Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 13 nº 4 - Out/Dez - 2016

Artigo de Revisão Imprimir 

Páginas 89 a 97


Estilos parentais percebidos e o consumo de álcool entre adolescentes: revisão sistemática de estudos empíricos

Perceived parenting styles and alcohol consumption among adolescents: sistematic review of studies

Estilos parentales percibidos y el consumo de alcohol entre adolescentes: revisión sistemática de estudios empíricos


Autores: Karina de Souza Martins1; Daniela Ribeiro Schneider2

1. Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis, SC, Brasil. Graduação em Psicologia pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB). Blumenau, SC, Brasil
2. Pós-Doutorado pela Universidade de Valencia (UV). Valencia, Espanha. Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis, SC, Brasil

Karina Martins Moreno
Núcleo de Pesquisas em Clínica da Atenção Psicossocial (Psiclin) - Universidade Federal de Santa Catarina - Campus Universitário
Trindade, Caixa postal 476, Sala 214 - Bloco D - CFH
Florianópolis, SC, Brasil. CEP: 88040-900
psikarinamartins@gmail.com

Recebido em 09/11/2015
Aprovado em 12/09/2016

PDF Português            

Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Relações pais-filho, adolescente, bebidas alcoólicas.
Keywords: Parent-child relations, adolescent, alcoholic beverages.
Palabra Clave: Relaciones padres-hijo, adolescente, bebidas alcohólicas.

Resumo:
OBJETIVO: Analisar a relação entre os estilos parentais percebidos e o consumo de álcool entre adolescentes.
FONTES DE DADOS: Os artigos foram pesquisados em três bancos de dados, PubMed, PsycINFO e MedLine, com os seguintes descritores: 'parental style' com as combinações: 'alcohol, 'substance abuse disorders', 'addiction', 'drug abuse' 'drug dependence', 'drugs' e 'substance use.
SÍNTESE DOS DADOS: O estudo indicou que o estilo parental autoritativo está relacionado aos baixos índices de consumo de álcool, e os estilos negligente e autoritário tendem a aumentar as chances de uso; pesquisas acerca do estilo indulgente ainda são inconclusivas.
CONCLUSÃO: Os resultados parecem estar associados ao fato dos estilos parentais serem altamente dependentes de aspectos culturais, assim as inconsistências identificadas podem ser atribuídas aos contextos nos quais os estudos foram realizados.

Abstract:
OBJECTIVE: Analyze the relation between perceived parenting styles and alcohol consumption among adolescents.
DATA SOURCES: The articles were researched in three databases, PubMed, PsycINFO and MEDLINE with the following keywords: 'parental style' incombination with 'alcohol', 'substance abuse disorders', 'addiction', 'drug abuse', 'drug dependence', 'drugs' and 'substance use'.
DATA SYNTHESIS: The study indicate that the authoritative parenting style is associated with low levels of alcohol, and negligent and authoritarian styles tend to increase the chances of their use; research on the indulgent style is still inconclusive.
CONCLUSION: The results appear to be linked to the fact that parenting styles are highly dependent on the cultural aspects, so the identified inconsistencies can be attributed to the contexts in which the studies were conducted.

Resumen:
OBJETIVO: Analizar la relación entre los estilos parentales percibidos y el consumo de alcohol entre adolescentes.
FUENTES DE DATOS: Los artículos fueron investigados en tres bancos de datos, PubMed, PsycINFO y MedLine, con los siguientes descriptivos: 'parental style' con las combinaciones: 'alcohol, 'substance abuse disorders', 'addiction', 'drug abuse' 'drug dependence', 'drugs' y 'substance use.
SÍNTESIS DE LOS DATOS: El estudio indicó que el estilo parental de autorización está relacionado a bajos índices de consumo de alcohol, y los estilos negligente y autoritario tienden a aumentar las chances de uso; pesquisas acerca del estilo indulgente todavía no son concluyentes.
CONCLUSIÓN: Los resultados parecen estar asociados al hecho de los estilos parentales ser altamente dependientes de aspectos culturales, así como las inconsistencias identificadas pueden ser atribuidas a los contextos en los cuales los estudios fueron realizados.

