Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 14 nº 4 - Out/Dez - 2017

Artigo de Revisão Imprimir 

Páginas 157 a 166


A autopercepção da estética dental e seu impacto na vida do adolescente

Self-perception of dental aesthetics and its impact on adolescent's life

La autopercepción de la estética dental y su impacto en la vida del adolescente


Autores: Aline Cavalcanti da Costa1; Fabrícia Soares Rodrigues2; Mônica Vilela Heimer3

1. Mestrado em Hebiatria pelo Departamento de Odontologia Preventiva e Social, da Universidade de Pernambuco (UPE). Recife, PE, Brasil. Especialização em Ortodontia e Ortopedia Facial pelo Hospital Militar de Área do Recife (HMAR). Recife, PE, Brasil
2. Mestrado em Hebiatria pelo Departamento de Odontologia Preventiva e Social, da Universidade de Pernambuco (UPE). Recife, PE, Brasil. Cirurgiã-Dentista pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Recife, PE, Brasil
3. Pós-Doutorado pela University of Dundee. Dundee, Escócia. Professora Adjunta da Faculdade de Odontologia da Universidade de Pernambuco FOP-UPE. Recife, PE, Brasil

Correspondência
Aline Cavalcanti da Costa
Rua Afonso de Albuquerque Melo, nº 60, Apt. 502, Santana
Recife, PE, Brasil. CEP: 52060-450
alineorto@hotmail.com

Recebido em 03/07/2016
Aprovado em 25/05/2017

PDF Português            

Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Má oclusão, estética dentária, autoimagem, adolescente.
Keywords: Malocclusion, Esthetics, Dental, self concept, adolescent.
Palabra Clave: Mala oclusión, estética dental, auto-imagen, adolescente.

Resumo:
OBJETIVO: Analisar a produção científica nacional e internacional sobre a autopercepção da estética dental pelos adolescentes e sua repercussão na qualidade de vida, autoestima e satisfação com a aparência.
FONTES DE DADOS: Revisão integrativa da literatura de artigos indexados Pubmed, Lilacs e na Medline e com as perguntas norteadoras "a autopercepção da estética dental dos adolescentes corresponde a maloclusão observada por profissionais da área?", "Existe associação entre tratamento ortodôntico e a melhora da autoestima?" e "A presença de maloclusão impacta na qualidade de vida dos adolescentes ou na satisfação com aparência?".
SÍNTESE DOS DADOS: Os adolescentes percebem as maloclusões, as quais impactam no bem-estar emocional, e o tratamento ortodôntico melhora a autoestima e satisfação com a aparência.
CONCLUSÃO: A autopercepção das maloclusões leva a insatisfação com aparência, menor qualidade de vida e menor autoestima e deve ser considerado um critério importante no diagnóstico dos tratamentos ortodônticos. Quanto mais severa a maloclusão, maior a autopercepção negativa. Todavia, indivíduos com baixa autoestima tendem a perceber mais as imperfeições mesmo em casos de maloclusão leve. O apinhamento da região anterior da maxila e o espaço entre os dentes foram as características da maloclusão mais percebidas subjetivamente.

Abstract:
OBJECTIVE: Analyze the national and international scientific literature on the self-perception of dental aesthetics by adolescents and its impact on their quality of life, self-esteem and satisfaction with appearance.
DATA SOURCE: Integrative literature review of articles indexed in PubMed, Lilacs and Medline and the guiding questions: "does self-perceived dental aesthetics of adolescents correspond to malocclusion observed by professionals in the field?", "Is there an association between orthodontic treatment and the improvement of self-esteem?", and "does the presence of malocclusion have an impact on the quality of life of adolescents or in satisfaction with appearance?".
DATA SYNTHESIS: Adolescents do perceive malocclusion which impacts their emotional well-being, and orthodontic treatment does improve self-esteem and satisfaction with appearance.
CONCLUSION: The perception of malocclusion leads to dissatisfaction with appearance, lower quality of life and lower self-esteem and it should be considered as an important criterion in the diagnosis of orthodontic treatment. Severe malocclusion generates greater self-awareness. However, individuals with low self-esteem tend to perceive more the imperfections even in cases of mild malocclusions. The crowding of anterior jaw and the space between the teeth were the malocclusion features more subjectively perceived.

