Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 2 - Abr/Jun - 2017

Relato de Caso Imprimir 

Páginas 183 a 188


Efeitos de uma intervenção precoce com um casal adolescente gestante sobre desenvolvimento infantil e práticas parentais adequadas

Effects of an early intervention with one pregnant adolescent couple about child development and appropriate parenting practices

Efectos de una intervención precoz con una pareja adolescente gestante sobre desarrollo infantil y prácticas parentales adecuadas


Autores: Domitila Shizue Kawakami Gonzaga1; Rachel de Faria Brino2

1. Doutoranda em Psicologia pela FFCLRP/USP. Mestrado em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). São Carlos, SP, Brasil
2. Doutorado em Educação Especial. Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). São Carlos, SP, Brasil

Domitila Shizue Kawakami Gonzaga
Universidade Federal de São Carlos, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde
Rodovia Washington Luiz, Km 235, Monjolinho
São Carlos, SP, Brasil. CEP: 13500-000
domitila.gonzaga@gmail.com

Recebido em 19/09/2015
Aprovado em 26/02/2016

PDF Português             PDF Espanhol

Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Gravidez na adolescência, intervenção precoce (educação), desenvolvimento infantil.
Keywords: Pregnancy in adolescence, early intervention (education), child development.
Palabra Clave: Embarazo en la adolescencia, intervención precoz (educación), desarrollo infantil.

Resumo:
OBJETIVO: O objetivo do estudo foi elaborar, implementar e avaliar uma capacitação para um casal adolescente gestante sobre desenvolvimento infantil e práticas parentais adequadas.
DESCRIÇÃO DO CASO: Foram feitos 6 encontros em domicílio com Pai e Mãe. Os encontros iniciaram e finalizaram com os instrumentos KIDI e CAP, como pré e pós-teste, além de um questionário qualitativo de avaliação da intervenção. Os escores do KIDI não mostraram mudanças do pré para o pós teste de Pai = 58 e Mãe=55. Em relação aos resultados do CAP, ambos são de baixo risco, sendo pré-teste de Pai=144 e de Mãe=213 e pós-teste de Pai=171 e de Mãe=156. Os dados qualitativos do questionário mostraram que a intervenção foi avaliada com pontuação máxima em todos os quesitos.
COMENTÁRIOS: Conclui-se que gravidez na adolescência e potencial de maus tratos podem não estar diretamente relacionados, mas que intervenções podem favorecer na prevenção de violência e proporcionar ganhos em relação às práticas parentais.


Abstract:
OBJECTIVE: The aim of this study was to elaborate, implement and evaluate a capacitation for a pregnant adolescent couple on topics of child development and appropriate parenting practices.
CASE DESCRIPTION: There were 6 meetings with the couple (Mother and Father) at their home. The meetings began and ended with the instruments KIDI and CAP Inventory, as pre and post measures, and also a qualitative questionnaire of the intervention evaluation. The overall score of KIDI showed no changes from pre to post tests, Father=58 and Mother=55. Concerning CAPI's results, both parents are at low risk, pre F=144 and M=213 and posttest F=171 and M=156. Regarding the qualitative data of the questionnaire, the intervention was assessed with maximum score in all the questions.
COMMENTS: It was noticed that adolescent parents and potential child abuse cannot be directly related, but it is suggested that the intervention may prevent child mistreatment and improve parenting practices.

Resumen:
OBJETIVO: El objetivo del estudio fue elaborar, implementar y evaluar una capacitación para una pareja adolescente gestante sobre desarrollo infantil y prácticas parentales adecuadas.
DESCRIPCIÓN DEL CASO: Fueron hechos 6 encuentros en domicilio con Padre y Madre. Los encuentros se iniciaron y finalizaron con los instrumentos KIDI y CAP, como pre y post-test, además de un cuestionario cualitativo de evaluación de intervención. Los scores del KIDI no mostraron cambios del pre al post test de Padre=58 y Madre=55. Con relación a los resultados del CAP, ambos son de bajo riesgo, siendo pre-test de Padre=144 y de Madre=213 y post-test de Padre=171 y de Madre=156. Los datos cualitativos del cuestionario mostraron que la intervención fue evaluada con puntuación máxima en todos los ítems.
COMENTARIOS: se concluye que el embarazo en la adolescencia y potencial de maltratos pueden no estar directamente relacionados, pero que intervenciones pueden favorecer en la prevención de violencia y proporcionar ganancias con relación a las prácticas parentales.

