Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 4 - Out/Dez - 2017

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Páginas 31 a 40


Projetos futuros de estudantes do ensino médio de escola pública

Future projects of public high school high school students

Proyectos futuros de estudiantes de enseñanza media de escuela pública


Autores: Elenara Farias Lazzarotto da Costa1; Clarissa Tochetto de Oliveira2; Ana Cristina Garcia Dias3

1. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil
2. Doutoranda em Psicologia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil
3. Pós-Doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil. Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil. Docente dos Programas de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, Brasil., e da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil

Correspondência:
Elenara Farias Lazzarotto da Costa
Universidade Federal de Santa Maria
Avenida Roraima nº 1000, 74B, 3º andar, sala 3302, Cidade Universitária, Camobi
Santa Maria, RS, Brasil. CEP: 97015-900
elenara@live.com

Recebido em 07/04/2016
Aprovado em 12/09/2016

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Como citar este Artigo

Descritores: Projetos, estudantes, adolescente.
Keywords: Projects, students, adolescent.
Palabra Clave: Proyectos, estudiantes, adolescente.

Resumo:
OBJETIVO: O presente estudo buscou investigar os projetos futuros de estudantes do ensino médio de escolas públicas.
MÉTODOS:Participaram desse estudo 243 estudantes, de ambos os sexos, com idades entre 13 e 19 anos. Os instrumentos utilizados foram: ficha de dados socioeconômicos e o Jogo de Sentenças Incompletas. No Jogo de Sentenças Incompletas, os estudantes foram instruídos a completar as seguintes sentenças: "meus planos para o futuro são", "após a escola, eu desejo", "eu não gostaria de" e "ao pensar no futuro, eu". As informações obtidas foram submetidas à análise de conteúdo.
RESULTADOS: Nas sentenças "meus planos para o futuro" e "após a escola, eu desejo", as categorias que obtiveram maior percentual foram "estudar" e "trabalhar". Já as sentenças "meus planos para o futuro são" e "ao pensar no futuro, eu" indicaram que os estudantes almejam conquistar a independência financeira e serem bem sucedidos. Na sentença "eu não gostaria de", as categorias: "fracassar", "fazer o que não se gosta" e "parar os estudos" foram as mais citadas. "Ao pensar no futuro", três categorias obtiveram maior percentual: "sentimentos positivos", "ser bem sucedido" e "sentimentos negativos".
CONCLUSÃO: Os principais objetivos dos estudantes são continuar seus estudos e trabalhar. Frente aos projetos existem sentimentos positivos e negativos. Porém, um sentimento que se destaca é o medo de fracassar frente às escolhas. A categoria "não sei" foi pouco utilizada o que sugere que os estudantes possuem seus projetos futuros definidos.

Abstract:
OBJECTIVE: This study investigated future projects by adolescents from public high schools.
METHODS: 243 students of both sexes, ages from 13 to 19 years participate in this study. Data were gathered by a socioeconomic questionnaire and the Incomplete Sentences Game. Information obtained on Incomplete Sentences Game were subjected to content analysis. On Incomplete Sentences Game, students were asked to complete the following sentences: "My future plans are", "After school, I wish", "I would not want to" and "When thinking about the future, I".
RESULTS: In sentences "My plans for the future" and "After school, I wish" the categories with higher percentage were "studying" and "work." In the sentences "My plans for the future are" and "When thinking about the future, I" answers revealed that students aim to achieve financial independence and be successful. In the sentence "I would not want to" the categories with higher percentages were: "fail", "do what I do not like" and "stop the studies". "Thinking about the future" revealed three categories: "positive feelings", "be successful" and "negative feelings".
CONCLUSION: The students' main objectives are to continuing with studies and working. They revealed positive and negative feelings concerning the future, specially fear of failing. The category "do not know" was seldom used, suggesting that students have their future projects defined.

