Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 4 - Out/Dez - 2017

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Páginas 58 a 65


Jogos e música: recursos terapêuticos ocupacionais no tratamento de adolescentes usuários de substâncias psicoativas

Games and music: Therapeutics occupational resources in the treatment of teenagers users of psychoactive substances

Juegos y música: recursos terapéuticos ocupacionales en el tratamiento de adolescentes usuarios de sustancias psicoactivas


Autores: Meire Luci da Silva1; Sambleisse Sodré Rosa2

1. Professora Assistente Doutora do Curso de Terapia Ocupacional do Departamento de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Marília, SP, Brasil. Tutora da Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Mental do Departamento de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Mental, da Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA), Marília, SP, Brasil
2. Terapeuta Ocupacional pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Marília, SP, Brasil

Correspondência:
Meire Luci da Silva
Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
Av. Hygino Muzzi Filho, 737, Mirante
Marília, SP, Brasil. CEP: 17525-000
meire@marilia.unesp.br

Recebido em 29/06/2016
Aprovado em 07/04/2017

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, transtornos relacionados ao uso de substâncias, terapia ocupacional, jogos experimentais, música.
Keywords: Adolescent, substance-related disorders, occupational therapy, games, experimental, music.
Palabra Clave: Adolescente, trastornos relacionados al uso de sustancias, terapia ocupacional, juegos experimentales, música.

Resumo:
OBJETIVO: Este artigo tem como objetivo investigar sobre a eficácia da música e de jogos como recursos terapêuticos ocupacionais no atendimento de usuários de substâncias psicoativas em tratamento, internados em um hospital psiquiátrico da região centro-oeste do interior paulista.
MÉTODO: Estudo realizado durante o Estágio Supervisionado de Terapia Ocupacional (TO) em Saúde Mental e Dependência química de uma universidade estadual de São Paulo. Participaram aproximadamente 10 adolescentes com faixa etária de 9 a 17 anos. Para coleta de dados foram realizadas 11 oficinas durante três meses, com duração de uma hora, realizadas em sala de TO do hospital. Durante as oficinas a música e jogos "adaptados" foram utilizados como recursos. Os dados foram registrados em áudio e diário de campo e a análise dos dados foi baseada na análise temática de conteúdo.
RESULTADOS: Os jogos e a música utilizados no atendimento terapêutico ocupacional com adolescentes usuários de substancias psicoativas configuraram-se como ferramentas eficazes e potentes no tratamento. Possibilitou abordagem de assuntos pertinentes aos aspectos cognitivos, interação social, expressão de sentimentos, simulações de situações reais de vida, exposição às situações de vulnerabilidade à riscos, possibilidades de escolhas, entre outras, de forma atrativa, lúdica, divertida, expressiva e dinâmica.
CONCLUSÃO: Foi possível verificar a importância de ações e estratégias específicas como recursos terapêuticos potentes para uma intervenção promissora e eficiente no tratamento da dependência química, auxiliando o adolescente no (re) estabelecimento e empoderamento do protagonista de vida.

Abstract:
OBJECTIVE: This article aims to investigate the effectiveness of music and games as occupational therapeutic resources in the care of psychoactive substance users in treatment, admitted to a psychiatric hospital in the mid-western part of São Paulo state.
METHOD: Study conducted during the Supervised Internship of Occupational Therapy (OT) in Mental Health and Substance abuse at the State University of São Paulo. About 10 teenagers from 9-17 years old participated in the study. For data collection 11 workshops were conducted during three months, lasting one hour, held in the OT area of the hospital. During the workshops music and "adapted" games were used as resources. Data were recorded on audio and field diary and the data analysis was based on thematic content analysis.
RESULTS: The games and music used in occupational therapy service with psychoactive substance teenage users configured as an effective and powerful tool in the treatment. It allowed the approach to issues regarding cognitive aspects, social interaction, expression of feelings, simulations of real life situations, exposure to situations of risk vulnerability, possibilities of choice, among others, in an attractive, playful, fun, expressive and dynamic way.
CONCLUSION: It was possible to verify the importance of specific actions and strategies as potent therapeutic resources for a promising and effective intervention in the treatment of addiction, helping the teenager in the (re) establishment and empowerment of their life.