INTRODUÇÃO

A delimitação etária da adolescência é, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, entre 12 e 18 anos1. Já a Organização Mundial de Saúde (OMS)2 considera adolescente o indivíduo entre 10 e 20 anos incompletos, critério adotado pelo presente estudo.

A iniciação sexual das meninas no Brasil está cada vez mais precoce, em média aos 13 e 14 anos, tendo um ou mais parceiros frequentes3. No geral, o início da atividade sexual ocorre quase sempre sem nenhum preparo, sendo muitas vezes fortuito ou às escondidas, ou mesmo associado a um episódio de abuso sexual4. Uma pesquisa5 relacionou dados indicativos do início da vida sexual e da primeira gestação, concluindo que existe uma relação entre a idade da primeira relação sexual e a primeira gravidez.

Todavia, acredita-se que a idade das adolescentes não pode, isoladamente, ser considerada como causa de consequências adversas da gravidez, ao contrário da visão hegemônica da sociedade e da saúde pública em geral, que considera os adolescentes como um bloco único e em conflito, e a gravidez na adolescência como indesejada.

Alguns estudos sugerem que existem diferentes vivências da maternidade e que, pelo menos para um grupo de jovens mães, a maternidade é uma experiência de vida plena de significados positivos6. Pesquisas também propõem que programas de intervenção podem ser planejados para reduzir a eventual tendência ao uso de práticas maternas coercitivas entre adolescentes7.

A proposta da capacitação foi a prevenção da violência, promovendo a sensibilização dos pais à prática parental adequada, a partir da introdução do conhecimento acerca do desenvolvimento infantil e conceitos básicos sobre violência intrafamiliar doméstica a fim de que os filhos se desenvolvam saudavelmente.


OBJETIVO

O objetivo do presente estudo foi o de elaborar, implementar e avaliar uma capacitação para um casal adolescente gestante, acerca de temas sobre o desenvolvimento infantil e das práticas parentais adequadas.


ESTUDO DE CASO

Participaram deste estudo de caso um casal gestante primigesto, Pai e Mãe, ambos com 20 anos. A capacitação foi composta por dois blocos com os temas do desenvolvimento infantil e práticas parentais adequadas. Avaliada pelos instrumentos KIDI8 e CAP9 sobre os temas respectivos.

Foram realizados seis encontros semanais com duração de duas horas com etapas padronizadas, a saber: Pré-teste, Exposição Teórica, Parte Prática e Pós-teste com feedback. Após três meses de conclusão da capacitação foi realizada uma medida de follow-up. Ainda, foi solicitado aos participantes que respondessem a um questionário10 para avaliarem os encontros.


RESULTADOS

No que se refere às questões do instrumento, identifica-se na Tabela 1 o percentual médio de acerto, erro e incerteza das 75 questões no pré-teste, enquanto a Tabela 2 evidencia as respostas do pós-teste.








Entre os dados, ressalta-se que o casal mais acertou que errou, tanto no pré quanto no pós-teste. Além disso, é importante evidenciar que o escore final do casal foi o mesmo para as duas medidas, contudo com menos erros no pré-teste e menos incertezas no pós-teste.

A categoria Normas foi a menos acertada por ambos nas duas avaliações. Esta categoria envolve o conhecimento sobre períodos mais prováveis para a aquisição de habilidades motoras, perceptuais e cognitivas da criança. A Tabela 3 apresenta os dados obtidos no follow-up onde percebe-se que o pai teve o mesmo resultado das demais medidas, enquanto que a mãe teve seus escores aumentados.




A Tabela 4 apresenta os dados do pré, pós-teste e follow-up para o instrumento CAP. A fim de comparar os escores do casal foram usadas as notas de corte norte-americanas de Milner9, conforme apresentado por Rios.




Verifica-se que na escala Problemas com crianças, os dois apresentam o escore nulo tanto no pré quanto no pós-teste. Isto se deve ao fato de que todas as questões pertencentes à essa escala eram relacionadas a existência do filho no casal. Uma vez que o casal estava esperando um filho na época da coleta do pré e pós-teste, e durante o follow-up a criança era recém-nascida, nenhuma questão pode ser pontuada, sendo indicado deixar o item em branco nestas situações.

