Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 4 - Out/Dez - 2017

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Páginas 97 a 105


Estudo sad-smoke: Relação do Tabagismo com Stress, Ansiedade e Depressão em Adolescentes

Sad-smoke study : Relationship between Smoking with Stress, Anxiety and Depression in Adolescents

Estudio sad-smoke: Relación del TabaquismoconEstrés, Ansiedad y Depresiónen Adolescentes


Autores: Sara Isabel Rodrigues Martins1; Célia Ferreira Folhas Mata2; Pascoal Moleiro3

1. Especialidade médica de Medicina Geral e Familiar. Mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). Leiria AC, Portugal
2. Especialidade médica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Santiago-em desenvolvimento. Mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Leiria, AC, Portugal
3. Grau de Consultor de Carreira Médica e Assistente Graduado de Pediatria - Médico do Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar de Leiria. Leiria, AC, Portugal

Correspondência:
Sara Isabel Rodrigues Martins
Unidade de Saúde Familiar (USF) Santiago
Estrada da Mata, nº 56, Marrazes
Leiria, Portugal. CEP: 2415-380
sara.rodrygues@gmail.com

Recebido em 05/10/2016
Aprovado em 07/04/2017

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Como citar este Artigo

Descritores: Hábito de fumar, adolescente, depressão, ansiedade, estresse psicológico.
Keywords: Smoking, adolescent, depression, anxiety, stress, psychological.
Palabra Clave: Hábito de fumar, adolescente, depresión, ansiedad, estrés psicológico.

Resumo:
OBJETIVO: Caracterização do uso de tabaco por adolescentes entre 13-15 anos; Identificação de fatores chaves para o hábito de fumar; Verificação da associação entre o fumo e stress, ansiedade e depressão em adolescentes.
MÉTODOS:Estudo transversal e descritivo com componente analítico. Amostra de conveniência com adolescentes entre 13-15 anos frequentando o 9º ano escolar. Este foi realizado de 13 a 30 de abril de 2015, utilizando um questionário de autopreenchimento, confidencial, anônimo incluindo parte do questionário GYTS e EADS-C, validados e traduzidos para língua portuguesa.
ANÁLISE ESTATÍSTICA: Utilizou-se o programa SPSS versão 20.0 para a análise descritiva univariável e análise multivariável utilizando teste qui-quadrado (nível de significância de 0,05).
RESULTADOS: Analisou-se 251 adolescentes, 51,4% do sexo feminino com 14,6±0,5 anos. Verificou-se que 32,7% já tinham experimentado fumar, 6,8% fumaram no último mês. A maioria não considera que os fumantes tenham mais amizades, estejam mais à vontade em eventos sociais nem que o cigarro influencie o peso corporal. Apenas 19,1% não apresentaram qualquer sintoma de stress, ansiedade e depressão. O sexo feminino teve valor de score total superior com diferença estatisticamente significativa. Não se verificou associação estatisticamente significativa entre experiência de fumar e sintomas de stress, ansiedade e depressão (p>0,05).
CONCLUSÃO: Este estudo permitiu melhor conhecimento sobre o consumo de tabaco na adolescência assim como das atitudes e comportamentos. Este estudo foi original nesta temática, podendo contribuir para delinear estratégias de prevenção em adolescentes.

