Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 1 - Jan/Mar - 2017

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Páginas 7 a 13


Oficinas de artes visuais para adolescentes em situação de risco social: uma possibilidade para ações em promoção de saúde

Visual arts workshops for teens in social risk: a possibility for actions in health promotion

Talleres de artes visuales para adolescentes en situación de riesgo social: una posibilidad para acciones en promoción de salud


Autores: Berliete Bolzani1; Cléria Maria Lobo Bittar2

1. Mestre em Promoção da Saúde. Docente do curso de Artes Visuais da Universidade de Franca (UNIFRAN). Franca, SP, Brasil
2. Pós-Doutora pela Universidade de Valencia (UV). València, Espanha. Doutora em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Franca, SP, Brasil. Docente do Programa de Pós-graduação em Promoção da Saúde e do curso de Psicologia da Universidade de Franca (UNIFRAN). Franca, SP, Brasil

Cléria Maria Lobo Bittar
Universidade de Franca
Av. Dr. Armando Sales de Oliveira, 201, Parque Universitário
Franca, SP, Brasil. CEP: 14404. 600
profa.cleriabittar@gmail.com

Recebido em 01/08/2015
Aprovado em 26/09/2015

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Como citar este Artigo

Descritores: Promoção da saúde, arte, adolescente, vulnerabilidade social.
Keywords: Health promotion, art, adolescent, social vulnerability.
Palabra Clave: Promoción de salud, arte, adolescente, vulnerabilidad social.

Resumo:
OBJETIVO: O objetivo do presente estudo foi desenvolver oficinas de artes visuais com a finalidade de empoderamento e desenvolvimento de habilidades pessoais em adolescentes em situação de vulnerabilidade social no município de Franca (SP).
MÉTODOS: Foram realizadas 60 oficinas de artes visuais, uma vez por semana, com um grupo de 18 adolescentes (11 - 15 anos) de ambos os sexos, assistidos por uma ONG.
RESULTADOS: As atividades desenvolvidas nas oficinas possibilitaram aos adolescentes maior assertividade, melhorando a autopercepção e a habilidade em discorrer sobre diversos assuntos com maior clareza, sabendo identificar suas necessidades e seus limites. Inicialmente havia uma dificuldade em se expor e trabalhar em grupo, o que demandou a atuação da pesquisadora para que enriquecesse o vínculo de confiança entre esta e os participantes, e entre eles. Estabeleceram-se no grupo parcerias pautadas em confiança, respeito, atenção e escuta, aproximando a pesquisadora do grupo e melhorando as interações entre os participantes, o que aumentou o respeito e a disponibilidade para com o outro.
CONCLUSÃO: Os participantes demonstraram maior interesse nos cuidados consigo e com sua aparência pessoal, além de terem modificado sua percepção em relação ao outro. Isto sugere que as oficinas de artes visuais melhoraram as habilidades sociais, emocionais e cognitivas, auxiliando-os a lidarem melhor com as situações do cotidiano. Trata-se de uma estratégia que está em consonância com os princípios da Promoção da Saúde conforme preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Abstract:
OBJECTIVE: The aim of this study was to develop visual arts workshops for the purpose of empowerment and development of personal skills in adolescents in situations of social vulnerability in the city of Franca (SP).
METHODS: Were held 60 visual arts workshops, once a week, with a group of 18 adolescents (11-15 years) of both sexes, assisted by an NGO.
RESULTS: The activities developed in the workshops allowed the teenagers greater assertiveness, improving self-awareness and ability to discuss various issues more clearly and identify their needs and limits. Initially there was a difficulty in exposing and working in a group, which required the researcher's action to enrich the bond of trust between the participants. It was settled in the group guided partnerships on trust, respect, attention and listening, bringing the group closer to the researcher and improving the interactions between participants, which increased the respect and availability to each other.
CONCLUSION: The participants showed more interest in personal care and self-appearance, and have modified their perception of each other. This suggests that the visual arts workshops improved social, emotional and cognitive skills, helping them to cope better with the everyday situations. It is a strategy in line with the principles of Health Promotion as recommended by the World Health Organization (WHO).

