Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 2 - Abr/Jun - 2017

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Páginas 24 a 39


O uso do celular por adolescentes: impactos nos relacionamentos

The use of cell phones by adolescents: impacts on relationships


Autores: Rinaldo Correr1; Maria Teresa Bijos Faidiga2

1. Doutorado em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo (USP). Docente no Programa de Pós-Graduação em Educação Sexual - Mestrado (UNESP-Araraquara). Professor da Fundação Educacional Dr. Raul Bauab de Jahu e Faculdades Integradas de Bauru (FIB)
2. Mestrado em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Graduanda em Psicologia pela Universidade do Sagrado Coração (USC). Bauru, SP, Brasil

Maria Teresa Bijos Faidiga
Rua Maria da Conceição Arantes Ramos, 4-77, Vila Nova Nise
Bauru, SP, Brasil. CEP: 17012-270
mteresa@bijos.adv.br

Recebido em 18/12/2015
Aprovado em 11/09/2016

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, telefones celulares, tecnologia da informação, psicologia do adolescente.
Keywords: Adolescent, cellular phones, information technology, Psychology, Adolescent.

Resumo:
OBJETIVO: Compreender o impacto do celular na atualidade, dando voz aos adolescentes para saber como é o acesso a essa tecnologia, como a utilizam e quais as consequências desse uso.
MÉTODOS: Pesquisa quantitativa com um delineamento de caráter exploratório.
RESULTADOS: O maior uso dessa tecnologia é para enviar mensagens, compartilhar fotos e fazer pesquisas na internet visando o esclarecimento de dúvidas. Os adolescentes desconhecem os riscos a que estão expostos na utilização do celular e fazem um uso intensivo do equipamento em virtude das diversas funcionalidades disponibilizadas, o que não caracteriza a nomofobia, havendo pouco controle parental quanto o tempo e tipo de uso que é feito.
CONCLUSÃO: A evolução tecnológica está afetando as relações sociais. "Conviver" tornou-se sinônimo de estar "em contato com". Como grande parte das novas tecnologias, o celular também tem seus aspectos favoráveis (facilitar contatos e pesquisas, entretenimento, ganho de tempo, etc.) e desfavoráveis (vulnerabilidade, danos aos ouvidos e outros órgãos, custo, perda de privacidade, etc.). Com educação adequada, pode tornar-se um instrumento vital no dia a dia das pessoas.


Abstract:
OBJECTIVE: Understand the impact of cell phone today, giving voice to teens to know how they access technology, how they use it and what are the consequences of such use.
METHODS: Quantitative research with an exploratory design.
RESULTS: The major use of this technology is to send messages, share photos and do research on the internet aimed at the clarification of doubts. Teenagers are unaware of the risks which they are exposed to by using the cell phone and make an intensive use of the equipment in virtue of the various features available, which does not characterize the nomophobia, having little parental control regarding the time and type of use that is done.
CONCLUSION: The technological evolution is affecting social relations. Live has become synonymous of "being in touch with". As much of the new technology, the cell phone also has its favorable aspects (facilitating contacts and research, entertainment, gain time, etc.) and unfavorable (vulnerability, damage to the ears and other organs, cost, loss of privacy, etc.). With proper education, it can become a vital tool in everyday life of the people.


INTRODUÇÃO

Na atualidade, as questões envolvendo as mudanças nas interações sociais que são influenciadas pelas novas tecnologias, especialmente nas fases iniciais do desenvolvimento humano, têm ocupado as discussões acadêmicas sobre os impactos para a compreensão da subjetividade moderna.

A sociedade agrária, que privilegiava o contato pessoal e a forma nuclear da família, manteve-se até o final do século XVIII, quando os princípios da Revolução Francesa impulsionaram um processo de mobilidade que culminou com a Revolução Industrial, provocando uma mudança no modo de ser e de se conviver em sociedade em todo o mundo ocidental1. Com a invenção do telefone e de outras formas de comunicação, o conhecimento disseminou-se entre todas as classes sociais. Era o início da globalização.

As condições históricas do fim do século XIX e início do século XX, com as Guerras e a Revolução Industrial, geraram condições favoráveis para o surgimento da escola, com a função de educar e capacitar os filhos para o ingresso na sociedade industrial na qual trabalhariam no mesmo ambiente que seus pais, fazendo com que a educação moderna deixasse de ser um privilégio para se tornar um direito2.

Vive-se atualmente uma nova fase de transição nas formas de ser e de viver em sociedade. A chamada revolução tecnológica encurtou distâncias, globalizou costumes, criou um mundo virtual, no qual as pessoas podem ser ou se apresentar não apenas como realmente são, mas também como gostariam de ser.

