Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 13 nº 4 - Out/Dez - 2016

Artigo Original Imprimir 

Páginas 57 a 62


Conhecimento dos estudantes de odontologia sobre transtornos alimentares

Knowledge of Odontology's students about eating disorders

Conocimiento de los estudiantes de odontología sobre trastornos alimenticios


Autores: Daniela Salvador Marques de Lima1; Kamila Azoubel Barreto2; Rosário Maria Maciel Pessoa da Silva3; Sara Grinfeld4; Viviane Colares5

1. Doutoranda em Odontopediatria. Mestre em Hebiatria pelo Departamento de Odontopediatria, da Faculdade de Odontologia de Pernambuco, Universidade de Pernambuco (FOP/UPE). Camaragibe, PE, Brasil
2. Doutoranda em Odontopediatria. Mestre em Odontologia pelo Departamento de Odontopediatria,da Faculdade de Odontologia de Pernambuco da Universidade de Pernambuco (FOP/UPE). Camaragibe, PE, Brasil
3. Doutoranda em Odontopediatria. Mestre em Odontologia pelo Departamento de Odontopediatria, da Faculdade de Odontologia de Pernambuco, Universidade de Pernambuco (FOP/UPE). Camaragibe, PE, Brasil
4. Doutora em Odontopediatria pela Faculdade de Odontologia de Pernambuco, Universidade de Pernambuco (FOP/UPE), Camaragibe, PE, Brasil. Professora Associada do Departamento de Odontologia Clínica e Preventiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Recife, PE, Brasil
5. Doutora em Odontopediatria. Professora Associada do Departamento de Odontopediatria, da Faculdade de Odontologia, Universidade de Pernambuco (FOP/UPE). Camaragibe, PE, Brasil

Daniela Salvador Marques de Lima
Avenida Fernando Simões Barbosa, N.80/ Apt.1203, Boa Viagem
Recife, PE, Brasil. CEP: 51020-390
danielasalvador@gmail.com

Recebido em 06/07/2015
Aprovado em 10/11/2015

PDF Português            

Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Transtornos da alimentação e da ingestão de alimentos, saúde bucal, Condutas na Prática dos Dentistas.
Keywords: Feeding and eating disorders, oral health, Dentistry.
Palabra Clave: Trastornos de la alimentación y de ingestión de alimentos, salud bucal, Conductas en la Práctica de los Dentistas.

Resumo:
OBJETIVO: Avaliar o conhecimento, interesse e fontes de informação de estudantes do curso de graduação em odontologia sobre o tema Transtornos alimentares.
MÉTODOS: Estudo transversal- descritivo de caráter censitário realizado em quatro faculdades de Odontologia do Estado de Pernambuco, em 2012. Para análise descritiva das variáveis foram utilizadas distribuição de frequência absoluta e relativa. A regressão ordinal foi empregada para avaliar os fatores associados aos estudantes com maiores escores de conhecimento sobre transtorno alimentar.
RESULTADOS: Participaram do estudo 218 estudantes universitários, ingressantes e concluintes, do curso de graduação em Odontologia. Aproximadamente 10% dos estudantes avaliados não apresentaram conhecimento sobre transtornos alimentares e 36,7% relataram não ter interesse ou ter pouco interesse sobre o tema. Observou-se também que o conhecimento adquirido sobre transtornos alimentares é proveniente de fontes não científicas. Estudantes do sexo feminino de 18 a 20 anos e do último semestre têm uma chance maior de estarem no grupo com mais conhecimento sobre transtornos alimentares.
CONCLUSÃO: Apesar dos estudantes apresentarem algum conhecimento sobre o tema, o conhecimento foi superficial, com a maioria dos estudantes não sendo capaz de definir ou identificar as lesões bucais mais frequentemente associadas aos transtornos alimentares.

Abstract:
OBJECTIVE: Evaluate the knowledge, interest and sources of information of undergraduate students of odontology on the subject of eating disorders.
METHODS: Descriptive cross-sectional study of a census character carried out in four Universities of odontology in the State of Pernambuco In order to do a descriptive analysis were used distribution of absolute and relative frequency. The ordinal regression was used to evaluate factors associated with students with higher scores of knowledge about eating disorder.
RESULTS: 218 undergraduate students, freshmen and seniors, participated in the study. Approximately 10% of the evaluated students did not have knowledge about eating disorders and 36.7% reported have no interest or have little interest on the subject. It was also observed that the knowledge acquired about eating disorders it is from a nonscientific sources. Female students with 18-20 years old anf from the last semester have higher chances of being in the group with more knowledge about eating disorders.
CONCLUSION: Despite the students presented some knowledge on the subject, it was superficial, with the majority of students not being able to define or identify oral lesions most frequently associated with eating disorders.

