Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 2 - Abr/Jun - 2017

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Páginas 144 a 153


Natureza e tendência das produções científicas sobre a paternidade na adolescência

Nature e tendency of the scientific productions on paternity in adolescent

Naturaleza y tendencia de las producciones científicas sobre la paternidad en la adolescencia


Autores: Dhiane Terrible1; Crhis Netto de Brum2; Samuel Spiegelberg Zuge3; Josiane Bandeira4; Luana Patrícia Valandro5; Maria Elizabete Calado Ramalho dos Santos6

1. Enfermeira da Maternidade do Hospital Regional do Oeste. Chapecó, RS, Brasil
2. Doutoranda em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil.Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil. Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Chapecó, SC, Brasil
3. Doutorando em Enfermagem.Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil. Docente Colaborador da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Chapecó, SC, Brasil
4. Enfermagem - Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Chapecó, SC, Brasil
5. Especialização em Residência Multiprofissional em Atenção ao Câncerpela Universidade de Passo Fundo (UFP). Passo Fundo, RS, Brasil. Graduação em Enfermagem pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Chapecó, SC, Brasil
6. Graduanda em Enfermagem pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Chapecó, SC, Brasil

Samuel Spiegelberg Zuge
Rua Sete de Setembro, 91 D, Sala 2, Centro
Chapecó, SC, Brasil. CEP: 89801
-140
samuelzuge@gmail.com

Recebido em 28/10/2015
Aprovado 12/09/2016

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Como citar este Artigo

Descritores: Saúde do adolescente, paternidade, revisão.
Keywords: Adolescent health, paternity, review.
Palabra Clave: Salud del adolescente, paternidad, revisión.

Resumo:
OBJETIVO: Conhecer a natureza e tendência das produções científicas sobre a paternidade na adolescência.
FONTE DE DADOS: Revisão narrativa da literatura com busca nas seguintes bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e na Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), por meio dos descritores: saúde do adolescente or adolescente and paternidade or paternidade responsável. Buscou-se responder a seguinte pergunta de pesquisa: qual é a natureza e tendência da produção científica sobre a paternidade na adolescência? Foram incluídos os artigos com resumo disponível na base de dados, apresentando-se na íntegra online e gratuito, nos idiomas português, inglês ou espanhol, publicados entre 1990 e 2014. Foram excluídos: teses, capítulos de teses, dissertações, capítulos de dissertações, monografias, livros, capítulos de livros e manuais ministeriais e anais de eventos.
SÍNTESE DOS DADOS: Foram analisados 15 artigos. As produções científicas evidenciaram seis estudos de natureza clínico-epidemiológica, quatro de natureza sociocultural, quatro de natureza existencial e um de natureza política. A análise da tendência das produções científicas revelou seis estudos assistenciais, e respectivamente três estudos de tendência de promoção, proteção e prevenção.
CONCLUSÃO: Identificou-se a necessidade de mais publicações sobre a paternidade na adolescência: de natureza política, tornando possível a implementação de estratégias que venham a contribuir para as políticas públicas voltados ao pai adolescente; e de tendência de proteção, promoção e prevenção, podendo contribuir para melhorar as práticas de saúde dirigidas a prevenção da paternidade durante a adolescência e ao apoio fornecido aos jovens pais.

Abstract:
OBJECTIVE: Discover the nature and tendency of scientific productions about paternity in adolescence.
DATA SOURCE: Literature narrative review with search on the following databases: Latin American and Caribbean Literature in Health Sciences (LILACS) and in Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), following the descriptors: adolescent health or adolescent and paternity or responsible parenthood. Here, we try to answer the following question: what is the nature and tendency of scientific production about paternity in adolescence? Were included articles with summary available in the database, fully presented online and free access, in Portuguese, English or Spanish, published between 1990 and 2014. Were excluded: Thesis, thesis chapters, dissertations, monographs, books, books chapters and manuals ministerial and annals events.
DATA SYNTHESIS: Were analyzed 15 articles. The scientific productions showed six studies of clinical-epidemiological nature, four of the socio-cultural nature, four of existential nature and one of a political nature. The trend analysis of scientific productions revealed six assists studies, and respectively three studies of the tendency of the promotion, protection and prevention.
CONCLUSION: It was identified the need to more publication about the paternity in adolescence: of political nature, making possible the implementation of strategies that will contribute to the public politics aimed at the teenage father; and of protection, promotion and prevention trends, that may contribute to improve the practices of health directed to prevention of fatherhood during adolescence and of support provided to young parents.