O telefone celular deixou de ser simples meio de comunicação, para incorporar novas funções permitindo o acesso à rede mundial da internet, tirar e disponibilizar fotografias e vídeos, ouvir músicas e jogar, entre tantas outras. Este instrumento midiático tem possibilitado aos adolescentes uma interação maior com os membros de seu grupo, em qualquer lugar e a qualquer hora. Além disso, facilita na organização de suas tarefas diárias e favorece o desenvolvimento de maturidade3 que traz como resultado uma maior autonomia e privacidade, longe dos olhares dos adultos. Ling3 argumenta que o comportamento parental relacionado ao uso do celular é mais favorável do que desfavorável, pois permite que eles mantenham suas tarefas de ajuda, proteção e controle à distância, fazendo com que os filhos se sintam mais seguros no processo de separação-individuação.

Segundo algumas pesquisas4,5,6, o uso do telefone celular tem se intensificado entre as pessoas em geral e, sobretudo, entre os adolescentes. Também apontam que a influência da mídia faz com que os celulares sejam rapidamente substituídos por modelos mais novos, a fim de incorporar novas tecnologias.

Indivíduos cada vez mais jovens têm tido acesso a essa tecnologia porque seus pais, muitas vezes já separados e morando em diferentes cidades, desejam ter um maior contato ou proporcionar maior autonomia a filhos já adolescentes e, de certa forma, segurança e vigilância.

Como consequência, os hábitos não só individuais, mas também grupais e sociais sofrem a influência da utilização dos celulares. Essa tecnologia tem causado alterações no ambiente escolar seja pelo grau de dispersão que provoca nos alunos e professores, seja pela possibilidade de bulling e mesmo por seu uso indevido nos trabalhos e provas escolares ou até pela possibilidade de desencadear a nomofobia, o medo de se encontrar sem o celular (no mobile).

Os anos da adolescência são marcados pelas instabilidades e agitações dos comportamentos do adolescente, repletos de conflitos e crises de identidade, estas mais propícias na adolescência do que nas outras idades7, e que começam a manifestar-se quando o adolescente é envolvido por grandes questões como: Quem sou eu? De onde eu vim? O que esperam de mim? O que estou fazendo aqui? A luta por uma identidade, que é recorrente ao longo da vida, influência de maneira crucial os processos envolvidos nessa etapa da vida8,9,10,11. É nessa fase que o adolescente busca sua individuação frente a sua família e a comunidade adulta, sendo o uso do celular e outros meios que envolvem tecnologia a ferramenta utilizada para essa finalidade.

Os posicionamentos acerca do impacto do uso do celular se expressam de maneira diferente para os adolescentes. No estado de São Paulo, a legislação12,13 proíbe o uso do celular nas escolas públicas durante o horário das aulas, mas o cumprimento da lei esbarra em inúmeras dificuldades, portanto, o momento atual apresentou-se favorecedor ao estudo desse fenômeno.


OBJETIVO

Saber dar voz para os adolescentes pode nos ajudar a compreender qual é o impacto do celular na atualidade. Assim, buscou-se compreender como os adolescentes estão tendo acesso a essa tecnologia, como a estão utilizando e quais seriam as consequências desse uso.


MÉTODO

Para este estudo foi utilizada uma estratégia metodológica de natureza quantitativa com um delineado de caráter exploratório.

Dos 491 questionários preenchidos, foram aproveitados 477 que atenderam os requisitos obrigatórios, sendo 263 (58,84%) mulheres e 184 (41,16%) homens, 58 (12,97%) com 14 anos, 75 (16,78%) com 15 anos, 129 (28,86%) com 16 anos e 185 (41,39%) com 17 anos ou mais, 23,27% cursando o 1° ano, 27,74% o 2° ano e 48,99% o 3° ano do ensino médio, 157 residentes em Bauru (35,12%) e 290 (64,88%) em cidades da região (Tabela 1).




Desenho

Esperava-se obter resultados por idade, ano escolar e gênero, mas devido à homogeneidade dos dados, optou-se por fazer a análise apenas por gênero.

Instrumento

O questionário contava com questões de resposta única, respostas múltiplas e questões abertas, e foi dividido em 5 aspectos: A - Identificação (4 itens), B - Sobre você e o celular (9 itens); C - Sobre os celulares em geral (7 itens); D - Em relação aos seus amigos (as) (23 itens) e E - Sobre a busca de informações (5 itens).

