Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 2 - Abr/Jun - 2017

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Páginas 114 a 124


Fatores de exposição ao tabagismo entre escolares do ensino médio do município de Francisco Beltrão - PR

Exposure factors to smoking among high school students in the city of Francisco Beltrão - PR

Factores de exposición al tabaco entre escolares de enseñanza media del municipio de Francisco Beltrão - PR


Autores: Mirian Cozer1; Vanderlei José da Rosa2; Lirane Elize Defante Ferreto de Almeida3; Marco Kasmin Correa4; Rosebel Trindade Cunha Prates5

1. Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Francisco Beltrão, PR, Brasil. Docente do curso de nutrição da Universidade Paranaense (UNIPAR). Francisco Beltrão, PR, Brasil
2. Graduação em Economista Doméstica pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Francisco Beltrão, PR, Brasil
3. Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Docente do curso de medicina da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Francisco Beltrão, PR, Brasil
4. Mestrado em Gestão e Desenvolvimento Regional pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Francisco Beltrão, PR, Brasil
5. Mestre em Modelagem Matemática pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). Panambi, RS, Brasil. Docente Assistente do Curso de Medicina da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - (UNIOESTE) Francisco Beltrão, PR, Brasil

Mirian Cozer
Rua. Apucarana, 62, Ap. 101
Francisco Beltrão, PR, Brasil. CEP: 85601-730
miriancozer@yahoo.com.br

Recebido em 25/01/2016
Aprovado em 12/09/2016

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Como citar este Artigo

Descritores: Hábito de fumar, adolescente, fatores de risco, prevenção de doenças.
Keywords: Smoking habits, adolescent, risk factors, disease Prevention.
Palabra Clave: Hábito de fumar, adolescente, factores de riesgo, prevención de enfermedades.

Resumo:
OBJETIVO: Medir a prevalência e identificar os fatores de risco associados ao tabagismo nos adolescentes.
MÉTODOS: Tratase de um estudo transversal de base populacional com uma amostra de 273 adolescentes de 15 a 21 anos da zona urbana de Francisco Beltrão, Sudoeste do Paraná. Todos os adolescentes foram entrevistados por meio de um questionário pré-codificado, individual e confidencial aplicado no período de 15 de julho a 10 de agosto de 2014.
RESULTADOS: A prevalência de tabagismo na amostra foi de 12,82%. As prevalências não foram similares para os sexos femininos e masculinos, sendo maiores no sexo masculino. Os fatores de risco para tabagismo de acordo com o teste qui-quadrado foram: pais separados, odds ratio (OR) de 2,09 (1,02-4,28), turno que estuda OR de 2,98 (1,34-6,64), oferta gratuita de cigarro, OR de 3,26 (1,37-7,77) e amigo oferecer cigarro OR de 2,5 (1,15-5,43).
CONCLUSÃO: Conclui-se que a prevalência de tabagismo na adolescência mostrou-se alta na cidade de Francisco Beltrão. Observou-se influência significativa do meio familiar e social no uso do tabaco. Portanto, há necessidade de campanhas antitabágicas que atuem na prevenção do vício precoce entre adolescentes.


Abstract:
OBJECTIVE: Measure the prevalence and identify the risk factors associated to smoking among adolescents.
METHODS: It is a transversal study of population based with a sample of 273 adolescents from 15 to 21 years old from an urban area of Francisco Beltrão, in the Southwest region of Paraná State. All adolescents were interviewed by a pre-coded, individual and confidential questionnaire applied in the period from July 15th to August 10th of 2014.
RESULTS: The smoking prevalence of the sample was 12,82%. The prevalences were not similar for males and females, being higher for males. Risk factors for smoking according to the chi-square test were: divorced parents, odds ratio (OR) by 2,09 (1,02-4,28), period studied (OR) by 2,98 (1,34-6,64), free offer of cigarettes, (OR) by 3,26 (1,37-7,77) and friend offering cigarettes (OR) by 2,5 (1,15-5,43).
CONCLUSION: It is concluded that smoking prevalence among adolescents was high in Francisco Beltrão. It was observed the significant influence of the family and social circle in the use of tobacco. So, there is a necessity of tobacco control campaigns that acts on prevention of early addiction among adolescents.

