Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 2 - Abr/Jun - 2017

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Páginas 125 a 134


Representações sociais de usuários de fones de ouvido e queixas auditivas

Social representations of headphones users and hearing complaints

Representaciones sociales de usuarios de audífonos y quejas auditivas


Autores: Marlos Suenney de Mendonça Noronha1; Marcela Cássia Silva2; Diziane Souza Nascimento3

1. Mestrado em Enfermagem na Atenção à Saúde pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). João Pessoa, PB, Brasil. Docente do curso de Fonoaudiologia, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Lagarto, SE, Brasil
2. Bacharel em Fonoaudiologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Lagarto, SE, Brasil. Fonoaudióloga da Clínica Master. Brumado, BA, Brasil
3. Bacharel em Fonoaudiologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Lagarto, SE, Brasil. Fonoaudióloga da Rehabilito Saúde. Estância, SE, Brasil

Marlos Suenney de Mendonça Noronha
Av. Quirino, 830, C. Vila Oriente, Bloco Osaka, Apt 303, Inácio Barbosa
Aracaju, SE, Brasil. CEP: 49040-700
marlos.noronha@gmail.com

Recebido em 20/11/2015
Aprovado em 11 /09/2016

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Como citar este Artigo

Descritores: Saúde pública, promoção da saúde, fonoaudiologia, audiologia.
Keywords: Public health, Health Promotion, Speech, Language and Hearing Sciences, Audiology.
Palabra Clave: Salud pública, promoción de salud, fonoaudiología, audiología.

Resumo:
OBJETIVO: Analisar as representações sociais de adolescentes sobre as queixas auditivas provocadas pelo uso excessivo de fone de ouvido e conhecer sua percepção sobre a audição.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo descritivo de abordagem quantitativa e qualitativa. O estudo foi constituído de 98 estudantes da rede pública e/ou privada do município de Lagarto-SE. Foi aplicado questionário e realizadas entrevistas na coleta de dados. Os dados resultantes das entrevistas foram avaliados considerando o Discurso do Sujeito Coletivo. Os dados quantitativos foram avaliados por meio de frequências e percentuais, desvio padrão, Teste do Qui Quadrado, Teste Fisher e Teste de Mann-Whitney.
RESULTADOS E CONCLUSÕES: Os colaboradores apresentaram as seguintes características: 79,5% frequentam instituição de ensino pública; 59,1% utilizam meio de transporte não motorizado; 85,2% utilizam fones de ouvidos com objetivo de ouvir músicas; 44,3% referem possuir boa percepção auditiva; 50% referem possuir diminuição da acuidade auditiva; Quanto as queixas auditivas 28,4% referiram cefaleias e 11,4% zumbidos; Quanto ao tempo de uso 22,7% relataram uso de fones de ouvido de 2 a 3 hora/dia. Na avaliação qualitativa as ideias centrais (ICs), que surgiram dos discursos foram o tempo de uso dos fones de ouvido, o déficit auditivo e os malefícios do uso dos fones de ouvido para saúde. Torna-se necessário a realização de mais pesquisas relacionadas a essa temática e a realização de campanhas de promoção da saúde auditiva que alertem sobre os malefícios do uso intenso de fones de ouvidos em altas intensidades sonora.

Abstract:
OBJECTIVE: Analyze the social representations of teenagers on hearing complaints caused by excessive use of headset and how are their hearing perception.
METHODS: This is a descriptive study of quantitative and qualitative approach. The study consisted of 98 students from public and/or private schools in the city of Lagarto-SE. This study applied questionnaires and interviews to collect data. Data from the interviews were evaluated considering the Discourse of the Collective Subject method. Quantitative data were evaluated using frequencies and percentages, standard deviation, Chi square test, Fisher test and Mann-Whitney test.
RESULTS AND CONCLUSIONS: The collaborators had the following characteristics: 79.5% attend public educational institutions; 59.1% use means of non-motorized transport; 85.2% use headphones in order to listen to songs; 44.3% reported having good auditory perception; 50% reported having decreased auditory acuity; To the hearing complaints, 28.4% reported headache and 11,4%, buzzing; Regarding the time of use, 22.7% reported use of headphones 2-3 hour/day. In the qualitative assessment, the central ideas (CIs) emerging from the speeches were the time of use of headphones, the hearing loss and the dangers of the use of headphones for the health. It is necessary to carry out more research related to this subject and the completion of the hearing health promotion campaigns that warn about the dangers of the intensive use of headphones at high sound intensities.