Procedimento

Os questionários foram aplicados por alunas do 3° ano do curso de Psicologia, de forma individual ou coletiva, após colhidos os necessários Termos de Consentimento dos Responsáveis e Termos de Adesão dos entrevistados. A pesquisa foi aprovada pelo Conselho de Ética em 10 de dezembro de 2014, CAAE 38990414.5.0000.5502.

As respostas foram transcritas para o meio magnético. Para as questões de respostas múltiplas foram atribuídos pesos a fim de se obter um valor único que refletisse a resposta de cada entrevistado a cada questão.

As respostas abertas foram categorizadas, utilizando-se tanto a raiz das palavras, como a semelhança de sentido, a fim de poderem ser melhor analisadas. Para estas questões a tabulação foi feita apenas pelo total e não por gênero.


RESULTADOS

Os modelos smartphone são mais utilizados (82,10%), sendo o pré-pago o plano preferido (70,25%) e quase a maioria (47,43%) dos entrevistados possuem celular há 5 anos ou mais. A maioria (74,27%) teve o celular adquirido pela família que também é a responsável pelo pagamento das contas (68,23%).

A maioria alega falar menos de uma hora por dia ao celular (60,85%) sendo que nessa categoria as mulheres (53,23%) falam menos que os homens (71,74%), o que não ocorre nas demais categorias.

Já no uso total, a maioria alega usar cinco horas ou mais (44,97%) sendo que nessa categoria as mulheres (51,33%) usam mais que os homens (35,87%), fato que se repete na categoria de três a cinco horas (23,95%) e (19,56%) respectivamente, mas não nas demais.

Normalmente, a maioria dos alunos informaram que passam o número do celular apenas para amigos e familiares, mas 12,08% passam o número a todos que pedem, onde as mulheres são minoria (9,12%).

A preferência é por transportar o celular no bolso (61,52%) ou nas mãos (22,82%) (Tabela 2).




Muitos usam e gostam do celular (48,99%), com predominância dos homens (52,17%), mas um número bastante significativo alega não conseguir ficar sem (38,70%), com predominância das mulheres (47,53%).

Mesmo considerando que 33 pessoas marcaram mais de uma opção, a maioria (77,18%) geralmente fica sem celular quando a bateria está descarregada, sendo que as mulheres superam os homens em todas as categorias.

A maioria dos homens (53,26%) declarou ser indiferente ao fato de ficar sem celular, enquanto que a maioria das mulheres (60,08%) declarou ficar ansiosa, preocupada ou insegura.

Os pais (20,58%) têm menos acesso ao telefone que os amigos (47,20%) e outras pessoas não identificadas (29,53%), e essa constatação ocorre tanto no geral como na distribuição por gênero.

A maioria dos adolescentes informaram que mesmo estando conversando com alguém, interrompem a conversa para atender ao toque do celular (65,32%), enquanto alguns (12,30%) verificam quem está ligando e, se julgarem importante ou se for uma figura de autoridade, atendem. A minoria continua conversando normalmente sem se preocupar com quem está ligando (18,57%). As mulheres (13,69%) verificam mais quem está ligando do que os homens (10,33%) antes de atender ac toque do celular.

No geral, o celular deve ser ter recursos modernos (77,63%); ser funcional (70,02%), bonito (44,07%) e barato (27,96%), nessa ordem. As mulheres preferem os celulares modernos (81,37%) e bonitos (49,81%) mais que os homens, enquanto estes preferem os celulares funcionais (71,20%) e baratos (34,24%) mais que as mulheres.

Whatsapp (84,34%), Facebook (55,03%), Mensagens (27,96%) e Instagram (25,28%) são os aplicativos mais utilizados, sendo que em todos esses itens as mulheres obtiveram percentuais maiores que os homens que, apenas no uso de jogos (21,74%), snapchat (16,30%) e skype (7,06%) superam as mulheres (Tabela 3).




Em termos de restrição, os adolescentes deixam de atender ao toque do celular para receber ligações se estiverem em aula (72,03%), no banho (65,10%), no trabalho (48,10%) ou em reuniões familiares (36,24%). As mulheres interrompem o banho (59,31 %) e reuniões familiares (29,66%) mais que os homens para atender ao toque do celular.

De igual forma, os adolescentes deixam de usar o celular para efetuar ligações se estiverem em aula (73,38%), no banho (72,48%), no trabalho (51,01%) ou em reuniões familiares (41,83%). Os homens deixam de usar o celular em reuniões familiares (47,28%) e às refeições (42,93%) mais que as mulheres.