Resumen:
OBJETIVO: Evaluar el conocimiento, interés y fuentes de información de estudiantes del curso de graduación en odontología sobre el tema Trastornos alimenticios.
MÉTODOS: Estudio transversal-descriptivo de carácter censual realizado en cuatro facultades de Odontología del Estado de Pernambuco, en 2012. Para análisis descriptivo de las variables fueron utilizadas la distribución de frecuencia absoluta y relativa. La regresión ordinal fue creada para evaluar los factores asociados a los estudiantes con mayores scores de conocimiento sobre trastorno alimenticio.
RESULTADOS: Participaron del estudio 218 estudiantes universitarios, ingresantes y concluyentes del curso de graduación en Odontología. Aproximadamente 10% de los estudiantes evaluados no presentaron conocimiento sobre trastornos alimenticios y 36,7% relataron no tener interés o tener poco interés sobre el tema. Se observó también que el conocimiento adquirido sobre trastornos alimenticios es proveniente de fuentes no científicas. Estudiantes del sexo femenino de 18 a 20 años y del último semestre tienen una posibilidad mayor de estar en el grupo con más conocimiento sobre trastornos alimenticios.
CONCLUSIÓN: A pesar de los estudiantes presentar algún conocimiento sobre el tema, el conocimiento fue superficial, con la mayoría de los estudiantes no siendo capaz de definir o identificar las lesiones bucales con mayor frecuencia asociadas a los trastornos alimenticios.

INTRODUÇÃO

A adolescência é um período propenso para a insatisfação com o próprio corpo. Alguns aspectos do comportamento do adolescente podem ter implicações no crescimento e na saúde. Os extremos de consumo alimentar com o objetivo de adequá-lo aos padrões estéticos de beleza podem levar o indivíduo a quadros de transtornos alimentares, que incluem anorexia e bulimia nervosa1,2.

Os transtornos alimentares podem apresentar, além de várias alterações sistêmicas relacionadas ao comprometimento do estado nutricional, alterações na cavidade bucal. A ocorrência e severidade dependem de tipo e tempo de duração do transtorno apresentado pelo paciente3,4,5.

Práticas compensatórias inadequadas para o controle do peso, como a indução de vômitos, geram um ambiente bucal cronicamente ácido, que podem repercutir nos dentes e nos tecidos bucais, através de lesões de erosão, de cárie, hipersensibilidade, hipossalivação e aumento das glândulas parótidas3,6,7,8,9.

O dentista pode ser o primeiro profissional de saúde a identificar a ocorrência dos transtornos alimentares, pela possibilidade de diagnosticar manifestações bucais do distúrbio durante consultas odontológicas de rotina10.

Além da importância do conhecimento desses sinais e sintomas visando o diagnóstico, o cirurgião- dentista desempenha importante função no tratamento e acompanhamento odontológico do paciente. O diagnóstico precoce e a adoção de estratégias adequadas para controlar o desenvolvimento e progressão das manifestações bucais favorecem bem-estar, autoestima, e minimizam os danos às estruturas proporcionando a manutenção da saúde bucal desses pacientes11.

Diante do exposto, o objetivo do estudo foi avaliar o conhecimento, interesse e fontes de informação de estudantes de graduação de cursos de Odontologia sobre transtornos alimentares, salientando a importância do cirurgião-dentista na identificação da patologia.


MÉTODOS

Trata-se de um estudo do estudo transversal-descritivo, de caráter censitário, realizado em 2012 em quatro faculdades de Odontologia do Estado de Pernambuco, com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco (protocolo CEP/UPE: 258/11 - Registro CAAE: 0262.0.097.000-11). Os participantes do estudo foram esclarecidos sobre os objetivos, além de possíveis riscos e benefícios, por meio do Termo de Consentimento livre e Esclarecido (TCLE), sendo voluntária e anônima a participação no estudo e obrigatória a assinatura para participação na mesma.

Um questionário previamente validado foi elaborado para esse estudo com o objetivo de avaliar o conhecimento, interesse e as fontes de informação dos estudantes de odontologia acerca do tema transtornos alimentares.

O estudo foi realizado nas quatro escolas de ensino superior localizadas em Pernambuco, Brasil, que ofereciam o curso de graduação em Odontologia, e que tinham estudantes no último ano do curso em 2012. Foram entrevistados 218 estudantes de ambos os sexos, matriculados em turmas do primeiro e último semestres da graduação deste curso.

