Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 1 - Jan/Mar - 2017

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Páginas 14 a 21


Violência sexual em distintas esferas relacionais na vida de adolescentes

Sexual violence in different relational spheres in the life of teenagers

Violencia sexual en distintas esferas de relación en la vida de adolescentes


Autores: Lusanir de Sousa Carvalho1; Simone Gonçalves de Assis2; Thiago de Oliveira Pires3

1. Doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (FIOCRUZ) - (Professor Assistente) - Psicologia - Universidade Estácio de Sá (UNESA) e Veiga de Almeida (UVA). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
2. Doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, FIOCRUZ - (Pesquisadora Titular e Coordenadora Executiva do Centro Latino Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli, da ENSP/FIOCRUZ). Centro Latino Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca - Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
3. Mestrado em Epidemiologia em Saúde Pública (Doutorado em andamento em Engenharia Biomédica) - Engenharia Biomédica - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Lusanir de Sousa Carvalho
Avenida Ayrton Senna, nº 111, apto. 704. Barra da Tijuca
Rio de Janeiro-RJ. CEP. 22793-000
lusanir-carvalho@uol.com.br

Recebido em 06/08/2015
Aprovado em 26/09/2015

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Como citar este Artigo

Descritores: Violência sexual, adolescente, estudantes, sexualidade.
Keywords: Sexual violence, adolescent, students, sexuality.
Palabra Clave: Violencia sexual, adolescente, estudiantes, sexualidad.

Resumo:
OBJETIVO: Apresentar os resultados da investigação sobre o panorama da violência sexual entre namorados adolescentes e escolares, em dez cidades brasileiras.
MÉTODOS: A amostra foi composta por 3696 adolescentes de ambos os sexos, estudantes do 2º ano do ensino médio, em 2007-2008. Procedimentos metodológicos foram subsidiados pela aplicação do questionário (CADRI) e analises estatísticas.
RESULTADOS: Os resultados obtidos apontaram que 10% dos entrevistados sofreram violência sexual em pelo menos uma esfera relacional em que vive: na relação com os pais, com o atual ou antigo namorado ou pessoa com quem "ficou" ou com pessoas da escola/comunidade. Como encontrado na literatura, resultados comprovaram que a violência sexual na adolescência, pode ser cometida por conhecidos e, de forma frequente por parceiros amorosos.
CONCLUSÃO: A violência sexual quando presente no namoro expõe os adolescentes a riscos inclusive de revitimização, e aponta para a perspectiva de pensar em ações que visem à promoção da saúde e prevenção da violência sexual junto a esta faixa etária.

Abstract:
OBJECTIVE: Present the results of an investigation about an overview of sexual violence among teenage boyfriends in schools of ten brazilian cities.
METHODS: The sample consisted of 3696 teenagers of both sexes, students from the 2nd year of high school between 2007-2008. The method used was based on the application of the CADRI questionnaire and statistical analysis.
RESULTS: The results showed that 10% of the interviewed experienced sexual violence in at least one relational sphere where they live: relationship with parents; current or former boyfriend or person who they dated; or people of the school / community. Our results are consistent with the literature that have demonstrated that sexual violence in adolescence can be committed by acquaintances and are often committed by loving partners.
CONCLUSION: The presence of sexual violence in a relationship exposes teenagers to risks including revictimization, a fact that lead us to think about the necessity of actions for promotion of health and prevention of sexual violence for this age group.

Resumen:
OBJETIVO: Presentar los resultados de la pesquisa sobre el panorama de violencia sexual entre enamorados adolescentes y escolares, en diez ciudades brasileñas.
MÉTODOS: La muestra fue compuesta por 3696 adolescentes de ambos sexos, estudiantes del 2º año de la enseñanza media, en 2007-2008. Procedimientos metodológicos fueron subvencionados por la aplicación del cuestionario (CADRI) y analices estadísticos.
RESULTADOS: Los resultados obtenidos apuntaron que 10% de los entrevistados sufrieron violencia sexual en por lo menos una esfera de relacionamiento en el que vive: en la relación con los padres, con el actual o antiguo enamorado o persona con quien "se quedó" o con personas de la escuela/comunidad. Como se encuentra en la literatura, resultados comprobaron que la violencia sexual en la adolescencia puede ser cometida por conocidos y, de forma frecuente, por compañeros amorosos.
CONCLUSIÓN: La violencia sexual, cuando se presenta en un relacionamiento, expone a los adolescentes a riesgos incluso de revictimización, y apunta a la perspectiva de pensar en acciones que tengan por objetivo la promoción de salud y prevención de violencia sexual junto a esta franja etaria

