Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 2 - Abr/Jun - 2017

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Páginas 104 a 113


Estratégias de coping em adolescentes

Coping strategies on adolescents


Autores: Manuela Amaral-Bastos1; Beatriz Araújo2

1. Doutoranda em Enfermagem no Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa (ICS/UCP); Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS). Porto, Portugal. Enfermeira Especialista em Saúde Infantil do Centro Materno Infantil do Norte/Centro Hospitalar do Porto. Porto, Portugal
2. Doutora em Ciências de Enfermagem Professora Associada Convidada do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Porto, Portugal; Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde

Maria Manuela Amaral-Bastos
Centro Hospitalar do Porto/Centro Materno Infantil do Norte (CHP/CMIN)
Largo da Maternidade de Júlio Dinis
Porto, Portugal. CEP: 4050-651
mariamanuelaamaral@gmail.com

Recebido em 18/01/2016
Aprovado em 11/09/2016

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, adaptação psicológica, características da família.
Keywords: Adolescent, Adaptation, Psychological, family characteristics.

Resumo:
OBJETIVO: Relacionar as estrategias de coping do adolescente com as variáveis de caracterização (sexo, idade, retenção escolar), a configuração familiar e situação laboral da família.
MÉTODOS: Realizamos um estudo do tipo correlacional e transversal de paradigma quantitativo, com uma amostra de 291 adolescentes de dois agrupamentos escolares do norte de Portugal. Na coleta de dados utilizamos a Escala Toulousiana de Coping, tendo sido considerados os aspectos éticos inerentes à investigação em grupos vulneráveis.
RESULTADOS: As estratégias de coping mais evidenciadas pelos adolescentes foram as de "Controlo" e as menos utilizadas as de "Recusa". Esta estratégia apresenta diferenças com significância estatística quando relacionada com as variáveis: sexo, favorável aos rapazes (t=4.571 ; gl =289; p <.001); e retenção escolar para adolescentes com pelo menos uma experiência de retenção (t=2.142; gl =280; p=.033). Por sua vez, o grupo etário, a configuração familiar e a situação laboral dos pais/cuidadores parecem não influenciar significativamente as estratégias de coping usadas pelos adolescentes. No entanto, as raparigas, face ao desemprego da mãe/cuidadora, apresentam resultados com significância estatística na utilização de estratégias de "Retraimento, Conversão e Aditividade" (t=-2.291 ; gl =159; p=.023).
CONCLUSÃO: A Escala Toulousiana de Coping possibilita a identificação das estratégias usadas pelos adolescentes na resposta às adversidades, permitindo aos profissionais de saúde e de educação, adequar as suas intervenções para a promoção de estratégias mais adaptativas.

Abstract:
OBJECTIVE: Relate teenagers' Coping Strategies with character variables (gender, age, school retention), with its family configuration and with its family working conditions.
METHODS: We carried out a correlational and transversal study with a quantitative paradigm, with a sample of 291 teenagers of two school groups from North of Portugal. In this data gathering we used the Tolousiane Scale of Coping, with consideration to the ethical aspects that are inherent to the investigation within vulnerable groups.
RESULTS: The Coping Strategies most evidenced by adolescents are the "Control" ones and the least used are the "Denial" ones. These strategies have significant differences when related with the variables: gender, that is favourable to boys (t=4.571; gl=289;p<.001); and school retention for teenagers with at least one retention experience (t=2.142; gl=280; p=.033). On its turn, age group, family configuration and working situation of parents/carers seem not to have a significant influence in Coping Strategies used by teenagers. However, the girls present significant statistic results in the use of "Restraint, Conversion and Addiction" face to the mother/carer unemployment situation (t=-2.291; gl=159; p=.023).
CONCLUSION: The Tolousaine Scale of Coping makes it possible to identify the strategies used by teenagers in the answer to adversities, allowing health and education professionals to adequate their interventions to promote more adaptive strategies.

