Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 4 - Out/Dez - 2017

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Páginas 121 a 132


Experimentação e uso de cigarro eletrônico na adolescência

Experimentation and use of E-cigarette in adolescence

Experimentación y uso de cigarro electrónico en la adolescencia


Autores: Carla Marisa de Oliveira Ferreira1; Diana Sofia Antunes Bordalo2; Cláudia Raquel Ferrao de Melo3; Filipe José Vaz Duarte Oliveira e Sá4; Fernanda Maria de Jesus Carvalho5; Paula Maria Rodrigues da Fonseca Coutinho6

1. Licenciatura e Mestrado integrado em Medicina. Interna de Formação Especifica de Pediatria do Serviço de Pediátrica do Hospital da Senhora da Oliveira - Guimarães. Guimarães, AC, Portugal
2. Licenciatura e Mestrado integrado em Medicina. Interna de Formação Especifica de Pediatria do Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar do Médio Ave. Vila Nova de Famalicão, Portugal
3. Assistente hospitalar de Pediatria do Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar São João. Porto, Portugal
4. Assistente hospitalar de Pediatra do Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar do Médio Ave. Vila Nova de Famalicão, Portugal
5. Assistente hospitalar de Pediatra do Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar do Médio Ave. Vila Nova de Famalicão, Portugal
6. Assistente graduada Mestre em saúde do adolescente do Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar do Médio Ave. Vila Nova de Famalicão, Portugal

Correspondência:
Carla Marisa de Oliveira Ferreira
Hospital da Senhora da Oliveira - Guimarães, Serviço de Pediatria
Rua dos Cutileiros, 114, Creixomil
Guimarães, Portugal. CEP: 4835-044
carlamf85@hotmail.com

Recebido em 20/11/2016
Aprovado em 07/04/2017

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, hábito de fumar, canabinoides, tabaco.
Keywords: Adolescent, smoking, cannabinoids, tobacco.
Palabra Clave: Adolescente, hábito de fumar, canabinoides, tabaco.

Resumo:
OBJETIVO: Avaliar a experimentação de cigarro eletrônico (e-cigarro) na adolescência e determinar fatores de risco para sua experimentação.
MÉTODOS: Estudo de base comunitária dirigido a adolescentes frequentando o ensino secundário, a quem foi aplicado um questionário de autopreenchimento. Foram avaliadas as características biopsicossociais dos adolescentes, seu conhecimento sobre o e-cigarro, a experimentação e uso de e-cigarro e experimentação e uso de tabaco e canabinóides.
RESULTADOS: Foram incluídos 360 adolescentes com uma média de idade de 16,4±1,2 anos. A maioria admitiu conhecer o e-cigarro. No entanto, a presença de nicotina na sua composição era desconhecida por 33%, e 24% desconhecia as consequências do seu uso para a saúde. A experimentação de e-cigarro foi de 35% e 5,3% dos adolescentes manteve o consumo. O consumo duplo atual (e-cigarro e tabaco) esteve presente em 5% da amostra. A análise multivariada realizada demonstrou que ser doo gênero masculino (OR:3,2; IC95%[1,6-6,4]) ter auto perceção de puberdade precoce (OR:3,1; IC95%[1,1-8,9]), ter espirito aventureiro (OR:6,6;IC95%[2,0-21,4]), ser consumidor de tabaco (OR:6,3;IC95%[2,8-14,1]) e ser consumidor de canabinóides (OR:4,5;IC95%[1,3-15,2]) está associado ao maior risco de experimentação do e-cigarro.
CONCLUSÃO: Nesse estudo contemporaneo, cerca de um terço dos adolescentes experimentaram o e-cigarro. Ser do sexo masculino, consumidor de tabaco e de canabinóides foram os fatores de risco mais importantes associados à experimentação de e-cigarro. No entanto são necessários mais estudos para melhor compreender quais os fatores de risco associado à adição de e-cigarro na adolescência, para que se possam desenhar estratégias preventivas direcionadas a esses grupos de risco.