Resumen:
OBJETIVO: Analizar las representaciones sociales de adolescentes sobre las quejas auditivas provocadas por el uso excesivo de audífonos y conocer su percepción sobre la audición.
MÉTODOS: se trata de un estudio descriptivo de abordaje cuantitativo y cualitativo. El estudio fue constituido de 98 estudiantes de la red pública y/o privada del municipio de Es. Fue aplicado cuestionario y realizadas entrevistas en la recolección de datos. Los datos resultantes de las entrevistas fueron evaluados considerando el Discurso del Sujeto Colectivo. Los datos cuantitativos fueron evaluados por medio de frecuencias y porcentajes, desvío estándar, Prueba del Chi Cuadrado, Test de Fisher y Test de Mann-Whitney.
RESULTADOS Y CONCLUSIONES: Los colaboradores presentaron las siguientes características: 79,5% frecuentan institución de enseñanza pública; 59,1% utilizan medio de transporte no motorizado; 85,2% utilizan audífonos con objeto de oír músicas; 44,3% indican poseer buena percepción auditiva; 50% indican poseer disminución de la agudeza auditiva; En relación a las quejas auditivas, 28,4% indicaron cefaleas y 11,4% zumbidos; En cuanto al tiempo de uso, 22,7% relataron uso de audífonos de 2 a 3 hora/día. En la evaluación cualitativa, las ideas centrales (ICs), que surgieron de los discursos fueron el tiempo de uso de los audífonos, el déficit auditivo y los males del uso de los audífonos para la salud. Se vuelve necesario la realización de más pesquisas relacionadas a esa temática y la realización de campañas de promoción de salud auditiva que alerten sobre los males del uso intenso de audífonos en altas intensidad sonora.

A poluição sonora pode causar alterações devastadoras na saúde auditiva do indivíduo, acometendo precocemente a maioria dos jovens em decorrência do uso excessivo do fone de ouvido. As utilizações dos mesmos em altas intensidades sonoras podem causar deformações auditivas, desconcentração, baixo rendimento escolar, tornando assim um problema de Saúde Coletiva.

Os jovens, principalmente os adolescentes, estão cada vez mais expostos a ruídos de alta intensidade, entre eles se destaca a música. Determinados ambientes e mesmo os fones de ouvidos podem atingir níveis de pressão sonora elevados, capazes de lesionar o aparelho auditivo1.

Sabe-se que o ouvido é composto por várias estruturas sensíveis como orelha externa, média e interna, responsáveis por nossa comunicação através da detecção, atenção, localização, discriminação, reconhecimento e memória auditiva. Tais aspectos são fundamentais para nossa segurança diária e qualidade de vida, necessitando assim de cuidados preventivos.

A atitude dos adolescentes frente ao ruído sugere que esta população não parece preocupar-se com os efeitos nocivos dos sons intensos a sua saúde. Esse fato fica claro ao serem consideradas suas atitudes nas mais diversas situações de exposição2.

A Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, realizou uma pesquisa sobre perspectivas dos pais sobre o risco de perda auditiva do adolescente e prevenção onde revelou que 67% dos pais não conversam com seus filhos adolescentes sobres os riscos de perda auditiva, principalmente as causadas pela exposição a ruído dos aparelhos sonoros. Dentre desses pais, 70% acreditam que seus filhos estão fora dos riscos de adquirirem uma perda auditiva3.