Resumen:
OBJETIVO: Este artículo tiene como objetivo investigar sobre la eficacia de la música y de juegos como recursos terapéuticos ocupacionales en la atención de usuarios de sustancias psicoactivas en tratamiento, internados en un hospital psiquiátrico de la región centro-oeste del interior paulista.
MÉTODO: Estudio realizado durante la Fase de Supervisión de Terapia Ocupacional (TO) en Salud Mental y Dependencia química de una universidad estadual de São Paulo. Participaron aproximadamente 10 adolescentes con franja etaria de 9 a 17 años. Para la colecta de datos fueron realizados 11 talleres durante tres meses, con duración de una hora, realizados en sala de TO del hospital. Durante los talleres la música y juegos "adaptados" fueron utilizados como recursos. Los datos fueron registrados en audio y diario de campo y el análisis de los datos fue basado en el análisis temático de contenido.
RESULTADOS: Los juegos y la música utilizados en la atención terapéutica ocupacional con adolescentes usuarios de sustancias psicoactivas se configuraron como herramientas eficaces y potentes en el tratamiento. Posibilitó abordaje de asuntos pertinentes a los aspectos cognitivos, interacción social, expresión de sentimientos, simulaciones de situaciones reales de vida, exposición a las situaciones de vulnerabilidad a riesgos, posibilidades de elecciones, entre otras, de forma atractiva, lúdica, divertida, expresiva y dinámica.
CONCLUSIÓN: Fue posible verificar la importancia de acciones y estrategias específicas como recursos terapéuticos potentes para una intervención promisora y eficiente en el tratamiento de la dependencia química, auxiliando al adolescente en el (re) establecimiento y empoderamiento del protagonista de vida.

INTRODUÇÃO

A adolescência é um período de transição permeado de alterações, dentre estas se destaca as alterações hormonais, físicas, psicológicas, emocionais, comportamentais e sociais. Enfim, um período de instabilidades, de explorações e experimentações, geralmente na busca constante por autoafirmação, autonomia, identidade, empoderamento e estabilidade futura em todos os aspectos1. Nessa fase, os adolescentes apresentam-se vulneráveis e com dificuldades no enfrentamento de oportunidades sociais, sentindo-se inseguros e confusos e, assim expostos a diversas situações de riscos, como o uso de substâncias lícitas e ilícitas, tráfico, sexo inseguro, entre outros.

O uso de substâncias psicoativas por jovens tornou-se uma grande preocupação para a saúde pública, causando grande impacto social, econômico e político. Autores indicam que entre os principais fatores que contribuem para esta realidade, destacam-se a desestrutura familiar, a baixa escolaridade e a baixa renda financeira, bem como fatores subjetivos e individuais geralmente ligados a sensação de prazer e de alívio2. Neste sentido, estudos mostram que as substâncias psicoativas promovem mesmo que momentaneamente, sentimentos de confiança, prazer, alívio das tensões, aumento da euforia, encobrem e mascaram a depressão. Na maioria das vezes, o adolescente usa a substância como um meio de obter aceitação ou se inserir em grupo de amigos, além de funcionar como um mecanismo de fuga e de enfrentamento das situações e sentimentos negativos, como inseguranças, medos, estresse, cobranças, entre outros3.

O tratamento da dependência química é permeada por movimentos de resistência, desconfiança, baixa motivação e dificuldade na adesão ao tratamento4. Dentre as profissões da área da saúde que atua no tratamento e reabilitação de usuários de substâncias psicoativas, destaca-se o Terapeuta Ocupacional (TO) que tem suas práticas embasadas na abordagem da Reabilitação Psicossocial. Este profissional utiliza como recurso terapêutico, a atividade humana em suas diversas e diferentes linguagens (plásticas, corporal, literária, entre outras). Dentre os objetivos do TO junto a esta população está: a promoção da reinserção social e reconstrução da cidadania, promoção e auxílio nas habilidades sociais, de comunicação e comportamentais, a promoção de expressão de sentimentos, a possibilidade de compreensão dos motivos e dificuldades que levam ao uso ou abuso de substâncias, entre outros5.

