Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 3 - Jul/Set - 2017

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Páginas 83 a 87


Sexualidade dos adolescentes com síndrome de down: uma revisão sistematizada

Sexuality of adolescents with down syndrome: a systematized review

Sexualidad de los adolescentes con síndrome de down: una revisión sistemática


Autores: Manuelle de Araujo Holanda1; Mayara Francelle Oliveira Barata2; Sandra Conceição Maria Vieira3

1. Mestre em Hebiatria pela Faculdade de Odontologia da Universidade de Pernambuco (FOP/UPE). Camaragibe, PE, Brasil. Especialização em Hematologia/Hemoterapia pela Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco (HEMOPE). Recife, PE, Brasil
2. Mestre em Hebiatria pela Faculdade de Odontologia da Universidade de Pernambuco (FOP/UPE). Camaragibe, PE, Brasil. Terapeuta Ocupacional pela Universidade de Pernambuco (UPE). Recife, PE, Brasil
3. Doutorado em Odontopediatria. Docente da Faculdade de Odontologia, da Universidade de Pernambuco (FOP/UPE). Camaragibe, PE, Brasil

Manuelle de Araújo Holanda
Universidade de Pernambuco
Av. Gal. Newton Cavalcanti, nº 1650
Camaragibe, PE, Brasil. CEP: 54753-020
manuelleholanda@hotmail.com

Recebido em 25/12/2016
Aprovado em 07/04/2017

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Como citar este Artigo

Descritores: Sexualidade, Síndrome de Down, adolescente.
Keywords: Sexuality, Down Syndrome, adolescent.
Palabra Clave: Sexualidad, Síndrome de Down, adolescente.

Resumo:
OBJETIVO: O objetivo do estudo foi investigar publicações sobre a sexualidade dos adolescentes com síndrome de Down.
FONTES DE DADOS: Uma busca dos trabalhos publicados de 2007 a 2016 foi realizada nas bases de dados PUBMED e Biblioteca Virtual de Saúde - BVS. Os descritores em inglês foram combinados usando o operador booleano "AND", através de duas estratégias de busca. Inicialmente foram utilizados os descritores "sexuality" e "Down syndrome", e em seguida acrescentou-se "adolescent" aos descritores anteriores, sendo realizadas em ambas as bases de dados. Os artigos foram selecionados sem restrição do idioma.
SÍNTESE DOS DADOS: O levantamento bibliográfico revelou 57 artigos, sendo selecionados 04 artigos para a discussão da temática por atenderem aos critérios de inclusão: artigos originais e que tratavam da sexualidade na síndrome de Down.
CONCLUSÃO: De acordo com os artigos selecionados foi possível observar a necessidade de informações mais abrangentes a respeito da sexualidade de adolescentes com síndrome de Down a fim de tornar os esclarecimentos mais perceptíveis a esses adolescentes, e que tal tema possa ser naturalmente explorado, com respeito e segurança.

Abstract:
OBJECTIVE: The aim of this study was to conduct a literature review regarding the sexuality of adolescents with Down syndrome.
DATA SOURCE: Searches were performed in PubMed and Virtual Health Library - VHL using data from literature published since 2007. The descriptors in English were combined using the Boolean operator "AND", using two strategies. Initially, were used the descriptor "sexuality" AND "Down syndrome", and then added "adolescent" as an additional descriptor in both databases.
DATA SYNTHESIS: The search resulted in 57 articles, 04 of which were selected according to the following inclusion criteria: original articles dealing with the sexuality of adolescents with Down syndrome.
CONCLUSION: According to the selected articles, it was possible to observe the need for a more broad information regarding sexuality in adolescents with Down syndrome in order to provide further clarification for these adolescents, and that this theme can be naturally explored, with respect and safety.