Abstract:
OBJECTIVE: Characterize the use of tobacco by adolescents between 13-15 years; Identify key fators for smoking behavior; Verify the association between smoking and adolescent depression, anxiety and stress.
METHODS: Cross-sectional and descriptive study with analytical component. Convenience sample of adolescents between 13-15 years attending the 9th grade in schools. It was held from 13 to 30 of April of 2015, using a self-fulfillment confidential and anonymous questionnaire, including part of the GYTS and the EADS-C questionnaires, both validated and translated into Portuguese language.
STATISTICAL ANALYSIS: SPSS 20.0 programm was used for univariate descriptive analysis of numerical variables using the chi-square test (with a 0,05 significance level).
RESULTS: 251 adolescents were analyzed, 51,4% being female, with a mean age of 14,6±0,5 years. It was verified that 32,7% of teens have tried smoking but only 6,8% smoked in the last month. Most of the teens don't think that smokers have more friends, are more at ease in a social event or cigarettes influence body weight. Only 19,1% of adolescents didn't show any depression, anxiety and stress symptoms. The feminine gender had a total score bigger than male with statistically significant difference. There was no statistically significant association between smoking and symptoms of depression, anxiety and stress (p>0,05).
CONCLUSION: This study allowed a better understanding of tobacco use in adolescence as well as attitudes and behaviors towards tobacco. This study was original in this theme and the results may provide a contribution to outline prevention strategies in adolescents.

Resumen:
OBJETIVO: Caracterización del uso de tabaco por adolescentes entre 13-15 años; Identificación de factores clave para el hábito de fumar; Verificaciónde la asociación entre elhumoyestrés, ansiedad y depresiónen adolescentes.
MÉTODOS: Estudio transversal y descriptivo con componente analítico. Muestra de conveniencia con adolescentes entre 13-15 años frecuentando el 9º año escolar. Este fue realizado de 13 a 30 de abril de 2015, utilizando uncuestionario de auto-rellenado, confidencial, anónimo, incluyendo parte delcuestionario GYTS y EADS-C, validados y traducidos a la lengua portuguesa.
ANÁLISIS ESTADÍSTICO: Se utilizóel programa SPSS versión 20.0 para el análisis descriptivo univariabley análisis multivariable utilizando testchi-cuadrado (nivel de significancia de 0,05).
RESULTADOS: Se analizaron 251 adolescentes, 51,4% del sexo femenino con 14,6±0,5 años. Se verificó que 32,7% yahabían experimentado fumar, 6,8% fumaronen el último mes. La mayoría no considera que los fumantes tengan más amistades, estén máscómodosen eventos sociales ni que el cigarro influencie el peso corporal. Apenas 19,1% no presentaroncualquier síntoma de estrés, ansiedad y depresión. El sexo femenino tuve valor de score total superior con diferencia estadísticamente significativa. No se verificó asociación estadísticamente significativa entre experiencia de fumar y síntomas de estrés, ansiedad y depresión (p>0,05).
CONCLUSIÓN: Este estudio permitió mejor conocimiento sobre el consumo de tabaco en la adolescencia, así como de las actitudes y comportamientos. Este estudio fue original enesta temática, pudiendo contribuir para delinear estrategias de prevenciónen adolescentes.

INTRODUÇÃO

O tabagismo é a principal causa evitável de morte prematura e doença. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a pandemia do tabagismo é responsável pela morte de 6 milhões de pessoas por ano. Se não for controlada, poderá vir a matar milhões ao longo do presente século1.

De acordo com as estimativas efetuadas no âmbito da iniciativa Global Burden of Disease2 (DGB 2010), o consumo de tabaco foi responsável pela morte de cerca de 11 mil pessoas fumantes ou ex-fumantes em Portugal em 2010 (10,3% do total de óbitos desse ano).

A maioria dos fumantes inicia o seu consumo de tabaco na adolescência. Na União Europeia, a iniciação ocorre sobretudo entre os 12 e 14 anos1. A adolescência é um período de maturação, onde se passa por uma contestação dos hábitos e dos costumes, numa procura de si próprio. É neste contexto psicológico e social que o tabaco intervêm como processo de socialização. O fato do hábito de fumar ser considerado socialmente atraente, acompanhado de uma atitude de rebeldia contra a desaprovação por parte dos adultos assim como as pressões do grupo, contam como os principais fatores que favorecem os adolescentes a iniciar o hábito de fumar e de beber3.

