Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 2 - Abr/Jun - 2017

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Páginas 135 a 143


Influência parental na educação escolar adolescente

Parental influence on adolescent school education

Influencia parental en la educación escolar adolescente


Autores: Marcelo Oliveira do Nascimento1; Andre Moreira2; Ana Lúcia Moraes Poffal3; Fernando Baptista de Souza4; Denise de Micheli Avallone5

1. Marcelo Oliveira do Nascimento: Doutorando em Educação e Saúde na Infância e Adolescência pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil
2. Andre Moreira: Mestre em Educação e Saúde na Infância e Adolescência pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil
3. Ana Lúcia Moraes Poffal: Mestre em Educação e Saúde na Infância e Adolescência pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil
4. Fernando Baptista de Souza: Mestre em Educação e Saúde Saúde na Infância e Adolescência pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil
5. Denise de Micheli Avallone: Pós-Doutorado em Ciências.Professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo. (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil

Marcelo Oliveira do Nascimento
Universidade Federal de São Paulo
Rua Napoleão de Barros, 1038, Vila Clementino
São Paulo, SP, Brasil CEP: 04024-003
marcelozoologia@hotmail.com

Recebido em 23/07/2015
Aprovado em 26/09/2015

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Como citar este Artigo

Descritores: Relações familiares, educação, adolescente.
Keywords: Family relations, education, adolescent.
Palabra Clave: Relaciones familiares, educación, adolescente.

Resumo:
OBJETIVOS: O estudo avaliou as percepções de escolares sobre os posicionamentos parentais acerca de seu aproveitamento educacional.
FONTES DE DADOS: A pesquisa foi realizada com estudantes adolescentes, maioria do sexo feminino (54%), matriculados entre o 9° ano do ensino fundamental e 3° ano do ensino médio. Todos os participantes estavam regularmente matriculados na rede pública de ensino do Governo do Estado de São Paulo no município de Guarulhos.
SÍNTESE DOS DADOS: Evidenciamos que dentre os 1.316 adolescentes analisados, 37% perceberam seus responsáveis como sendo negligentes, 24% indulgentes, 21% autoritário e 18% identificaram na postura dos responsáveis um posicionamento autoritativo.
CONCLUSÃO: Considerando o instrumento utilizado para mensurar os problemas no campo educativo, observou-se que os responsáveis identificados como autoritativos demonstraram possuir fatores protetivos contra a possibilidade de seus filhosapresentarem problemas no âmbito escolar, sendo o estilo negligente apontado pelos dados como o estilo menos favorável a possibilidade de uma vida acadêmica de sucesso por parte dos alunos.


Abstract:
OBJECTIVE: The study aimed to assess the perceptions of teenagers regularly enrolled in school about the parental positions oftheir educational attainment.
DATA SOURCE: The survey was conducted with adolescent students mostly female (54%), enrolled between 9th grade of elementary school and senior yearof high school. All participants were enrolled in the public school system of the State of São Paulo in Guarulhos.
DATA SYNTHESIS: We showed that from the 1,316 teens analyzed, 37% have neglectful parents, 24% indulgent, 21 %authoritarian and 18% identified the attitude of caregivers as an authoritative position.
CONCLUSION: Considering the instrument used to measure the problems in the educational field, the latter style shown protective factors against the possibility of having problems in schools, and the negligent style was indicated by the data as the least favorable style for the possibility of success in academic life.

Resumen:
OBJETIVOS: El estudio evaluó las percepciones de escolares sobre los posicionamientos parentales acerca de su aprovechamiento educacional.
FUENTE DE DATOS: La pesquisa fue realizada con estudiantes adolescentes, mayoría del sexo femenino (54%), matriculados entre el 9º año de la enseñanza fundamental y 3º año de la enseñanza media. Todos los participantes estaban regularmente matriculados en la red pública de enseñanza del Gobierno del Estado de São Paulo en el municipio de Guarulhos.
SÍNTESIS DE LOS DATOS: Evidenciamos que entre los 1.316 adolescentes analizados, 37% percibieron sus responsabilidades como siendo negligentes, 24% indulgentes, 21% autoritario y 18% identificaron en la postura de los responsables un posicionamiento autoritativo.
CONCLUSIÓN: Considerando el instrumento utilizado para medir los problemas en el campo educativo, se observó que los responsables identificados como autoritarios demostraron poseen factores protectores contra la posibilidad de sus hijos presentar problemas en el ámbito escolar, siendo el estilo negligente apuntado por los datos como el estilo menos favorable a la posibilidad de una vida académica de éxito por parte de los alumnos.