Percebe-se que os escores do pai aumentaram do pré para o pós-teste de uma maneira geral. Enquanto que a mãe quase atingiu a nota de corte para Abuso no pré-teste, o que significaria um alto risco, e teve seus escores diminuídos progressivamente para pós-teste e follow-up. Além disso, na escala Problemas com família, ambos apresentam escore maior que a nota de corte norte-americana.

O casal avaliou o atendimento recebido, o grau de ajuda recebida e a satisfação de ter participado do grupo como "muito bom". Além disso, recomendariam o grupo para algum amigo, participariam novamente do grupo e apontaram que o grupo ajudou na educação e nos cuidados com os filhos.

Entre as opiniões a respeito de ter encontrado o que procuravam no grupo, o casal relatou que na maior parte houve esclarecimento de algumas dúvidas - teóricas e práticas, e a intervenção ajudou a ter mais paciência com crianças.

Além do questionário qualitativo, o Diário de Campo pode registrar considerações importantes dos encontros. Assim, algumas impressões sobre a intervenção estão organizadas na Figura 1.



Figura 1. Falas do casal a respeito da intervenção realizada no presente estudo.



DISCUSSÃO

Em primeiro lugar, deve ser levado em consideração que a população estudada nessa pesquisa foi de apenas um casal, sendo por tanto um estudo de caso. Essa condição não permite que os resultados sejam abrangentes, mas alguns pontos podem ser discutidos. Além disso, os dois instrumentos utilizados não são validados para o Brasil, mas sim adaptados. Este fator é importante ao se comparar com os dados coletados com populações diferentes das brasileiras.

O primeiro ponto a ser discutido foram os resultados encontrados pelo KIDI. Percebeu-se que não houve diferença entre o pré, o pós-teste e follow-up em termos de escore geral para o casal. Apesar de algumas mudanças nos escores das escalas, não houve nenhuma mudança muito grande, ainda que o casal tivesse um conhecimento prévio de no mínimo 70% sobre desenvolvimento infantil, o que representa um conhecimento bastante alto.

Autores8 apontam que o nível de escolaridade é um importante preditor do conhecimento sobre desenvolvimento infantil. Talvez esse ponto esteja relacionado com o escore geral dos participantes não ter se alterado muito, ou seja, o conhecimento prévio que os dois tinham a respeito do desenvolvimento infantil permanecerá o mesmo por conta do entendimento das questões do instrumento, uma vez que ambos tinham o Ensino Superior Incompleto no momento da pesquisa.

Com relação aos resultados do CAP, percebeu-se que houve mudanças consideráveis em relação aos escores da mãe, que diminui bastante o escore geral de Abuso. Ainda, foi possível intuir que o casal depositou confiança na pesquisadora, uma vez que os índices de Mentira foram baixos, apesar da coleta ter sido realizada por meio de entrevista.

No que se diz respeito ao histórico dos participantes, a mãe relatou sofrer abuso psicológico de sua mãe, a qual proferia frases do tipo "Você vai ver quando eu morrer", "Você irá se arrepender de não fazer isso por mim agora, porque um dia eu vou morrer", "Agora que você saiu de casa, eu estou sozinha". Mencionou ainda que sua própria mãe colocava sobre ela a responsabilidade de seu sofrimento. Relatou, por fim, que preferia ter sofrido abuso físico ao psicológico e por isto, garante que nunca irá se comportar de maneira semelhante com sua filha. O escore dc pré-teste talvez esteja relacionado com esse peso que a mãe estava sentindo em decorrência dos comportamentos de sua mãe e também com o fato de a coleta do pré-teste ter acontecido dois dias depois do casamento do casal avaliado, o que simbolizou o início da vida de casal e como futuros pais. Além disso, a gravidez foi inesperada, não planejada e não desejada, visto que quando souberam da notícia, estavam separados. Na mesma linha de raciocínio, os escores da mãe melhoraram pós-teste e no follow-up para ambos os instrumentos.