Vários estudos tentam identificar os fatores preditivos que levam os adolescentes a iniciarem este consumo. As situações com relação positiva com o início do consumo são: existência de familiares fumantes, insatisfação acadêmica, pais ou irmãos que fumam dentro de casa e ter grupo de amigos fumantes4. A identificação dos adolescentes mais suscetíveis e dos fatores previamente referidos são os principais passos na prevenção primária a serem tomado para diminuir a incidência do tabagismo.

Um estudo realizado em Portugal em 2006 revelou que aos 13 anos, 20% já experimentaram fumar e cerca de 3% fumam com regularidade (os que fumam ocasionalmente e diariamente)5. Quando se inicia o ato de fumar, a interrupção é difícil e torna-se provável uma dependência de longo prazo4.

Outro estudo nacional sobre hábitos tabágicos realizado com adolescentes do 9º ano aplicando o questionário GYTS (Global Youth Tobacco Survey) concluiu que metade dos adolescentes já experimentou fumar, maioritariamente mulheresmeninas entre os 12-15 anos, especialmente em associação com outros pares consumidores6.

O GYTS7 é um questionário escolar, aplicado a adolescentes entre os 13-15 anos, projetado para promover o monitoramento do uso de tabaco nesta faixa etária e para orientar a implementação e avaliação de programas de prevenção e controle do tabagismo. Este questionário sofreu uma expansão e adaptação à realidade portuguesa na sua versão traduzida pela Escola Nacional de Saúde Pública, em 20088. Segundo Farinha et al., existe relação entre dependência de nicotina e gravidade de sintomas de ansiedade e depressão, sobretudo no gênero feminino9.

A Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS) é a versão portuguesa do Depression Anxiety Stress Scale, de Lovibond e Lovibond (1995) adaptada por Pais Ribeiro, Honrado e Leal (2004)10. Esta escala foi concebida com o objetivo de discriminar a totalidade dos sintomas de stress, ansiedade e depressão. Leal et al. (2009) desenvolveram uma escala EADS para crianças e adolescentes entre os 8 e os 15 anos, a Escala de Ansiedade, Depressão e Stress para Crianças (EADS-C)11.

Os Pediatras e os médicos de Medicina Geral e Familiar desempenham um importante papel na prevenção do tabagismo, ajudando os pais a abandonar o consumo, o que pode ter um impacto fundamental na saúde presente e futura das crianças bem como no comportamento destas em relação ao consumo de tabaco12.


OBJETIVOS

O presente trabalho tem por objetivos: Caracterizar o uso de tabaco por adolescentes entre os 13 e 15 anos; Identificar fatores determinantes para o comportamento de fumar; Verificar a associação entre a experiência de fumar e Stress, Ansiedade e Depressão (SAD).


MÉTODOS

Este estudo foi do tipo transversal, descritivo com componente analítico realizado com adolescentes com idades entre os 13 e os 15 anos que frequentem o 9º ano das escolas públicas e privadas do Distrito de Leiria (Portugal). Tratou-se de uma amostra de conveniência que incluiu os adolescentes que frequentavam as escolas entre os dias 13 e 30 de abril de 2015, que cumpriram os critérios de inclusão e foram convidados a participar do estudo. Foram excluídos os adolescentes que se recusaram a participar, aqueles que não preencheram o questionário corretamente e adolescentes com idade inferior a 13 anos e superior ou igual a 16 anos.

Os dados foram recolhidos através da aplicação de um questionário de autopreenchimento, confidencial e anônimo, após autorização escrita dos encarregados da educação. Previamente foi enviada uma carta à Direção de cada estabelecimento escolar para obtenção de consentimento para a participação do estudo.

Foi utilizado um questionário construído pelos investigadores que inclui parte do questionário GYTS e o questionário EADS-C, ambos validados e traduzidos para língua portuguesa utilizados de forma livre.