Resumen:
OBJETIVO: Medir la prevalencia e identificar los factores de riesgo asociados al tabaco en adolescentes.
MÉTODOS: se trata de un estudio transversal de base poblacional con una muestra de 273 adolescentes de 15 a 21 años de la zona urbana de Francisco Beltrão, Suroeste de Paraná. Todos los adolescentes fueron entrevistados por medio de un cuestionario pre-codificado, individual y confidencial aplicado en el período de 15 de julio a 10 de agosto de 2014.
RESULTADOS: La prevalencia de tabaco en la muestra fue del 12,82%. Las prevalencias no fueron análogas para los sexos femeninos y masculinos, siendo mayores no sexo masculino. Los factores de riesgo para tabaco de acuerdo con el test Chi-cuadrado fueron: padres separados, odds ratio (OR) de 2,09 (1,02-4,28), turno que estudia OR de 2,98 (1,34-6,64), oferta gratuita de cigarrillo, OR de 3,26 (1,37-7,77) y amigo ofrecer cigarrillo OR de 2,5 (1,15-5,43).
CONCLUSIÓN: se concluye que la prevalencia de tabaco en la adolescencia se mostró alta en la ciudad de Francisco Beltrão. Se observó influencia significativa del medio familiar y social en el uso del tabaco. Por lo tanto, hay necesidad de campañas anti tabaco que actúen en la prevención del vicio precoz entre adolescentes.

INTRODUÇÃO

Tendo em vista a elevada ocorrência de mortes associadas ao tabagismo em escala mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) identifica o consumo de produtos de tabaco como um fator de risco à vida a ser controlado com alta prioridade, principalmente entre a população jovem. Para alcançar esse controle de forma ampla, a OMS propõe um conjunto de estratégias entre as quais se destacam a vigilância e o monitoramento do consumo de produtos provenientes do tabaco1.

A atual situação é preocupante, já que o tabagismo é considerado a segunda causa de morte no mundo segundo a OMS, onerando cofres públicos e ceifando vidas ainda jovens, sendo uma das mortalidades preveníveis. Essa mortalidade está associada a diversos tipos de câncer, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença coronariana, hipertensão arterial e acidente vascular encefálico, entre outras2.

O tabagismo é uma doença desencadeada pela dependência da nicotina que ocorre com o uso regular de tabaco. O primeiro contato com o tabaco geralmente ocorre na adolescência, sendo essa uma fase de mudanças e de descobertas, o que torna esse período da vida propenso a experimentações. Estudos têm mostrado que é na adolescência que se encontra o grupo de maior risco à iniciação do tabagismo, principalmente, entre os anos de transição do ensino médio e superior3.

Segundo a Organização Mundial de Saúde4, estima-se que por dia, cerca de 100 mil crianças tornam-se fumantes regulares em todo o mundo. Os últimos dados apontam que 90% dos fumantes iniciaram esse comportamento até os 19 anos, e 50% dos que já experimentaram um cigarro se tornaram fumantes na vida adulta.

Pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas5 revela que o uso inicial de tabaco é bastante precoce na vida dos estudantes da rede pública de ensino de dez capitais brasileiras, sendo quecerca de 10% dos estudantes com 10-12 anos de idade já fizeram pelo menos uso experimental de cigarro.

Embora a influência ao consumo do cigarro esteja relacionada à publicidade da indústria do tabaco, outros fatores de risco que levam ao hábito de fumar são: sexo, idade, nível socioeconômico, tabagismo de familiares e amigos, rendimento escolar, separação dos pais, trabalho remunerado, necessidade de aceitação, ansiedade e ilusão de que fumar antecipa a vida adulta6.

O presente trabalho tem como objetivo medir a prevalência e identificar os fatores de risco associados ao tabagismo nos adolescentes estudantes do ensino médio ou fundamental de ambos os sexos do ensino público da área urbana do município de Francisco Beltrão, PR.


MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico transversal, realizado entre os estudantes do ensino médio das escolas públicas da área urbana da cidade de Francisco Beltrão no Paraná. Foi considerado o número de alunos matriculados no Ensino Médio do ano de 2014, sendo essa informação proveniente do Núcleo Regional de Educação de Francisco Beltrão7.

O estudo teve como objetivo, investigar e analisar a exposição e o uso de cigarros entre os estudantes de dez colégios Estaduais do referido município. A amostra adotou um método de prevalência do tabagismo entre adolescentes de 12%, um erro amostral de 2,5%, um nível de significância a=5% IC 95%, acrescentando mais 20% para possíveis perdas e 10% para o delineamento.

O método de amostragem adotado foi o da amostragem aleatória simples e a estratificada, onde em cada escola foi considerada um estrato individual e dentro de cada uma foi selecionada uma amostra. Assim, dentro de cada escola foram sorteadas as turmas e dentro de cada turma sorteados os alunos pela lista de sua própria chamada, e somente após a assinatura ou autorização dos pais por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foram aplicados os questionários.