INTRODUÇÃO

A problemática do consumo de substâncias psicoativas está entre os nove fenômenos sociais que comprometem de forma grave o desenvolvimento dos adolescentes1. A experimentação de drogas é considerada um feito habitual entre os jovens e, dentre as substâncias consumidas, o álcool apresenta os índices mais elevados em diferentes países2.

O consumo de álcool é reconhecido por seu caráter multideterminado, sendo o ambiente familiar um dos domínios mais influentes, relacionado com o início e a manutenção do consumo3. O estilo parental é considerado um dos aspectos mais relevantes deste processo, compreendido como o modo que os pais lidam com seus filhos, aplicam normas e exercem autoridade sobre eles4.

Os modelos teóricos dos estilos parentais derivam de pesquisas com base nos processos de socialização5. As atitudes dos pais frente à disciplina, controle, afeto e responsividade são as principais dimensões consideradas neste campo investigativo e refletem os construtos e os diferentes instrumentos de medidas da área6.

Baldwin7 é considerado o primeiro autor a identificar a relação entre os estilos de criação dos pais e comportamentos subseqüentes em seus filhos. Posteriormente, Schaefer8 introduziu o termo "estilo parental" e propôs um modelo baseado em duas dimensões contínuas: controle/disciplina e afeto/calor.

Baumrind9 descreveu três estilos parentais: autoritativo, autoritário e permissivo. Seus estudos iniciais voltaram-se para a influência nos padrões de autoridades empregados pelos pais, articulando e ampliando o conceito de controle parental5. Em uma de suas pesquisas descreve que o estilo autoritativo está relacionado aos melhores desfechos10.

No cenário atual, os quatro estilos parentais mais utilizados foram propostos por Maccoby e Martin11, e são estruturados com base em duas dimensões: responsividade e exigência. Neste modelo, pais com escores altos em ambas as dimensões são nomeados de autoritativos; aqueles com elevados escores em responsividade e baixos em exigência são indulgentes; pais com escores altos em exigência e baixos em responsividade, autoritários; e os que apresentam escores baixos em ambas as dimensões são classificados como negligentes11.

Muitos são os estudos que evidenciam a influência dos estilos parentais no bem estar dos adolescentes12, assim como também evidenciam o papel fundamental desempenhado no uso ou não uso de drogas entre jovens. Neste campo específico, os estilos parentais atuam como fatores de risco e proteção13.

Um trabalho recente realizou uma revisão de estudos publicados nos últimos 30 que enfocavam a relação entre os estilos parentais e o consumo de drogas em adolescentes, e destacou que o estilo parental mais protetivo foi o autoritativo quando o álcool foi considerado o desfecho, e o o estilo negligente enquanto fator de risco ao consumo, não havendo um posicionamento claro acerca dos estilos indulgente e autoritário4.

Apesar de pesquisas indicarem evidências de associações, de um modo geral, os estudos acerca dos estilos parentais e o uso de drogas em adolescentes encontram-se, ainda, num campo investigativo incipiente, com informações inconclusivas acerca de qual estilo parental é o mais protetivo ou qual evidencia os maiores riscos ao consumo de drogas entre jovens14.

Identificar qual dos estilos parentais é o mais benéfico para o desenvolvimento infantil é relevante, sendo que neste período a relação estabelecida com os pais tende a favorecer o desenvolvimento e auxiliá-los na redução de riscos futuros. Além de possibilitar subsídios teóricos para a elaboração de intervenções, especialmente direcionadas à prevenção do uso de drogas15.

Diante do exposto, o objetivo do presente estudo de revisão sistemática é analisar pesquisas empíricas que buscam avaliar a relação entre estilos parentais percebidos e o consumo de álcool em adolescentes.