Resumen:
OBJETIVO: El objetivo del presente estudio fue desarrollar talleres de artes visuales con la finalidad de adjudicación y desarrollo de habilidades personales en adolescentes en situación de vulnerabilidad social en el municipio de Franca (SP).
MÉTODOS: Fueron realizados 60 talleres de artes visuales, una vez por semana, con un grupo de 18 adolescentes (11 - 15 años) de ambos sexos, asistidos por una ONG.
RESULTADOS: Las actividades desarrolladas en los talleres posibilitaron a los adolescentes mayor apreciación, mejorando la autopercepción y la habilidad en discurrir sobre diversos asuntos con mayor claridad, sabiendo identificar sus necesidades y sus límites. Inicialmente había una dificultad en exponerse y trabajar en grupo, lo que demandó la actuación de la investigadora para que enriqueciera el vínculo de confianza entre ella, los participantes, y entre ellos. Se establecieron en el grupo alianzas pautadas en confianza, respeto, atención y recepción, aproximando a la investigadora al grupo y mejorando las interacciones entre los participantes, lo que aumentó el respeto y la disponibilidad para con el otro.
CONCLUSIÓN: Los participantes demostraron mayor interés en la atención consigo y con su apariencia personal, además de haber modificado su percepción con relación al otro. Esto sugiere que los talleres de artes visuales mejoraron las habilidades sociales, emocionales y cognitivas, auxiliándolos a manejar mejor las situaciones de lo cotidiano. Se trata de una estrategia que está en consonancia con los principios de la Promoción de Salud, según recomienda la Organización Mundial de Salud (OMS).

INTRODUÇÃO

A promoção da saúde pode ser definida como o processo de capacitação da comunidade para controlar os determinantes da saúde e para uma maior participação popular no processo de decisões, e defendeque os determinantes da saúde favoreçam a saúde e a igualdade de oportunidades através da capacitação e a mediação entre diferentes interesses1,2. Dessa forma, a responsabilidade sai dos centros de saúde e se estende para as comunidades, os ambientes familiares, as escolas, ONGs, capacitando a comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo2.

Pensando na adolescência como um período de profundas alterações fisiológicas, psíquicas e emocionais, e na importância do entorno social para a adoção de hábitos saudáveis, a arte é vislumbrada como uma possibilidade de estratégia de Promoção da Saúde. Esta permite a ressignificação das normas sociais e culturais que imprimem características na personalidade do adolescente, a partir de sua relação com a família, a escola e com os outros3,4.

A compreensão da vulnerabilidade do adolescente refere-se ao contexto em que vive e as situações a que se expõe. Dessa forma, essa vulnerabilidade deve ser levada em conta nas decisões de ações de promoção e educação em saúde do adolescente 5.

Este grupo etário está sujeito às situações de risco tal como homicídios, acidentes, suicídios e complicações decorrentes do HIV, além dos danos decorrentes da pobreza, desemprego na família e pouca ou nenhuma escolaridade6, estando constantemente influenciados pela mídia e pelo consumo. Desde cedo, têm contato com mensagem sobre sexo, violência, uso e abuso de drogas e álcool7.

Diante do exposto, acredita-se que a arte possa ser pensada como um instrumento a favor da criação de habilidades sociais e pessoais, capaz de oferecer ao adolescente a possibilidade de engajar-se em uma atitude mais proativa e reflexiva, buscando favorecer o desenvolvimento do potencial criador, provocando as transformações necessárias para ampliar a percepção e a visão de mundo8,9.

Ao pintar uma tela, uma folha ou até mesmo uma parede, ele amplia sua relação com o mundo de forma espontânea, adquirindo uma sensibilidade e capacidade de lidar com outras expressões10. A arte possibilita o equilíbrio entre o intelecto e as emoções, através de sua mediação procura-se inconscientemente o que não está bem dentro de si e pode-se desenvolver o senso de independência, liberdade, democracia, maturidade emocional e intelectual, enfim, a própria personalidade em seus múltiplos aspectos11.

A arte cria condições para o desenvolvimento de habilidades pessoais e sociais, tais como: habilidades sociais de comunicações, de civilidade, de assertividade, de direito e cidadania, de empatia, de trabalho, e de expressão de sentimento positivo, além de autocontrole, expressividade emocional, fazer amizades, solução de problemas e habilidades acadêmicas12,13 que permitem interações mais satisfatórias nas diferentes áreas sociais da vida, provocando mudanças de estilo de vida e adoção de comportamentos mais saudáveis14. Um instrumento favorável, portanto, à adoção de estilos de vida que reflitam escolhas por hábitos mais saudáveis, consoante com as premissas da Promoção da Saúde15.