Do total de 2.579 alunos matriculados no ano de 2014, selecionou-se estatisticamente uma amostra de 649 alunos para participarem da pesquisa, no entanto, fizeram parte da amostra 273 alunos, ou seja, 42,06% dos selecionados. Os demais foram excluídos devido aos seguintes motivos: questionários com preenchimento incompleto; participantes com idade inferior à idade estabelecida para a pesquisa; alunos que não quiseram participar; e pais que não autorizaram a participação dos filhos.

É interessante ressaltar que o tema tabagismo na adolescência ainda é visto como um assunto proibido por muitos pais que consideram um ato ilícito, assim, é possível que muitos adolescentes estejam fumando escondido, fator que pode ter contribuído para o baixo índice de participação. No entanto, o fato da pesquisa ter sido realizada na forma de questionário confidencial e individual, não se pode descartar a possibilidade do adolescente ter ocultado o fato de fumar. Podendo haver com isso, uma prevalência real, maior do que a encontrada8.

De modo a atender os preceitos éticos relacionados com a pesquisa que envolve seres humanos, o projeto foi previamente aprovado pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Oeste do Paraná-UNIOESTE sob o parecer n°. 714.931.

Os dados foram obtidos através de preenchimento de questionários padronizados individuais e anônimos com base em Sebba9 e Nascimento et al.10 sobre o uso de cigarro e com o teste de Fargerstrom", no qual os estudantes responderam perguntas demográficas e sociais como idade, sexo, série, instituição de ensino, turno (diurno, noturno), se trabalham, escolaridade dos pais, se os pais são separados, se há fumante na família e se tem amigo(a) fumante.

Também foram coletadas informações em questões específicas sobre seus hábitos (se fuma, o número de cigarros consumido, a importância do cigarro em sua vida, o motivo que o levou a começar a fumar, se alguém o influenciou a fumar, conhecimento em relação aos prejuízos a saúde e se há fumantes em sua família). Para quantificar o grau de dependência da nicotina foi utilizado o teste de Fargerstrom11, sendo definido como dependente aquele que atingiu no mínimo sete pontos.

O padrão de referência utilizado foi o da Organização Mundial da Saúde (OMS) que considera fumante aquele que tenha fumado em um ou mais dias, nos últimos 30 dias4. Após a coleta dos questionários, os mesmos foram revisados e tabulados no Excel, analisados a partir da proposta de Fargerstrom11, e através do programa SPSS-18, utilizando-se do teste qui-quadrado para testar todas as variáveis e verificar associação com o fumor. Neste estudo optou-se pelo cálculo do odds ratio, ou seja, a razão de chances ou possibilidades de um evento ocorrer em um grupo e não ocorrer em outro.


RESULTADOS E DISCUSSÕES

O tabagismo é uma das principais causas de enfermidades evitáveis e incapacidades prematuras, e geralmente o hábito de fumar é adquirido na adolescência. Com base nos dados coletados, 87,18% (n=238) se declararam não ser fumantes.

Entre os fumantes verificou-se uma prevalência do tabagismo de 12,82% (n=35), dado semelhante ao encontrado entre os escolares de Florianópolis no ano de 2010 (12,9%)12.

Observou-se uma prevalência maior para o sexo masculino de 16% (n=24) correspondendo a 68,57% dos fumantes da pesquisa e 8,9% (n=11) para o sexo feminino, correspondendo a 31,43% dos fumantes. O que condiz com o resultado encontrado na pesquisa de Weber8 que encontrou uma prevalência maior para o sexo masculino equivalente a 71,4% dos pesquisados.

Na Tabela 1 são apresentas as características dos participantes da amostra. Observa-se um número maior de indivíduos do sexo masculino, 54,95% (n=150) sendo que a faixa etária de maior concentração foi de 15 a 18 anos, com 80,95% (n=221) estudantes. A média de idade em relação à experimentação ao tabaco foi de 14 anos com desvio entre 10 e 19 anos. Em relação à idade de iniciação ao consumo do tabaco para os estudantes que mencionaram serem fumantes foi de 14,8 anos, com desvio entre 13 a 18 anos.