MÉTODO

As bases de dados selecionadas para a pesquisa foram PubMed, PsycINFO e MedLine e os seguintes descritores foram utilizados na busca: 'parental style' com as combinações 'alcohol, 'substance abuse disorders', 'addiction', 'drug abuse' 'drug dependence', 'drugs' e 'substance use'. A pesquisa foi realizada juntamente aos artigos publicados entre o período de 2004 a 2014 e os idiomas considerados foram português, inglês e espanhol.

Os resultados da busca revelaram 899 artigos, referenciados nas distintas bases de dados PubMed, PsycINFO e MedLine. A partir da leitura dos resumos, foram incluídos os estudos que preenchiam os seguintes critérios: a) caracterização da pesquisa com delineamento do tipo longitudinal, survey ou caso controle; b) apresentar objetivos, métodos e resultados claramente definidos no resumo; c) faixa etária dos participantes entre 10 e 24 anos; d) apresentar o álcool como desfecho; e e) apresentar o termo "parental style" ou "estilo parental" no título ou resumo.

Do total, 98 artigos preencheram os critérios de inclusão. Objetivando a retirada dos artigos que se repetiram nas bases de dados e aqueles que eventualmente não preenchiam os objetivos desta revisão, um total de 09 artigos foram excluídos neste estudo.

Para esta revisão, os resultados estão estruturados em dois momentos. Primeiramente, após a leitura dos artigos foram definidas categorias de análise considerando a descrição dos aspectos metodológicos empregados nos estudos.

As categorias definidas são as seguintes:

Ano e país de publicação: Ano e país de publicação dos artigos.

Objetivo: Objetivo do estudo.

Delineamento da Pesquisa: Caracterização da pesquisa como transversal ou longitudinal.

Número de sujeitos participantes: Quantidade de adolescentes que compõem a amostra.

Sexo dos Participantes: Diferenciação na escolha das amostras quanto ao sexo dos adolescentes, masculino ou feminino.

Técnica de coleta de dados: Identificação das técnicas no processo de recolha dos dados empíricos: a) observação direta; b) entrevistas; c) questionário.

Instrumento Padronizado: Especificação dos instrumentos padronizados utilizados para medir os estilos parentais.

Posteriormente, deu-se a realização de uma análise qualitativa cuja proposta é aprofundar a associação entre os estilos parentais e o consumo de álcool por adolescentes.


RESULTADOS

Características e aspectos metodológicos dos estudos

O interesse na investigação dos estilos parentais e a relação com o consumo de álcool em adolescentes se manteve homogêneo no decorrer da última década, com destaque para os anos de 2012 (N=3) e 2009 (N=2). Os países que mais desenvolveram estudos sobre o tema foram os Estados Unidos da América (EUA) (N=4) e a Espanha (N=3). Referente aos tipos de estudos empíricos analisados, oito (N=08) deles utilizaram o delineamento transversal e somente um (N=1) o longitudinal. Todos os estudos foram realizados com amostras de adolescentes de ambos os sexos.

No quadro 1 é possível verificar a diversidade de instrumentos utilizados para medir os estilos parentais, num total de nove estudos foram utilizados seis instrumentos. O Parental Authority Questionnaire foi utilizado em três (N=3) pesquisas, e os instrumentos Parental Control Scale e Warmth/affection Scale em (N=2) estudos respectivamente.




Percebe-se que em todos os estudos os estilos parentais são medidos por instrumentos formalmente estruturados que possuem escalas de resposta e dimensões. Três estudos utilizaram instrumentos com itens derivados do modelo parental de autoridade proposto por Baumrind9 (autoritário, permissivo, autoritativo). Quatro estudos utilizaram medidas com itens derivados das duas dimensões (responsividade e exigência) propostas por Maccoby e Martin11. Um baseado nas dimensões propostas por Darling e Steinberg5 (aceitação/implicação e severidade/imposição), e um com base em Schaefer8 e nas dimensões de aceitação e controle.