O GYTS é um questionário escolar, aplicado a adolescentes entre os 13 e os 15 anos. O questionário sobre os hábitos tabágicos tem ao todo 73 perguntas subdivididas em seis grupos: utilização e consumo de tabaco: perguntas de 1 a 16; conhecimento e atitudes dos inquiridos face ao tabaco: perguntas de 17 a 34; exposição ao fumo do tabaco: perguntas de 35 a 42; atitudes para deixar de fumar: perguntas de 43 a 53; conhecimento das mensagens dos meios de comunicação social sobre hábitos tabágicos: perguntas de 54 a 68; papel da escola como veículo da informação sobre os malefícios do tabaco: perguntas de 69 a 738.

Foram utilizadas apenas 24 questões do questionário GYTS por serem as que melhor se adequavam ao presente estudo. A escala EADS-C é constituída por 21 questões que se distribuem por três dimensões com sete itens cada: Stress, Ansiedade e Depressão. Os itens incluídos em cada dimensão propõem-se avaliar aspectos teoricamente inclusivos da dimensão: Depressão- Disforia, Desânimo, Desvalorização da vida, Auto-depreciação, Falta de interesse ou de envolvimento, Anedonia, Inércia; Ansiedade- Excitação do Sistema Autónomo, Efeitos Músculo Esqueléticos, Ansiedade Situacional, Experiências Subjetivas de Ansiedade; Stress - Dificuldade em Relaxar, Excitação Nevosa, Facilmente Agitado/Chateado, Irritável/Reação Exagerada, Impaciência.

A resposta é dada numa escala tipo Likert, em que o indivíduo avalia a extensão em que experimentaram cada sintoma durante a última semana, numa escala de quatro pontos de gravidade ou frequência. A escala fornece três notas, uma por cada dimensão, determinadas pela soma dos resultados dos sete itens. O mínimo é zero e o máximo é vinte e um, correspondendo as notas mais elevadas a estados afetivos mais negativos11.

Realizou-se ainda um questionário de "sentido de coerência" constituído por 29 questões organizadas na escala de Likert de 7 pontos e um questionário sociodemográfico de 14 questões.

Os dados foram registados em base de dados eletrônica construída pelos investigadores no programa SPSS versão 20.0. A análise descritiva univariável das variáveis numéricas compreendeu mínimo, média, máximo, mediana e desvio padrão; as variáveis categóricas foram descritas quanto às frequências absolutas e relativas. A associação entre as variáveis consumo de tabaco e depressão, ansiedade e stress, foi realizada através do teste t-student, para um nível de significância de 0,05. Para a minimizar o viés foram utilizados dois questionários validados e traduzidos para a língua portuguesa.


RESULTADOS

Dos questionários distribuídos pelas escolas obtiveram-se 251 corretamente preenchidos e utilizados nesse estudo. Participaram quatro escolas da região de Leiria, duas de ensino público e duas de ensino privados, todas inseridas em meio urbano. Dos 251 adolescentes respondentes, 51,4% (n=129) eram do sexo feminino com idades variando entre os 13 e os 15 anos, com média de idade de 14,6 anos (±0,5 anos), moda e mediana de 15 anos.

Relativamente à experimentação do tabaco, 32,7% dos adolescentes (n= 82) já o fizeram e 67,3% (n=169) nunca fumaram como se pode verificar pela observação da Tabela 1. Verificou-se que a experimentação foi semelhante entre os sexos. Dos adolescentes que já tinham experimentado fumar, a maioria tinha 15 anos de idade, com uma diferença estatisticamente significativa em relação às idades inferiores (p<0,05).




Em relação à idade que tinham quando experimentaram fumar pela primeira vez, 14,7% (n=37), experienciou o tabaco entre os 14 e 15 anos, seguindo-se a idade entre os 12 e 13 anos com 13,1% adolescentes (n=33). Dos que já experimentaram fumar, 6,8% (n=17) mantiveram o consumo no último mês e 4% fuma em média 2 a 5 cigarros por dia. Quando questionados em relação ao local onde é mais comum fumar, destacaram-se as festas e reuniões sociais (47,1%).