Resumen:
OBJETIVO: Conocer la naturaleza y inclinación de las producciones científicas sobre la paternidad en la adolescencia.
FUENTE DE DATOS: Revisión narrativa de la literatura con búsqueda en las siguientes bases de datos: Literatura Latinoamericana y del Caribe en Ciencias de la Salud (LILACS) y en la Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), por medio de los descriptivos: salud del adolescente or adolescente and paternidad or paternidad responsable. Se buscó contestar la siguiente pregunta de pesquisa: ¿cuál es la naturaleza y inclinación de la producción científica sobre la paternidad en la adolescencia? Fueron incluidos los artículos con resumen disponible en la base de datos, presentándose en la íntegra online y gratuito, en los idiomas portugués, inglés o español, publicados entre 1990 y 2014. Fueron excluidas: tesis, capítulos de tesis, disertaciones, capítulos de disertaciones, monografías, libros, capítulos de libros y manuales ministeriales y memorias de eventos.
SÍNTESIS DE DATOS: Fueron analizados 15 artículos. Las producciones científicas evidenciaron seis estudios de naturaleza clínico-epidemiológica, cuatro de naturaleza sociocultural, cuatro de naturaleza existencial y uno de naturaleza política. El análisis de la inclinación de las producciones científicas reveló seis estudios asistenciales, y respectivamente tres estudios de inclinación de promoción, protección y prevención.
CONCLUSIÓN: se identificó la necesidad de más publicaciones sobre la paternidad en la adolescencia: de naturaleza política, posibilitando la implementación de estrategias que aporten para políticas públicas vueltas al padre adolescente; y de inclinación de protección, promoción y prevención, pudiendo aportar para mejorar las prácticas de salud dirigidas a prevención de la paternidad durante la adolescencia y al apoyo suministrado a los jóvenes padres.

INTRODUÇÃO

A paternidade na adolescência promove transformações e mudanças, estabelece novos papéis, uma nova identidade, como o de ser adolescente e ser pai frente à família e a sociedade1. Tornar-se pai nesta fase da vida pode ocasionar implicações, dentre elas a transição nos papéis sociais2 e familiares.

O adolescente apresenta um papel social de, predominantemente, buscar sua escolarização, se divertir e realizar um planejamento profissional para o futuro, enquanto o papel paterno demanda amadurecimento pessoal, social, estilo de vida responsável, além de ser o provedor econômico2,3. Assim, o adolescente em um curto espaço de tempo necessita adquirir responsabilidades, buscar a inserção no mercado de trabalho, já que o binômio, mãe-bebê, necessitará de sua assistência, tanto condição emocional, quanto material4.

Neste sentido, os pais adolescentes, enfrentam uma difícil tarefa ao transitarem para o mundo do adulto e assumirem-se como tal. Essa tarefa demanda o enfrentamento e a superação das dificuldades, medos e preocupações que a própria adolescência os impõem. Como por exemplo, finalizar sua educação e ao mesmo tempo educar seus filhos5. No entanto, essas demandas podem ser minimizadas a partir de uma rede de apoio que os auxiliem nos momentos de dúvidas e angústias, a exemplo, tem-se os serviços de saúde. Esse apoio pode estimular a participação ativa do pai na gestação, na criação e educação do filho e da nova família que está em formação6. Embora a paternidade na adolescência possa ser semelhante entre os diversos grupos, cada indivíduo apresenta sua singularidade, isso ocorre, em virtude de pertencer a contextos familiares, sociais e culturais distintos o que influencia na aceitação ou não de ser pai7.

Nesta perspectiva, compreende-se que a paternidade é permeada pela maneira como o adolescente vivencia esta transição, bem como pelo apoio recebido e pelas características e relações estabelecidas nos diferentes ambientes do qual faz parte. No entanto, destaca-se que na área científica e social, a paternidade na adolescência é pouco vislumbrada, diferentemente da gravidez na adolescência1. Esta característica aponta nuances de um cuidado de saúde focado na gestação, durante a adolescência, como uma característica predominantemente feminina. Assim, objetiva-se a partir deste contexto, conhecer a natureza e tendência das produções científicas sobre a paternidade na adolescência.

FONTES DE DADOS

Trata-se de um estudo de revisão narrativa da literatura8, fundamentada nas seguintes etapas: definição do tema; pergunta de pesquisa; descritores; elaboração dos critérios de inclusão e exclusão; seleção dos estudos; extração das informações; análise; e discussão dos resultados. Teve como pergunta de pesquisa: qual é a natureza e tendência da produção científica sobre a paternidade na adolescência?