Análise dos Resultados

Na relação entre os estilos parentais e o consumo de álcool dos adolescentes, o estilo autoritativo aparece como um fator de proteção, associado à baixos índices de consumo21. No contexto brasileiro, Benchaya et al.24 identificaram que adolescentes que percebem seus pais como autoritativos apresentam 2.8 vezes menos chances de consumir álcool comparado com os demais estilos parentais, e os estilos parentais percebidos como indulgente, negligente e autoritário apresentam associação significativa com o consumo de álcool.

Patock-Peckham e Morgan-Lopez17 também consideram o estilo parental autoritativo como o mais protetivo. Os autores observaram que desfechos autoritativos possibilitam proteção contra sentimentos de rejeição dos pais, o que pode diminuir as chances do desenvolvimento de sintomas depressivos e, com isso, a uma redução nos problemas relacionados ao álcool.

Um estudo identificou que adolescentes que percebem os pais como autoritativos e indulgentes apresentam resultados semelhantes acerca da prevalência do consumo de álcool, estando associados aos menores índices de consumo19. E ainda, o estilo indulgente apresenta-se como o estilo parental mais protetivo, superando o estilo autoritativo20,23.

Alguns estudos investigaram a influência dos estilos parentais na relação com adolescentes e o consumo de álcool através de variáveis associadas. Patock-Peckham et al.16 identificaram que a relação entre pais indulgentes, do mesmo sexo que o filho, não favorece o desenvolvimento de características de auto-regulação, que é reconhecido enquanto fator de proteção no consumo de álcool. Coadunando, a relação dos jovens com pais indulgentes pode também aumentar a impulsividade, o que tende a reduzir o controle acerca do comportamento de beber dos filhos e, assim, aumentar o consumo de álcool e os problemas relacionados com seu uso18. Contudo, Patock-Packham e Morgan-Lopez17 também apontaram que ter pais indulgentes aumentam as chances dos filhos desenvolverem independência, caracterizada como protetiva contra depressão e considerada uma variável relacionada com o consumo de álcool.

Perceber o pai como autoritário faz com que o jovem sinta-se superprotegido, o que dá margem para o desenvolvimento de baixa auto-estima, que pode desencadear no aumento de sintomas depressivos que, por conseguinte, tende a aumentar os problemas relacionados ao consumo de álcool, neste caso, com significância para os adolescentes do sexo masculino. Além disso, o estilo autoritário está associado com o desenvolvimento de sintomas neuróticos e de razões patológicas para o consumo de álcool17.

O estilo negligente, tradicionalmente relacionado com os piores desfechos, apareceu associado aos piores resultados19,20. No entanto, nos estudos analisados, o estilo autoritário também aparece como fator de risco23. No estudo de Ozner et al.22 não foram identificadas interações significativas entre os estilos parentais percebidos e o consumo de álcool em adolescentes.


DISCUSSÃO

A origem das investigações acerca do complexo conjunto de comportamentos exercidos pelos pais em relação ao desenvolvimento infantil é de autoria de Baldwin7. Com base nos resultados desta revisão, nota-se que após aproximadamente sete décadas ainda se evidenciam contribuições fundamentais acerca deste fenômeno. O continuo avanço neste campo é constante, e identificamos um crescimento da produção na última década, onde os anos de 2009 e 2012 aparecem com uma produção superior.

Os instrumentos identificados nos estudos refletem a variação conceitual acerca dos estilos parentais. Os modelos teóricos propostos por Baumrind9 e Maccoby e Martin11 receberam maior destaque na associação ao consumo de álcool por adolescentes. De acordo com Sorkhabi25, a constatação desta perspectiva teórica ocorreu nos Estados Unidos da América, corroborando com a incidência predominante de pesquisas realizadas e advindas do contexto americano que deram continuidade à perspectiva epistemológica.