Autores pontuam que as atividades de ações do TO frente à prevenção da violência junto a adolescentes envolvem a "ação" e o "fazer" como recursos potentes, pois propiciam a expressão da singularidade, bem como a promoção do discernimento crítico e apreensivo de acontecimentos e situações cotidianas6. Os mesmos autores referem ainda, que para traçar um plano terapêutico ocupacional, faz-se necessário que o TO compreenda o adolescente e seus contextos e, utilize as atividades e suas respectivas análises como estratégia para o desenvolvimento de um pensamento critico-reflexivo e coletivo6.

O presente estudo tem como objetivo geral investigar a eficácia da música e de jogos como recursos terapêuticos ocupacionais no atendimento de usuários de substâncias psicoativas em tratamento, internados em um hospital psiquiátrico da região centro-oeste do interior paulista.

Aspectos éticos

A aplicação dos procedimentos foi realizada após aprovação do estudo pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP - Marília. Os participantes foram esclarecidos quanto à participação na pesquisa e após concordância, assinaram o Termo de Assentimento, bem como seus responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido.

Cenário do estudo

O estudo foi realizado em um hospital psiquiátrico destinado ao tratamento de indivíduos portadores de transtornos mentais, incluindo a dependência química. O hospital está localizado na região centro-oeste paulista e na data do estudo, apresentava aproximadamente 330 leitos, sendo 30 leitos destinados ao tratamento de adolescentes, menores infratores, usuários de substâncias psicoativas que estavam sob medida socioeducativa privativa de liberdade aplicada pelo Judiciário. Ressalta-se que esta instituição realiza seus atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), planos particulares e convênios, porém o tratamento de todos participantes deste estudo foi subsidiado pelo SUS. Esse estudo foi realizado durante um estágio supervisionado de TO em Saúde Mental e Dependência química de uma universidade estadual de São Paulo.

Planejamento das intervenções e escolha dos recursos

Para traçar uma intervenção terapêutica eficaz, faz-se necessário observar o cotidiano do sujeito para identificar as demandas, considerar a faixa etária dos participantes, subjetividades, uso de substâncias psicoativas, fatores de risco e de proteção ao uso, estratégias de enfrentamento de situações de riscos, vulnerabilidade social, contexto socioeconômico e ocupacional, bem como demandas relacionadas ao motivo e queixa de suas internações.

Embasados e respaldados pela teoria e, após avaliação do público-alvo, contexto sociocultural e educacional e suas demandas, os estagiários optaram em realizar atendimentos em grupos, utilizando como recursos terapêuticos ocupacionais, a música e os jogos.

A escolha pela música e os jogos como recursos terapêuticos ocupacionais foi realizada baseada na potencialidade e caráter envolvente e lúdico destes recursos, o que auxilia na adesão ao tratamento, reflexão de diversos e diferentes temas, (re) descoberta de identidade, de papéis sociais e de objetivos de vida, além de facilitar a criação de vínculos sociais por meio do dialogo e da expressão de sentimentos. Os recursos selecionados também apresentam características voltadas à promoção de envolvimento e atratividade para esta faixa etária, além de possibilitar a promoção e manutenção da atenção, motivação, socialização e trabalho em equipe, promoverem a auto compreensão de aspectos subjetivos. Outro fator positivo relacionado ao uso destes recursos é o fato de poderem ser graduados conforme às dificuldades dos participantes.

Estudos apontam que a atividade lúdica é um importante veículo de comunicação do publico infanto-juvenil, pois auxilia no processo de autoconhecimento, aprendizagem e socialização, além de facilitar a expressão dos sentimentos, bem como auxiliar no desenvolvimento do protagonismo juvenil e na criação de uma rede relacional, configurando-se assim como ferramenta terapêutica potente no tratamento deste público7.


PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa e caráter participante. As percepções e reflexões dos estagiários de TO foram consideradas relevantes e comparadas às dos participantes. Portanto, buscou-se apreender os aspectos subjetivos vinculados à realidade e demanda do público estudado.

A elaboração, desenvolvimento e registro das intervenções foram realizados através de evoluções em relatórios obrigatórios na disciplina, bem como todas as práticas gravadas em áudio e transcritas integralmente, além de serem supervisionadas pela docente responsável pela disciplina estágio supervisionado de TO em Saúde Mental.