Resumen:
OBJETIVO: El presente estudio buscó investigar los proyectos futuros de estudiantes de enseñanza medio de escuelas públicas.
MÉTODOS: Participaron de ese estudio 243 estudiantes, de ambos sexos, con edad entre 13 y 19 años. Los instrumentos utilizados fueron: ficha de datos socioeconómicos y el Juego de Sentencias Incompletas. En el Juego de Sentencias Incompletas, los estudiantes fueron instruidos a completar las siguientes sentencias: "mis planes para el futuro son", "luego de la escuela, quiero", "no me gustaría" y "al pensar en el futuro, yo". Las informaciones obtenidas fueron sometidas al análisis de contenido.
RESULTADOS: En las sentencias "mis planes para el futuro" y "luego de la escuela, yo quiero", las categorías que obtuvieron mayor porcentaje fueron "estudiar" y "trabajar". Ya las sentencias "mis planes para el futuro son" y "al pensar en el futuro, yo" indicaron que los estudiantes quieren conquistar la independencia financiera y ser bien exitosos. En la sentencia "no me gustaría", las categorías: "fracasar", "hacer lo que no le gusta" y "parar los estudios" fueron las más citadas. "Al pensar en el futuro", tres categorías obtuvieron mayor porcentaje: "sentimientos positivos", "ser bien exitoso" y "sentimientos negativos".
CONCLUSIÓN: Los principales objetivos de los estudiantes son continuar sus estudios y trabajar. Frente a los proyectos existen sentimientos positivos y negativos. No obstante, un sentimiento que se destaca es el miedo de fracasar frente a las elecciones. La categoría "no sé" fue poco utilizada, lo que sugiere que los estudiantes poseen sus proyectos futuros definidos.

INTRODUÇÃO

A adolescência é uma etapa complexa do desenvolvimento humano que apresenta alterações em diferentes esferas da vida: emocional, cognitiva, biológica, atitudinal, social, entre outras1. O adolescente se define principalmente por meio de suas atividades, inclinações, aspirações e relações afetivas2. Nessa fase, se espera a construção de um projeto de vida, onde é considerado um momento para se realizar escolhas pessoais e profissionais. Essas sutentam a construção dos projetos futuros, nas quais o adolescente traduzirá a visão que tem de si mesmo, de suas qualidades e daquilo que almeja alcançar3. No entanto, esse momento de descobertas e de busca por algumas definições, pode gerar nos adolescentes muitos questionamentos, que por sua vez, se associam a ambivalências e conflitos4, 5. É angustiante para o adolescente se defrontar com as questões: "Quem sou eu?", "Para onde vou?", "Qual rumo devo dar à minha vida?". Contudo, esses questionamentos são fundamentais para o seu amadurecimento e desenvolvimento de seu projeto de vida4, 5.

Nesse sentido, faz-se necessário ampliar o conhecimento sobre os projetos futuros dos adolescentes. A pesquisa pode oferece aos adolescentes um momento de reflexão e, além disso, é uma forma de compreender como os adolescentes percebem seus projetos de vida, quais seus anseios e questionamentos. Isso consequentemente ajudará amenizar a ansiedade frente às escolhas que a adolescência carrega e os prepara para as escolhas futuras. Estudar os projetos de vida contribui para o progresso do conhecimento científico e ao bem-estar subjetivo.


OBJETIVO

O presente artigo tem como objetivo apresentar os projetos futuros de estudantes do ensino médio de uma escola pública de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul.


MÉTODO

Participantes

Participaram deste estudo 243 estudantes, sendo 68,3% (n= 166) do sexo feminino. As idades variaram entre 13 e 19 anos (M= 16,14; DP= 1,22). O critério etário utilizado para a definição do período da adolescência foi da Organização Mundial de Saúde (10 aos 19 anos de idade)6. Com relação à escolaridade, 46,9% (n= 114) dos estudantes frequentavam o primeiro ano do ensino médio, 26,7% (n= 65), o segundo ano do ensino médio e 26,3% (n= 64), o terceiro ano do ensino médio.

Instrumentos, Considerações Éticas e Procedimentos

Os instrumentos utilizados para a coleta de dados foram: uma ficha de dados socioeconômicos e o Jogo de Sentenças Incompletas. A ficha de dados socioeconômicos teve como objetivo investigar dados pessoais. O Jogo de Sentenças Incompletas apresentava quatro sentenças para serem completadas: "meus planos para o futuro são", "após a escola, eu desejo", "eu não gostaria de" e "ao pensar no futuro eu". Este instrumento tem por objetivo compreender os significados atribuídos aos aspectos da vida do participante, com a finalidade de possibilitar uma associação significativa para si sobre o tema proposto. Pretende-se conhecer como o participante representa o seu modo de ver e estar no mundo, por meio de um modelo de sentenças curtas relacionadas à questão central do estudo. O participante é instruído a completar cada sentença, que é formulado pelo pesquisador. Esse instrumento busca um direcionamento do tema investigado e facilita a exposição espontânea do sujeito sobre o seu cotidiano, crenças e valores7.