Aparentemente, poder enviar fotos para os amigos é um fator importante já que 72,71% dos adolescentes telefonam, enviam torpedos e fotos, contra apenas 19,01% que apenas telefonam e enviam torpedos, e 3,13% que apenas telefonam. Esse fato também é observado no quesito recebimento, onde 78,52% dos adolescentes recebem telefonemas, torpedos e fotos, contra apenas 17% que apenas recebem telefonemas e torpedos, e 2,24% que apenas recebem telefonemas.

Apesar da maioria (71,81%) ter a sensação de similaridade entre seu celular e o dos colegas, a proporção entre os que sentem que o celular dos amigos é melhor do que o seu é maior (20,58%) do que aqueles que sentem que o celular dos amigos é pior do que o seu (3,35%), sendo que esse tipo de percepção é maior entre os homens do que entre as mulheres.

O celular dos amigos é utilizado "às vezes" (44,07%), "quando ficam sem bateria no seu próprio celular" (21,03%) e em "emergências" (19,69%). Os homens são maioria na categoria "às vezes" (53,26%), sendo que as mulheres relatam mais os demais tipos de uso do que os homens.

A maioria empresta o celular para os amigos (56,15%) e muitos permitem que os amigos atendam as ligações que lhes são dirigidas (40,49%), vejam as fotos recebidas (39,60%) e as enviadas (35,79%), sendo que as mulheres partilham mais que os homens.

O celular mudou a maneira de entrar em contato com os amigos (73,38%), sendo que poucos relatam que não mudou (11,41%) ou que tenha sido indiferente (14,99%), havendo pouca discrepância entre a percepção de mulheres e homens.

O contato com os amigos continua sendo importante para os adolescentes, tanto que a maioria (70,25%) liga em qualquer situação (44,97%) ou para contar as novidades (25,28%).

A maioria das ligações efetuadas dura mais de um minuto, indo até 5 minutos em 31,99% dos casos, mas ocorrendo um grande número de ligações de até 10 minutos (24,61%) e até mesmo de meia hora (19,46%). Os homens tendem a falar menos tempo, ou seja, até 5 minutos (62,50%).

O celular parece ter afetado a quantidade de amigos (45,86%), mas não o tema das conversas (igual número para sim e para não) ou o grupo de amigos (51,01 %).

A dificuldade de interpretação das questões foi observada na questão aberta "Após a compra do celular, você convive mais com as pessoas ou se sente mais sozinho?" onde se esperava como resposta "convivo mais" ou "sinto-me mais sozinho". Muitas das respostas traziam simplesmente a palavra mais, não permitindo identificar se referia-se a conviver mais ou estar mais sozinho.

A dificuldade em medir as consequências dos atos ficou expressa através da questão "Você conta segredos ou troca confidências pelo celular?" onde a apenas a minoria afirmou nunca trocar confidências pelo celular (33,78%) e também na questão "o que não conversaria" onde a categoria particular/pessoa/privativo/íntimo abrangeu 30,42% das respostas, a categoria qualquer/tudo/nada abrangeu 26,40% das respostas, a categoria segredo/sigiloso abrangeu 10,07% das respostas, e a categoria outros abrangeu 66,89% das respostas.

Os termos mais empregados para referir como o celular facilita combinar, realizar e depois avaliar as atividades desenvolvidas com os amigos foram a facilidade (40,04%), o próprio ato de combinar (21,92%) e a rapidez (14,31%).

A maioria afirma ter ficado mais próximo dos amigos (78,52%), sendo 82,51% entre as mulheres e 72,83% entre os homens. Caso não conseguissem contatá-los pelo celular, tentariam a internet (60,18%), sendo 58,17% entre as mulheres e 63,04% entre os homens. Nos hábitos afetivos e sentimentais, a preferência é pelo contato pessoal (68,46%) havendo pouca diferença entre mulheres e homens.

Sobre a existência de pontos negativos na comunicação com os amigos pelo celular a maioria (51,01%) acha que não existe, mas uma parcela significativa (39,37%) acha que sim. Já sobre a existência de pontos positivos foram citados: a facilidade (27,74%), rapidez/agilidade (22,59%), praticidade (6,71%), contato/convivência (17,45%) e outros (32,44%).

Perguntados sobre o que achavam sobre as pessoas falarem sobre assuntos íntimos ou particulares em lugares públicos apenas 8,28% acharam errado e 8,72% acharam falta de educação. A maioria (60,63%) citou outras palavras (Tabela 4).




O celular é usado massivamente para buscar informações na internet quando surgem dúvidas (88,37%), tanto pelas mulheres (89,35%) como pelos homens (86,96%). O acesso à internet é feito principalmente através do celular (57,49%), com uso preponderante pelas mulheres (61,98%) seguido pelo uso do computador (39,60%), com uso preponderante pelos homens (48,91%).