Os registros das transcrições das intervenções embasadas no contexto socioeconômico e cultural dos participantes e, em casos retirados da literatura foram analisados e interpretados com base no método de análise temática de conteúdo. A análise das transcrições possibilitou traçar categorias explanadas a seguir.


RESULTADOS

Foram desenvolvidas 11 oficinas, durante três meses, com duração média de 90 minutos, em espaço da própria instituição. Participaram das intervenções aproximadamente 10 adolescentes, todos do sexo masculino, na faixa etária de 12 a 17 anos. A partir da análise dos conteúdos em conformidade com o objetivo do estudo, surgiram cinco categorias, sendo estas: Motivos que levaram o uso de substâncias psicoativas; Dificuldade e resistência na adesão ao tratamento; Jogos como recurso terapêutico; Música como recurso terapêutico e Análise da atividade.

Contato inicial e estrutura das intervenções

Após a explanação sobre o estudo e desenvolvimento das etapas, os adolescentes foram convidados e verbalmente incentivados a participar das intervenções. O levantamento da problemática da amostra foi obtido por meio de uma conversa inicial e aplicação de dinâmica de grupo. A dinâmica intitulada "Máscaras", permitiu a identificação das dificuldades, contrariedades, adversidades e as demandas do publico.

As intervenções foram estruturadas em alguns momentos, como: acolhimento inicial, seguido do momento de explanação e desenvolvimento da atividade proposta e, como momento final, discussões e reflexões acerca do desempenho individual e grupal dos participantes, bem como das contribuições e significados da atividade realizada.

Motivos que levaram o uso de substâncias psicoativas

Durante as intervenções, os participantes mencionaram aspectos e motivos que os levaram ao uso de substâncias psicoativas, dentre eles, a influência de amigos, busca de prazer e alívio das tensões, exemplificada na fala de I.

I: "Vi uns meninos usando... e parecia firmeza... fiz amizade e troquei umas ideia... aí eles me deram pra experimentar... a gente ria muito".


Dificuldade e resistência na adesão ao tratamento

Durante as intervenções houve adesão dos adolescentes internados, porém em alguns momentos evidenciou-se a oscilação de participantes em decorrência de questões de rotina como: saída para procedimentos médico-odontológicos. Nos primeiros atendimentos, ficou evidente a resistência para iniciar a atividade grupal e, os participantes justificavam suas resistências através de diversas desculpas, como pode ser observado na fala de um dos participantes.

M: "Ah tia... tá frio. Tô de boa quero fazer não. Mó preguiça".


Dentre as dificuldades apresentadas pelos participantes e, que também funcionaram como motivo para recusarem-se ou resistirem a participar, destaca-se o baixo nível de alfabetização, como é possível identificar na fala de P.

P: "Tia... nem sei lê então não vou faze isso não. Vo pro meu quarto durmi. Deixa quieto isso aí".


Verificou-se que após as duas primeiras intervenções, onde os participantes puderam observar e usufruir dos recursos, a resistência foi diminuindo gradativamente e passaram a participar com iniciativa e motivação, o que pode ser evidenciado na fala de M. em momento inicial de uma intervenção.

M.: "Legal... mais outro jogo pra gente brinca e conversa dos nossos problemas. Vamos parar de conversar tia e começa logo esse jogo".


Jogos como recurso terapêutico

Dentre as oficinas realizadas que utilizaram os jogos como recursos terapêuticos destacaram-se o uso de jogos adaptados, os quais promoveram boa interação e participação, além de permitir a criação de vínculo e cooperativismo, como evidenciado nas falas de B.

B: "Gostei muito... por que esse jogo ajudou a gente ficar mais perto e a conhecer a gente melhor...".


Os jogos também incentivaram o desenvolvimento do pensamento coletivo para resolução de problemas cotidianos, aquisição de potencialidades para o trabalho em equipe o exercício de disciplina e respeito às regras, estimularam o desenvolvimento da criatividade, promoveram sentimentos positivos e incentivaram o autoconhecimento e empoderamento de suas capacidades e habilidades. Como ressaltado na fala de M.