Verificou-se que um em cada dez adolescentes é exposto a excesso de ruído que excede 70 dB (decibéis), acima do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde - OMS3.

Assim, este estudo possibilitará medidas preventivas à saúde auditiva entre os adolescentes no município de Lagarto, mostrando a importância da Fonoaudiologia na Saúde Coletiva.

A pesquisa justifica-se pela necessidade de contribuir na discussão sobre a promoção da saúde auditiva de estudantes, de quinze a dezoito anos do Ensino Médio do município de Lagarto, e por entendermos que a parceria entre a universidade, serviços e a comunidade é de suma importância para implementação de programas que visem à redução de hábitos de risco para alterações auditivas nessa população.


OBJETIVO

Analisar as representações sociais de adolescentes sobre as queixas auditivas provocadas pelo uso excessivo de fone de ouvido e conhecer sua percepção sobre a audição.


METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo com uma abordagem quantitativa e qualitativa. A pesquisa qualitativa considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números4.

A pesquisa quantitativa caracteriza-se pelo emprego da quantificação, tanto nas modalidades de coleta de informações, quanto no tratamento dessas através de técnicas estatísticas, desde as mais simples até as mais complexas. A mesma garante ainda um diferencial, ou seja, a precisão dos trabalhos realizados o que conduz a um resultado objetivo e com poucas chances de distorções ou erros5.

Para coleta dos dados quantitativos foi utilizado o recurso do questionário. O questionário pode ser definido "como a técnica de investigação composta por um número mais ou menos elevado de questões apresentadas por escrito às pessoas, tendo por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas etc."6.

O estudo foi realizado em uma escola pública e uma escola privada, na cidade de Lagarto - SE, e foi levado em consideração a questão da acessibilidade e interesse em participar da pesquisa.

O processo utilizado foi a de amostragem estratificada, na qual a unidade primária foi o fim lucrativo da instituição educacional, pública ou privada.

O universo deste estudo foi constituído de estudantes da rede pública e privada e a população foi composta por 98 adolescentes de ambos os sexos, com a faixa etária de quinze a dezoito anos que concordaram em participar da pesquisa. Dos adolescentes que participaram, 88 realizaram o questionário para a avaliação quantitativa e 10 participaram da entrevista para a avaliação qualitativa.

As considerações dos aspectos éticos contidos na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde foram observados e respeitados. A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética da Universidade Federal de Sergipe (parecer n°. 679.213) e, em seguida, entregue aos colaboradores o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, no qual estavam contemplados: os objetivos da pesquisa, que a participação é voluntária, que a identidade dos entrevistados seria preservada, que o entrevistado poderia desistir de participar do estudo a qualquer momento, e que estariam totalmente isentos de qualquer custo.

Para a análise dos dados quantitativos, foram utilizados os softwares Excel, Bioestat e R versão 3.03. Os dados quantitativos foram avaliados por meio de frequências e percentuais, desvio padrão, Teste do Qui Quadrado, Teste Fisher e Teste de Mann-Whitney.

Para a técnica de coleta de dados foi empregado o recurso da entrevista, por ser meio de interação social e coleta de informações. Os dados qualitativos foram transcritos textualmente e os sujeitos receberam codificação de identificação com nomes fictícios preservando a identidade do sujeito e agrupados com auxílio do QualiQuantisoft, versão 1.3c.

A escolha do Discurso do Sujeito Coletivo fundamentou-se na Teoria das Representações Sociais por consistir no conjunto de conceitos, afirmações e explicações, que são verdadeiras teorias do senso comum, pelas quais as pessoas interpretam a sua realidade e também as realidades sociais, constituindo o pensamento em um verdadeiro ambiente onde se desenvolve a vida cotidiana7.


RESULTADOS E DISCUSSÕES

Fizeram parte da avaliação quantitativa 88 adolescentes, sendo 67% do sexo feminino e 33% do sexo masculino, com idade entre 15 a 18 anos e as seguintes características: 79,5% frequentam instituição pública de ensino; 60,2% não utilizam meio de transporte para deslocamento para instituição de ensino (Tabela 1).