INTRODUÇÃO

A violência sexual atinge todas as classes sociais com altas taxas de ocorrência especialmente entre adolescentes, com predomínio junto ao sexo feminino1-3. Denominada como "epidemia escondida" em função do hiato entre a frequência de ocorrência e a pouca divulgação4. Por ser uma violência interpessoal, chamamos atenção para as situações em que essa modalidade de violência, através das relações de gênero, é legitimada e naturalizada nas relações afetivo-sexuais entre casais5.

A violência sexual costuma ocorrer em conjugação com outras formas de violência6-8. Um fator reconhecido por aumentar a vulnerabilidade na vida adulta é ter sido vítima de violência sexual na infância e na adolescência6,8. Consequentemente, ter sido exposto a diferentes modalidades de violência no namoro representa importante fator de risco de revitimização, considerando a imaturidade emocional, a inexperiência relacional e iniciação à sexualidade5.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a violência como um problema de saúde pública4. O termo violência sexual utilizado neste estudo será considerado seguindo as diretrizes da OMS (2002)4. A violência entre casais adolescentes é referenciada na literatura internacional como "dating violence" ou "courtship violence", constituindo-se um dos fatores de risco para a revitimização na vida adulta envolvendo mulheres9.

A relação desigual entre as fontes que fornecem dados sobre a violência sexual e a magnitude do problema, demonstram a invisibilidade da violência sexual no namoro6, 8, 11. Estes fatores estimulam a subnotificação do fenômeno, comum em todo o mundo. Dentro da relevância do tema, este artigo descreve o panorama da violência sexual entre namorados, adolescentes e escolares, em dez cidades brasileiras.


MÉTODO

Os dados apresentados neste estudo são provenientes de estudo multicêntrico realizado com 3696 adolescentes, na faixa de 15-19 anos, de ambos os sexos, estudantes do 2o ano do ensino médio das escolas públicas estaduais e particulares das capitais de dez estados brasileiros, entrevistados entre anos de 2007 e 2008. O estudo foi efetuado pelo Centro Latino Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli7.

A aferição de violência sexual apresentada nos resultados deste estudo está baseada na construção de uma variável composta por quatro itens que descrevem situações que o adolescente poderia ter sofrido violência sexual. A presença de pelo menos um destes eventos a caracteriza:

▪ Sofrer violência sexual do parceiro afetivo atual: "a pessoa com quem 'fica' ou namora atualmente ou no último ano forçou você a fazer sexo quando não queria?".

▪ Sofrer violência sexual do parceiro afetivo anterior: "já sofreu agressão sexual de outros(as) namorados(as) ou pessoa com quem "ficou" ao longo da vida?".

▪ Ter experiência sexual com pais/responsáveis: "a sua relação com seus pais /responsáveis já envolveu alguma experiência sexual?".

▪ Sofrer experiência sexual na escola/comunidade: "você já sofreu alguma agressão sexual na sua escola / comunidade?".


A amostra foi dimensionada para se obter estimativas de proporção, com erro absoluto de 0,10, nível de confiança de 95% de ocorrência de vitimização entre namorados igual a 70%. Utilizou-se amostragem conglomerada multi-estágio, com seleção em duas etapas: (1) escolha das escolas, com probabilidade de seleção proporcional à quantidade de alunos (PPT sistemática) de 2° ano em cada um dos estratos; (2) seleção aleatória de uma turma por escola, e aplicação do questionário para todos os alunos. O plano amostral foi delineado com o objetivo de encontrar menor tamanho amostral com maior precisão e poder de inferência para a população estudantil de 2° ano das dez capitais. Devido à seleção por conglomerados, foi incluído um efeito de desenho de pelo menos 2, a fim de se manter o mesmo nível de precisão de uma amostra aleatória simples (AAS). A amostra foi composta por alunos de Manaus (253), Porto Velho (307), Recife (348), Teresina (493), Brasília (352), Cuiabá (376), Rio de Janeiro (341), Belo Horizonte (361), Florianópolis (351) e Porto Alegre (314).