Com relação aos aspectos metodológicos considerados nesta revisão, há um predomínio de estudos com delineamento transversal e o uso exclusivo de questionários padronizados. Ao se tratar de estudos acerca dos estilos parentais e a relação com o desenvolvimento infantil, a literatura sugere o uso de delineamento do tipo longitudinal por favorecer a verificação contínua dos processos de socialização4 e o uso de técnicas diversas, como a observação e entrevista que são recomendadas por facilitar a confirmação das respostas apresentadas pelos adolescentes26.

Por sua vez, ainda que grande maioria dos estudos apresente uma quantidade significativa de sujeitos participantes, em alguns estudos a amostra é pequena, entre 100 e 500, o que é considerado limitante para a possibilidade de generalização4.

Nos resultados dos estudos desta revisão o estilo autoritativo apresenta-se como o mais protetivo, associado aos menores índices de consumo de álcool entre adolescentes. Para Steinberg e Silk27, pode haver três razões para isso: a homeostase entre o controle dirigido aos filhos e a possibilidade do desenvolvimento de independência; a reciprocidade da comunicação, que tende a promover o desenvolvimento intelectual e as habilidades psicossociais num geral; e a qualidade do afeto e compreensão, os quais, de um modo geral, podem facilitar aos pais a socialização fazendo com que o filho fique mais receptivo a eles.

Tais afirmações são compatíveis com a perspectiva da equivalência cultural, que compreende que as características e premissas gerais do estilo autoritativo são consistentes em todos os grupos culturais25,28. De acordo com esta perspectiva, para que os adolescentes possam desenvolver traços relacionados ao automonitoramento, empatia e senso de sociabilidade eles compartilham das mesmas necessidades de socialização, consideradas básicas, como sentir-se amado, protegido e respeitado29.

Coadunando, a perspectiva afirma que os adolescentes também necessitam de direcionamentos até que estejam cognitivamente e emocionalmente maduros o suficiente para lidar com as demandas da juventude de acordo com as características de sua sociedade. Assim, as características desta perspectiva sustentam que o estilo autoritativo implica em práticas importantes para todos os adolescentes, justamente por considerar tais necessidades universais29.

Por outro lado, alguns estudos evidenciam que o estilo indulgente aparece associado aos menores índices de consumo de álcool, como observado em estudos realizados no contexto europeu, no qual o estilo indulgente foi identificado como o mais protetivo. Tal demarcação argui se o estilo autoritativo efetivamente abrange as melhores características de socialização dos pais na prevalência do uso de álcool entre seus filhos.

Estes achados relacionam-se diretamente com a compreensão de que a variável afeto, identificada tanto no estilo autoritativo como no indulgente, pode estar representando a melhor contribuição neste campo, e não a variável controle, predominante tanto no estilo autoritativo como no autoritário4.

No entanto, em dois estudos realizados nos Estados Unidos da América e Brasil, o estilo indulgente aparece como fator de risco para o consumo de álcool entre jovens. Estas evidências coincidem com a premissa que níveis de inconsistência podem estar relacionada às questões relativas às etnias, culturas e níveis socioeconômicos5.

Confirmado em resultados de recente revisão de literatura, o estilo negligente tende a aumentar os riscos de consumo de álcool4. Contudo, dentre os resultados analisados nesta revisão, o estilo autoritário também se caracteriza como um estilo parental que influência no uso de álcool entre adolescentes.

Outra perspectiva teórica que procura explicar tais diferenças é a perspectiva das especificidades culturais9. Esta perspectiva compreende que os valores e metas de socialização dos pais nas culturas consideradas individualistas e coletivistas são diferentes e, assim, pais de diferentes culturas engajam-se na parentalidade de modo qualitativamente desigual. Consideram também que um mesmo estilo parental pode apresentar diferentes efeitos nos jovens em culturas distintas e que os adolescentes de diferentes contextos interpretam o mesmo estilo parental de maneiras diferentes.