INTRODUÇÃO

Considerando que a relação de afeto familiar pode ser considerada um fator protetivo a diversas situações de risco que os menores estão expostos nas atividades da vida diária, entendemos que a medida que alguns responsáveis confundem o afeto com excesso de liberdade, diminuem seu grau de responsividade e exigência, deixando de estabelecer preceitos e direcionamentos educativos aos filhos.

Os cuidados que os responsáveis aplicam junto às suas crianças e adolescentes não se restringem aqueles ligados a higiene e alimentação, mas estendem-se ao desenvolvimento social, cultural, biológico e histórico. Esses aspectos podem ampliaras possibilidades de interações socioculturais desses menores diante das demandas necessárias para sobreviverem em diversos espaços de convivência que frequentam na presença ou ausência dos cuidadores.

Nessa relação, os responsáveis devem equilibrar as suas ações entre o amor e limites, que permeados pela cautela, devem se caracterizar por um posicionamento sério nas condutas, visando o pleno desenvolvimento, a independência e autonomia para construção de um maior equilíbrio por parte dos menores no transcurso da vida1.

Paludo e Koller2 entendem por comportamento de risco o perfil de gênero, problemas genéticos, carência de habilidades sociais, intelectuais e características psicológicas limitadas, bem como riscos ambientais vinculados a violência, baixo nível socioeconômico, ausência ou fragilidade de suporte social e afetivo, podemos acrescer ainda a gravidez indesejada na adolescência3, seguida por consumo e uso de drogas4. Neste sentido, Libório5 identifica que exposições de risco sofridas durante o período de adolescência, ocasionados pela ausência de fatores de proteção, têm potencializado o impacto de risco sobre seu o desenvolvimento da população jovem.

Master e Garmezy6e Libório5 acreditam que possíveis fatores de proteção estão ligados a sociabilidade, autoestima, autonomia, laços afetivos no sistema familiar, sistema de rede de apoio social como escola, trabalho e igreja. Esses fatores podem propiciar o desenvolvimento de positivismo, determinação pela busca de objetivos e aumento de crenças para uma vida saudável.

Há de se considerar que as relações familiares saudáveis desde o nascimento servem como fator de proteção para toda a vida e de forma muito particular para o adolescente7. Pratta8 discute o ambiente familiar como fator de risco e proteção, e lembra que o relacionamento com a família é fator preponderante no desenvolvimento do indivíduo. De igual modo, Muza e colaboradores9 evidenciam a necessidade de propiciar situações interativas entre todos os familiares, principalmente com os responsáveis, objetivando o diálogo e a estruturação desse espaço como um local agradável e propicio as diversas atividades sociais e educativas10.

No que concerne à situação familiar, traumas, separações, brigas e agressões estão associados ao aumento de posturas transgressoras e ao desejo por sensações que extrapolem negativamente as condutas. Por conseguinte, estas podem ser perigosas quando consideramos a baixa mensuração de perigo característico da fase adolescente11.

Se por um lado a família pode gerar proteção, por outro, podem aumentar o risco para a experimentação e abuso de substâncias psicoativas, que certamente depreciam o aproveitamento educativo dos que frequentam a escola, aumentando as chances de abandono escolar. Da mesma forma, posturas demasiadamente autoritárias ou permissivas por parte dos responsáveis podem implicar numa maior exposição a diversos riscos ligados a saúde biopsíquicados adolescentes. Posturas educativas são importantes variáveis psicossociais na adoção de comportamentos benéficos a saúde entre os adolescentes, por isso observa-se a necessidade de posicionamentos sensatos e prudentes por parte dos responsáveis diante da educação de seus filhos12,13,14,15,16.