INTRODUÇÃO

O termo Coping é de origem anglo-saxônica e embora não seja traduzível para português, pode ser entendido como o modo de lidar ou de enfrentar uma determinada adversidade. O descritor apresentado pela Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) refere-o como adaptação psicológica, mas neste estudo optamos por manter a palavra original. Ao longo do tempo, vários autores têm-se debruçado sobre o coping, olhando-o de diversas perspectivas e enriquecendo o conceito com os aportes que a investigação tem produzido1-2. Assim, na perspectiva cognitivista proposta por Folkman e Lazarus, o coping é definido como "...conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais desenvolvidas pelo sujeito para lidar com as exigências internas e externas da relação pessoa ambiente, que são avaliadas como excessivas, e as reações emocionais causadas por essas exigências"3. As estratégias de coping, focadas na emoção, no problema ou na cognição, não são independentes, mas interatuam entre si. Regular a ansiedade através de uma estratégia focada na emoção, por exemplo, favorece a concentração para tomar decisões (coping focado no problema)4.

A resposta biológica às situações de estresse é desencadeada por um estímulo e tem como objetivo a homeostasia5 6. A avaliação do estímulo é pessoal, tendo por base a matriz biológica e a história de vida e reveste-se com o significado que cada um lhe atribui ou, dito de outra forma, "um fator de stress relativamente pequeno para uma pessoa pode ser considerado excessivamente penoso por outra"7. O contato com pais de crianças doentes evidencia-nos isto mesmo, pois, face a algumas situações muito difíceis e complexas, há pais que conseguem lidar com a situação sem entrar em desespero, enquanto outros, perante situações mais simples, ficam extremamente perturbados. São múltiplos os recursos utilizados pelo cérebro na resposta a perturbações, mas nem todos são conscientes, tal como a avaliação do estímulo também nem sempre o é. A sensação de "aperto no estomago", a taquicardia ou a suspensão temporária da respiração não são respostas conscientes, embora sejam muito bem orquestradas. Contudo, há estímulos estressantes que são avaliados de forma consciente e é face a esses que a pessoa utiliza determinadas estratégias de coping, cor portamentais, cognitivas ou emocionais4 tentativa de uma resposta adaptativa que pode ser mais ou menos resiliente.

A adolescência é caracterizada por mudanças e transições ecológicas que envolvem aspetos físicos, cognitivos e sociais. O desenvolvimento progressivo da identidade e da autonomia requerem do adolescente o confronto e a superação (estratégias centradas no problema ou na emoção) das tarefas e das ocasiões que permitem o acesso a um novo nível que trará novos acontecimentos e oportunidades, constituindo um desenvolvimento em espiral9.

Na 2a metade do século XX, a família, sobretudo nos países ocidentais, sofreu transformações profundas causadas por mudanças tecnológicas, sociais, culturais e outras que levaram ao aparecimento de diferentes configurações da organização familiar mas, apesar das mudanças, a função primordial da família na sua vertente biológica, psicológica e social mantem-se10. Contudo Wagner et al. (1999, p.148) afirmam que apesar da "complexidade das relações familiares, o processo de reestruturação da família reconstituída não será necessariamente desencadeador de conflitos. A plasticidade das relações no núcleo familiar pode gerar uma infinidade de recursos promotores de saúde"11. E na qualidade do relacionamento entre os membros da família que recai a maior ou menor possibilidade de bem-estar, independente da configuração familiar, sendo que a percepção do adolescente ao funcionamento familiar desadequado está associada a estratégias de coping desadaptativas e ao desajustamento social12.

Com este estudo pretendemos relacionar as estratégias de coping do adolescente com as variáveis de caracterização (sexo, idade, retenção escolar), a configuração familiar e situação laboral.


MATERIAL E MÉTODOS

Desenvolvemos um estudo do tipo correlacionai e transversal de paradigma quantitativo. A amostra de conveniencia é constituída por 291 adolescentes com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos, de dois agrupamentos escolares do norte de Portugal.