No que diz respeito ao ambiente social envolvente, existem vários fatores protetores: a maioria tem um melhor amigo que não fuma (58,2%), não observam os professores fumarem na escola (51%), 79,7% foram informados pelos familiares dos efeitos negativos de fumar. A maioria dos alunos (94,8%) acredita que o tabaco é prejudicial à saúde, mesmo que se fume por apenas um a dois anos (62,5%). No entanto, 98 dos alunos tem pelo menos um dos pais fumantes (39%).

Em relação a crenças relacionadas ao tabagismo (Tabela 2) e a forma de verem o fumante (Figuras 1 e 2), a maioria não acredita que o hábito de fumar aumente o número de amizades ou que ajude na desinibição durante festas. Grande parte dos adolescentes considerou uma menina fumante menos atraente (59,8%) enquanto que não foram encontradas diferenças na atratividade num rapaz que fume (49,8%). Em relação à perda ou ganho de peso com o tabaco, 45,4% pensam não haver alteração, enquanto 44,2% acreditam que o tabaco faz emagrecer.




Figura 1. Crenças dos adolescentes analisados em relação ao tabagismo se o fumante for do sexo feminino (valores expressos em percentagem).


Figura 2. Crenças dos adolescentes analisados em relação ao tabagismo se o fumante for do sexo masculino (valores expressos em percentagem).



Quando questionados acerca da opinião sobre os adolescentes que fumam, a maioria considera que são uns tontos pelo fato de fumarem (45,0% quando questionados acerca de meninas que fumam e 44,2% se os fumantes forem do sexo masculino) e que 31,1% das meninas e 21,9% dos rapazes sentem falta de confiança/insegurança.

Neste estudo, utilizou-se a escala EADS-C com 21 questões, para averiguar a presença de sintomas de stress (S), ansiedade (A) e depressão (D) na amostra de adolescentes em estudo e na tentativa de relacionar estes sintomas com o consumo de tabaco. Os resultados estão expressos na Tabela 3. Verificou-se que apenas 19,1% dos alunos não apresentaram qualquer sintoma destas três dimensões (SAD), com zero pontos na totalidade da escala. A média da escala de EADS-C foi de 9,0 pontos ondeseis adolescentes apresentaram ≥ 42 pontos.




No que concerne à ansiedade, verificou-se a média mais baixa das três dimensões, com 1,9 pontos, sendo que o resultado mínimo e máximo se situaram entre 0 e 21 pontos, mostrando níveis de ansiedade inferiores ao ponto médio da escala (11 pontos).

Em relação ao total da escala para as três dimensões (SAD) constatou-se que a média foi mais elevada no sexo feminino (11,2 pontos) em relação ao sexo masculino (6,5 pontos). Analisou-se a possível associação entre o sexo e a presença de sintomas SAD aplicando-se o teste t-student, onde verificou-se uma diferença estatisticamente significativa entre o sexo feminino e níveis mais elevados de sintomas SAD (p<0,001). A presença de sintomas SAD, avaliados pela escala EADS-C, não demonstrou associação estatisticamente significativa com a experiência de tabaco (p>0,05).


DISCUSSÃO

A prevalência encontrada na amostra em relação à experimentação do tabaco foi de 32,7%, tendo sido semelhante entre ambos os sexos. Esta percentagem é inferior a encontrada em outro estudo realizado em 20136 com alunos do 9º ano, onde se obteve uma prevalência de 52% e o sexo feminino foi predominante na experimentação (55,9%).

Segundo a OMS (2004), 62% dos adolescentes experimentaram o tabaco aos 15 anos de idade, o que está de acordo com os dados obtidos neste estudo: 69,5% experimentaram o tabaco aos 15 anos, sendo este valor estatisticamente significativo em relação às idades inferiores. Este estudo demonstra a importância de iniciar a educação para a saúde em idades precoces, sendo uma das principais formas de prevenção da aquisição de hábitos tabágicos na adolescência.