Abstract:
OBJECTIVE: Analyze e-cigarette experimentation in adolescents and determinate risk factors associated with its experimentation.
METHODS: A community based study target at high school students, to whom it was applied a selfreport questionnaire. There were evaluated adolescents' biopsychosocial features, their knowledge about e-cigarettes, their experimentation and use of e-cigarette, tobacco and cannabinoids.
RESULTS: Were included 360 students with a mean aged of 16.4±1.2years. Almost all knew e-cigarettes. However, the presence of nicotine in e-cigarette composition was unknown by 33%, and 24% were unaware of e-cigarette health consequences. The e-cigarette experimentation was 35% and 5.3% of adolescents maintained its use. The current double consumption (e-cigarette and tobacco) was present in 5% of the sample. The multivariate analysis demonstrate that being male (OR:3,2;IC95%[1.6-6.4]) having a self-perception of early pubertal timing (OR:3.1;IC95%[1.1-8.9]), feeling adventurous (OR:6.6;IC95%[2.0-21.4]), being current tobacco (OR:6.3;IC95%[2.8-14.1]) and cannabinoids smokers (OR:4.5;IC95%[1.3-15.2]) were associated with an increased risk of e-cigarette experimentation.
CONCLUSION: In this contemporary study, about one-third of adolescents tried e-cigarettes. Being male, current tobacco or cannabinoid smoker were the major risk factors associated with e-cigarette experimentation. Further studies are important to better understand factors responsible for addiction to e-cigarettes in adolescence and to develop prevention strategies to this growing experimentation.

Resumen:
OBJETIVO: Evaluar la experimentación de cigarro electrónico (e-cigarro) en la adolescencia y determinar factores de riesgo para su experimentación.
MÉTODOS: Estudio de base comunitaria dirigido a adolescentes frecuentando la enseñanza secundario, a quienles fue aplicado uncuestionario de auto-rellenado. Fueronevaluadas las características biopsicosociales de los adolescentes, su conocimiento sobre ele-cigarro, la experimentacióny uso de e-cigarro,y experimentacióny uso de tabaco y canabinoides.
RESULTADOS: Fueron incluidos 360 adolescentes conunpromedio de edad de 16,4±1,2 años. La mayoría admitió conocer ele-cigarro. No obstante, la presencia de nicotina en sucomposición era desconocida por 33%, y 24% desconocía las consecuencias do su uso para la salud. La experimentación de e-cigarro fue de 35% y 5,3% de los adolescentes mantuvoel consumo. El consumo doble actual (e-cigarroy tabaco) estuvo presente en 5% de la muestra. El análisis multivariado realizado demostró que ser del género masculino (OR:3,2; IC95%[1,6-6,4]) tener auto percepción de pubertad precoz (OR:3,1; IC95%[1,1-8,9]), tener espíritu aventurero (OR:6,6;IC95%[2,0-21,4]), ser consumidor de tabaco (OR:6,3;IC95%[2,8-14,1]) y ser consumidor de canabinoides (OR:4,5;IC95%[1,3-15,2]) está asociado a mayor riesgo  de experimentación dee-cigarro.
CONCLUSIÓN: En ese estudio contemporáneo, cerca de un tercio de los adolescentes experimentaronele-cigarro. Ser del sexo masculino, consumidor de tabaco y de canabinoides fueronlos factores de riesgo más importantes asociados a la experimentacióndele-cigarro. No obstante,son necesarios más estudios para entender mejor cuálesson los factores de riesgo asociadosa la adicción de e-cigarroen la adolescencia, para que se puedan diseñar estrategias preventivas dirigidas a esos grupos de riesgo.

INTRODUÇÃO

Na última década, o aparecimento do cigarro eletrônico (e-cigarro) revolucionou o consumo de tabaco1. Este dispositivo eletrônico foi originalmente introduzido no mercado em 2004 e na Europa em 2008, tendo com o principal atrativo reduzir os efeitos nefastos do consumo de tabaco2.

Devido à sua comercialização não ser regulamentada, a verdadeira constituição do e-cigarro é desconhecida e como tal, os efeitos do seu consumo a longo prazo são imprevisíveis. Alguns autores alertam para a possibilidade de sobredosagem em nicotina, apesar dos fabricantes indicarem concentração de nicotina de 6 a 24mg, foram encontradas em alguns dispositivos concentrações de 100mg3,4. A presença de propilenoglicol na sua composição é também preocupante, uma vez que a sua inalação está associada a irritação ocular e irritação e obstrução das vias respiratórias5. Recentemente foram identificadas na sua composição outras substâncias potencialmente perigosas como dietilenoglicol, formaldeído, acetaldeído, acroleína e nitrosaminas6.