A coleta de dados decorreu de dezembro de 2013 a abril de 2014, em 2 agrupamentos escolares do norte de Portugal, após autorizações do Ministério da Educação e Ciencia, Direção dos Agrupamentos Escolares e encarregados de educação. Em relação aos adolescentes, fizemos uso de consentimento presumido.

O levantamento de dados foi feito utilizando a Escala Toulousiana de Coping (ETC), da autoria de Esparbès, Sordes-Ader e Tap8, adaptada e validada para a população portuguesa por Tap, Costa e Alves3 num grupo de jovens adultos e posteriormente adaptada por Amaral-Bastos, Araújo e Caldas (2015) numa amostra de adolescentes, com idades compreendidas entre os 12 e 18 anos tendo obtido um Cronbach de .8513. Trata-se de um questionário de autopreenchimento com 51 questões organizadas em 5 dimensões ["Controlo"; "Suporte Social"; "Retraimento, Conversão e Aditividade" (RCA); "Distração Social"; e "Recusa"] e com respostas do tipo likert com cinco opções.

Para o estudo das relações entre as variáveis realizamos, para além duma análise estatística descritiva, análises inferenciais para avaliar a influência das variáveis de caracterização (sexo, idade, retenção escolar), situação laboral e configuração familiar nas estratégias de coping do adolescente, através do estudo da significancia estatística das diferenças encontradas. Para estas análises efetuamos a comparação de médias (t de student para amostras independentes) e a análise de variância (Anova Oneway). Organizamos, também, a amostra na variável: idade em 2 grupos etários (G1: 12 a 14 anos; G2: 15 a 18 anos); género em dois grupos (G1: rapazes; G2: raparigas); retenção escolar em dois grupos (G1: com retenção; G2: sem retenção); situação laboral em dois grupos (G1 - mãe/cuidadora empregada; G2-mãe/cuidadora desempregada); e configuração familiar em quatro grupos (G1 - vivem com os pais; G2 - vivem só com a mãe; G3 - vivem com pelo menos um dos progenitores - incluímos adolescentes que vivem com um dos progenitores, o padrasto ou madrasta; G4 - adolescentes que vivem com outras pessoas - incluímos adolescentes que vivem com outros familiares ou estão institucionalizados); fratria em 2 grupos (G1 - tem irmãos; G2 - não tem irmãos).

Para análise dos dados consideramos o nível de significancia p<.05 e utilizamos o software SPSS Statistics da IBM, versão 22.


RESULTADOS

A tabela 1 integra os dados relativos à caracterização sociodemográfica da amostra em estudo.




A amostra em estudo foi constituída por 291 adolescentes maioritariamente do sexo feminino (57.4%) com idades compreendidas entre 12 e 18 anos (M=13.7,DP=1.1), sendo o maior grupo etário constituído pelos adolescentes de 12 a 14 anos (79.7%). Relativamente à escolaridade, constatamos que a maioria frequenta o 8° ano (37,8%). Dos 69 adolescentes com pelo menos uma retenção escolar, 53.6% são rapazes e 46.4% são raparigas. Em relação à estrutura familiar, a maioria dos adolescentes vive com os dois progenitores (80.1%), seguido dos que vivem apenas com a mãe (12%) e pelo menos um dos progenitores (4.1%). Apenas 21,7% dos adolescentes são filhos únicos. Quanto à situação laboral dos pais/cuidadores, verificamos que o desemprego é mais elevado nas mulheres (28,5%) que nos homens (15,1%).

A pontuação da ETC relativa ao Coping Global, varia entre 51 e 255. Verificamos que o score médio obtido pelos participantes neste estudo foi de 158.6 (M= 158.6; DP= 20.25), sendo o mínimo 92 e o máximo 227. As estratégias de "Controlo" e de "RCA", com 14 itens cada, pontuaram de 14 a 70; o "Suporte Social", com 11 itens, pontuou de 11 a 55; a "Distração Social" e a "Recusa", com 6 itens cada, pontuaram de 6 a 30. Para uma melhor análise dos valores obtidos nas diversas dimensões da ETC, optamos pela sua apresentação num gráfico de extremos e quartis (Figura 1).