O objetivo deste trabalho foi oferecer oficinas de artes visuais para adolescentes em situação de vulnerabilidade social com a finalidade de estimular o empoderamento e o desenvolvimento de habilidades sociais, além da adoção de uma postura pessoal mais crítica e reflexiva sobre suas escolhas pessoais.


MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo, que prima pelo estudo do significado individual e coletivo dos fenômenos abordados16, em que foram oferecidas oficinas de Artes Visuais a um grupo de adolescentes em situação vulnerabilidade social de uma Organização Não Governamental (ONG) da cidade de Franca (SP), onde se propõe combater a exclusão social por meio de atividades educativas.

Participaram deste estudo 18 adolescente, cujos pais ou responsáveis assinaram os termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Dentre esses, oito eram do sexo feminino e 10 do sexo masculino, com idade entre 11 e 15 anos, e todos vieram encaminhados pelo CRAS - Centro de Referência de Assistência Social e o CREAS - Centro de Referência Especializado de Assistência Social e Conselho Tutelar.

O projeto teve parecer favorável à sua realização pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição locus da pesquisa, com o parecer de nº 634.883. Todos os passos da investigação seguiram a Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, sobre os preceitos éticos de estudos com seres humanos.

Ao longo da pesquisa foram anotadas em um diário de campo as observações relacionadas às oficinas e outras atividades como: reuniões, conversas informais com dirigentes e com o corpo técnico e administrativo. O conjunto das informações colhidas foi utilizado para desenvolver e enriquecer as análises e discussões relativas à pesquisa.

Durante as oficinas foi organizado um portfólio das atividades realizadas com fotos da produção de arte dos participantes, que foi disponibilizado a todos do grupo. Os registros foram construídos na composição de vários olhares: da pesquisadora, dos adolescentes e dos estagiários que foram acompanhando o processo das oficinas. Para manter a fidelidade às falas originais, manteve-se na transcrição, tal como foram enunciadas.

Uma das propostas foi proporcionar aos participantes compreender as três etapas do processo artístico da metodologia triangular17: a produção (criação), apreciação (fruição) e a contextualização (reflexão). Buscou-se abrir um espaço para que pudessem falar sobre seus sonhos, sua cultura, sua realidade, com seu modo singular de se expressar e por intermédio das artes.

As oficinas de artes foram realizadas pela própria pesquisadora, com o auxílio de estagiários do curso de Artes Visuais da Universidade de Franca. Cada oficina trabalhou com um tema motivador, possibilitando novas aprendizagens e olhares sobre a arte, a técnica, o material utilizado e sobre as relações desses com seu entorno.


ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

O início a participação não foi fácil, além das atitudes desafiadoras e provocativas dos adolescentes, existia uma falta de interesse na realização das atividades, pois os adolescentes não gostaram da presença de estagiários que acompanharam a pesquisadora durante a oficina.

"(...) Eu não gostei desse professor ele é muito chato" (P1, 11a, Fem.)

"(...) Não tá me ajudando, só dá bronca" (P15, 12a, Fem.)

"(...) Não vou fazer nada se ele vier aqui" (P15, 12a, Fem.)


A agressividade entre os participantes se revelava nos gestos, nas expressões e na maneira de manusear os materiais artísticos.

[O que você está fazendo? - pesquisadora]

- "Não é da sua conta!" (P18, 13a, Masc.)

"Que bosta, sua baleia" (P2, 12a, Masc.) [falando para outro participante]

[Quem tirou o material do lugar? - pesquisadora]

- "Não fui eu" (P2, 12a, Masc.)

- "Foi sua avó" (P10, 12a, Masc.) [em tom de ironia]


Durante as primeiras oficinas os participantes se demonstraram tímidos, quase não falavam sobre o trabalho. Então foi proposto que ao final de cada atividade fizessem uma descrição simples sobre seu percurso, sua produção, o que foi feito e o porquê da escolha. A primeira oficina realizada no espaço da ONG foi a de desenho, com a temática do autorretrato. Foi utilizado como referência autorretratos de Picasso, Frida e Modigliani.

A falta de conhecimento prévio sobre arte, somada à falta de leitura e de hábitos culturais (frequência à museus, teatros, etc.), tornou necessária a introdução de noções básicas sobre arte, mas a curiosidade e a vontade de aprender do grupo possibilitou que houvessem mudanças em seu comportamento, levando-os a assimilarem aspectos importantes da arte contemporânea em pouco tempo.