Os critérios de inclusão foram: artigos de pesquisa original que atendessem a pergunta de pesquisa, com resumo disponível na base de dados, apresentando-se na íntegra online e gratuito, nos idiomas português, inglês ou espanhol. Os critérios de exclusão foram: teses, capítulos de teses, dissertações, capítulos de dissertações, monografias, livros, capítulos de livros e manuais ministeriais e anais de eventos. O recorte temporal foi do ano de 1990, período de publicação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), até o ano de 2014. O ECA foi instituído no Brasil como lei federal em 13 de julho de 1990, tornou-se um marco de proteção integral da criança e do adolescente, por assegurar a eles os direitos fundamentais inerentes a pessoa humana, contemplando todas as dimensões necessárias ao seu pleno desenvolvimento9.

A busca bibliográfica foi realizada na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), na base de dados eletrônica Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); e na Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE). Para a localização dos dados foi preenchido o formulário avançado com os seguintes descritores: "saude do adolescente" or "ADOLESCENTE" and "PATERNIDADE" or "paternidade responsável". A busca pelos estudos ocorreu em junho de 2015.

Foram encontrados 326 estudos, sendo 207 na LILACS e 119 na MEDLINE. Primeiramente, realizou-se a leitura dos títulos e resumos, os quais foram submetidos aos critérios de inclusão e exclusão, dos 21 artigos que permaneceram, um estava repetido entre as bases de dados. Restaram então 20 artigos para serem capturados na íntegra. Entretanto, 2 artigos não estavam disponíveis online, 1 foi excluído por não se tratar da temática e 2 foram excluídos por se tratarem de revisões, totalizaram então 15 artigos para serem analisados (Figura 1).



Fonte: LILACS/MEDLINE. 1990-2014. N=15.

Figura 1. Estratégia de Buscas da Revisão Narrativa sobre a natureza e a tendência das produções científicas sobre a paternidade na adolescência.



Para a extração das informações utilizou-se uma ficha de análise documental que continha as seguintes informações: país de publicação, ano, área do conhecimento, abordagem metodológica, natureza e tendência dos estudos.

A natureza e a tendência foram demonstradas por meio da categorização dos estudos, apresentada em forma de frequência absoluta, onde essas categorias emergiram a partir da leitura dos trabalhos na íntegra. Assim, foram preestabelecidas as unidades de natureza, as quais se referem ao foco da área temática da pesquisa: perfil epidemiológico, sociocultural, político. Compreende-se por temática, o universo específico proveniente do tema abrangente. A tendência refere-se às contribuições e recomendações que são apresentadas nos trabalhos: prevenção, promoção, proteção e assistência10-12. Para esta pesquisa foi acrescentada a natureza existencial, pois os estudos apontaram a necessidade desta inclusão. A definição da natureza e tendência originou-se da leitura dos trabalhos selecionados (Quadro 1).




Os artigos foram identificados pela letra P de produção, seguida de uma numeração (P1, P2, P3... sucessivamente) (Quadro 2).




RESULTADOS E DISCUSSÃO

Segundo a caracterização das produções científicas foram predominantes: publicações brasileiras (N=11); produções no período de 2006 a 2007 (N=6); área do conhecimento da enfermagem (N = 6); de delineamento qualitativo (N=9) (Tabela 1).




Na análise da natureza das produções científicas, evidenciou-se que seis estudos (N=6) correspondem ao perfil epidemiológico. Seguidos pelas produções de natureza sociocultural e existencial com quatro cada uma (N=4). Apenas um estudo (N=1) apresentou natureza política.

Os estudos de perfil-epidemiológico (P1-P6) contemplaram questões relacionadas à escolaridade (P1-P5), renda (P3, P4, P5), trabalho (P1-P3, P5), estado civil dos pais adolescentes (P1-P2), início da atividade sexual (P2, P6) e consumo de álcool e drogas (P2, P5).

Os pais adolescentes apresentaram baixa escolaridade e altos índices de abandono escolar (P1-P5). Os estudos também apontaram que os adolescentes possuem trabalho informal (P1) ou ainda são dependentes financeiramente de seus progenitores (P2, P5). Além disso, apresentam uma baixa renda mensal (P3). A interrupção precoce nos estudos leva à diminuição da capacidade desses adolescentes competirem no mercado de trabalho, pois limita as oportunidades de emprego a postos que não exigem qualificação e que dão baixa remuneração6.

Quanto ao estado civil, as produções anunciam que a maioria dos pais adolescentes são solteiros (P1-P2) e tiveram o início da vida sexual antes dos 16 anos de idade (P2, P6). Além disso, consomem drogas consideradas lícitas, como por exemplo, o álcool e o tabaco (P2, P5).