Responsáveis que exercem boa influência sobre os filhos e se preocupam com seus hábitos, constituindo amplo espaço de diálogos entre membros familiares, tendem a potencializar as chances de adesão na realização das atividades escolares17, o que pode refletir em melhora no campo das aprendizagens, tecendo um aumento gradativo no acompanhamento de dificuldades que se podem observar nas diferentes disciplinas curriculares, que surgem a medida que se avançam os anos escolares. Conforme preconizado por Baumirind18, os estudos relacionados aos estilos parentais propõem a seguinte classificação:


■ Autoritários: pais/responsáveis que se mostram muito exigentes e dispõem baixa afetividade;

■ Autoritativos: pais/responsáveis que exigem disciplina de um modo geral, porém são afetivamente envolvidos com os filhos;

■ Indulgentes: pais/responsáveis que estabelecem baixo controle e alta afetividade;

■ Negligentes: pais/responsáveis permissivos e indiferentes, com baixos níveis de controle e afeto aos seus filhos;


A última denominação dos estilos parentais citados acima, tem demonstrado menor grau de proteção aos filhos, deixando-os mais vulneráveis a diversos fatores de risco19.

Essa pesquisa avaliou as percepções de escolares sobre os posicionamentos parentais acerca de seu aproveitamento educacional.

MÉTODO

O estudo fundamentou-se em percepções de alunos cursando entre o 9° ano do ensino fundamental e 3° ano do ensino médio, em oito escolas da rede pública estadual da cidade de Guarulhos, na grande São Paulo. Os alunos responderam ao questionário de auto preenchimento, com respostas fechadas e de múltipla escola, especificados abaixo como instrumentos de pesquisa.

Por meio de sorteio, selecionou-se aleatoriamente apenas uma sala de cada série participante, totalizando em média seis salas por escola (sendo três no período noturno e três no período diurno).

O Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo/Hospital São Paulo aprovou a realização desse estudo. As escolas participantes preencheram o TCLE (termo de consentimento e livre esclarecimento), que foi assinado por um representante da equipe gestora, para que a partir de então as salas com os participantes pudessem ser sorteadas. Quanto aos adolescentes, o consentimento se deu no momento da aplicação dos questionários, o que dependeu da aceitação verbal do aluno. A recusa ocorreu em média por de 10 alunos em um total de 1.316 que participaram do estudo. Além disso, foi garantida a liberdade de desistência em qualquer fase da pesquisa por parte dos alunos e escolas, onde todos os procedimentos foram sigilosos e anônimos.

Instrumentos de pesquisa

Para avaliação de problemas relacionados ao desempenho escolar utilizamos o Drug Use Screening Inventory (DUSI-R) validado para uso no Brasil por De Micheli e Formigoni20. Este questionário apresenta 158 perguntas distribuídas em dez áreas, a saber: comportamento (21), psiquiátricos (21), desempenho escolar (21), uso de substância (16), problemas de sociabilidade (15), relacionamento com amigos (15), relacionamento familiar (15), lazer/recreação (12), problemas de saúde (11), trabalho (11).

Entretanto para este estudo utilizamos somente a área de desempenho escolar que avalia a predisposição do respondente em apresentar problemas no campo educativo, e consta de respostas SIM ou NÃO.

Foi aplicado também o questionário de Responsividade e Exigência Parental validado por Costa et al.21, composto por 16 questões que objetivam identificar a visão que os jovens tem a respeito das condutas adotadas por seus responsáveis frente a seus comportamentos. As primeiras seis questões analisam o nível de exigência demonstrado nas atitudes parentais ligadas ao controle dos comportamentos dos filhos, como a imposição de regras e limites. As outras 10 questões versam sobre a responsividade, que avaliam o vínculo afetivo que os responsáveis estabelecem com seus filhos.

Análise dos Dados

Foi utilizado para análise dos dados o programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 20.0. Adotou-se testes paramétricos devido as amostras terem distribuição normal. Os dados foram analisados utilizando procedimentos estatísticos de análise descritiva e teste de hipóteses que variaram conforme a natureza das variáveis (quantitativas ou qualitativas) e tipo de amostra (independente ou pareada). Para as análises das variáveis quantitativas, envolvendo a comparação de amostras independentes, utilizado-se o teste de t de student e ANOVA one-way. Para análise das variáveis qualitativas foi adotado o teste de qui-quadrado.