Apesar da crescente preocupação com feitos do consumo do e-cigarro, o mercado publicitário divulga-o como sendo saudável ou mais saudável do que o tabaco e uma importante arma para deixar de fumar tabaco7. Por outro lado, a lei é omissa em relação ao e-cigarro, uma vez que não existe legislação sobre o seu uso, tornando possível o seu consumo em lugares públicos, assim como a venda a menores de 18 anos, ambas proibidas para o tabaco. Estes fatos associados ao número crescente de lojas têm levado à divulgação e popularidade do e-cigarro8. De fato, a nível internacional é notória a crescente popularidade do e-cigarro entre adolescentes e jovens adultos. De acordo com os dados do National Youth Tobacco Survey dos Estados Unidos (EU), em 2011, a experimentação de e-cigarro foi de 0,6%-6,2% nos adultos, 4,9%-7,0% nos adultos jovens e <1%-3,3% nos adolescentes do ensino secundário9. No entanto, a atualização desses dados em 2013 revelou que 11,9% dos adolescentes do ensino secundário experimentaram e-cigarro e 4,5% se tornaram consumidores regulares10.

Com o aumento do número de adolescentes a experimentar e consumir e-cigarro, várias questões ficam por responder, como por exemplo as consequências a longo prazo do seu uso, se a utilização de e-cigarro é benéfica à cessação tabágica11,12, ou pelo contrário, se o seu uso pode ser um ponto de partida para a adição em nicotina de um futuro fumador de tabaco13.

Assim, os objetivos do presente trabalho foram determinar a prevalência de experimentação de e-cigarro numa população de adolescentes, assim como identificar fatores de risco associados à sua experimentação.


MÉTODOS

Desenho do estudo

Foi realizado um estudo transversal de base comunitária, à adolescentes do ensino secundário através da aplicação de um questionário de autopreenchimento. Foram incluídos todos os alunos do 10º, 11º e 12º ano de uma escola pública portuguesa, do concelho de Famalicão. A taxa de resposta foi de 83%.

A aplicação dos questionários foi realizada na sala de aula, tendo sido entregues pelos professores. O seu preenchimento foi feito de forma individual, anônima e confidencial. A recolha de informação foi realizada em abril e maio de 2015. A pesquisa foi aprovada pela direção da escola onde foi realizado o estudo e foi obtido o termo de consentimento livre e esclarecido de todos os adolescentes incluídos, assim como dos respetivos representantes legais.

Variáveis analisadas

Devido à falta de questionários validados para avaliar a experimentação e consumo de e-cigarro, os autores construíram um questionário composto de 53 questões fechadas organizado em 3 partes: 1- características sociodemográficas do adolescente; 2 - hábitos de consumo de e-cigarro, tabaco e canabinóides; 3 - conhecimento sobre e-cigarro. Foi realizado um estudo piloto prévio à aplicação do questionário, que não revelou dificuldades nas respostas por parte dos adolescentes.

Parte 1 - Características sociodemográficas

As características demográficas avaliadas foram o gênero, a idade (anos), o ano de escolaridade, o tipo de ensino (regular ou profissional) e o número de reprovações. As características biossociais dos adolescente incluíram a determinação de fatores protetores para comportamentos de risco (atividades de grupo, prática desportiva, auto perceção de puberdade em idade adequada), assim como determinação da auto perceção de características de conduta ("espírito aventureiro", "fazer coisas sem pensar", "variação do humor ao longo do dia", "planejar com antecedência", "autocontrole", "facilidade em fazer amigos", "gostar de fazer coisas perigosas", "gostar de quebrar as regras"). As características familiares analisadas foram o tipo de família, idade e profissão dos pais, assim como os hábitos tabágicos parentais (tabaco e e-cigarro). Foi também determinada a auto perceção do adolescente sobre a exigência parental em relação a sua educação.