Figura 1. Diagrama de extremos e quartis relativo às estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes
analisados no presente estudo.



A figura 1 mostra: (i) uma maior utilização da estratégia de "Controlo", embora três participantes apresentem valores discriminantes inferiores (outliers); (ii) que a "Recusa" é a estratégia menos utilizada embora exista um outlier superior; (iii) verifica-se uma distribuição quase simétrica em relação à mediana em todas as dimensões; (iv) que as respostas dos adolescentes são mais dispersas nos valores superiores do "RCA" e nos inferiores da "Distração Social" havendo, inclusive, um valor discriminante inferior neste item e (v) que no "Suporte Social" também se verifica a existência de 2 valores discriminantes.

Partimos do pressuposto que as estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes variam de acordo com o sexo. Na tabela 2 apresentamos os valores (médias, desvios-padrão e diferenças) das dimensões da ETC em função dos dois grupos.




Ao analisar os valores médios apresentados na tabela 2, verificamos que os rapazes obtêm no Coping Global um score ligeiramente superior (M=159.4; M=158.0). Analisando a pontuação das diversas dimensões verificamos que as estratégias de "Controlo", "Suporte" e "Distração Social" são utilizadas de forma semelhante por rapazes e raparigas, as estratégias de "RCA" são mais utilizadas pelas raparigas e as de "Recusa" pelos rapazes sendo esta estatisticamente significativa a favor dos rapazes (t= 4.571; gl=289; p<0.01).

Para explicitar melhor estes resultados, verificamos a influência da idade do adolescente nas estratégias de coping utilizadas. Para esta análise organizamos a amostra em 2 grupos etários (G1: 12 a 14 anos; G2: 15 a 18 anos) e procedemos ao cálculo do teste t (student) para comparação de médias em amostras independentes. Constatamos que os adolescentes mais novos utilizam ligeiramente mais estratégias de coping (M=158.9; M=157.3) conseguidas essencialmente à custa de estratégias de "Controlo" (M=51.7; M=50.5) e de "Recusa" (M=16.1; M=15.4) mas sem diferenças estatísticas signifi cativas.

Avançamos, em seguida, para esta mesma análise mas considerando a situação de retenção escolar. Partimos do pressuposto que os adolescentes, com pelo menos uma experiência de reprovação, seriam aqueles que utilizariam mais estratégias de coping. Na tabela 3 descrevemos os valores das dimensões da ETC (médias, desvios-padrão e diferenças) em função dos dois grupos.

Observando a tabela 3, verificamos que a dispersão dos resultados aparece com valores mais elevados no grupo de adolescentes sem retenção, exceto nas estratégias de "RCA" que se verifica o inverso. Em relação aos valores médios, quando analisamos a situação de retenção escolar, constatamos que os alunos com níveis mais elevados na utilização de estratégias de coping, à exceção da dimensão "Controlo" (com retenção: M=50.0; sem retenção: M=51.8), são os que apresentam situação de retenção escolar, nomeadamente nas dimensões "Suporte social" (com retenção M=35.9; sem retenção: M=35.7), "RCA" (com retenção M=36.3; sem retenção: M=35.3), "Distração social" (com retenção: M=20.7; sem retenção: M=19.7), e "Recusa" (com retenção: M=17.0; sem retenção: M=15.6). Apuramos apenas uma diferença estatística significativa na dimensão "Recusa" (t=2.142; gl=280; p=.033) a favor dos adolescentes com retenção.