Foi aplicado questionário anônimo aos alunos em sala de aula composto de algumas escalas e indicadores. Nas questões do questionário aplicado incluiu-se a escala CADRI (Conflict in Adolescent Dating Relationships Inventory) - desenvolvida por Wolfe et al. (2001)13 e questões sobre violência sexual e em relacionamentos anteriores. Foi realizada a adaptação transcultural dessa escala para a língua portuguesa7.

Na análise dos dados da CADRI, cada forma de violência foi aferida pela soma dos escores dos itens. categorizou-se como positiva a presença de pelo menos uma variável indicando que houve violência sexual. Quando o escore da soma dos itens foi zero, ficou caracterizado que a violência nunca ocorreu.

Os dados foram analisados através de tabelas de contingência entre a variável composta que afere violência sexual e as demais variáveis investigadas: sexo, idade e as formas de violências aferidas pela CADRI (física e psicológica). Variáveis contínuas foram apresentadas através de médias e sua associação com a variável dependente foi investigada através da correlação de Somers' D. A análise de associação entre as diversas variáveis categóricas e sexo foi realizada por uma variação do teste de qui-quadrado de segunda ordem de Rao-Scott e p-valores<0,05 indicaram associações estatisticamente significativas. O mesmo nível de significância foi utilizado para todos os demais cruzamentos realizados. Os dados foram analisados por meio de descrição da frequência absoluta e relativa segundo os diferentes estratos (cidade ou rede de ensino). Adicionalmente foram descritos os intervalos de confiança (IC 95%) para proporções e médias.

Utilizou-se na redação do artigo, o termo 'namoro' de forma geral, envolvendo também relações esporádicas e passageiras, que podem durar dias, horas ou até minutos ("ficar", "pegar"). A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da ENSP/Fiocruz e aprovada sob o número 07/08 - CAAE: 0011.0.031.000-08.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

Violência sexual em distintas esferas relacionais

A violência sexual no namoro é mundialmente estimada, considerando que o número de registros é inferior ao número de pessoas que foram vitimizadas14. É raramente denunciada em função de sentimento de medo e vergonha da vítima, ao ter que reconhecer publicamente o parceiro íntimo como agressor.

Dos adolescentes analisados neste estudo, verificou-se que 10,1% sofreram violência sexual em pelo menos uma esfera relacional em que vive: na relação com os pais, com o atual ou antigo namorado ou com pessoas da escola/comunidade. Deste total, 1,5% dos adolescentes entrevistados vivenciaram mais de uma situação de violência sexual dentre as indagadas.

Observando-se isoladamente as quatro questões que compuseram a variável composta que aferiu violência sexual, tem-se o quadro 1.




A figura 1 apresenta a distribuição dos 10,1% de adolescentes que sofreram violência sexual em pelo menos uma esfera relacional dentre as apresentadas na tabela 1, segundo o sexo. As meninas, embora tenham informado menos essa forma de vitimização, o fizeram em mais esferas: 7,5% em apenas uma situação (na família, escola, comunidade, com o parceiro atual ou anterior), 0,7% em duas dessas vivências relacionais, 0,6% em três e 0,2% nas quatro dimensões relacionais indagadas.


Figura 1. Distribuição dos adolescentes segundo vivência de violência sexual em pelo menos uma esfera relacional, segundo o sexo (N homens=1363; N mulheres=1982).



Conforme descrito na literatura, estes resultados comprovam que a violência sexual é comum entre adolescentes6,7, podendo ser cometida por conhecidos e, de forma frequente, por parceiros amorosos8,11,15.

Os meninos relataram sofrer mais violência sexual (12,5%) do que as meninas (8,7%). Estes dados apontam para uma característica distinta da que foi observada na literatura, que descreve que adolescentes do sexo feminino revelaram sofrer mais violência sexual do que os do sexo masculino4,9,16,17.