Parte 2 - Hábitos de consumo

Para avaliar os hábitos de consumo, foi perguntado aos adolescentes se alguma vez experimentaram e-cigarro, tabaco e canabinóides, e em caso positivo, perguntou-se em que idade e qual foi o motivo dessa experimentação. Foram também abordados o consumo passado (ex-consumidores) e o atual regular (últimos 30 dias) de e-cigarro, tabaco e canabinóides. No que diz respeito ao consumo atual de e-cigarro e tabaco, foram criadas quatro categorias através da tabulação cruzada destas variáveis: consumidores de e-cigarro, consumidores de tabaco, consumidores de ambos (uso duplo) e não consumidores. Foi determinado o grau de dependência de nicotina dos adolescentes fumantes atuais de tabaco através da aplicação da aplicação da escala de Fagerstrom14. Foram determinados os hábitos de consumo dos pares em relação ao e-cigarro, tabaco e canabinóides.

Parte 3 - Conhecimento dos adolescentes sobre o e-cigarro

Foi determinado o conhecimento dos adolescentes sobre o e-cigarro através da aplicação de três questões: "Já ouviu falar do e-cigarro? ", "Acha que o e-cigarro faz mal à saúde? " e "O e-cigarro tem nicotina na sua composição?".

Análise de dados

A analise estatística foi realizada através da utilização do Statistical Package for the Social Sciences®, versão 21.0. Na análise estatística descritiva foi utilizada a média e desvio padrão (DP) para reportar variáveis contínuas, e frequências absolutas (n) e relativas (%) para reportar variáveis categóricas. Foi utilizado o teste t-student para comparar diferenças entre grupos de variáveis contínuas e o teste Pearson's chi-square2) ou teste exato de Fisher, quando apropriado, para comparar diferenças entre variáveis categóricas. Para identificar fatores preditores de experimentação de e-cigarro, os Odds Ratio (razão de chances) (OR), foi realizado um modelo de regressão logística. Adotou-se um valor p <0.05 como tendo significado estatístico.


RESULTADOS

Características da população

Foram incluídos 360 adolescentes com uma idade média de 16,4±1,2 anos e uma distribuição similar entre gêneros. Atendendo à performance escolar, 51% frequentava o ensino profissional e 49% o ensino regular, sendo que 39% frequentavam o 10º ano, 35% o 11º ano e 26% o 12º ano. A maioria (72%) nunca reprovou (Tabela 1).




Em relação às características dos adolescentes associadas a proteção de comportamentos de risco, 33,9% frequentavam atividades de grupo e 62,4% realizavam prática desportiva extracurricular regular. No que diz respeito à auto perceção de características de conduta, 13,3% admitiram ser muito impulsivo e 52,9% ter um espírito muito aventureiro (Tabela 1).

A maioria dos adolescentes fazia parte de uma família do tipo nuclear (75%), 15% de fazia parte de uma família alargada e 10% monoparental. O pai foi apontado como o principal progenitor a consumir tabaco (26,9%), e 5,8% dos adolescentes referiram que ambos os progenitores (pai e mãe) eram fumantes (Tabela 2).




Hábitos de consumo

A experimentação de e-cigarro, tabaco e canabinóides foi 35%, 57,5% e 24,2%, respetivamente (Tabela 2). A experimentação de tabaco ocorreu predominantemente aos 13/14 anos, e a experimentação de e-cigarro e canabinóides aos 15/16 anos. Tendo em consideração apenas os adolescentes que admitiram ter experimentado e-cigarro, apurou-se que 37% experimentaram e-cigarro e tabaco com a mesma idade, 43% experimentaram primeiro tabaco e 20% experimentaram primeiro e-cigarro. A principal razão apontada como motivo para essa experimentação foi a curiosidade. Na análise das características do adolescente associadas à experimentação de e-cigarro apurou-se que ser do gênero masculino (p 0,000), frequentar o ensino profissional (p 0,002), ter auto perceção de puberdade precoce (p 0,01) e praticar atividades físicas (p 0,008) estiveram associadas à experimentação de e-cigarro. Ter um espirito rebelde (0,002) e aventureiro (p 0,000), ser impulsivo (p 0,002) e ter menos facilidade em fazer amigos (p 0,006) foram caraterísticas de conduta associadas a maior experimentação. No que diz respeito aos hábitos tabágicos do adolescente e dos pares, verificou-se que ser fumante atual de tabaco e de canabinóides (p 0,000), assim como ter amigos que usam e-cigarro (p 0,024), estiveram associadas à experimentação de e-cigarro (Tabela 3).