Resumen:
OBJETIVO: El objetivo del estudio fue investigar publicaciones sobre la sexualidad de los adolescentes con síndrome de Down.
FUENTE DE DATOS: Una búsqueda de trabajos publicados de 2007 a 2016 fue realizada en las bases de datos PUBMED y Biblioteca Virtual de Salud - BVS. Los descriptivos en inglés fueron combinados usando el operador booleano "AND", a través de dos estrategias de búsqueda. Inicialmente fueron utilizados los descriptivos "sexuality" y "Down syndrome", y enseguida se añadió "adolescent" a los descriptivos anteriores, siendo realizadas en ambas bases de datos. Los artículos fueron seleccionados sin restricción de idioma. Síntesis de datos: El estudio bibliográfico reveló 57 artículos, siendo seleccionados 04 artículos para discusión de temática por atender a los criterios de inclusión: artículos originales y que trataban de sexualidad en el síndrome de Down.
CONCLUSIÓN: De acuerdo con los artículos seleccionados, fue posible observar la necesidad de informaciones más amplias con relación a la sexualidad de adolescentes con síndrome de Down, a fin de tornar las aclaraciones más perceptibles a esos adolescentes, y que tal tema pueda ser naturalmente explorado, con respeto y seguridad.

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas tem se observado um crescente incentivo para que os adolescentes com Síndrome de Down (SD) consigam viver em harmonia com a sociedade, lidando com questões de escola, emprego, lazer e amigos. Mesmo assim, há um aspecto que ainda é pouco explorado para esta população, a sexualidade1. A sexualidade é uma dimensão fundamental dos adolescentes, faz parte do seu desenvolvimento físico e psicológico, além de ter papel crucial na identidade do indivíduo1,2. Adolescentes com SD sentem necessidades de desenvolvimento sexual, desejos e impulsos sexuais iguais a seus pares sem deficiência1. No entanto, enfrentam barreiras como a superproteção dos pais e a falta de oportunidade de interagir com os colegas, para expressar sua sexualidade.

Apesar de não serem todos iguais em suas capacidades de aprendizado e independência, estabilidade social e percepção da sexualidade, quase todos os adolescentes com SD são capazes de compreender algum nível de conhecimento sexual3,5. Ainda há muitas crenças e tabus relacionados aos adolescentes com SD, que vão desde a concepção de que eles são indivíduos assexuados, ou que têm a sexualidade exacerbada. Muitas vezes são tratados como eternas crianças. Estas crenças limitam o desenvolvimento dos adolescentes com SD desde a adolescência a vida adulta, e são produtos do medo, ignorância, ocultação e rejeição, sempre em nome da proteção4.

Um dos aspectos fundamentais para o desenvolvimento sexual dos adolescentes é a educação sexual e para os adolescentes com SD não é diferente. Esta deve ser considerada parte do processo de educação global, com metodologia adequada à sua capacidade cognitiva e à faixa etária5,6. Mas na prática, a sociedade e a família não reconhecem dessa forma, evidenciando que precisam se aprofundar na temática4. Adolescentes com SD, como quaisquer outros, requerem o desenvolvimento de aspectos como autoestima, responsabilidades e valores morais, para se tornarem seres sexualmente saudáveis2,5.


MÉTODOS

Esta revisão incluiu estudos sobre a sexualidade dos adolescentes com síndrome de Down, identificando aspectos tidos como relevantes. O levantamento bibliográfico ocorreu no mês de novembro de 2016 e enfocou trabalhos publicados no período de 2007 a 2016 e indexados nas bases de dados eletrônicas PUBMED e Biblioteca Virtual de Saúde - BVS. Os descritores em inglês foram combinados utilizando o operador booleano "AND", através de duas estratégias de busca. Inicialmente foram utilizados os descritores "sexuality" e "Down syndrome" e em seguida acrescentou-se "adolescent" aos descritores anteriores, sendo realizadas em ambas as bases de dados. Os artigos foram selecionados sem restrição do idioma.

As buscas nas duas bases de dados resultaram em um total de 57 artigos contendo os descritores de interesse. Para a pré-seleção dos artigos, procedeu-se à leitura dos títulos, na qual 12 publicações foram selecionadas para a leitura dos resumos. A partir destes, 04 artigos foram selecionados para a leitura integral pois atendiam aos critérios de inclusão: artigos originais e que tratavam da sexualidade na síndrome de Down. Foram excluídos os estudos de relato de caso, estudos de revisão, bem como aqueles cujo foco não se limitava a investigar a sexualidade na síndrome de Down.