Constatou-se que a minoria dos estudantes (10,63%; n=29) frequenta o primeiro ano do ensino médio, o que pode estar relacionado à baixa participação na pesquisa já que a idade mínima exigida era de 15 (quinze anos). 39,19% (n=107) dos alunos frequentam o 2° ano do ensino médio e 50,18% (n=137) dos estudantes, frequentam o 3° ano do ensino médio. Dos estudantes pesquisados, 47,25% (n=129) frequentam a escola no período diurno, 52,75% (n=144) frequentam a escola no período noturno.

Em uma pesquisa realizada por Silva13 observou-se que houve maior proporção de experimentação do cigarro entre os alunos que estudam no período noturno, os quais apresentaram mais que o dobro de chance de experimentar o cigarro do que aqueles que estudavam durante o dia. Esse fator pode estar relacionado à maior faixa etária desses estudantes e pela influência de atividades remuneradas.

Em relação à ocupação profissional, 54,58% (n=149) dos estudantes trabalham e destes, 27,52% (n=41) ganham menos de um salário mínimo e 45,42% (n=124) não trabalham. A ocorrência de uma maior percentagem de estudantes ingressos no mercado de trabalho formal ou informal pode estar ligada à necessidade de tornar-se independente, o qual traz para os jovens uma nova condição dentro da convivência familiar com a presença de uma renda.

Ter uma renda permite ao adolescente desfrutar de maior autonomia em relação às decisões juntamente com os pais. No entanto, o trabalho remunerado contribui decisivamente para o processo de amadurecimento psicológico e social dos filhos14. Para Flankim15, embora o trabalho seja fator que proporciona ao jovem a sua autonomia, ele pode comprometer a formação escolar, uma vez que há falta de tempo, condições físicas e mentais para exercer o trabalho e estudar ao mesmo tempo8.

Com relação à escolaridade dos pais dos entrevistados, identificou-se que 5,13% (n=14) não tem escolaridade, 41,76% (n=114) possuem o ensino fundamental, 47,25% (n=129) o ensino médio, e 5,86% (n=16) possuem ensino superior/ pós-graduação. Em relação à escolaridade das mães dos entrevistados, 2,56% (n=7) não possuem escolaridade, 43,59% (n=119) possuem ensino fundamental, 44,32% (n=121 ) ensino médio e 9,52% (n=26) com ensino superior/pós-graduação. Foi observado um percentual maior no grau de escolaridade das mães dos estudantes, principalmente em relação ao ensino superior/pós-graduação.

A feminilização do ensino é um processo que tem ocorrido nas últimas décadas com a presença mais efetiva das mulheres na procura pela sua qualificação no campo científico16. Constatou-se que 89,01% dos pais e das mães dos entrevistados não possuem ensino superior/ pós-graduação, que condiz com a realidade brasileira. Segundo estudo do Programa das Nações Unidas (PNUD), o brasileiro tem em torno de 14,2 anos de estudos, ou seja, 49,5%, em consonância com estes dados do PNUD, tem pelo menos o ensino médio17.

Dos alunos participantes da pesquisa, 91 mencionaram ter pais fumantes. É possível verificar que o hábito de fumar é maior entre os pais com menor nível de escolaridade. Esse dado corrobora com as informações divulgadas pelo INCA no município do Rio de Janeiro no ano de 2001, que identificou a associação entre o baixo grau de escolaridade e menor renda familiar associado com o maior uso de cigarro18.

Dos estudantes que participaram da pesquisa, 33,33% (n=91) afirmaram que seus pais são separados, destes, 48,57% (n=17) fumam e convivem com os pais separados. Segundo Silva et al.19, quando os pais dos estudantes são separados, a probabilidade deles experimentarem o cigarro é de 35% maior do que quando os pais vivem juntos. É possível que esse risco esteja relacionado aos aspectos sociais e interações emocionais nos quais está inserida a separação, ou seja, o afastamento de um dos pais, dificuldades econômicas, maior distanciamento afetivo, entre outros fatores podem levar o adolescente a encontrar refúgio no uso de cigarro.

Na Tabela 2 é possível verificar as variáveis pesquisadas sobre o hábito de fumar entre os estudantes da área urbana dos colégios estaduais da rede pública de ensino do município de Francisco Beltrão - PR.




Observa-se pelos dados que para 33,7% dos estudantes, o pai ou a mãe são fumantes. Com relação a outros membros da família, 47,62% (n=130) estudantes mencionaram terem outros membros da família que fumam além de pai, mãe e irmão. Dados relevantes também foram apontados por Zanini et al.6, no qual se observou que 51,3% dos pais dos estudantes pesquisados fumam, além de outros membros da famílias (40,3%).