"Só olho para um trabalho se ele for bonito, do contrario não me interesso" (P10, 12a, Masc.)

"Nossa, agora quando eu vejo um trabalho de arte, ou quando tem alguma coisa na escola, ou quando a gente sai com a psicóloga, eu sei que eu tenho que parar para olhar, para entender, pra ver se eu gosto ou não" (P16, 11a, Masc.)


Dessa forma, os adolescentes tomavam consciência do seu aprendizado (re)significando-o, verificando quais os motivos que impediram ou auxiliaram a contemplação dos objetivos planejados. Percebe-se uma maior assimilação de noções artísticas a partir da oficina de colagem.

"Acontecia as coisas na escola ou na praça e eu nem prestava a atenção, não entendia nada mesmo" (P8,12a,Masc.)

"Agora quando eu vejo um trabalho de arte, eu sei que eu tenho que parar para olhar, pra ver se eu gosto ou não" (P16, 11a, Masc.)


Algumas falas revelaram também um pouco sobre ambiente em que tais adolescentes estão inseridos, das dificuldades, da violência que vivenciam.

"(...) Hoje eu quase não vim, minha mãe não tinha dinheiro para me dar". (P1, 11a. Fem.)

"(...) Hoje dormi até meio dia, tomei banho e vim para cá. Estou suspenso..." (P7, 12a. Masc.)


A valorização de sua produção em um espaço grande, sem críticas, sem julgamento atua no reforço de sua autoestima. Os adolescentes têm a possibilidade de trazer elementos de seu cotidiano, de mostrar para os outros esse cotidiano, favorecendo as relações pessoais e interpessoais.A arte, como uma linguagem aguçadora dos sentidos, transmite significados que não podem ser transmitidos através de nenhum outro tipo de linguagem, tais como a discursiva e a científica18.

Além da evolução da técnica, percebeu-se também, mudanças no vocabulário, onde diminuíram os palavrões, as gírias e a utilização de símbolos que fazem apologia ao uso de drogas e a violência. Os encontros passaram a ser mais produtivos e alegres, estimulando a convivência e o prazer pelas artes. Havia curiosidade mútua com relação aos trabalhos realizados, havia também troca de brincadeiras, de emoções, de sensações e questionamentos, expressos em frases como:

"(...) Nossa como você conseguiu fazer a boca" (P1, 12a, Fem.)

"(...) Eu não consigo fazer o nariz" (P15, 11a, Masc.)

"(...) Nossa! que pornografia que você fez!" (P12, 12a, Fem.)

"(...) Vou tirar da cabeça o meu desenho" (P8, 12a, Masc.) [- o aluno explica que irá criar seu próprio desenho e não simplesmente copiar.]


Do progredir do conhecimento referente ao uso do material à construção dos desenhos, pode-se observar que muitas referências pessoais estiveram presentes nos trabalhos. Durante as oficinas, trabalharam-se as diferenças de conceituação do gosto estético, trazendo para as propostas um número significativo de imagens, suporte e técnicas diferentes para a análise e reflexão. Produziu-se um rompimento do isolamento desses adolescentes em relação ao social, permitindo uma inserção no mundo, aumentando seu desejo pela vida, pelo trabalho e criação, reinventando seu cotidiano.

"(...) A gente pode apresentar os trabalhos em algum lugar, pode mostrar nosso trabalho, aí os colegas da gente vem ver a gente." (P9, 13a, Masc.)

"(...) Quero participar da exposição com muitos trabalhos." (P18, 13a, Masc.)

"(...) Quando nós vamos lá na faculdade de novo? É muito bom fazer as atividades lá." (P13, 14a, Fem.)

"(...) Gostei de fazer meu o trabalho" (P15, 11a, Masc.)


Embora algumas contribuições estejam associadas às atividades artísticas, os aspectos mais ressaltados são aqueles que proporcionam benefícios de ordem socioafetivas.

"(...) Gosto de vir aqui, gosto de desenhar. É uma tranquilidade vir aqui, eu nem sabia que eu sabia desenhar". (P 5,12a, Fem.)

"(...) Mostrei o meu desenho para minha mãe, ela achou que ficou bonito, falou que eu tenho talento". (P7, 12a, Masc.)