Nos últimos anos, os níveis de pressão sonora intensos foram considerados os mais presentes agentes nocivos à saúde nos ambientes urbanos e sociais, sendo encontrados frequentemente em locais de atividades de lazer, na forma de música em intensidade elevada, transformam-se num problema ambiental crescente na atualidade8.

A Tabela 2 descreve a distribuição dos colaboradores com relação ao uso estéreos individuais (fones de ouvido) e a finalidade de seu uso. Dos adolescentes investigados, 85,2% utilizam estéreos individuais; quanto à finalidade do uso do estéreo, 85,2% utilizam apenas para ouvir música, 4,5% utilizam para jogos eletrônicos e 4,5% para outras finalidades.




Observa-se que a maioria dos adolescentes faz o uso constante de fones de ouvido, com a finalidade maior para ouvir músicas. A intensidade de ruído utilizada pela maioria dos discentes ultrapassa o volume de segurança estabelecido por alguns equipamentos, fazendo que o mesmo seja exposto ao volume total do aparelho.

O hábito de escutar música (utilizando fones de ouvido, com equipamento de som ou no carro) são os mais comuns entre os jovens, o que vem sendo encontrado na literatura como um comportamento cada vez mais comum entre os adolescentes, e podem ser um risco para a audição9.

Estudo realizado nos Estados Unidos relata que a porcentagem de alterações auditivas entre jovens no ensino médio aumentou 2,8 vezes nas últimas décadas10.

Estudos apontam que pessoas jovens deveriam ser informadas em bases amplas sobre o risco para a audição que o indivíduo se submete ao fazer uso de fones de ouvido em intensidade alta e por um longo período de tempo11. Campanhas informativas deveriam, por outro lado, iniciar com as crianças que são expostas à música dos estéreis portáteis, jogos eletrônicos, entre outros.

Sabe-se que adolescentes na faixa etária de 12 a 18 anos, aumentaram muito o uso de equipamentos estéreos pessoais (EP), muitas vezes, usados de maneira inadequada, por muitas horas e em intensidades muito elevadas12.

Há motivos preocupantes que fazem com que esses modernos equipamentos sejam prejudiciais para usuário: a grande capacidade de memória, a alta durabilidade da bateria que favorece seu uso em jornadas extensas e o design dos fones que são capazes de concentrar toda a energia sonora produzida dentro do conduto auditivo externo, sendo considerados, por esta característica, os mais prejudiciais12.

Com relação a percepção auditiva dos adolescentes em relação ao uso dos estéreos individuais: 44,3% consideram ter uma boa audição, 35,2% consideram ter uma ótima, 19,3% consideram ter uma audição razoável e 1,1% consideram ter uma audição ruim. Dos adolescentes investigados, 50% relataram diminuição da acuidade auditiva (Tabela 3).




Os resultados revelam que a maioria dos adolescentes acredita ter uma boa percepção auditiva. Vale ressaltar que quando a exposição ao ruído ocorre de forma súbita e muito intensa, pode ocorrer o trauma acústico, lesando, temporária ou definitivamente, diversas estruturas do ouvido13.

Outro tipo de alteração auditiva provocada pela exposição ao ruído intenso é a mudança transitória de limiar, que se caracteriza por uma diminuição da acuidade auditiva que pode retornar ao normal, após um período de afastamento do ruído13.

A literatura relata que o fato de alguns jovens gostarem do ruído pode estar relacionado com a descarga de adrenalina causada pela exposição a intensidades sonoras elevadas e que são vistas como estimulantes pelos jovens14.

A Tabela 4 nos mostra os resultados referentes as queixas auditivas decorrentes do uso de estéreos individuais. Dos investigados, 23,9% relataram dificuldade de compreensão de fala; 11,4% relataram a presença de zumbidos; 28,4% relataram cefaleia; 4,5% relataram intolerância a sons altos; 2,3% relataram dificuldade para dormir e 4,5% referiram tontura.