Em relação à avaliação qualitativa da intervenção, o casal avaliou o grupo com bastante positividade. Esses dados corroboram com a literatura que indica que projetos de intervenção com ênfase na prevenção de maus-tratos, na implantação de práticas parentais adequadas e suporte emocional devem ser desenvolvidos e avaliados.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebe-se que o objetivo do estudo foi atingido de maneira positiva. Apesar das dificuldades de avaliação da intervenção, percebe-se que o trabalho com o casal foi bastante efetivo para que eles ganhassem mais confiança no trabalho de serem pais. As falas dos participantes e as pequenas melhoras nos instrumentos demonstram que a intervenção foi efetiva, e embora os ganhos em números não sejam significativos, verifica-se que a intervenção modificou crenças em relação à gravidez.

Entende-se também que a confiança gerada entre pesquisadora e participantes se deveu aos encontros acontecerem em domicílio. Essa circunstância permitiu uma aproximação, possibilitando uma maior intimidade e consequentemente, confiança. Estas condições aprimoram os resultados finais da pesquisa.

A capacitação para pais parece adicionar ganhos em curto e médio prazo, atuando inclusive de maneira preventiva aos maus-tratos infantis. Assim, sugere-se que estudos futuros com atendimento domiciliar, juntamente com equipes da Estratégia Saúde da Família sejam aplicados e avaliados, a fim de verificar a influência dos profissionais de saúde no atendimento e prevenção aos maus tratos, fundamentalmente com a introdução de práticas parentais adequadas. Assim, indica-se que novas pesquisas sejam realizadas, a fim de viabilizar projetos acadêmicos para que as esferas governamentais aprimorem seu olhar para a prevenção.


NOTA DE AGRADECIMENTOS

À FAPESP por ter possibilitado que este estudo de caso acontecesse.

Aos participantes por permitirem ser alvo de pesquisa e de futuros dados para serem apresentados à comunidade científica.


REFERÊNCIAS

1. Brasil (1990). Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei Federal no. 8069/1990.

2. World Health Organization. Sexual relations among young people in developing countries evidence from WHO case studies, 2001. Geneva: WHO.

3. Marcondes Filho, Walter; Mezzaroba, Leda; Turini, Conceição A; Koike, Alexsandro; Motomatsu Junior, Akira; Shibayama, Eliane E. M; Fenner, Fábio L. S. Tentativas de suicídio por substâncias químicas na adolescência e juventude. Adolesc Latinoam 2002; 3:.0-0.

4. Williams LCA. A família como um agente transformador da violência: empregando práticas parentais positivas. In: Williams LCA, Padovani RC, Araújo EAC, Stelko-Pereira AC, Ormeño GR, Eisenstein E. Fortalecendo a rede de proteção da criança e do adolescente, 2009. São Carlos: Laboratório de Análise e Prevenção da Violência.

5. Rosa A J, Reis A O A, Tanaka A C. Gestações sucessivas na adolescência. Rev Bras Crescimento Desenvolv Hum, 2007; 17: 165-172.

6. Santos SR, Schor N. Vivências da maternidade na adolescência precoce. Rev. Saúde Pública 2003; 37.

7. Marin AH, Levandowski DC. Práticas Educativas no Contexto da Maternidade Adolescente. Interação em Psicologia 2008; 12: 107-113

8. Seidl-de-Moura ML, Ribas Jr RC, Piccinini CA, Sousa Bastos ACS, Magalhães CMC, Vieira M L, et al. Conhecimento sobre desenvolvimento infantil em mães primíparas de diferentes centros urbanos do Brasil. Estudos de Psicologia 2004; 9: 421-429.

9. Rios, K. Inventário de Potencial de Abuso Infantil - CAP: Adaptação Transcultural, Fidedignidade e Validade para o Brasil. [Tese de Doutorado não publicada], Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, Brasil; 2010.

10. Gallo AE. Adolescentes em conflito com a lei: Perfil e intervenção [Tese de Doutorado Não Publicada] Programa de Pós-Graduação em Educação Especial: Universidade Federal de São Carlos; 2006.
adolescencia adolescencia adolescencia
GN1 © 2004-2017 Revista Adolescência e Saúde. Fone: (21) 2868-8456 / 2868-8457
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente - NESA - UERJ
E-mail: secretaria@adolescenciaesaude.com