14,6% de adolescentes eutróficas em risco para o desenvolvimento de TAs, proporçao inferior à observada neste estudo.


CONCLUSAO

Os resultados deste estudo apontam duas situaçoes com impacto prejudicial à saúde/estado nutricional desses adolescentes. Por um lado, as consequências associadas ao sobrepeso e à obesidade, por outro, o impacto à saúde decorrente da evoluçao para prejuízos físicos e psicológicos associados à insatisfaçao com a imagem corporal.

Neste estudo, destacou-se o percentual elevado de adolescentes insatisfeitos com a imagem corporal, resultado este captado especialmente por meio da Escala de Silhuetas. Ainda completa-se este quadro a análise das respostas obtidas por meio da Escala de Avaliaçao da Insatisfaçao Corporal, as quais nos permitiram constatar sentimentos negativos inerentes à imagem corporal, que por sua vez, podem contribuir para o desenvolvimento de TAs ao longo dos anos.

Por fim, com base nos dados do EAT-26 aplicado especificamente entre as meninas, conclui-se que a proporçao de adolescentes classificadas em risco de desenvolvimento de TAs mostrou-se preocupante, principalmente considerando a manifestaçao já nos primeiros anos da adolescência. Tendo em vista os resultados observados a partir da aplicaçao dos instrumentos de avaliaçao da insatisfaçao corporal (Escala de Avaliaçao de Insatisfaçao Corporal para Adolescentes e Escala de Silhuetas), para aqueles com idade a partir dos 10 anos (considerando que o EAT-26 foi exclusivo para as adolescentes a partir de 12 anos), entende-se que estratégias de acompanhamento ou instrumentos de avaliaçao de risco para TAs poderiam ser desenvolvidos para adolescentes mais jovens, o que possivelmente evidencie indivíduos em risco. A constataçao de 55,5% das meninas com eutrofia classificarem-se em risco para TAs aponta situaçao conflituosa entre a percepçao corporal e estado nutricional adequado para a idade. Este fato ressalta a relevância de açoes educativas em idades cada vez mais precoces e independente do estado nutricional.

De forma geral, os resultados deste estudo apontam para a importância da implementaçao de estratégias direcionadas aos adolescentes, com o intuito de contribuir para a saúde, tanto em relaçao aos aspectos nutricionais quanto de entendimento e compreensao da imagem corporal.


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