O início precoce da vida sexual, sem a orientação adequada, tanto no que diz respeito aos métodos contraceptivos, como na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, contribuí para o elevado aumento no número de gravidez e paternidade não planejadas e/ou indesejadas, repercutindo no contexto emocional, orgânico e socioeconômico dos adolescentes7. Muitos desses jovens pais acabam casando com suas parceiras, porém a imaturidade do relacionamento e a obrigação de assumirem responsabilidades para as quais não estavam preparados, são motivos que podem ocasionar a separação e o não reconhecimento da paternidade13.

Na adolescência, o indivíduo passa por inúmeras mudanças e transformações que acabam aflorando em várias situações de conflitos em virtude da maior instabilidade emocional e sensibilidade aumentada. Essas características fazem com que o adolescente se exponha a inúmeros riscos, dentre os quais o uso de tabaco, álcool e outras drogas, que podem se agravar quando relacionados a uma baixa condição econômica14.

Os estudos de natureza sociocultural apresentaram questões relacionadas à vivência da paternidade (P7-P10). Socialmente o homem é visto como provedor da família, fato que também ocorre entre os pais adolescentes, e à mulher cabe o cuidado com os filhos e a casa (P7-P9). Os trabalhos também demonstram a questão cultural do exercício da sexualidade (P8) e da responsabilidade reprodutiva como obrigação feminina (P10).

O pai tem seu papel no contexto da paternidade como mantenedor, como aquele que traz o sustento para a manutenção dos filhos1. Porém o pai adolescente, muitas vezes é mantido pelo seu próprio provedor, denotando que a paternidade nesse período de vida pode ser percebida e sentida como um evento que traz maiores responsabilidades e também dificuldades4.

As dificuldades para os jovens pais são inúmeras: pouca participação na gravidez; dificuldades no contexto familiar e questões financeiras devido à falta de profissão7. Entre as responsabilidades pode-se destacar o dever de assumir o filho e a esposa, sendo necessário que o adolescente trabalhe, além da responsabilidade com a educação, orientação e preparação da criança para o futuro15.

No que diz respeito ao exercício da sexualidade, para os meninos, a atividade sexual é estimulada pela sociedade e muitas vezes a paternidade durante a adolescência torna-se um reforço da masculinidade (P8). Entretanto, culturalmente, a responsabilidade reprodutiva é atribuída à mulher, já que a gestação ocorre no corpo feminino (P10).

Os jovens sofrem pressão social para iniciarem sua vida sexual o mais breve possível e durante o namoro passam essa pressão para suas parceiras. Em muitos casos a paternidade é vista como enaltecedora, porque ser pai insere o jovem no mundo adulto e ele passa a assumir responsabilidades que reforçam sua masculinidade13. A cultura de atribuir a responsabilidade reprodutiva como uma demanda exclusiva da mulher, ainda se mantém nos dias atuais, resultado da influência sociocultural na qual a mulher é responsável pela gestação e os cuidados com o filho7.

Os estudos de natureza política abordaram questões do acesso dos pais adolescentes aos serviços de saúde e da implementação e implantação de políticas voltadas para este público (P11). Não há propostas concretas de assistência à saúde dos homens adolescentes que vivenciaram a paternidade nesta etapa da vida, o que pode ser um dos motivos pelo qual os pais adolescentes não reconhecerem o papel do serviço de saúde (P11). O adolescente que experimenta a paternidade, em algumas situações, não recebe apoio dos serviços de saúde e, na maioria das vezes, esses adolescentes não reconhecem qual o papel do setor como apoio ao período de gravidez e à paternidade na adolescência6.

A natureza existencial dos estudos foca em questões sentimentais, atitudes e ações em relação à paternidade na adolescência (P12-P15). A vivência da paternidade ocasiona diferentes sentimentos nos adolescentes, para alguns é algo desejado, que traz sentimentos positivos, porém outros encaram o fato como um acontecimento negativo, onde permeiam sentimentos de desagrado, medo, renuncia, entre outros (P12-P13).

É natural ocorrerem sentimentos ambivalentes em relação aos filhos. Tanto homens quanto mulheres podem ter sentimentos que vão desde a empolgação com a notícia, até os sentimentos de ansiedade e medo em relação à responsabilidade de cuidar de um filho4.

Alguns adolescentes têm dificuldades em imaginarem-se como pais, muitos acabam idealizando esse papel (P12, P14). Muitas vezes, os pais adolescentes assumem a responsabilidade da paternidade, no entanto, têm dificuldades em reconhecerem-se como pais. Isso porque o processo de identificação com a paternidade é mais lento de ser construído e para alguns pais adolescentes pode não chegar a se desenvolver devido às dificuldades nesta fase4.