Em relação à idade, é maior a prevalência de violência sexual entre os jovens pertencentes à faixa etária entre os 17-19 (entre 13% e 19%) do que entre os adolescentes mais novos (entre 5-8%). Estes resultados evidenciam maior vulnerabilidade à violência sexual nesta faixa etária, confirmando dados de outras investigações4, 6.

Dentre os entrevistados, quase a metade das meninas e 40,3% dos meninos referiram ter sido tocados sexualmente mesmo quando não queriam. No entanto, tanto meninas quanto meninos referiram já terem tocado o parceiro sem consentimento. Observou-se que 27,7% das meninas e 15% dos meninos relataram terem sido ameaçados na tentativa de fazer sexo com o parceiro. Igual realidade foi observada quando perguntado se já haviam ameaçado os parceiros numa tentativa de fazer sexo com ele. O grupo que sofre violência sexual também perpetra ameaças que visam forçar a existência de relações sexuais. Estes resultados indicam a presença de uma relação afetivo-sexual em que os comportamentos sexuais são invasivos e bilaterais para ambos os sexos17. Ambos os sexos foram vítimas e perpetradores de violência sexual, estando assim vulneráveis a outras formas de violência.

Violência sexual nas esferas relacionais e violência física entre namorados

Entre os meninos a violência física está presente em 26,1% dos casos, contra 18,8% entre meninas também vitimizadas sexualmente. Verificou-se associação entre sofrer violência sexual na família, comunidade/escola e no namoro/'ficar' e ser vítima de violência física no namoro. Observou-se associação entre sofrer violência sexual e ter parceiro (a) que joga algo sobre o entrevistado em ambos os sexos. Assim como ter parceiro (a) que bate, chuta ou dá socos no (a) entrevistado (a). Os entrevistados que relataram ter recebido tapas e puxões nos cabelos de seus parceiros, são, em maior parte, meninas. O mesmo fato ocorreu em relação a ser empurrado ou sacudido pelo parceiro, que mostra associação com vitimização sexual apenas entre as meninas. Ressalta-se a elevada frequência de vitimização por violência física nos relacionamentos, informação dada por ambos os sexos, com frequências que oscilam entre 12% e 27%, dependendo do tipo de agressão e do sexo informante.

Houve associação significativa entre sofrer violência sexual em alguma esfera relacional e perpetrar violência física sobre o(a) parceiro(a) (p= 0,003). 30,5% das moças que vivenciaram violência sexual são também perpetradoras de violência física, seja de forma rara, ocasional ou constante. No que se refere a bater, chutar ou dar socos no (a) parceiro(a), observou-se associação entre vivenciar violência sexual e perpetrar esses atos de violência física entre os meninos (p = 0,009). Entre entrevistados que dão tapas e puxões nos cabelos dos(a) parceiros (a), constatou-se que para ambos os sexos há mais relatos de perpetração dessa forma de agressão física dentre aqueles que também vivenciam violência sexual: p= 0,011 (meninas) e p= 0,049 (meninos). Mais meninas vitimizadas sexualmente (38,8%) agem com tal forma de violência física em comparação aos meninos em igual condição (19,2%).

Empurrar ou sacudir o(a) parceiro(a), mostrou associação com vitimização sexual apenas entre as moças: 24,2% das que sofreram violência sexual em uma esfera relacional empurraram e sacudiram seus parceiros. 11,5% dentre as meninas que não sofreram violência sexual tiveram tal comportamento.

Algumas práticas violentas utilizadas pelos adolescentes tendem a ser atribuídas como comportamentos passageiros e naturais, não sendo identificadas como condutas agressivas8, 10, 11. Segundo D'Oliveira et al. (2009)18, a prevalência de violência física e sexual em relações afetivo-sexuais é de 28,9% nos grandes centros urbanos. Tais dados sugerem uma melhor compreensão deste fenômeno.

Violência sexual nas esferas relacionais e violência psicológica entre namorados

Serão apresentados dados da associação entre a violência sexual em pelo menos uma esfera relacional e sofrer/praticar violência psicológica no namoro nas modalidades: ameaças, violência relacional e violência verbal/emocional.