A análise dos artigos foi realizada em duas etapas. Na primeira, foram identificados os dados de localização do artigo, ano, autoria, país de estudo, objetivo, amostra e periódico de publicação. Na segunda etapa, ocorreu a análise dos artigos, cujos resultados foram sintetizados e discutidos.


RESULTADOS

A amostra do estudo constitui-se de quatro artigos dos quais três foram desenvolvidos no Brasil e estão no idioma português, e um foi desenvolvido na Austrália, no idioma inglês (Tabela 1). Ao examinar o tipo da metodologia empregada nesses estudos, verificou-se que apesar do amplo uso dos métodos quantitativos, a metodologia qualitativa também foi empregada em dois artigos para a abordagem do tema.




A quantidade de artigos encontrados relacionados à investigação da sexualidade na síndrome de Down evidenciou a limitada exploração do tema, à luz de uma reflexão mais profunda e representativa das condutas comportamentais e psicológicas dos indivíduos analisados. Vale salientar que a maioria dos estudos publicados não teve como foco principal a sexualidade dos adolescentes com Síndrome de Down (SD), o que reforça ainda mais a necessidade de estudos mais detalhados e expansivos neste campo de pesquisa.


DISCUSSÃO

Adolescentes com SD apresentam uma ampla variedade de manifestações em relação à sexualidade e saúde reprodutiva, dependendo do desenvolvimento puberal, das circunstâncias familiares e sociais. Quando avaliado os interesses dos adolescentes com SD no exercício da sexualidade, mais da metade demonstraram interesse pelo sexo oposto3.

No estudo de Leme et al.2, os pais foram questionados quanto à existência da sexualidade dos filhos adolescentes com SD, onde 95% responderam que ela não só existe como é inerente ao ser humano e 5% que afirmaram a inexistência, justificando-se na mentalidade infantil em seu filho. Para o pesquisador, uma porcentagem tão pequena indica que tais responsáveis distorcem a realidade ao separar a sexualidade do intelecto, julgando ser necessário ter um intelecto na média dos outros indivíduos da população para poder ter sexualidade.

Ao comparar a sexualidade dos adolescentes com SD e os sem a deficiência em dois estudos, ambos obtiveram respostas iguais dos pais onde a sexualidade dos adolescentes SD é semelhante à de outras pessoas, que, no entanto, deve ser vivida com limites2,6. Os pais se preocupam com a reação das pessoas aos comportamentos sexuais de seus filhos, com medo que estes sejam mal compreendidos e mal interpretados1.

Quanto aos relacionamentos, Leme2 mostrou que 27% dos pais apoiavam o namoro com liberdade, 50% com limites e 18% não permitiam2. Outro estudo investigou a temática casamento, no qual 56% dos adolescentes com SD expressaram o desejo de casar-se e 52% de ter filhos, demonstrando projetos de vida3. Quando indagados sobre a união conjugal, 27,5% dos pais revelaram que o casamento era inviável e 31,2% que em algumas situações os adolescentes com SD poderiam consumar o matrimônio. Constata-se assim, que os pais assumem uma postura menos permissiva sobre a viabilidade de casamento para seus filhos, atribuindo à falta de independência financeira e maturidade emocional7.

O nível de escolaridade dos pais na pesquisa de Leme2 mostrou-se proporcional a tolerância da vida afetiva de seus filhos. Aqueles que possuíam ensino superior mostraram-se mais tolerantes ao namoro, casamento e procriação. Em comparação, pais com apenas o ensino médio de escolaridade tiveram maior tendência ao conservadorismo, sendo menos permissivos para namoro e casamento2.

Os pais demonstram não estarem aptos a lidar com a temática da masturbação, ou ainda constrangidos em abordar o assunto7. Mas a prática é algo frequente na vida desses adolescentes, pois ao serem questionados sobre o assunto no estudo de Bononi3, 42% responderam que costumavam se masturbar e, destes, 24% o faziam diariamente. A masturbação é vista como um reflexo da falta de atividades, sobretudo as prazerosas, o que não significa que eles possuam necessidades sexuais exageradas, mas sim que são restritas outras fontes de prazer e alegria7.