Por outro lado, nenhuma característica familiar esteve associada a experimentação de e-cigarro (Tabela 3). De acordo com o modelo de regressão logística, apresentaram maior chance de experimentação do e-cigarro os adolescentes do gênero masculino (OR 3,2), adolescentes com auto perceção de puberdade precoce (OR 3,1), adolescentes com espírito mais aventureiro (OR 6,6), consumidores de tabaco (OR 6,3) e de canabinóides (OR 4,5) (Tabela 4).




No que diz respeito ao consumo atual, verificou-se que 24,5% dos adolescentes consumiam tabaco, 12,9% consumiam canabinóides e 5,3% consumiam e-cigarro (Tabela 2). O duplo consumo de e-cigarro e tabaco foi de 5% e ape-de Fagerstrom aos fumantes atuais revelou uma nas 0,3% consumiam apenas e-cigarro. A maio-dependência de nicotina moderada em 8,7%, ria referiu que os amigos consumiam tabaco e dependência elevada em 4,3% e dependência canabinóides (Tabela 2). A aplicação de escala muito elevada em 4,3%.

Conhecimento sobre o e-cigarro

A grande maioria dos adolescentes (98%) estavam familiarizados com e-cigarro. No que diz respeito às consequências do seu uso na saúde, 68,8% confirmaram e 6,7% negaram os efeitos nefastos do e-cigarro para a saúde, sendo que 24,5% desconheciam as consequências do seu uso para a saúde. Tendo em conta o conteúdo de nicotina no e-cigarro, 54,5% confirmaram e 12,4% negaram a presença de nicotina no e-cigarro, sendo que 33,1% desconheciam se o e-cigarro tinha nicotina na sua composição. Verificou-se que a experimentação de e-cigarro esteve associada a um conhecimento correto sobre e-cigarro, nomeadamente sobre as suas consequências para a saúde e o conteúdo em nicotina (p<0,05) (Tabela 5).




DISCUSSÃO

A experimentação do e-cigarro na adolescência é um fenômeno emergente, sendo de extrema importância compreender como os adolescentes encaram esta novidade. É necessário perceber se os adolescentes se sentem atraídos pelo e-cigarro, se a sua experimentação está aumentando, se aqueles que experimentam continuam a consumir, e se existem fatores de risco consistentes para a experimentação e uso continuado.

De acordo com os nossos resultados, 35% dos adolescentes experimentaram e-cigarro. Este valor é superior ao reportado por Barrington-Trimis et al., que apuraram taxas mais elevadas de experimentação, onde 24% dos adolescentes da sua amostra experimentaram e-cigarro15. Segundo o National Youth Tobacco Survey em 2013, 11,9% dos adolescentes do ensino secundário experimentaram e-cigarro10. O resultado obtido no presente estudo pode revelar uma tendência crescente da experimentação de e-cigarro, contudo, ressalva-se que apesar da elevada experimentação encontrada na nossa população, o consumo atual de e-cigarro (5,3%) é semelhante ao destes dois estudos10,15. Para melhor compreender este fato, seria importante comparar os resultados obtidos com outros dados nacionais, uma vez que fatores culturais e sociais podem influenciar a aceitação do e-cigarro. No entanto, do conhecimento dos autores, este é o primeiro estudo a versar esta problemática em Portugal.

Foi igualmente explorada a existência de fatores preditores da experimentação de e-cigarro. O gênero masculino esteve associado a maior probabilidade de experimentação, à semelhança do reportado por outros autores16 . Corroborando com os resultados demonstrados por Babineau et al., ser adolescente fumante também foi um importante fator de risco para a experimentação de e-cigarro no presente estudo, aumentado a chance de experimentação do e-cigarro em 6,6 vezes17. Também observou-se um risco acrescido de experimentação do e-cigarro pelos adolescentes que consumiam canabinóides, no entanto esta associação foi reportada com menos frequência apesar de existirem alguns autores que mostraram haver uma associação positiva18. Sabe-se que os adolescentes que amadurecem precocemente têm maior probabilidade de comportamentos de risco, como por exemplo, comportamentos sexuais de risco e consumo de substâncias aditivas19. Também em relação à experimentação de e-cigarro, verificou-se que a auto perceção de puberdade precoce esteve associada a um aumento da chance de experimentação de 3,1 vezes.