De acordo com Correia et al.3, 6,6% dos adolescentes analisados reconheceu fumar atualmente, e destes, cerca de 58% fazem-no diariamente. Valores semelhantes foram encontrados no nosso estudo onde 6,8% dos alunos a referirem consumir a substância, dos quais 82,4% diariamente. No entanto, percentagens inferiores foram encontradas em outros estudos8,12.

Foram encontrados vários fatores contra o consumo de tabaco, à semelhança do descrito em outros estudos4: somente 39% dos adolescentes tem um dos pais fumantes, a maioria tem o melhor amigo que não fuma, grande parte dos alunos refere não observar os professores fumarem na escola e 79,7% afirmam estar informados pelos familiares dos efeitos nefastos do tabaco, o que leva a que 94,8% da amostra considere que o tabaco é prejudicial à saúde.

Em relação às crenças associadas com o ato de fumar, a maioria pensa não existir diferença em relação ao número de amigos, à desinibição, à perceção do impacto no peso e à atratividade dos rapazes entre os que fumam e os que não fumam. No entanto, muitos consideram que as meninas que não fumam são mais atraentes. Estas crenças diferem das apresentadas no estudo de Ferreira et al.6 em que existiu a perceção de que os fumantes têm menos amizades do que os não fumantes. Embora a escola tenha sido apontada na literatura como local mais comum para fumar5, neste estudo verificou-se que o local onde os adolescentes fumam maioritariamente são as festas e reuniões sociais.

Para avaliar sintomas SAD utilizou-se a escala EADS-C. Esta escala é prática e de aplicação rápida em crianças e adolescentes, apresentando uma estrutura semelhante à versão para adultos embora os valores das cargas dos itens na dimensão seja menos discriminativa11. Neste estudo a maioria dos adolescentes, 80,9%, apresentou pelo menos um ponto na totalidade da escala e a média foi superior no sexo feminino, verificando-se uma diferença estatisticamente significativa.

O nosso estudo concluiu que não existe associação estatisticamente significativa entre experimentação de tabaco e a presença de sintomas SAD, no entanto há uma tendência para valores superiores nos que experienciaram o tabaco. Na literatura não foram encontrados outros estudos que avaliassem esta temática nos adolescentes, sendo este estudo inovador nesta área. No estudo Faria et al.9 realizado em adultos, também verificou-se não existir uma relação entre ser fumante, ex-fumante ou não fumante com sintomas de ansiedade ou depressão.

A metodologia utilizada neste estudo apresenta algumas limitações, nomeadamente no que diz respeito à seleção da amostra, tendo sido esta uma amostra de conveniência para os investigadores. A amostra pode ser pouco representativa da população-alvo, pois embora tivessem sido contactadas várias escolas, poucas mostraram pretensão de colaborar com o estudo no atual ano letivo. O próprio local de preenchimento do questionário, em sala de aula, na presença do professor, pode ter enviesado as respostas dos participantes. Todas as escolas incluídas no estudo pertencem a meio urbano, o que pode levar a uma maior acessibilidade ao tabaco, favorecendo o seu consumo.

São necessários mais estudos longitudinais para melhor caracterização do nexo de causalidade entre os hábitos tabágicos e os sintomas SAD e que permitam reduzir os vieses e limitações identificados neste estudo.Embora este estudo não tenha demonstrado associação entre sintomas SAD e tabagismo, a presente investigação tem seu valor por ser original nesta temática e serviu para melhor conhecimento da problemática do tabagismo na adolescência.

Os resultados obtidos neste estudo auxiliam na aquisição de esforços preventivos primários no tabagismo em adolescentes de forma a criar ferramentas fundamentais para a redução da sua incidência. Os médicos com maior contato com esta faixa etária (médicos de medicina geral, familiar e pediatras) desempenham um papel primordial na prevenção destes comportamentos de risco, podendo ter um impacto fundamental na presente e futura saúde da população.


REFERÊNCIAS

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