Entre os estudos desta revisão parece claro que a percepção dos adolescentes acerca do estilo autoritativo de seus pais está relacionada aos baixos índices de uso de álcool. Quanto ao estilo parental relacionado aos maiores índices de consumo estão os estilos autoritário e negligente. No caso do estilo indulgente, ainda há incongruências acerca de seu papel na associação com o consumo. Estes achados parecem estar associados ao fato que os estilos parentais são altamente dependentes dos aspectos culturais, assim as inconsistências identificadas podem ser atribuídas aos contextos nos quais os estudos foram realizados.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pôde-se notar que a influência da família foi significativa nos diversos contextos pesquisados, confirmando que os estilos parentais desempenham uma função importante no consumo de uso de álcool entre adolescentes.

Os resultados indicam a necessidade de constantes avaliações da influência dos estilos parentais, seja pelas características culturais ou especificidades de cada substância psicoativa. Parece fundamental considerar que tais diferenças podem contribuir no direcionamento de estratégias preventivas, na medida em que tendem a alterar a relação entre os estilos parentais e seu papel no risco e proteção do consumo de drogas.

Para novas propostas investigativas sugere-se o uso de amostras diferenciadas com objetivo de analisar a influência da cultura nos estilos parentais, como também maior ênfase na relação entre as diferentes substâncias psicoativas, dando continuidade às lacunas evidenciadas e ampliando as possibilidades de comprovação do modelo teórico.


REFERÊNCIAS

1. UNICEF. O direito de ser adolescente: Oportunidade para reduzir vulnerabilidades e superar desigualdades / Fundo das Nações Unidas para a Infância. - Brasília, DF: UNICEF; 2011.

2. Hibell B, Guttormsson U, Ahlström S, Balakireva O, Bjarnason T, Kokkevi A. The 2007 ESPAD Report: Substance Use Among Students in 35 European Countries. Stocklohm: The Scwedish Council for Information on Alcohol and other drugs. 2009. Disponível em:http://alcoholireland.ie/download/reports/alcohol_health/children_young_people/the-2011-espad_report.pdf.

3. Pratta EMM, Santos MA. Reflexões sobre as Relações entre Drogadição, Adolescência e Família: um estudo bibliográfico. Estudos de Psicologia, 2006; 11 (3):315-322.

4. Becoña E, Martínez U, Calafat A, Juan M, Fernández-HermidaJR, Secades-VillaR. Parental styles and drug use: A review. Drugs: Education, Prevention & Policy.2012; 19:1-10.

5. Darling N,Steinberg L. Parenting style as context: an integrative model. Psychological Bulletin 1993, 113(3): 487-496.

6. Lovejoy MC, Weis R, O'Hare E, Rubin EC. Development and initial validation of the Parent Behavior Inventory. Psychological Assessment 1999; 11(4):534-545.

7. BaldwinAL. Socialization and the parent-child relationship. Child Development 1948; 19: 127-136.

8. Schaefer ES. A circumflex model for maternal behavior. Journal of Abnormal and Social Psychology 1959; 59: 226-235.

9. Baumrind DM. Current Patterns of Parental. Authority Developmental PsychologyMonograph 1971; 4(1).

10. Martínez I, García JF. Internalization of values and self-esteem among Brazilian teenagers from authoritative, indulgent, authoritarian, and neglectful homes. Adolescence; 2008; 43: 13-29.

11. Maccoby EE, Martin JA. Socialization in the context of the family: Parent-child interaction. In P. H. Mussen (Ed.) & E. M. Hetherington (Vol. Ed.), Handbook of child psychology: Socialization, personality, and social development. New York: Wiley; 1983; 4: 1-101.