RESULTADOS

A amostra analisada nesse estudo foi composta por 1.316 estudantes, sendo a maioria do sexo feminino (54%). Todos participantes estavam regularmente matriculados na rede pública de ensino do Governo do Estado de São Paulo no município de Guarulhos. No que se refere ao turno de estudo, observou-se que 57% dos participantes eram frequentadores do turno noturno e 43% frequentam as aulas no período da manhã. A média de idade dos participantes foi de 15,5 anos considerando somente as meninas, e de 16 anos considerando apenas os meninos. Quanto à série que cursavam no momento da entrevista, 19% cursavam a 8° série/9° ano do ensino fundamental, 42% cursavam o 1° ano do ensino médio, 21% o 2° ano do ensino médio e 18% cursavam o 3° ano do ensino médio.

Na parte do questionário DUSI que investiga o desempenho acadêmico, observou-se que 12% (N=155) dos estudantes pesquisados apresentaram densidade absoluta acima de cinquenta por cento, representando assim, elevada intensidade de problemas na área escolar. Na tabela 2 pode-se observar as predisposições que os adolescentes possuem em apresentar problemas no campo educativo.







Para se classificar os estilos parentais segundo Costa et al.21, encontrou-se a mediana do nível de exigência do grupo, calculada em 2,46 (DP=0,51), bem como a mediana do nível de responsividade calculada em 2,50 (DP=0,49). Dessa forma, podemos classificar em indulgente os responsáveis que demonstraram ao filho baixa exigência e responsividade, negligentes aqueles que possuem baixa exigência e alta responsividade, autoritários aos que foram avaliados com alta exigência e baixa responsividade e autoritativos aos que demonstraram alta exigência e responsividade no cuidado e educação dos filhos. Com isso, ao analisar toda a amostra, avalia-se que 37% dos pais foram tidos como negligentes, 24% indulgentes, 21% autoritários e 18% foram classificados como autoritativos, conforme pode ser observado na figura 1.



Figura 1. Distribuição dos estilos parentais.



Ao relacionar a classificação dos estilos parentais, ao grupo de estudantes que demonstraram pre-disposição em apresentar problemas acadêmicos na área do DUSI, evidencia-se que esses estudantes percebem a posturas de seus responsáveis como sendo negligentes, como pode ser observado tanto na tabela 4 como na figura 2.








Figura 2. Comparação dos estilos parentais com a predisposição de problemas no campo educacional.



DISCUSSÃO

Nesta pesquisa, observa-se um pequeno número de alunos com idade superior aquela esperada para a série de matrícula, o que denota baixo índice de reprovação entre os estudantes das escolas pesquisadas. A média da idade dos respondentes foi de 15,5 (DP=1,6), e a recusa por responder os questionários não foi significativa, atingindo menos de 1% da amostra.

Constatou-se que as incidências dos estilos parentais percebidos pelos estudantes demonstraram distribuição decrescente de responsáveis negligentes, indulgentes, autoritários e autoritativos, respectivamente. A concentração elevada (47%) de responsáveis com atitudes negligentes diante do comportamento dos filhos pode ampliar as chances desses menores se posicionarem degradativamente as suas atividades na escola, comprometendo o aproveitamento escolar satisfatório. Nesse sentido, acredita-se que o posicionamento negligente por parte dos responsáveis ao longo da escolarização dos menores, tende a prejudicar os hábitos de estudos, reduzindo a possibilidade de construção de conhecimentos necessários para apreender novos saberes que ampliam seu grau de complexidade durante os anos em que seguem a educação escolar.

Paiva e Ronzani,19 falam da estilização daquilo que consideramos educar no campo familiar, que pode ser entendido como o conjunto de determinadas condutas, podendo considerar que o estilo e a prática educativa normalmente estão relacionados, sendo o conjunto dessas práticas os estruturadores dos estilos parentais. Entende-se como baixo monitoramento parental a postura que reflete baixa exigência e responsividade por parte dos responsáveis, enquadrando-se no estilo parental negligente21, o que segundo Nascimento e De Michelli22 pode aumentar as chances do adolescente se envolver em situações de risco.

Ao contrário da afirmação feita por Changalwa23, em um estudo realizado com 32 estudantes no Kenya, África, em que evidenciou consequências ruins associadas aos pais autoritativos, quando que na presente pesquisa, esses responsáveis apareceram com maior padrão de eficiência e proteção no desenvolvimento de problemas no campo educativo. Onde evidenciou-se que responsáveis que se portam como autoritativos, geram resultados positivos em termos de desenvolvimento psicossocial dos filhos24. Com vista a constituição de uma relação de confiança entre os pais e filhos, aspectos como fortes vínculos familiares, o relacionamento positivo, o estabelecimento de regras e limites claros e coerentes, o monitoramento e a supervisão, o apoio, a negociação, a comunicação, e o equilíbrio são considerados como fatores que protegem o adolescente a exposição em situações de risco7. Diversos desses posicionamentos se fazem ausentes em responsáveis considerados negligentes21.