M: "Achei que seria chato e difícil, que não iria conseguir fazer, mas achei legal! Pena que acaba rápido! Se fosse só eu ia demorar muito e se pá nem ia dá certo! Músicas como recurso terapêutico


A utilização da música promoveu abordagens de assuntos problemáticos como dificuldades socioeconômicas, conflitos e desestrutura familiar. Onde os participantes puderam relatar e trazer para uma experiência concreta, momentos e dificuldades vivenciados.

E: "Tia essa música me lembra da minha família... tenho uma filha e por causa da droga eu não posso mais fica com ela. Meu pai usa droga e faz um corre pra entregar e a policia pego ele com pedra e pino".


A música configurou-se como recurso potente na expressão e autopercepção de sentimentos, promovendo momentos de reflexão e discussão sobre possíveis estratégias de enfrentamento a estes. Durante as atividades, alguns participantes apresentaram-se desanimados e, quando questionados sobre o motivo, referiam recordações de problemas familiares, o que pode ser evidenciado na fala de J.

J: "...essa vida é muito desgracenta! Nós tenta melhorar, sair dessa vida, mas o que adianta?".


Durante a intervenção em que foi realizada uma competição de rap, foi verificado que a música possibilitou a reflexão sobre perspectivas de futuro e de vida, como evidenciado por M.

M: "Eu curto rap mais é mó difícil pensa em um sonho para o futuro e pô no rap [...] já sei, o meu sonho é se desenhista!".


Análise da atividade

No final de todas as intervenções foram realizadas discussões e reflexões sobre a atividade desenvolvida e, ficou evidente que estas possibilitaram aos participantes a compreensão dos objetivos das atividades propostas, o pensamento crítico-reflexivo de diversos temas envolvendo os problemas cotidianos, aspectos subjetivos, além de (re) descobertas de identidade e objetivos de vida. Estas características podem ser exemplificadas pela fala de J. a seguir.

J: "Oia só.... eu nem tinha pensado nisto, mas agora sei que quando respondi a pergunta e andei aquela casa... eu falei tudo o que acontece lá em casa... Tia... você tem bola de cristal é?".



DISCUSSÃO

O aumento na prevalência de adolescentes usuários de substâncias aponta para a necessidade do desenvolvimento de programas e estratégias eficazes junto a esse público, bem como de intervenções que levem em consideração a singularidade e subjetividade do adolescente, bem como seus contextos: sociais, familiar e financeiro.

Dentre os motivos que foram mencionados pelos adolescentes e corroborados por autores, destaca-se o baixo nível socioeconômico, cultural e de alfabetização, problemas familiares, consumismo, fácil acessibilidade às substâncias8. Para os usuários de substâncias psicoativas, o uso da substância pode representar o resultado rápido, imediato e às vezes aparentemente mais fácil de aliviar sentimentos negativos. Alguns relatos dos participantes ilustram o fato de que o uso da substância pode promover rapidamente sentimentos de alegria e aquisição de bens e valores, fato este também mencionado por alguns autores9, onde relata a percepção de que os adolescentes associam a droga à busca de alívio rápido para a dor e por prazeres sentimentais e materiais.

Acredita-se que a dificuldade e resistência na adesão ao tratamento pode estar atrelada aos déficits nas habilidades sociais e, consequentes prejuízos comportamentais como a dificuldade para lidar com os sentimentos oriundos das condições socioeconômicas, bem como dificuldade de vivenciar e experienciar novas situações. Frente a essas dificuldades, destaca-se a importância da relação terapeuta-paciente, onde o papel do terapeuta é de facilitador, suporte e apoio ao paciente, a fim de promover a adesão à terapia9.

Outro fator que contribuiu para a adesão foi o acolhimento, que consiste em receber o indivíduo em sua totalidade, reconhecendo suas diferenças, suas alegrias, suas tristezas, seus temores e seus pesares, envolvendo-se na construção da humanidade, potencializando o protagonismo e vida nos diferentes encontros10.

O acolhimento inicial configurou-se como "porta de entrada" das atividades, momento onde os participantes sentiam-se a vontade para trocas afetivas e de experiências, interagindo de maneira espontânea. Nesse sentido, durante as intervenções de TO, o acolhimento foi realizado no início para preparar o grupo para experimentação no setting terapêutico. Este além de facilitar a aproximação entre os participantes, possibilitar a sensibilização, incentivar a criação de vínculos entre os mesmos, além de promover regras de boa convivência e respeito entre os atores envolvidos no processo, bem como a motivação para a realização das atividades propostas e o despertar da importância da TO no tratamento dos mesmos.