Também se observou que 80,59% (n=220) dos estudantes mencionaram terem amigos que fumam. Quanto à oferta de cigarro grátis, observou-se que 52,75% (n=144) dos estudantes declaram terem recebido oferta de cigarros dos amigos. Em meio a tantas mudanças e na busca de conquistar a tão sonhada dependência, muitos jovens estão sujeitos às regras dos grupos, e por medo de não ser aceitos, submetem-se as suas regras, sendo que muitas dessas regras levam à dependência de drogas. Em um estudo feito por Weber8 também observou-se que 42,8% dos adolescentes disseram fumar pela influência de amigos.

Observou-se que 97,44% (n=266) dos estudantes tinham algum grau de conhecimento em relação às doenças e os prejuízos que o fumo pode trazer a saúde. Um resultado bem próximo a essa pesquisa foi encontrado por Weber8, no qual se constatou que 83,7% dos estudantes também demonstraram conhecer os malefícios do tabaco.

83,88% (n=229) dos alunos entrevistados mencionaram que há fumantes nos lugares os quais frequentam. Segundo a OMS4, em torno de 40% das crianças estão regularmente expostas ao fumo passivo em casa, e 31% das mortes atribuídas ao fumo passivo ocorrem em crianças. Já os jovens expostos ao fumo passivo são mais propensos a começar a fumar do que os não expostos. Segundo o inquérito do Sistema Internacional de Vigilância do Tabagismo da Organização Mundial da Saúde realizado no Brasil entre 2002 e 2009, estima-se que o fumo passivo provoque cerca de 600 mil mortes anuais de indivíduos expostos à fumaça do cigarro1.

Sabe-se que além da publicidade, outros fatores como pressão de grupos de amigos, depressão, baixa autoestima, juntamente com atitudes e modelos tem contribuído para o início precoce de cigarro, principalmente se na família e nos meios sociais, o jovem esteja exposto à fumaça do cigarro. Contudo, foi possível verificar que os estudantes vêm recebendo de seus pais orientação sobre os males que o cigarro pode causar à saúde. Também verificou-se uma importante atuação dos professores e das escolas quanto à orientação e prevenção ao uso de tabaco.

Em relação à idade de experimentação, constatou-se que dos 126 alunos que mencionaram já terem experimentado o cigarro, 51,59% (n=65) experimentaram entre 13-15 anos de idade. Foi possível verificar que os estudantes começaram a experimentar o cigarro, em média, aos 14 anos, sendo que a idade mínima declarada foi de 10 e a máxima de 19 anos, o que coincide com a pesquisa realizada por Zanini et al.6 que encontrou uma idade média de experimentação em seu estudo de 14 anos e com uma variância de idade entre 8 e 25 anos.

Além do fator experimentação, foi possível verificar o tipo de cigarro experimentado, sendo que 76,98% (n=97) dos alunos mencionaram terem experimentado somente o tabaco, e 23,02% mencionaram terem experimentado além do tabaco outras drogas conforme dados da Tabela 2. Segundo dados publicados pelo INCA1, o tabagismo é considerado a segunda causa de morte no mundo pela Organização Mundial da Saúde e pode ser evitado. Está associado à mortalidade por diversos tipos de câncer (pulmão, boca, laringe, faringe, esôfago, estômago, pâncreas, bexiga, rim, colo do útero e leucemia mieloide aguda, doença pulmonar, doença coronariana, hipertensão arterial e acidente vascular encefálico). Além de estar sujeito à mortalidade por todas essas doenças, o simples fato de ser exposto à fumaça de produtos de tabaco contribui para o desenvolvimento ou agravamento de diversas outras doenças.

Observa-se na Tabela 3 que as variáveis ligadas a oferta de cigarro ao adolescente apresentou maior razão de Odds Ratio para ser fumante. As variáveis pais separados (OR=2,09) e turno da escola (OR=2,98) mostraram associação ao tabagismo. Ter pais separados é considerado um fator de risco significativamente associado ao tabagismo na adolescência. Neste estudo, identificou-se que o adolescentes com pais separados tem duas vezes mais chances de começar a fumar, e o adolescente estudar no período noturno apresenta 2,9 vezes mais chance para o tabagismo. No caso de receber uma 'oferta gratuita de cigarro' e de um 'amigo oferecer cigarro', o adolescente tem 3,2 e 2,5 mais chance de começar a fumar. Os estudantes noturnos obtiveram uma OR=2,44 enquanto a oferta de cigarro grátis teve uma OR=2,50. Esse último foi semelhante aos dados do Inquérito Vigescola realizado em Porto Alegre (RS) em 2002 e 20043(OR=2,27). Dados significativos também foram encontrados por Silva et al.19, sendo que na variável pais separados observou-se uma associação de OR=1,23. Demais variáveis identificadas em outros estudos como socioeconómicas e demográficas, familiares fumantes, não apresentaram valores significativos neste estudo.