A exposição a elevados níveis de intensidade pode desencadear diversos sintomas, tais como: intolerância a sons intensos, tontura, otalgia e, principalmente zumbido e perda auditiva. Já o prejuízo na audição pode acarretar consequências severas à qualidade de vida do indivíduo, afetando sua saúde e conturbando intensamente suas relações sociais15.

Tal afirmativa reafirma a preocupação com os dados encontrados entre adolescentes de escolas públicas e privadas, do município de Lagarto - SE, com relação aos cuidados com a audição.

Com relação às dificuldades de compreensão de fala, estas são as mais relatadas pelos indivíduos portadores de PAIR (Perda Auditiva Induzida por Ruído), cujo padrão de fala poderá sofrer alterações, de acordo com o grau de perda auditiva13.

Os indivíduos não consideram que o zumbido seja um sintoma de que seus ouvidos estão suscetíveis aos danos causados pela música alta. Para essas pessoas, o zumbido desaparece sem deixar qualquer dano no momento, e que a única preocupação é quando o zumbido aparece pela primeira vez. A presença de zumbido em usuários que fazem uso constante de equipamentos portáteis de música, é um sintoma muito comum, sendo que o mesmo pode indicar problemas auditivos16.

A Tabela 5 demonstra o tempo de uso de estéreos individuais nos adolescentes no município de Lagarto, SE. Dos investigados, 56,8% relataram que utilizam estéreos individuais de 0 a 1 hora/dia, 22,7% relataram que utilizam estéreos individuais de 2 a 3 horas/dia e 13,6% utilizam por mais de 3 horas/dia.




Percebe-se que a menor parte dos investigados utiliza estéreos individuais entre duas a três horas diárias. O tempo de uso de estéreos individuais neste período, é suficiente para o surgimento de alterações auditivas16.

É importante descrever que os ruídos de alta frequência são mais danosos que os de baixa frequência. Sabe-se que a mudança transitória de limiar começa a partir de uma exposição de ruído a 75dB (A). Acima de 75 dB (A), a mudança transitória de limiar aumentará proporcionalmente ao aumento de intensidade e duração do ruído13.

O risco de alterações auditivas decorrentes de exposição do ruído aumenta quando a média da exposição está acima de 85dB (A) por oito horas diárias. As exposições contínuas são piores do que as intermitentes, porém, curtas exposições a ruído intenso também podem desencadear perdas auditivas13.

Diante de tais considerações, obtivemos o Teste qui-quadrado significativo abaixo de 0,05 com relação entre o tempo de uso diário de estéreo individual e a queixa de dificuldade de compreensão de fala dos adolescentes investigados.

Na avaliação qualitativa, foram entrevistados 10 adolescentes de ambos os sexos. As expressões-chave (ECHs) e as ideias centrais (ICs) que surgiram dos discursos dos adolescentes que utilizam estéreos individuais contemplam aspectos de: dependência do uso de estéreos individuais; déficit da audição ou percepção auditiva; malefícios do fone de ouvido e; uso excessivo do fone de estéreo individual.

O Quadro 1 apresenta a percepção dos adolescentes sobre o uso diário de estéreos individuais e sua dependência com o acessório.





Diante do discurso dos adolescentes percebemos que os mesmos utilizam tais equipamentos durante todo o dia sem restrições de tempo de uso e local. Vale reforçar que a exposição contínua ao ruído pode ocasionar diversas restrições auditivas funcionais, como: alteração da sensibilidade auditiva, alterações de seletividade de frequência, das resoluções temporal e espacial, do recrutamento e do zumbido17.

É preciso realizar campanhas informativas que promova a saúde auditiva deste grupo populacional nas escolas e nos serviços de saúde objetivando mudanças de atitudes referentes ao uso de tais equipamentos. É notório o desconhecimento com relação aos efeitos que o uso contínuo de estéreos individuais acarreta.