O uso de e-cigarro e de tabaco tem sido vastamente estudado, no sentido de perceber se o e-cigarro poderá ser um auxílio na cessação tabágica, ou se por outro lado, poderá ser o ponto de partida para o consumo de tabaco. De acordo com Durmowicz et al., os adolescentes que usam e-cigarro também consomem tabaco, tal como observado na nossa amostra20. O consumo duplo, de e-cigarro e tabaco, foi de 5% e apenas 0,3% de adolescentes consumiram e-cigarro isoladamente. Estes números, aliado ao fato de 43% dos adolescentes terem experimentado previamente tabaco ao e-cigarro, leva-nos a ponderar que o e-cigarro não tenha sido útil na cessação tabágica. Recentemente, Barrington-Trimis et al. num estudo com duração de 16 meses com 146 adolescentes revelou que 40,4% dos consumidores de e-cigarro e 10,5% daqueles que nunca usaram e-cigarro se tornaram consumidores de tabaco, tendo o uso de e-cigarro aumentado o risco de tabagismo 6,17 vezes 21. O uso simultâneo de e-cigarro e tabaco, levanta preocupações adicionais, uma vez que existe uma exposição cumulativa à nicótica com risco de intoxicação, assim como a exposição a outros produtos potencialmente nefastos.

No que diz respeito ao conhecimento dos adolescentes sobre o e-cigarro, apuramos que apesar de 98% afirmar estar familiarizado com o dispositivo, a maioria não detinha conhecimentos adequados sobre o mesmo, uma vez que apenas 1/3 reconheceu a possibilidade de efeitos negativos do seu uso para a saúde. Os adolescentes que experimentaram e-cigarro foram os que conheciam as suas consequências para a saúde e os que reconheceram a presença de nicotina como um dos constituintes do e-cigarro. Uma explicação possível para este achado pode estar relacionada com o fato de que o e-cigarro poder ser percebido como menos nocivo do que tabaco, tal como demonstrado por Wills et al. que verificaram que 67% dos adolescentes considera o e-cigarro mais saudável que o tabaco15,22. Futuramente seria importante a introdução deste tema nos programas de educação escolar, à semelhança do que acontece com consumo de substancias aditivas, para que se potencie o correto conhecimento dos adolescentes sobre estes novos dispositivos.

Como limitações do presente estudo ressalta-se o fato de se tratar de um estudo transversal, o que inviabiliza perceber como evoluiu a experimentação de e-cigarro nesta população. Seria importante complementar estes resultados, com a realização de um estudo longitudinal para que se consiga estabelecer a evolução desta situação. Ressalta-se ainda o uso de um questionário não validado, mas por se tratar de uma problemática recente, não existem instrumentos validados para avaliar a experimentação e uso do e-cigarro na adolescência. No entanto, tentou-se diminuir este fato com a realização de um estudo piloto.

Os autores consideram os resultados de extrema importância, uma vez que se associam a aplicabilidade prática, ao permitir conhecer a realidade da experimentação e uso do e-cigarro por parte dos adolescentes portugueses, desconhecida até o presente. Assim, dada a elevada experimentação de e-cigarro, é sensato que a abordagem deste assunto passe a fazer parte da entrevista HEEADSSS do adolescente, nomeadamente na abordagem do D (drugs), juntamente com tabaco, álcool e drogas. O uso simultâneo de e-cigarro e tabaco deve ser também motivo de preocupação para os profissionais de saúde que lidam diretamente com os adolescentes, uma vez que nestes casos existe exposição cumulativa à nicotina, assim como outras substâncias prejudiciais existentes no e-cigarro.

O presente trabalho permitiu concluir que o e-cigarro é amplamente experimentado pelos adolescentes, particularmente pelos rapazes que fumam tabaco convencional e canabinóides. Tendo em conta estudos prévios, a elevada incidência de experimentação de e-cigarro obtida poderá revelar uma tendência crescente de experimentação desde dispositivo. O uso atual de e-cigarro e tabaco foi de 5% e o uso de e-cigarro foi de apenas 0,3%, assim não é claro se e-cigarros são apenas uma novidade que os jovens acabaram de experimentar ou se eles têm potencial para competir no mercado com cigarros convencionais.


NOTA DE AGRADECIMENTOS

Os autores querem agradecer a todos os que contribuíram para a realização deste estudo, nomeadamente a todos os adolescentes que aceitaram participar, assim como a todos os professores.


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