Quisemos saber, também, se a configuração do agregado familiar influenciava as estratégias de coping utilizadas pelo adolescente. O estudo efetuado mostrou a inexistência de resultados com significancia estatística entre as variáveis em análise. Constatamos, no entanto, que os adolescentes que vivem com outros familiares que não os pais ou que se encontram institucionalizados (G4), apresentam médias mais elevadas na utilização de estratégias de coping comparativamente com os outros grupos. Ainda neste contexto, questionamo-nos se ter irmãos ou ser filho único influencia as estratégias de coping dos adolescentes, tendo-se verificado que os adolescentes filhos únicos recorrem a menos Estratégias Coping mas sem significancia estatística em nenhuma das dimensões.

A situação laboral dos pais/cuidadores também parece não interferir nas estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes. Contudo, ao analisar os valores médios da situação laboral do pai/cuidador e da mãe/cuidadora, constatamos que os resultados relativos à mãe/cuidadora em situação de desemprego são ligeiramente mais
elevados em todas as estratégias pelo que decidimos procurar diferenças relacionadas com o sexo e o grupo etário. Para efetuar esta análise criamos dois grupos (G1 - mãe/cuidadora empregada; G2-mãe/cuidadora desempregada) e
recorremos ao teste t (student) para amostras independentes testando as variáveis sexo e grupo etário. Apenas encontramos resultados com signifi cância estatística, na utilização de estratégias de "RCA", nas raparigas (t=-2.291; gl=159; p=.023) relacionada com o desemprego da mãe como pode ser observado na tabela 4.




DISCUSSÃO

Os adolescentes em estudo em termos médios, independentemente do sexo, utilizam mais estratégias de coping que os jovens adultos do estudo4 que nos serve de referência (Rapazes=159.4/146.7; Raparigas=158.9/150.7). Ao particularizar a análise nesta amostra pelas diferentes dimensões, constatamos que, à semelhança do estudo original, os rapazes também utilizam mais estratégias de "Controlo" e "Recusa" do que as raparigas. Estas, por sua vez, fazem uso de mais estratégias de "RCA". Mas, contrariamente ao estudo da validação da ETC para Portugal4 são os rapazes que recorrem mais às estratégias de "Distração" e "Suporte Social". As diferenças que encontramos no grupo em estudo relativamente à variável sexo são pequenas, sendo que apenas as estratégias de "Recusa" apresentam significancia estatística favorável aos rapazes. Estes achados diferem do estudo original onde as diferenças têm significancia estatística em todas as dimensões, exceto na "Recusa", verificando-se apenas tendência para maior utilização. Neves, num estudo realizado numa amostra de 484 adolescentes da ilha do Pico14, com uma média de idades de 15 anos, maioritariamente do sexo feminino (56.6%), utilizou a ETC na versão adaptada para a cultura portuguesa4 e encontrou resultados mais próximos aos do estudo original4 relativo aos valores médios (Masculino=147.2; Feminino=147.6) mas sem significancia estatística. Estes resultados poderão significar que, à medida que os adolescentes vão construindo a sua identidade e autonomia, se vão diferenciando por gêneros.

Em relação à idade, verificamos que os adolescentes mais novos utilizam mais estratégias de coping (12-14 anos, M=158.9; 15-18 anos, M=157.3). Situação semelhante acontece com o grupo de jovens adultos do estudo de referência (18-22 anos: M=150.4; 23-28 anos: M=147.7), levando-nos a questionar se a utilização de estratégias de coping tende a diminuir com a idade. Contudo, um estudo15 também desenvolvido em Portugal com 916 adolescentes dos 10 aos 22 anos mostra que a utilização das estratégias de coping aumenta com a idade, embora use um instrumento de coleta de dados diferente. As diferentes metodologias de análise seguidas noutros estudos14,16,17, com indivíduos em faixas etárias diferentes e com a mesma versão da ETC ou anteriores, dificulta ou impede . comparação dos resultados.