"(...) Tenho melhorado até na escola, lá, nós também temos aula de arte e aí eu sei mais que os outros, isso é legal!" (P17, 15a, Masc.)


A experiência do trabalho das oficinas torna-se positiva quando uma de suas funções é também o de intervir no campo da cidadania, contribuindo como possibilidade de transformação da realidade atual19. Durante a atividade de pintura mural, houve um conflito com a vizinha da ONG que reclamou da pintura devido ao fato do muro fazer divisa com a sua casa. Os participantes contestaram, questionando o motivo da reclamação, já que o muro também fazia partes dos limites da ONG.

Elas constroem também uma realidade compartilhada que ganha consistência a partir da interação entre seus participantes. As ações socioeducativas devem exercer uma influência sobre a vida do adolescente, favorecendo a construção de um projeto de vida, um pertencimento social e o respeito à diferença, possibilitando que assumam um papel de "sujeito" na sua dinâmica social e comunitária.

Pensar na saúde do adolescente implica em se pensar em práticas de educação, dentre outras propostas, que se voltem para suas necessidades, quase sempre negligenciadas pelas instituições e sociedade em geral, sobretudo em relação aos adolescentes de menor renda. Pouco se pergunta sobre suas necessidades, suas vivências e valores a serem privilegiados em sua formação, perdendo-se a capacidade de diálogo com esses20.

As oficinas foram propostas de maneira diferente da educação formal em artes como ocorre na escola e/ou cursos de artes. A intenção não foi ser um modelo alternativo, mas complemento as propostas da escola, e tem como intuito estabelecer parcerias, colaborando para uma formação cidadã21.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante as oficinas o conhecimento e as relações foram construídos em meio a tentativas de erros e acertos, o que só foi possível devido ao ambiente seguro que propiciou o surgimento de vínculos e trocas. Falavam de tudo, da vida, família, de suas histórias, seus sonhos. As oficinas foram, de fato, encontros.

A adoção de práticas educativas de caráter dialógico, com vínculos de caráter libertador, fundamentados na confiança e no respeito, é capaz de promover a ativa participação dos adolescentes, para que estes se sintam protagonistas, corresponsáveis por sua saúde e melhoria de sua qualidade de vida. Permite a existência do ser individual dentro do coletivo, percebendo as contradições pessoais e grupais e a construção de novos caminhos.

As oficinas de artes começaram a ser vista pelos participantes com múltiplos propósitos, percebiam que podiam desenvolver certas habilidades em determinadas modalidades artísticas, adotaram comportamentos socialmente aceitos. Perceberam novas possibilidades para expressar formas de sentir, querer e agir, através da produção de suas obras. Passaram a se referir de maneira mais amigável um em relação ao outro, ora se cumprimentando, dividindo, trocando, cuidando dos materiais e demonstrando interesse em querer participar.

Essa pesquisa buscou mostrar a viabilidade da arte como um instrumento para ajudar no desenvolvimento das habilidades sociais, empoderamento, e assim auxiliar na transformação individual e social dos adolescentes. Espera-se que essa experiência influencie outros estudos que possam avaliar e propor novas possibilidades da arte na educação e nas políticas públicas, e com isso aprimorar o resgate da autoestima, da competência psicossocial do respeito interpessoal, promovendo saúde e estimulando o desenvolvimento tanto pessoal quanto da cidadania.

As oficinas possibilitaram vivências que, ao serem compartilhadas, proporcionaram um aprendizado pessoal e grupal, favorecendo o autoconhecimento, a reflexão, o aprimoramento das competências necessárias para a resolução de problemas cotidianos, desenvolvendo a consciência crítica, o exercício da escuta e compreensão do outro como um ser diferente e a tomada de decisão de modo consciente e crítico. Além disso, contribuiu para aumentar a motivação e o interesse pelas atividades, facilitando as discussões e proporcionando a integração do grupo.

Contribuiu para que os adolescentes pudessem falar sobre si mesmos, sobre seus sentimentos, suas crenças e atitudes. Os aspectos afetivos, cognitivos e sociais que influenciam o comportamento humano foram contemplados nessa intervenção, caracterizando-a como ferramenta para educação e da promoção da saúde.


NOTA

Este artigo é baseado em pesquisa realizada para obtenção do título de mestre em Promoção da Saúde, defendida pela autora principal deste estudo, sob orientação da segunda autora.


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