Resumen:
OBJETIVO: Analizar la producción científica nacional e internacional sobre la autopercepción de la estética dental por los adolescentes y su repercusión en la calidad de vida, autoestima y satisfacción con la apariencia.
FUENTE DE DATOS: Revisión integral de literatura de artículos indexados Pubmed, Lilacs y Medline,  con las preguntas dirigidas "la autopercepción de la estética dental de los adolescentes ¿corresponde a maloclusión observada por profesionales del área?", "¿Existe asociación entre tratamiento de ortodoncia y la mejoría de la autoestima?" y "¿La presencia de maloclusión impacta en la calidad de vida de los adolescentes o en la satisfacción con la apariencia?".
SÍNTESES DE LOS DATOS: Los adolescentes perciben las maloclusiones, las cuales impactan en el bienestar emocional y el tratamiento de ortodoncia mejora la autoestima y la satisfacción con la apariencia.
CONCLUSIÓN: La autopercepción de las maloclusiones lleva a insatisfacción con la apariencia, menor calidad de vida y menor autoestima y debe ser considerada un criterio importante en el diagnóstico de los tratamientos de ortodoncia. Cuanto más severa la maloclusión, mayor la autopercepción negativa. Inclusive, individuos con baja autoestima tienden a percibir más las imperfecciones, mismo en casos de maloclusión leve. El apiñamiento de la región anterior del maxilar y el espacio entre los dientes fueron las características de maloclusión más percibidas subjetivamente.

INTRODUÇÃO

De acordo com o levantamento nacional de saúde bucal1, 38,8% dos adolescentes do país apresentam problemas de oclusão aos 12 anos de idade. Em 19,9% desses adolescentes, os problemas se expressam na forma mais branda. No entanto, 19,0% têm maloclusão severa ou muito severa, sendo estas as condições que requerem tratamento mais imediato, constituindo-se uma prioridade em termos de Saúde Pública1.

As maloclusões têm ocupado o terceiro lugar dentre os problemas bucais na população brasileira, porém, a inclusão destas alterações como um problema de saúde pública se deve não apenas a sua alta prevalência, mas também ao impacto sobre a qualidade de vida das pessoas2. Além de um diagnóstico clínico, também é necessário considerar os fatores mais subjetivos, pois a doença não implica somente na ausência de um bem-estar físico. É importante destacar que mesmo quando este bem-estar físico não está presente, o seu impacto irá depender, em grande parte, do estado psicológico, de princípios e de valores pessoais e culturais do indivíduo3.

No período da adolescência, a aparência física assume uma importância significativa na construção da identidade pessoal, incluindo a relação com o próprio corpo. Uma variedade de fatores sociais, psicológicos, culturais e pessoais influencia a autopercepção da aparência dental e a procura por tratamento ortodôntico4.

O conceito atual de saúde, não nos permite pensar no processo saúde/doença sem considerar os aspectos psicossociais. Desta forma, dentro de uma concepção salutogênica da teroria de Antonovsky, procura-se explicar porque pessoas em condições adversas semelhantes apresentarem resultados diferentes em termos de saúde. Não se trata de selecionar os indivíduos mais fortes dos mais fracos e sim identificar os que possuem menos recursos psicológicos e que não acreditem em suas próprias possibilidades de influenciar a sua vida e a sua saúde5.

O modelo salutogênico é apresentado como um contraponto ao modelo patogênico e relaciona-se diretamente com a promoção de saúde. Os princípios da salutogênese têm sido aplicados no desenvolvimento de ações educativas voltadas para a promoção da saúde e na formulação de modelo teórico para a construção de políticas públicas saudáveis6.

Atualmente, para avaliar qualquer intervenção na área de saúde, incluindo serviços de atenção à saúde bucal, como a ortodontia, são necessárias medidas de importância para o paciente, que reflitam suas percepções, sem deixar de lado as medidas informativas para o clínico. Portanto, os indicadores subjetivos vêm se tornando importantes ferramentas para conseguir captar também a percepção que o paciente tem sobre seu sorriso7, podendo servir de critério na seleção de pacientes com maior necessidade de tratamento no serviço público8.

Sendo a autoimagem a descrição que o indivíduo faz de si, torna-se importante observar dois aspectos distintos: o descritivo, chamado de autoimagem ou autopercepção, e o valorativo, chamado autoestima9. Quando há a percepção de um desvio estético na aparência física, dentro dessa descrição, o impacto de tal desvio na autoestima é uma questão importante para determinar os benefícios de um tratamento ortodôntico corretivo10. A insatisfação com a aparência estética tem sido associada a uma discrepância entre a percepção de sua aparência e o desejo relativo a um padrão11.