Em relação à orientação sexual, os adolescentes com SD recebem menos informações do que os sem a deficiência pois de um modo geral, ações de educação em saúde são raras. Apenas 18% dos adolescentes investigados no estudo de Bononi et al.3 informaram conversar sobre questões sexuais com os pais. No entanto, uma pesquisa levantou essa problemática e mostrou que 41,4% dos pais se sentiam capacitados para lidar com as questões de ordem sexual. Para os demais, ficou evidente a falta de preparo em lidar com a sexualidade de pessoas com SD, pois esta temática trás a luz os próprios medos, preconceitos e interdições que tiveram um dia7. Os pais devem ser educados em relação aos tabus existentes para que de uma forma integrada e sem contradição, eles possam trabalhar a sexualidade de uma maneira confortável com seus filhos3.

Adolescentes com SD vivem diferentes graus de isolamento social, limitando as oportunidades de interação e consequentemente o envolvimento afetivo, os quais são importantes para descoberta sexual. Assim como outros adolescentes, eles têm o direito de expressar seus sentimentos, visto que a repressão sexual pode alterar o equilíbrio interno, diminuindo o bem-estar psicológico. Porém, quando a sexualidade é bem discutida, melhora o desenvolvimento psicossexual, facilita as relações afetivas e a integração desses adolescentes na sociedade3.


CONCLUSÃO

Apesar da importância deste debate, é notável a escassez dos trabalhos sobre a sexualidade dos adolescentes com Síndrome de Down, o que nos permite questionar se isto não se deve ao fato do tema ser ainda revestido de preconceitos pela sociedade, e consequentemente, pouco abordado.

Os artigos pesquisados demonstraram que a construção da sexualidade do adolescente com síndrome de Down se dá de diferentes formas pelos familiares, pois assim como alguns pais os julgam inocentes sexualmente, outros consideram que sua sexualidade se mantém exacerbada. Estas diferenças podem estar associadas a variações de idade e gênero, à saúde física ou mental além das influências dos valores e representações socioculturais de cada família.

É preciso valorizar os aspectos positivos e otimistas decorrentes da prática sexual destes adolescentes, em detrimento dos preconceitos relativos ao exercício de sua sexualidade, contribuindo para enriquecer a existência de tal prática. Conscientizar estes adolescentes e empoderá-los sobre sua sexualidade, possibilita a construção de uma imagem e conhecimento pessoal adequados, concomitante à elaboração do pensamento sobre suas potencialidades e dificuldades nesta área.


REFERÊNCIAS

1. Ginevra MC, Nota L, Stokes MA. The Differential Effects of Autism and Down's Syndrome on Sexual behavior. Autism Research. 2016; 9: 131-140.

2. Leme CVD, Cruz EMTN. Sexualidade e síndrome de Down: uma visão dos pais. Arq Ciênc Saúde 2008, 15(1):29-37.

3. Bononi BM, Sant'Anna MJC, Oliveira ACV, Renattini TS, Pinto CF, Passarelli ML et al. Sexuality and persons with Down syndrome. A study from Brazil. Int J Adolesc Med Health 2009;21 (3):319-326.

4. Pérez EP, Baró EG. Estrategia de intervención educativa sobre la sexualidad en niños con el síndrome de Down. Rev Cubana Med Gen Integ 2009; 25(3):95-104.

5. Moreira LMA, Gusmão FAF. Aspectos genéticos e sociais da sexualidade em pessoas com síndrome de Down. Rev Bras Psiquiatr 2002; 24(2):94-9.

6. Bononi BM, Oliveira ACV, Renattini TSM, Sant'Anna MJC, Coates V. Síndrome de Down na adolescência: Limites e Possibilidades. Adolescência & Saúde. 2009; 6(2).

7. Castelão TB, Schiavo MR, Jurberg P. Sexualidade da pessoa com síndrome de Down. Rev Saúde Pública 2003; 37(1):32-9.
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