Ameaças: quebrar ou ameaçar destruir algo de valor do parceiro, tentar amedrontá-lo de propósito, ameaçar bater ou jogar algum objeto no parceiro e ameaçar machucá-lo.

Observou-se associação entre ameaças sofridas e praticadas em adolescentes com vivência de violência sexual (p<0,05). Em ambos os sexos, constatou-se que os adolescentes são mais ameaçados de ter algo seu de valor destruído. Todavia, no sexo feminino há mais relatos de sofrer ameaças (12,3%) e de ameaçar a destruir algo de valor do parceiro (10,7% entre as que sofreram violência sexual e 4,1% no grupo não vitimizado sexualmente) do que no sexo masculino (6,7%). Dois tipos de ameaças são mais presentes apenas entre os rapazes vítimas de violência sexual: 'ele (a) tentou me amedrontar de propósito' (36,6% dos meninos vitimizados sexualmente, e 14,3% dentre os que não foram vitimizados sexualmente); e 'ele/ela ameaçou me machucar' (15,1% e 4,3%, respectivamente). Quase a metade dos rapazes (45,8%) que sofreram violência sexual em alguma esfera relacional assumiram a postura de tentar amedrontar o(a) parceiro(a) de propósito. Tal fato ocorreu em 15,9% dos rapazes no grupo não vitimizado sexualmente. Em relação às moças não houve associação nesta variável (p>0,05).

Quanto ao item 'ele/ela ameaçou bater em mim' ou 'jogar um objeto no parceiro', rapazes e moças foram mais vítimas destas formas de ameaça, com percentuais próximos (10,3% e 13,4% respectivamente). Sofrer violência sexual e ameaçar bater ou jogar alguma coisa no parceiro(a) mostrou-se associado em adolescentes do sexo feminino e masculino: dentre as mulheres (11,1%) observou-se maior frequência deste tipo de ameaça do que entre os homens (3,1%).

Notou-se que, ao relacionar-se com o outro, as ameaças vividas no contexto do namoro podem ser precursoras de outros tipos de violências. Para as meninas tanto na posição de vítimas como na de perpetradoras, as ameaças são respostas emocionais menos prevalentes. Neste sentido, deve-se considerar o que estes jovens pensam acerca do que pode ou não ser sentido como violento no âmbito de uma relação de namoro. No "manual do namoro"11, as normas que orientam a conduta dos namorados, nem sempre são identificadas e quando quebradas ou não internalizadas por um dos parceiros, podem ser geradoras de conflitos.

É um aspecto significativo para reflexão porque algumas destas adolescentes assumirão a responsabilidade da socialização dos filhos baseado nestes termos.

Violência Relacional: espalhar boatos sobre o parceiro(a), tentar virar os amigos contra ele(a) e dizer coisas para interromper a amizade.

Observou-se associação entre a violência sexual em alguma esfera relacional e sofrer e perpetrar violência no namoro (p= 0,000). A relação entre ser vítima de violência sexual e a atitude do parceiro de 'tentar virar os amigos contra' o adolescente entrevistado foi verificada tanto entre meninas (24,9%) quanto entre os meninos (23,3%). Entre os meninos, verificou-se associação entre sofrer violência sexual e ter um parceiro que disse coisas aos amigos do adolescente entrevistado, para virá-los contra ele (14%).

A violência relacional é a modalidade de violência psicológica menos comum entre os casais adolescentes, e nem sempre são representados como violência em relações afetivas8.

Violência verbal/emocional: provocar ciúmes, mencionar coisas ruins do passado, dizer coisas para deixar o outro com raiva, usar o tom de voz hostil, insultar o parceiro, ridicularizar na frente das pessoas, vigiar o outro, culpabilizar o parceiro pelos problemas e o acusar de paquerar com outras pessoas.