Os temas mais pesquisados através do celular são as músicas (74,27%), com proporções equivalentes entre mulheres e homens, e as notícias (36,24%) também com proporções equivalentes entre mulheres e homens, sendo que um pequeno número admitiu que efetuam pesquisa sobre sexo (9,62%), principalmente os homens (17,93%) (Tabela 5).




DISCUSSÃO

A pesquisa foi realizada com propósitos prospectivos visando conhecer aspectos mais atualizados do universo dos adolescentes e do uso que fazem dos aparelhos celulares.

As questões foram elaboradas tendo em vista cinco hipóteses.

Os adolescentes falam muito tempo ao celular

A hipótese não se confirmou. O uso maior é para enviar mensagens, compartilhar fotos e fazer pesquisas na internet visando o esclarecimento de dúvidas. Além do simples exibicionismo ou da necessidade de possuir o mesmo que seus iguais, talvez essa seja uma das razões pelas quais eles preferem celulares com maior quantidade de recursos14.

Os adolescentes desconhecem os riscos a que estão expostos na utilização do celular

A hipótese foi confirmada, uma vez que o celular é utilizado para troca de confidências que, em caso de rompimento de vínculo, poderão ser utilizadas com propósito de ferir ou expor ao ridículo quem as fez, caracterizando o cyberbulling15.

Os adolescentes são dependentes do celular e exageram no seu uso

Como os aparelhos reúnem cada vez mais funcionalidades e são usados principalmente para ouvir músicas, buscar notícias e esclarecer dúvidas, estaria caracterizada uma alta utilização, mas não uma dependência. A nomofobia16'17 não ficou caracterizada, porque a maioria dos homens se declara indiferente ao fato de ficar sem celular, sendo mais provável ocorrer em mulheres que se declaram mais ansiosas, preocupadas ou inseguras quando sem o celular.

Os pais não controlam o uso do celular

O controle pode estar caracterizado no pagamento da conta do celular pelos pais e pelo fato da maioria dos adolescentes atender o celular após verificar quem está ligando. A falta do controle estaria caracterizada no acesso à internet, que pode ser feito longe da vigilância dos pais que, via de regra, têm pouco acesso ao celular dos filhos.

O individualismo da nossa cultura preza acima de tudo a autonomia e a independência de cada sujeito8, no entanto, o homem de hoje é movido pelo individualismo competitivo e pela intimização exacerbada18, necessitando ainda manter uma teia de comunicação, materializada através das redes sociais num movimento de expansão e de retração de singularizar-se e diferenciar-se a ponto de ser único19,20.

O celular, que permite expandir o número de contatos e acessar diferentes culturas, ao mesmo tempo que expõe o adolescente a perigos dos quais não tem consciência, auxilia na formação de sua subjetividade.

O uso do celular está interferindo no relacionamento social dos adolescentes

O estudo indica que o celular facilita entrar em contato para combinar atividades sociais e escolares e também com mais pessoas. A maioria dos adolescentes pareceu entender que o termo "conviver" significa entrar em contato via celular e não ter contato pessoal com as pessoas. O diferencial foi o celular permitir um maior contato com pessoas queridas com as quais o contato pessoal não é tão possível devido à distância que os separa.


CONCLUSÃO

O estudo mostrou que a contínua evolução tecnológica está afetando as relações sociais. "Conviver" tornou-se sinônimo de estar "em contato com". As questões abordadas no questionário cobriram os aspectos relevantes para a compreensão do fenômeno, uma vez que nenhum outro ponto foi revelado através das questões abertas propostas para esse fim. Isso indica que pesquisas posteriores poderão ser feitas apenas com questões fechadas, facilitando a análise dos resultados.

Atenção especial deve ser dada à redação para evitar dupla interpretação e também para evitar que sejam assinaladas múltiplas respostas em questões de resposta única.

Aspectos referentes à segurança de dados, etiqueta social e saúde (em função do contato, postura, uso de fone de ouvidos) merecem maiores estudos. Como grande parte das novas tecnologias, o celular também tem seus aspectos favoráveis (facilitar contatos e pesquisas, entretenimento, ganho de tempo, etc.) e desfavoráveis (vulnerabilidade, danos aos ouvidos e outros órgãos, custo, perda de privacidade, etc.). Com educação adequada, pode tornar-se um instrumento vital no dia a dia das pessoas.


NOTA DE AGRADECIMENTOS

Os pesquisadores agradecem aos(às) alunos(as) do 3° ano de Psicologia da USC e aos pais ou responsáveis pelos adolescentes, aos (às) adolescentes e à direção das escolas que lhes permitiu a realização desse estudo.


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