A pesquisa foi desenvolvida de acordo com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde) e a Resolução nº 016/2000 do Conselho Federal de Psicologia. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sob protocolo CAAE número 039.119.

Foi realizado contato com 8ª Coordenadoria Regional de Educação de Santa Maria/ RS para apresentação do projeto de pesquisa, e autorização para realização da pesquisa nas escolas estaduais de ensino médio. A amostra foi composta de forma aleatória, a partir do sorteio realizado. Foram sorteadas quatro escolas. No primeiro contato, foi apresentado o projeto e realizado o convite para participar da pesquisa. As quatro escolas contatadas quiseram realizar a pesquisa e assinaram ao Termo de Autorização Institucional. Conforme combinado com as escolas, foi marcado dia e horário para a realização da coleta que ocorreu em dois momentos, primeiro foi apresentado aos participantes o projeto e entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para os pais/responsáveis dos estudantes menores de 18 anos. Além disso, também foi solicitado aos participantes que assinassem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Participante, concordando com sua participação na pesquisa. O instrumento foi aplicado de forma coletiva, na própria escola e em sala de aula, com o consentimento dos responsáveis e dos participantes. A aplicação do questionário durou aproximadamente 60 minutos.

Análise dos dados

As informações obtidas no Jogo de Sentenças Incompletas foram submetidas à análise de conteúdo temático-categorial8. A realização da análise de conteúdo temático-categorial requer procedimentos como: a leitura flutuante, intuitiva, ou parcialmente orientada do texto; definição de hipóteses provisórias sobre o objeto estudado e o texto analisado; determinação das unidades de registro (deve ser marcado no texto o início e final de cada unidade de registro observada); definição das unidades de significação ou temas; análise temática das unidades de registro; análise categorial do texto; tratamento e apresentação dos resultados; discussão dos resultados e retorno ao objeto de estudo9. Após a análise, foi realizado o levantamento do percentual das respostas em cada categoria (número total de respostas de todas as categorias em relação ao total de respostas de cada categoria). As frases incompletas com as categorias e os respectivos percentuais se encontram nas tabelas apresentadas nos resultados.


RESULTADOS

Serão apresentados os resultados referentes aos dados qualitativos obtidos neste estudo. Foi solicitado aos estudantes para que completassem quatro sentenças incompletas referentes ao projeto futuro.

"Meus planos para o futuro são"

A sentença "meus planos para o futuro são" obteve 373 respostas (unidades de sentido) oferecidas pelos estudantes. Apenas 5 não responderam a sentença. As respostas foram agrupadas em 10 categorias (ver Tabela 1). A ressaltar, nas respostas os participantes colocavam mais de uma resposta. Na análise, decidimos desmembrar as frases com mais de uma resposta. Por isso, a expressão "unidade de sentido".




"Após a escola, eu desejo"

A sentença: "após a escola, eu desejo" obteve 282 respostas (unidades de sentido), que foram agrupadas em oito categorias (ver Tabela 2). Quatro estudantes não completaram a frase.




"Eu não gostaria de"

A sentença "eu não gostaria de "obteve 243 respostas (unidades de sentido), que foram fornecidas por 228 estudantes (15 deixaram essa sentença em branco). Essas foram agrupadas em 10 categorias (ver Tabela 3).




"Ao pensar no futuro, eu"

A sentença "ao pensar no futuro, eu "identificou 257 respostas (unidades de sentido), oferecidas por 230 adolescentes (13 participantes não responderam). As respostas foram agrupadas em 10 categorias (ver Tabela 4).




DISCUSSÃO

O presente estudo descreve que os principais projetos futuros desses estudantes são estudar e trabalhar. A categoria que obteve maior percentual nas sentenças "meus planos para o futuro" e "após a escola, eu desejo" foi estudar (47,72% e 69,85%). Os adolescentes planejam continuar seus estudos, concluir o ensino médio e realizar uma faculdade e/ou curso técnico.