Os adolescentes com retenção escolar utilizam mais estratégias de coping de todas as dimensões, exceto as relativas ao "Controlo". Estes resultados são apoiados por um estudo15 que mostra que o grupo com retenções procura utilizar mais estratégias de coping. Contudo, outro estudo18 também desenvolvido em Portugal com 242 adolescentes dos 10 aos 16 anos, demonstrou não existirem diferenças estatísticas significativas para o coping em adolescentes com baixo rendimento acadêmico.

A configuração familiar dos adolescentes no presente estudo, corrobora com os dados da literatura que esta não interfere nas estratégias de coping. Estes resultados são concordantes com um estudo19 desenvolvido com 216 adolescentes dos 14 aos 16 anos, que mostra que a vinculação aos pais não prediz o coping de forma direta, sugerindo a necessidade de considerar outras variáveis. Esta perspectiva, que também partilhamos, é corroborada por outro estudo20 realizado com 182 crianças e adolescentes dos 10 aos 19 anos, ao confirmar que a qualidade das relações pais/filhos é uma variável preditora do desenvolvimento da socialização, sendo que a relação com o pai, com a mãe e a atmosfera familiar em geral, explicam diferentes dimensões da socialização.

O estudo do complexo desenvolvimento humano implica a inclusão de múltiplas variáveis, sendo o coping uma variável significativa. Estudamos a sua relação com outras variáveis e confrontamos com alguns estudos disponíveis, onde selecionamos preferencialmente estudos portugueses pela proximidade cultural dos participantes. O desenho dos estudos, as amostras de conveniência, as idades díspares e os diferentes instrumentos de medida ou as diferentes versões de um mesmo instrumento e metodologias de análise distintas, requerem prudência na interpretação dos resultados não permitindo generalizações.


CONCLUSÕES

As estratégias de coping, avaliadas pela ETC, mais utilizadas pelos participantes são as que se situam na dimensão "Controlo" e as menos utilizadas são as da dimensão "Recusa".

Rapazes e raparigas usam as estratégias de "Controlo" de forma semelhante. As raparigas têm mais tendência para utilizar estratégias de "RCA" e os rapazes as de "Recusa", sendo este valor estatisticamente significativo. Já o grupo etário a que o adolescente pertence não influencia significativamente as estratégias de coping por ele adotadas. Os adolescentes com retenção escolar empregam mais estratégias de coping de todas as dimensões exceto as de "Controlo", sendo que a utilização de estratégias de "Recusa" apresenta diferença estatisticamente significativa favorável aos adolescentes com retenção escolar.

A configuração familiar, bem como ter irmãos ou não, parece não interferir de forma significativa com as estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes. O mesmo se verificou relativamente à situação laboral do pai/mãe/ cuidadores. Contudo, verificamos que os resultados referentes à mãe/cuidadora em situação de desemprego, são ligeiramente mais elevados em todas as dimensões. Aprofundando a relação entre as variáveis, encontramos na utilização de estratégias de "RCA" para as raparigas significancia estatística positiva.

Por fim, referimos a dificuldade no acesso a uma amostra mais ampla e a estudos com utilização da ETC em adolescentes, o que poderá ter impedido uma discussão mais aprofundada. Assim, sugerimos a realização de estudos com desenho e metodologias de análise semelhantes e amostras com representatividade nacional a fim de melhor compreender as estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes face às adversidades.

A ETC apresenta-se como um instrumento útil na colheita de dados, não só para prática clínica, mas também para a educação, uma vez que permite perceber as opções dos adolescentes na gestão de situações adversas e gerar informação pertinente para intervenções que possam contribuir para a melhoria da sua capacidade de resposta aos desafios sentidos.


NOTA DE AGRADECIMENTOS

Aos Professores: Filomena Vieira e Graça Vilela pelas autorizações para efetuar a colheita de dados; Carla Leite, e Luís Sá pela colaboração na organização da colheita de dados. À aluna da Licenciatura em Enfermagem, Barbara Lucas, e à Profa. Carla Leite pela aplicação dos questionários.


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