Houve associação entre sofrer violência sexual e ter parceiro(a) que fez algo para causar ciúmes, para ambos os sexos (p>0,05). Do total, 80,6% dos meninos e 69,4% das meninas relataram provocar ciúmes nos respectivos parceiros, sendo esta a forma de violência psicológica mais frequente e identificada entre os entrevistados. 66,8% referiram a atitude de dizer coisas ao parceiro(a) somente para deixá-lo(a) com raiva. No entanto, a maior parte das questões que aferem violência verbal/emocional se mostrou associada à vitimização por violência sexual entre as mulheres.

No grupo feminino vitimizado sexualmente, houve mais relatos de parceiros que mencionaram algo de ruim do passado (66,8%), disseram coisas somente para deixar com raiva (72,7%), falaram em um tom de voz hostil ou maldoso (65,8%), insultaram com depreciações (17,9%), ridicularizaram ou caçoaram na frente dos outros (13,8%), culparam a adolescente pelo problema (52,4%) e ameaçaram terminar o relacionamento (47,4%). As meninas com histórico de violência sexual sobressaíram em relação a sofrer violência verbal por parte dos parceiros afetivos, sugerindo a presença de padrões diferenciados entre os homens e mulheres, no qual as mulheres se sujeitam mais a manter relacionamentos com estas características.

A violência verbal sofrida pelos meninos se mostrou associada nos itens: 'vigiavam com quem e onde estava' (71,1%) e 'o acusaram de paquerar outra garota' (74,5%). A tônica do controle esteve presente por parte das namoradas. A frequência elevada de violência verbal demonstrou que esta é uma forma de comunicação muito comum entre os namorados com histórico de violência sexual, evidenciando a crença de que o ciúme é sinal de afeto8, 11, 15. Foi observado o quanto esta manifestação de violência é marcada por atribuições de poder, traduzindo o resultado das relações hierárquicas culturalmente demarcadas, tendo em vista a dificuldade encontrada em casais afetivo-sexuais de construírem uma relação mais igualitária19. É fundamental olhar como estas atitudes violentas são justificadas por padrões culturais naturalizados nas relações afetivas, refletindo práticas e linguagens muito frequentes entre os jovens, independente de sexo ou vitimização sexual, tornando-os mais vulneráveis a comportamentos violentos em relacionamentos futuros.

Importante destacar a associação da violência sexual com outras formas de violência, tais como a violência física e a psicológica, evidenciada também em outros estudos6, 8, 15. Reforçamos o fato de o adolescente ser configurado ora na categoria de vítima ora como perpetrador, sendo também exposto a outras formas de violência.

Torna-se necessário repensar as figuras vítima/perpetrador como construções simbólicas que atribuem ao masculino a imagem de violência, sem o essencialismo de alguns conceitos de gênero19. Tanto meninas quanto meninos estão sujeitos à violência sexual.


CONCLUSÃO

Pode-se constatar que a violência sexual é complexa e democrática - todos são vulneráveis, independente de sexo, classe social ou local de moradia. A adolescência é um período de elevada vulnerabilidade à violência sexual no namoro.

Esta pesquisa apontou que 10% dos adolescentes na faixa etária entre 15-19 anos já viveram a experiência da violência sexual em alguma esfera relacional em algum momento de suas trajetórias. Estes resultados evidenciaram os efeitos desta experiência de violência nesta etapa do ciclo vital, nos levando a refletir sobre a vulnerabilidade à outras formas de violência, tanto na posição de vítima como na de perpetrador no contexto de um relacionamento afetivo, devendo-se alertar para a predisposição à violência conjugal.

Destacou-se o sentimento de ciúmes como sendo comum entre os casais adolescentes. Provavelmente, as manifestações de ciúmes entre casais na adolescência, por serem uma violência verbal, constituem um aspecto da vulnerabilidade à violência sexual nesta faixa etária. Assim, vivenciar violência sexual neste momento torna estes adolescentes um segmento vulnerável da população, pois a própria violência os expõe a esses riscos, operando em várias dimensões. Quando o ato sexual ocorre no contexto de violência, as consequências podem ocorrer a curto, médio ou longo prazo.

É necessário investimento em políticas públicas intersetoriais no âmbito da assistência aos adolescentes de ambos os sexos vítimas de violência sexual. As redes de atendimento e os programas de capacitação profissional devem ser revisados constantemente.


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