O acesso ao ensino superior é ainda considerado elitizado, tornando-se difícil a concorrência entre as camadas populares com as camadas mais altas. Os estudantes de escolas privadas recebem mais estímulos a continuidade da educação do que os estudantes do sistema público10. Outro estudo apresentou que alunos pertencentes à escola privada possuíam mais expectativas de ingressar em uma universidade, de alcançar um emprego que lhes trouxessem satisfação e possuir casa própria do que estudantes de escola pública11. O presente estudo mostra altos índices nas respostas dos alunos de escola pública que gostariam de continuar seus estudos sejam em universidades ou cursos técnicos. Pode-se dizer que esses resultados configuram a realidade que os adolescentes vivem. A cidade em que foi realizada a pesquisa é considera uma cidade universitária, em que há grandes investimentos em cursos preparatórios para entrada no ensino superior. Esse fator pode ter contribuído para os estudantes almejarem a realização de um curso universitário ou técnico. Outra questão são as bolsas de estudos que possibilitam a entrada dos adolescentes em faculdades particulares.

A segunda categoria encontrada nas sentenças "meus planos para o futuro" e "após a escola, eu desejo" foi trabalhar (19,84% e 18,80%). Na transição entre a fase infantil e a fase adulta, o que se espera do adolescente é a formação da identidade pessoal e tomada de decisão sobre um futuro profissional possível12. Existem várias razões que explicam a importância da escolha profissional. Através dessa escolha, a pessoa busca satisfazer as suas necessidades de reconhecimento, aprovação, amor e independência. Para que isso ocorra, é necessário assumir uma identidade vocacional. Ao se identificar com uma vocação, o sujeito pode encontrar auto realização e satisfação1.

Na sentença "eu não gostaria de", três categorias se destacaram: fracassar (30,86%), fazer o que não se gosta (24,30%) e parar os estudos (16,90%). Frente ao projeto futuro, os estudantes têm medo de fracassar em suas escolhas, principalmente no que se refere à escolha profissional, pois não é uma tarefa fácil, e a transição marcada pelo término do ensino médio gera o medo de fracassar10. A necessidade de realizar a escolha certa sobre a carreira profissional ofuscou a construção do vínculo do trabalhador com a profissão. Se há dúvida ou mudança de trajetória da carreira, o adolescente se sente julgado pelo fracasso na escolha13. Os vínculos profissionais são construídos pela própria trajetória de vida e por deveres. Estes vínculos são imprevisíveis e possíveis de se romper, alterar, firmar, redesenhar ou desmanchar. Não há fracassos ou erros nesse movimento. Para além da escolha profissional, o que a vida oferece são experimentações intensivas que mudam os rumos, confundem, subvertem, produzem estranhamentos e muitas vezes um mal-estar diante de não se saber como agir frente aos novos dados trazidos pela experiência13. Acredita-se que o trabalho dessas questões com os estudantes, tais como tem sido feito em intervenções de Orientação Profissional, poderia amenizar o medo de fracassar e, ainda, instrumentalizar os mesmos na busca de informações para a escolha profissional14.

As categorias fazer o que não se gosta e parar os estudos estão, muitas vezes, interligadas visto que os adolescentes almejam passar no vestibular para continuar os estudos. Com isso, muitos escolhem um curso menos concorrido, que facilita a entrada na universidade15, o que ocorre principalmente com os estudantes de baixa renda16. Assim, os adolescentes de baixa renda podem se formar mais cedo, entrar no mercado de trabalho e se benefi ciar com as vantagens do ensino superior11. Essa atitude por um lado facilita a realização das expectativas de futuro profissional, porém pode gerar sentimentos de frustração e de menos valia, na medida em que percebem a pressão de ordem interna e externa, e as restrições da realização profissional15. Já os adolescentes com melhor renda social, possuem apoio financeiro e podem suportar os custos até serem aprovados em um curso com maior dificuldade de entrada16.

Na sentença "ao pensar no futuro eu", houve destaque de três categorias que apresentaram maior percentual: sentimentos positivos (20,62%), ser bem-sucedido (18,67%) e sentimentos negativos (15,17%). Ser bem-sucedido também aparece na tabela 3 (4,11%), porém o que se percebe foi uma falta de compreensão do que era solicitado na sentença "eu não gostaria de". Esse resultado contradiz o que foi encontrado nas tabelas 1 e 4, nas quais os estudantes afirmaram querer conquistar sua independência financeira e ser profissionais de sucesso. Uma pesquisa com jovens trabalhadores e não trabalhadores de nível socioeconômico desfavorecido mostra que os jovens percebem o trabalho como benéfico, pois através do trabalho se conquista a autonomia em relação a seus pais e, consequentemente, terá impacto positivo em outras esferas da vida pessoal17. Além disso, sabe-se que muitos adolescentes buscam através do trabalho, contribuir na renda familiar. A importância do trabalho para os adolescentes está ligada ao fator econômico, sendo o trabalho como forma de subsistência, isto é, apoio financeiro não só para o sujeito, mas também para a sua família17,18.