No Quadro 2, o Discurso do Sujeito Coletivo apresenta a percepção dos adolescentes de escolas públicas e privadas quanto ao déficit auditivo no município de Lagarto, SE. É importante frisar que tais dados são similares aos resultados apresentados pelos estudantes que participaram da pesquisa quantitativa.




Um estudo sobre conhecimento auditivo da população usuária do Sistema Único de Saúde mostra que 31,4% dos investigados, ouvem som alto, apesar de 84,7% o considerarem prejudicial18.

Assim, atividades como ouvir som alto e utilizar estéreos individuais são consideradas prejudiciais uma vez que podem provocar déficits auditivos. Ainda que a música seja compreendida como um som agradável, quando este ato é realizado de forma intensa provoca alterações auditivas no indivíduo de caráter irreversível19.

O Discurso do Sujeito Coletivo, no Quadro 3, apresenta a percepção de estudantes sobre os malefícios do fone de ouvido no município de Lagarto, SE.




A exposição ao ruído pode provocar diferentes respostas nos trabalhadores de ordem auditiva e extra auditiva a depender das características do risco, da exposição e do indivíduo exposto. São efeitos auditivos reconhecidos: o zumbido de pitch agudo, a mudança temporária do limiar (MTL) e a mudança permanente do limiar (MPL) (trauma acústico agudo e crônico). Já os efeitos extra auditivos: distúrbios no cérebro e nos sistemas nervoso, circulatório, digestório, endócrino, imunológico, vestibular, muscular, nas funções sexuais e reprodutivas, no psiquismo, no sono, na comunicação e no desempenho de tarefas físicas e mentais20.

Apesar de conhecerem os malefícios que o uso constante do estéreo individual pode trazer para a saúde auditiva, tais como a exclusão social, a redução da acuidade auditiva, a presença de zumbidos, o déficit de compreensão de fala e o estresse, o uso demasiado desses equipamentos faz parte da rotina desses jovens e adolescentes.

Os investigados relatam que mesmo entendendo superficialmente os efeitos causados pelo ruído, eles ainda declaram sentir prazer em ouvir músicas, associando tal atitude a um vício e sensação de prazer.

Desse modo, percebe-se que por meio dos discursos é possível compreender a necessidade de ações voltadas para a saúde auditiva no município de Lagarto-SE, elencando para a população os prejuízos ocasionados em sua saúde pelo uso intenso de ruído


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa fez perceber os riscos de alterações auditivas, que adolescentes do município de Lagarto-SE estão sujeitos. As queixas de alterações auditivas relatadas foram similares entre os dois grupos investigados e confirma que alterações auditivas podem ser desencadeadas por equipamentos que parecem inofensivos para o ser humano.

Os sintomas auditivos explanados pelos pesquisados, indicam que o uso demasiado de equipamento portáteis, com intensidade sonora elevada, associados ao uso de estéreos individuais e tempo de exposição (2 a 3 horas diárias), podem ocasionar alterações auditivas como dificuldade de compreensão de fala, estatisticamente significativa.

Desta forma, torna-se urgente que os gestores públicos do município de Lagarto realizem ações de promoção a saúde da população exposta a tais equipamentos. Além disso, acreditamos no papel do fonoaudiólogo nestas atividades por tratar-se de profissional apto a desenvolver intervenções preventivas, de diagnóstico e reabilitação dos distúrbios relacionados a comunicação humana, em especial as alterações auditivas.

Apesar da escassez de estudos relacionados aos efeitos nocivos dos estéreos individuais na população adolescente, percebemos que este é um problema de saúde que deve ser compreendido pelas famílias, serviços de saúde e ambientes educacionais.

Sugerimos uma participação mais ativa dos profissionais de saúde, em especial o fonoau-diólogo, nas escolas públicas e privadas para disseminar informações aos jovens e adolescentes sobre os riscos que a exposição inadequada aos ruídos intensos em equipamentos portáteis pode causar a saúde. Além da realização de estudos que objetive traçar o perfil audiológico deste grupo populacional.


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