Os adolescentes que preencheram o questionário e sinalizaram condutas transgressivas e dificuldades de interações sociais saudáveis com a família, atribuíram aos responsáveis uma postura negligente (47%), assinalando alternativas que demonstram abaixa preocupação de seus tutores com notas abaixo da média no boletim escolar, indiferença na ausência de atividades completas no caderno, e o desinteresse em cobrar realizações de diversas atividades normais como pesquisas e rotinas de estudos. Semelhantemente, De Micheli &Formigoni25 ao avaliarem 8500 estudantes de escolas públicas de Barueri-São Paulo, verificaram que entre aqueles que apresentaram maior vulnerabilidade, 87% mencionavam acreditar que seus responsáveis desconheciam ou não se importavam com seus hábitos pessoais e sociais, percebendo-os dessa forma, como negligentes20.

A Constituição Federal Brasileira (1988) no artigo 229, atribui aos responsáveis o dever de assistir, criar e educar os filhos menores. Além de realizarem a matrículas e acompanhamento educacional, esses compartilham da responsabilidade com o Estado e suas políticas públicas na implementação de uma educação de qualidade, sendo considerados pelos estudantes como possíveis incentivadores aos estudos5.

A responsabilidade dos pais, mães ou outras pessoas que cuidam e educam os menores na esfera familiar, não devem restringir suas ações ao cuidado, mas estabelecer igual importância a educação integral das crianças e adolescentes. A esse respeito, Nascimento e De Michelli26 acreditam que tal educação deve possuir um posicionamento libertador, no sentido de estabelecer uma relação horizontalizada, permeada por diálogos e possibilidade de acordos que negociados satisfaçam os anseios e necessidades de ambas as partes.

Com isso, pode-se amadurecer gradativamente a construção de uma consciência das fragilidades da relação entre os responsáveis e seus filhos, na medida que ambos se sintam possibilitados de apresentarem a qualquer tempo apontamentos que podem colaborar no redimensionamento de olhares cada vez melhores.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A adolescência é um período em que se podem evidenciar dificuldades de relacionamentos entre responsáveis e filhos. Onde as transgressões das regras ditadas pelos responsáveis, tendem a ocorrer em um âmbito que dificulte ou impossibilite o conhecimento desses fatos aos tutores, evitando críticas que podem estar acompanhadas de punições e repressões.

A evidenciação de práticas prejudiciais praticadas pelos filhos, requerem especial atenção por parte dos pais, criando um movimento dialógico, a fim de cultivar uma relação de confiança para a construção de combinados democráticos que sejam coerentes para ambas as partes, gerando um elo relacional sincero, prevenindo e identificando comportamentos de risco que podem ocorrer.

Além dos educadores, os responsáveis ocupam um espaço imprescindível na construção de uma postura favorável ao envolvimento por parte dos alunos nas atividades escolares. Entendemos que essa ação parental deve ser pautada por medidas reflexivas e voltadas ao desenvolvimento de resiliência para o convívio social, visando uma postura que propicie condições construtivas ao aproveitamento educacional dos adolescentes, na perspectiva de participação conjunta com a comunidade escolar, providenciando circunstâncias auxiliares ao pleno desenvolvimento das crianças e adolescentes que estão sob sua responsabilidade.

Os tutores, de um modo geral, devem assumir o compartilhamento da responsabilidade da educação dos filhos junto às comunidades educativas, tendo claro as propostas pedagógicas das escolas que os filhos frequentam, provendo um relacionamento que favoreça a prática conjunta de estudos domiciliares, de forma que esses cuidados possam corroborar com os profissionais do ensino, consolidando uma postura positiva a referenciais exigidos para atuação da vida cidadã por parte dos adolescentes. Todavia, percebemos que quanto maior for o envolvimento parental nas atividades acadêmicas dentro e fora da escola, melhor será o desenvolvimento sociocognitivo dos estudantes.


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