As intervenções que utilizaram os jogos como recurso terapêutico consistiram em uma maneira lúdica de simbolizar e simular situações rotineiras, permitindo aos adolescentes apurar e perceber as consequências de seus comportamentos e, portanto, fornecendo "nutrientes" para a formação futura, potencializando-os e empoderando-os em tomadas de decisões e escolhas futuras, como por exemplo, frente às situações de risco e de vulnerabilidade. O jogo, devido seu caráter atrativo e dinâmico, estimula o respeito às regras e limites, possibilita a aquisição e aprendizados de conhecimentos, além de possibilitar a invenção e experimentação de novas situações, incentivando a criatividade, imaginação e a Inteligência, facilitando no desenvolvimento de habilidades sociais e cognitivas11,12,13.

Ao utilizar a música como recurso terapêutico foi necessário considerar variáveis importantes, como: gosto musical e idade do paciente/ usuário, a fim de torná-la um recurso potente, interessante e agradável. A música por seu caráter atraente, desestressante, minimizadora de tensões e ansiedade, estimulante de atos criativos, permitiu a expressão de sentimentos e afetos, antes embotados e mascarados pelo uso da substância, além de promover o autoconhecimento, possibilitar o despertar de vivencias e (re) descobertas de formas de lidar com emoções básicas, entre outras14,15,16,17.

Ainda sobre a música, verificou-se que ritmos e estilos musicais voltados ao contexto sociocultural dos participantes se configurou como excelente recurso terapêutico, visto que aborda assuntos da realidade destes, estimulando a criatividade no enfrentamento de situações e exposições ao risco, pois através de suas letras e da analogia destas com a realidade, podem servir de "ponto de partida" para o acesso às informações interiores, muitas vezes reprimidas pelo uso da substância18. Dentre outras características promovidas pelo uso da música, destaca-se o incentivo ao diálogo, exposição de sentimento, pensamento, o que promove a interação do grupo, possibilita a troca de experiências e ideias, tendo em vista que neste momento, possuem interesses em comum e "falam a mesma língua". Outro fator evidenciado foi que o estilo musical possibilitou aos adolescentes respeitar limites e regras, pois era necessário respeitar os tempos da melodia, criar rimas e acompanhar o ritmo, além do produto final (música) ser fruto de trabalho em equipe.

A análise e reflexão das atividades possibilitaram aos adolescentes um melhor entendimento dos objetivos da atividade proposta, a elaboração, assimilação, interiorização e um olhar ampliado sobre o processo vivido durante a intervenção. A reflexão auxiliou o paciente no entendimento da terapeuticidade da atividade, diferenciando-a do caráter de ocupação. Ou seja, foi possível verificar os relatos dos autores que apontaram sobre a importância do uso da atividade como "meio" terapêutico em TO, como ferramenta de autoanálise e análise grupal, auxiliando no autoconhecimento e na autocrítica, possibilitando momentos de auto escuta e escuta do outro (grupo) 19. As atividades realizadas em grupo são vivências extremamente ricas e dinâmicas e, ao realizar o encerramento da atividade, o TO deve conduzir a finalização elencando pontos positivos e favoráveis a construção individual e coletiva20.


CONCLUSÃO

Os jogos e a música utilizados no atendimento terapêutico ocupacional com adolescentes usuários de substancias psicoativas configuraram-se como ferramentas eficazes e potentes no tratamento destes. Possibilitou aos adolescentes a trabalharem os aspectos cognitivos, interação social, expressão de sentimentos, simulações de situações reais de vida, exposição à situações de vulnerabilidade à riscos, possibilidades de escolhas, de forma atrativa, lúdica, divertida, expressiva e dinâmica. Foi possível verificar a importância de ações e estratégias específicas e que considerem o contexto socioeconômico e cultural, pois assim poderão auxiliar o adolescente no (re) estabelecimento e empoderamento do protagonista de vida.


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