O questionário utilizado é composto por sete questões, cinco das quais objetivam a investigação do conhecimento dos estudantes a respeito dos transtornos alimentares, e as demais avaliam o interesse e as fontes de informações. As cinco questões relacionadas ao conhecimento se referem ao conceito de transtornos alimentares, as lesões bucais mais frequentemente associadas, grupo etário e gênero com maior prevalência desses transtornos, assim como se o cirurgião-dentista seria um profissional com condições de identificar tais pacientes. Na análise do conhecimento, as respostas foram pontuadas, sendo 2 (correto), 1 (parcialmente correto) ou 0 (incorreto ou não respondeu) para as questões abertas e 1 (correto) ou 0 (incorreto) para aquelas objetivas. Desta forma o aluno poderia obter um valor de 0 a 7. Esse valor foi categorizado para então se obter o escore final (0 - nenhum conhecimento; 1,2,3 - algum conhecimento; 4,5,6 - conhecimento parcial e 7 - conhecimento pleno).

Para a análise das fontes de informações foi realizada a categorização para cada item assinalado como: Conhecimento leigo (televisão, revistas ou jornais não científicos); Amigos; Conhecimento científico (revistas científicas, aulas na faculdade, palestras em congressos ou livros didáticos); Internet; Outros.

A aplicação do questionário foi realizada de forma coletiva em sala de aula, conduzido com autopreenchimento padronizado. Esta técnica de investigação seguiu um roteiro previamente estabelecido, visando manter o mesmo rigor com todos os participantes. O questionário foi preenchido pelos estudantes, em um mesmo momento, mediante a presença do pesquisador.

A análise dos dados foi feita utilizando-se os pacotes estatísticos Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 20.0.

Para análise descritiva das variáveis foram utilizados os procedimentos estatísticos apropriados. Utilizou-se a distribuição de frequências como procedimento descritivo, visto que as variáveis são mensuradas em escala nominal ou ordinal. Análises multivariadas foram processadas mediante aplicação de regressão logística binária e multinomial. Em todas as análises foi considerado um nível de significância de 5% como critério para rejeição da hipótese de nulidade.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dos estudantes avaliados a maior parte é composta por mulheres (~66%) e mais de 50% têm idade entre 20 e 25 anos. Aproximadamente 10% dos estudantes avaliados não apresentaram conhecimento sobre transtornos alimentares e 36,7% deles relataram não ter interesse ou ter pouco interesse a respeito do tema (Tabela 1).




Em análise específica das questões sobre conhecimento observou-se que 77% dos estudantes responderam corretamente as questões relacionadas ao grupo etário de maior prevalência para o transtorno alimentar, bem como o gênero mais frequente (76%). Contudo, para conhecimento específico odontológico, os resultados foram menos satisfatórios, onde a maioria dos estudantes não soube definir (51%), nem citar as lesões bucais mais frequentemente associadas aos transtornos alimentares (Tabela 2). O entendimento das características, sinais, sintomas e consequências bucais dos distúrbios alimentares fornecem subsídios para o desenvolvimento de um plano de tratamento individualizado3. Para Jugale et al.12 a detecção precoce dos transtornos alimentares pode prevenir ou reduzir as condições graves associadas.




Embora 95,4,% dos estudantes considere que o cirurgião-dentista tem condições de identificar o paciente com transtorno alimentar, pôde-se observar que o conhecimento adquirido pelos estudantes é superficial e não específico sobre as alterações bucais associadas, o que impossibilita o reconhecimento e diagnóstico do transtorno na clinica odontológica. Jugale et al.12 apontaram em seu estudo que a identificação precoce de indicativos pode contribuir para o tratamento das manifestações orais dos transtornos alimentares.

Com relação às fontes de informação, foi observado que a maior parte do conhecimento adquirido sobre transtornos alimentares é um conhecimento leigo, citado pela maioria dos estudantes. O percentual para a fonte de informação de conhecimento científico foi significativo, apesar do baixo percentual de acertos nas questões específicas sobre o assunto (Tabela 3).




Na análise dos fatores associados ao grupo classificado com conhecimento pleno sobre o tema, observa-se que estudantes do gênero feminino tiveram uma chance 9,5% maior de estarem neste grupo que os rapazes, podendo chegar até 67% a chance de estarem no grupo. Em relação ao semestre cursado, os estudantes do último semestre têm uma chance 26,6% (IC: 3,3% - 120%) maior de apresentarem conhecimento pleno sobre o tema quando relacionados aos estudantes que estão no primeiro semestre do curso, demonstrando que durante o curso de graduação, o estudante de odontologia obtém alguma informação que permite de maneira geral reconhecer os transtornos da alimentação. Para Amoras et al.3 o tratamento do paciente com transtorno alimentar, deve envolver o cirurgião-dentista dentro da equipe multidisciplinar a fim de tornar o tratamento mais completo, pois limitar o tratamento aos sinais e sintomas bucais é insuficiente para a cura do indivíduo.