12. Shucksmith J, Hendry LB, Glendinning A. Models of parenting: Implications for adolescent well-being within differents types of family contexts. Journal of Adolescence, 1995; 18:253-270.

13. Velleman RDB, Templeton LJ,Copello AG. The role of the family in preventing and intervening with substance use and misuse: A comprehensive review of family interventions, with focus on young people. Drug and Alcohol Review 2005; 24: 93-109.

14. Santana F, Mota T. Estilos Parentais e consume de drogas entre adolescents: Revisão Sistemática. PsicologiaemEstudo2009; 14: 177-183.

15. Barnow S, Lucht M, Hamm A, John U, Freyberg HJ. The relation of family history of alcoholism, obstetric complications and family environment to behavior problems among 154 adolescents in Germany: Results from the children of alcoholics study in Pomerania. European Addiction Research2005; 10: 8-14.

16. Patock-Peckham X, King, Morgan-LopezAA, Ulloa EC, Moses JM. Gender-specific meditional links between pareting styles, parenting monitoring, impulsiveness,drinking control, and alcohol-related problems. Journal Stud Alcohol Drugs 2011; 72:247-258.

17. Patock-Peckham J A, Morgan-Lopez AA. Mediational links among parenting styles, perceptions of parental confidence, self-esteem, and depression on alcohol-related problems in emerging adulthood. Journal Stud. Alcohol Drugs 2009; 70: 215- 226.

18. Patock-Peckham J A, Morgan-Lopez AA. College drinking behaviours: meditional links between parenting style, parental bonds, depression, and alcohol problems. Psychology of addictive behaviours 2006; 3: 297-306.

19. Calafat A, García F, Juan M, Becoña E,Fernández-Hermida JK. Which parentig style is more protective against adolescent substance use? Evidencia within the Europen context. Drug and alcohol dependence 2014; 138: 185-192.

20. García F, García E. Is always authoritative the optimum parenting style? Evidence from Spanish families. Adolescence 2009; 44 (173): 101-131.

21. Piko BF, Baláz,MÁ. Authotitativepareting style and adolescent smoking and driking. Addictive Behaviors. 2012; 37: 353-356.

22. Ozner EJ, Flores E,Tschann JM, Pasch LA. Parenting style, depressive syntoms, and substance use in mexican American adolescents. Youth & Society 2013; 2-24

23. MartínezI, Fuentes MC, García F, Madrid I. El estilo de socialización familiar como factor de prevención o riesgo para el consumo de sustâncias y otros problemas de conduta em los adolescentes españoles. Addiciones 2013; 25 (3): 235-242.

24. Benchaya MC, Bisch NK, Moreira TC, Ferigolo M, Barros HM. Nonauthoritative parents and impacto n drug use: the perception of adolescent children. Jornal de Pediatria 2011; 87 (3): 238-244.

25. Sorkhabi N. Applicability of Baumrind's parent typology to collective cultures: Analysis of cultural explanations of parent socialization effects. Int J Behav Develop 2005; 29: 552-563.

26. Macarini MS, Dal Forno MG, Minetto MFJ, Vieira ML. Práticas Parentais: uma revisão da literature brasileira. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 2010; 62 (1): 119-130.

27. Steinberg L, Silk JS. Parenting adolescents. In: Bornstein MH, editor. Handbook of parenting: Vol. 1: Children and parenting. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates; 2002; 103-133.

28. Steinberg L, Morris AS. Adolescent development. Annual Review of Psychology. 2001; 52:83-110.

29. Lamborn SD, Felbab AJ. Applying ethnic equivalence and cultural values models to African American teens´ perceptions of parents. Journal of Adolescence; 2003; 26, 605-622.
adolescencia adolescencia adolescencia
GN1 © 2004-2017 Revista Adolescência e Saúde. Fone: (21) 2868-8456 / 2868-8457
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente - NESA - UERJ
E-mail: secretaria@adolescenciaesaude.com