O Questionário de Tolerância de Fargerstrom11 foi aplicado com objetivo de identificar o nível de dependência nicotínica dos adolescentes. Quanto mais dependente da nicotina for o fumante, maior será a possibilidade e/ou a gravidade da síndrome de abstinência durante a suspensão do tabagismo, assim, maior será a dificuldade de manter a abstinência em longo prazo20.

Ao aplicar o Teste de Fargerstrom11 aos 35 adolescentes fumantes do presente estudo, verificou-se que 71,43% (n=25) destes apresentavam um nível muito baixo de dependência a nicotina. Isso aconteceu provavelmente por conta dos entrevistados encontrarem-se na faixa de iniciação ao tabaco, com média de 1 a 2 anos de consumo e ainda pouco dependentes. Contudo, se não houver um trabalho de prevenção e conscientização é possível que no futuro esses jovens iniciantes venham a se tornar fumantes ativos. 20% (n=7) dos entrevistados apresentaram nível baixo de dependência (3 a 4 pontos) e 8,57% (n=3) nível elevado (6 a 7 pontos). Podendo haver relação com o fato de que 31,43% (n=11) dos estudantes que mencionaram fumar, o fumam por ser um vício.

Dados dos inquéritos do Sistema Internacional de Vigilância do Tabagismo da Organização Mundial da Saúde realizados no Brasil entre 2002 e 2009, salienta que os jovens da Região Sul (entre 15 e 24 anos) apresentaram percentual de dependência elevada, ou muito elevada similar ao dos adultos da mesma região e acima do nível de outras regiões para a mesma faixa etária, em torno de 21,5%. Esta informação mostra a necessidade de estratégias específicas enfocando a população da Região Sul do Brasil, tanto na prevenção da iniciação quanto no estímulo a largar o vício1.

O estudo ainda alerta que a iniciação precoce no consumo dos produtos de tabaco é importante fator prognóstico para o adoecimento e deve ser evitada. Sendo que a diferença em alguns anos no início do consumo dos produtos de tabaco pode aumentar, em quase o dobro, os riscos de danos à saúde, sendo que quanto mais cedo se estabelece a dependência ao tabaco, maior o risco de morte prematura na meia-idade ou na idade madura.


CONCLUSÃO

Sendo o consumo de tabaco um fator de risco à vida a ser controlado com alta prioridade, e tendo em vista a elevada ocorrência de mortes associadas ao tabagismo em escala mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe um conjunto de estratégias entre as quais se destacam: a vigilância e o monitoramento do consumo de produtos provenientes do tabaco. Em geral, o tabagismo é considerado um problema de saúde pública, decorrente de um hábito precoce que deve ser tratado em termos preventivos.

Entre a amostra pesquisada, foi possível verificar uma prevalência de 12,82% (n=35) fumantes, evidenciando que o problema existe e deve ser trabalhado a fim de prevenir que esses estudantes se tornem fumantes ativos no futuro. Levando em consideração a vulnerabilidade em relação à experimentação de tabaco entre os jovens, nessa pesquisa verificou-se que o número de estudantes que mencionaram já terem experimentado o tabaco foi equivalente a 46,15% com (n=126). Dos estudantes que mencionaram já terem experimentado o tabaco, a maioria, 63,49% (n=80) experimentaram-no entre os 10 aos 15 anos de idade.

As variáveis com maior fator de risco significativamente associado ao tabagismo na adolescência foram em relação aos pais separados, adolescentes que estudam no período noturno,

oferta gratuita de cigarro e amigo oferecer cigarro. Assim, ações conjuntas na qual se busque envolver a família, a escola e a sociedade devem ser implementadas com o objetivo de prevenir o contato do adolescente com o tabaco, bem como a orientação e o seu tratamento.

Medidas podem ser realizadas como a promoção de maior diálogo entre os adolescentes e os pais, juntamente com ações educativas nas escolas, campanhas e ações permanentes as quais mostrem os possíveis danos causados à saúde pelo uso de tabaco. Promovendo assim a autoestima e a valorização pela vida.


REFERÊNCIAS

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