No que se refere aos sentimentos positivos, ao pensar no futuro, os adolescentes possuem sentimentos como: se sentir bem, feliz, determinado, realizado, confiante, motivado etc. Um estudo comparativo mostrou que alunos das escolas particulares apresentam mais respostas positivas em relação ao futuro do que os alunos da escola pública. Contudo, tendem a manifestar sentimentos negativos, como indecisão, insegurança ou medo quando se confrontam com suas metas, sonhos, exigências e dificuldades da realidade10.

Na categoria sentimentos negativos, os estudantes manifestaram sentimentos de insegurança, tristeza, ansiedade, medo, e tantos outros diante dos seus projetos futuros. Esse momento de escolhas é vivenciado pelos estudantes do ensino médio, e vem carregado de novas responsabilidades, gerando incertezas, inseguranças e indecisões11. O adolescente está inserido em uma rede complexa de fatores, como os familiares, sociais e as próprias características da personalidade que o adolescente vivencia o processo de construção de planos que pode se caracterizar pela indecisão. Ao ser socialmente solicitado a realizar a escolha profissional no término do período escolar, o momento de indecisão profissional pode gerar implicações emocionais negativas para o adolescente19. Estudantes mais indecisos mostraram-se mais deprimidos e ansiosos, indicando que a dificuldade em realizar a opção profissional pode prejudicar o bem-estar. Isso porque, à medida que o tempo passa, quem não escolheu, vivencia sensações maiores de desvalia, incompetência, além da desaprovação social. Por outro lado, a indecisão pode se caracterizar como um componente esperado e inerente ao processo de escolha profissional, e deve ser encarada como um fator normativo e até positivo, ao permitir a reflexão19.

Outro resultado que chamou atenção foram os índices baixos da categoria não sabe sobre planos para o futuro e o que fazer após a escola (2,14% e 1,41% respectivamente), apresentados nas tabelas 1 e 2. Por mais que esses números sejam menores, é importante notar que existem alunos que vivenciam esse momento, e não sabem o que querem. Os adolescentes que possuem projetos futuros mais definidos também podem ter dúvidas e incertezas o que pode ser identificado na Tabela 4, na categoria sentimentos negativos (15,17%).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo investigou os projetos futuros dos estudantes do ensino médio de escolas públicas. O principal objetivo dos adolescentes é continuar seus estudos, seja concluir o ensino médio para os alunos do primeiro e segundo ano, como também realizar uma faculdade e/ ou curso técnico, idealizado também pelos estudantes do terceiro ano. Trabalhar também é um dos principais objetivos dos adolescentes. Além disso, os estudantes almejam conquistar sua independência financeira e serem profissionais de sucesso. Muitos adolescentes buscam, através do trabalho, contribuir na renda familiar. Esses projetos parecem despertar tanto sentimentos positivos, como felicidade, realização, confiança, quanto sentimentos negativos como insegurança, medo. Os estudantes apresentaram o medo de fracassar principalmenterelacionados a escolha profissional. Outra questão discutida nesse estudo foi a categoria não sei referente ao futuro ou o que fazer após a escola. Essa categoria traz um número relativamente baixo nos resultados, diante disso entende-se que os estudantes possuem seus projetos de vida definidos.

Esta pesquisa possui limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados apresentados. Estudantes das escolas privadas e adolescentes de outras regiões do país também podem estabelecer relações diferentes frente aos projetos de vida. Diante disso, sugere-se que mais pesquisas sejam realizadas com estudantes de escolas públicas e privadas em diferentes regiões do Brasil.

Questiona-se, ainda, os caminhos que os adolescentes seguem para atingir os seus projetos de vida e quais outros projetos possuem além do profissional. Assim como se os estudantes recebem suporte para o enfrentamento dos projetos pessoais e profissionais, tanto da escola como da família. Diante disso, sugere-se a realização de entrevista semiestruturada que aborde questões mais aprofundadas sobre o projeto de vida de estudantes e adolescentes.


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