A principal estratégia para prevenir o desenvolvimento de novas lesões nos tecidos bucais é o conhecimento do agente causal. Lima et al.13 consideraram que abordagem multiprofissional se faz necessária para uma intervenção adequada, visando o estabelecimento da saúde futura. Na equipe de saúde, em decorrência das alterações bucais ocasionadas pelos transtornos alimentares, o cirurgião-dentista pode ser o primeiro profissional a realizar o diagnóstico, contribuindo significativamente para o tratamento dos transtornos alimentares.

Os estudantes de 18 a 20 anos apresentaram 20,4% (IC: 3% - 137%) maior chance de estarem no grupo com conhecimento pleno que os alunos com mais de 25 anos. Não houve diferença entre os estudantes de 20 a 25 anos e os com mais de 25 anos (Tabela 4 e Figura 1).




Figura 1. Características associadas aos estudantes de odontologia da cidade do Recife - PE classificados com conhecimento pleno.



CONCLUSÃO

Em ambos os sexos, os estudantes de odontologia apresentaram conhecimento parcial sobre o tema Transtornos Alimentares, sendo maior na faixa etária de 18 a 20 anos e no sexo feminino. A principal fonte de informação referida pelos estudantes foi a leiga, adquirida através da televisão, revistas e jornais não científicos.

Apesar dos estudantes apresentarem conhecimento geral do tema, o conhecimento específico que permite a identificação e reconhecimento das lesões bucais mais frequentemente relacionadas aos transtornos não foi significante, o que indica a necessidade de incluir informações acerca do tema Transtornos Alimentares nos cursos de graduação em odontologia.


REFERÊNCIAS

1. Traebert J, Moreira EAM. Transtornos alimentares de ordem comportamental e seus efeitos sobre a saúde bucal na adolescência. Pesqui Odontol Bras 2001; 15 (4): 359-363.

2. Ximenes R, Couto G, Sougey E. Eating disorders in adolescents and their repercussions in oral health. Int Eat Disord 2010; 43(1): 59-64.

3. Amoras DR, Messias DCF, Ribeiro RPP, Turssi CP, Serra MC. Caracterização dos transtornos alimentares e suas implicações na cavidade bucal. Rev odontol UNESP (Online) 2010; 39 (4).

4. Antunes KT, Amaral CF, Balbinot CEA. Anorexia e bulimia nervosa: complicações bucais e o papel do cirurgiãodentista frente a transtornos alimentares. Disc Scientia Série: Ciências da Saúde 2007; 8 (1):159-167.

5. Rytomaa I, Jarvinem V, Kanerva R, Heinonen O.P. Bulimia and tooth erosion. ActaOdontol Scand1998; 56, (1): 36-40.

6. Bartlett D. Intrinsic causes of erosion. Monogr Oral Sci 2006; 20: 119-39.

7. Lifante-Oliva C, López-Jornet P, Camacho-Alonso F, Esteves-Salinas J. Study of oral changes in patients with eating disorders. Int J Dent Hyg. 2008; 6: 119-22.

8. Lo Russo L, Campisi G, Di Fede O, Di Liberto C, Panzarella V, lo Muzio L. Oral manifestations of eating disorders: a critical review. Oral Dis 2008; 14: 479-84.

9. De Moor RJG. Eating disorder-induced dental complications: a case report. J Oral Rehabil 2004; 31: 725-32.

10. Ximenes RCC, Colares V, Couto GBL, Ximenes JDC. O impacto de trasntornos alimentares na saúde bucal de adolescentes aos 14 anos. JBP Rev Libero-am Odontopediatr Odontol Bebê 2004; 4(40): 543-550.

11. Serra MC, Messias DCF, Turssi, CP. Control of erosive tooth wear: possibilities and rationale. Braz Oral Res 2009; 23(1): 49-55.

12. Jugale PV, Pramila M, Murthy AK, Rangath S. Oral Manifestations of Suspected Eating Disorders among Women of 20-25 Years in Bangalore City, India. J Health Popul Nutr 2014; 32(1): 46-50.

13. Lima DSM, Coutinho VM, Holanda LC, Grinfeld S, Colares V. A saúde oral e os transtornos alimentares entre adolescentes. Rev bras odontol 2012; (69) 2: 190-3.
adolescencia adolescencia adolescencia
GN1 © 2004-2017 Revista Adolescência e Saúde. Fone: (21) 2868-8456 / 2868-8457
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente - NESA - UERJ
E-mail: secretaria@adolescenciaesaude.com