A análise da tendência das produções científicas revelou um número significativo de estudos de ordem assistencial (N=6), seguida de produções que enfocam a promoção (N=3), proteção (N=3) e de prevenção (N=3).

Os estudos de tendência assistencial apontaram questões relativas à inclusão dos jovens pais nos serviços de saúde (P2, P5, P7, P8, P10), a participação dos homens na saúde reprodutiva (P7-P8) e ao apoio familiar recebido (P11-P12).

É necessário inserir o homem no processo gravídico-puerperal da adolescente, atuando não como expectador, mas como participante do desenvolvimento da gravidez. O pai adolescente, precisa ainda estar inserido no contexto da saúde reprodutiva, participando das decisões, dividindo as responsabilidades e o cuidado com os filhos6.

É importante ressaltar, que a família constitui a principal rede social de apoio para o exercício da paternidade, portanto, o enfermeiro e demais profissionais de saúde precisam conhecer o contexto social e cultural dos adolescentes para promover estratégias para que estes pais vivenciem a paternidade de forma plena6.

Na tendência de prevenção, os estudos reforçam a necessidade de oportunizar a esses jovens acesso a informação, reflexão sobre seus projetos de vida, debates sobre o exercício da sexualidade, além de trabalhar com o enfoque preventivo de forma interdisciplinar e multissetorial (P1, P6, P10).

A sexualidade é o processo que se inicia na adolescência, gerando desejos e sentimentos diferenciados, por isso esse assunto não pode ser menosprezado e é fundamental que seja discutido e construído. Os adolescentes precisam de uma educação sexual adequada para terem a possibilidade de cuidar da sua saúde reprodutiva e para terem a oportunidade de falar dos medos e dúvidas. É importante criar espaços de diálogo entre adolescentes, professores profissionais de saúde, pais e comunidade no sentido de construir uma resposta social com o intuito de superar as vulnerabilidades da adolescência16.

As produções que identificaram a tendência de promoção se fundamentaram na educação como base sólida para a construção familiar e para vivenciar o processo da parentalidade (P4). Também ressaltam a importância da educação permanente para que os profissionais de saúde possam promover a saúde e garantir suporte ao pai adolescente (P3, P13).

Os profissionais da saúde e da educação em conjunto devem realizar um esforço sincronizado no sentido de promover a ocorrência da uma paternidade responsável. Isso implica em uma gravidez com condições de seguimento, de forma amparada e sustentável, e a preparação dos membros da família e das instituições sociais17. Além disso, o apoio dos profissionais da Unidade Básica de Saúde para com estes adolescentes auxilia para a sensação de pertencimento à comunidade e facilita os vínculos com o mundo social6.

Os estudos da tendência de proteção evidenciaram os papeis de gênero na inclusão e a participação do homem na vida do filho (P9, P14-P15). Nos papéis de gênero, que acompanham mulheres e homens em todas as fases da vida, persistem o modelo tradicional no qual o homem continua a entender seu papel de pai como provedor material e moral e a mulher para a reprodução e educação dos filhos.

O modelo hegemônico de masculinidade e paternidade traz prejuízos nas relações de pai/filho, portanto essas relações sociais precisam ser (re) significadas. É fundamental o envolvimento afetivo e cuidado no mundo familiar por parte do homem, pois uma relação de carinho permite que pais e filhos experimentem a plenitude de suas relações sociais, o que contribui para a mudança efetiva desses relacionamentos18.


CONCLUSÃO

A análise de natureza e tendência das produções científicas sobre a paternidade na adolescência possibilitou identificar uma proporção maior de estudos com o perfil epidemiológico, sociocultural e existencial e de tendências assistenciais. Observa-se assim, a necessidade de ampliar os estudos de natureza política que possibilitem implementar estratégias que venham a contribuir para as políticas públicas de criação de espaços voltados aos pais adolescentes.

Identificou-se também, a necessidade de publicações da tendência de proteção, promoção e prevenção. Essas abordagens podem contribuir para melhorar as práticas de saúde dirigidas a prevenção da paternidade durante a adolescência e ao apoio fornecido aos jovens pais.

Após a análise das produções, percebe-se uma lacuna nos serviços de saúde no que tange ao universo masculino, principalmente com o pai adolescente, pois este parece invisível diante do olhar dos profissionais. Destaca-se ainda, a necessidade de se desenvolver espaços de interlocução coletiva a fim de se socializar o fenômeno da paternidade nos serviços de saúde bem como na sociedade. É preciso que os serviços de saúde percebam que a gravidez na adolescência não é somente responsabilidade feminina, mas que os pais adolescentes também precisam ser envolvidos como atores nesse processo.


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