OBJETIVO

Realizar uma revisão integrativa da literatura sobre a autopercepção das maloclusões pelos adolescentes.


MÉTODO

Este estudo de revisão integrativa da literatura foi conduzido pelas seguintes perguntas norteadoras: 'a autopercepção da estética dental dos adolescentes corresponde a maloclusão observada por profissionais da área (normativa)' 'Existe associação entre tratamento ortodôntico e a melhora da autoestima?', 'A presença de maloclusão impacta na qualidade de vida dos adolescentes ou na satisfação com aparência?'.

Esta revisão foi realizada através da análise de artigos publicados em bases de dados com grande quantidade de pesquisa de impacto para a saúde (Tabela 1). O estudo incluiu os artigos sobre o tema autopercepção, maloclusão e necessidade de tratamento ortodôntico disponíveis na literatura internacional e nacional indexados no National Library of Medicine (Pubmed), Literatura Latino-Americana de Ciências da Saúde (Lilacs) e na Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline).




Para o refinamento da pesquisa foram definidos como critérios de inclusão os artigos nos idioma inglês, português e espanhol, com os resumos disponíveis nas bases de dados supracitadas, no período de 2004 a 2015 e que abordassem a faixa etária de 10 a 19 anos. Excluiu-se desta seleção os estudos que se encontravam repetidos nas bases de dados, os estudos que se classificassem como artigo de revisão de literatura e os que não se apresentavam em formato de artigo, como guidelines, cartas, editoriais, teses e dissertações.

Como estratégia foi realizada a busca empregando-se o formulário de pesquisa avançada, utilizando-se os seguintes descritores de assunto e operadores lógicos: "Self concept" AND "malocclusion" OR "orthodontic treatment" reconhecidos pelo vocabulário MESCH e DESC. Na tabela 1, é possível visualizar a quantidade de artigos encontrados em cada base de dados.

Primeiramente foram lidos todos os títulos, em seguida os artigos que tiveram seus resumos selecionados (de acordo com os critérios supracitados) foram lidos na integra e analisados, levando-se em consideração a população-alvo, o desenho do estudo, o plano amostral, a metodologia utilizada e os resultados encontrados nas associações entre a autopercepção do adolescente e a maloclusão ou tratamento ortodôntico. O quadro abaixo mostra como foi o processo de seleção dos artigos (Tabela 2).




Os artigos excluídos apresentaram faixa etária diferente do objetivo do presente estudo, abordaram autopercepção de outras partes do corpo, não utilizaram nenhum instrumento validado de autopercepção ou abordavam o tema de interesse, mas o objetivo da pesquisa não era a autopercepção da estética dental pelo adolescente.


RESULTADOS

Com a finalidade propiciar uma visualização panorâmica dos estudos sobre maloclusão e autopercepção em adolescentes segue a tabela 3. Os estudos mostraram correlações significativas entre a maloclusão normativa e autopercebida (MomeniSalehi, 2010), aumento da insatisfação com a maloclusão de acordo com a maior severidade do caso (Peres et al. 2008; Tessarollo et al. 2011) e aumento da idade (Phillips e Beal, 2009). O tratamento ortodôntico das maloclusões impacta positivamente na qualidade de vida dos adolescentes e na autopercepção da estética dental ( Badran 2010, Feu et al. 2012 e Hirvinwn et al. 2012) principalmente naqueles com baixa autoestima (Agou et al. 2008). A presença da maloclusão impacta em aspectos psicossociais (Paula et al. 2011) e sua correção está mais associada a bem-estar emocional que funcional.




Quanto à distribuição temporal, os estudos foram divididos em três períodos da seguinte forma: 5% de 2004 até 2006; 52% de 2007 a 2010 e 43 % de 2011 até a presente data. Quanto à distribuição geográfica, 10% das pesquisas localizaram-se no continente africano; 20% no continente europeu; 25% no continente asiático e 45% foram realizadas no continente americano. Dentro do continente americano, a maioria das pesquisas foi realizada no Brasil (78%).


DISCUSSÃO

Alguns estudos demonstraram correlação entre a necessidade de tratamento normativo e a percepçãodo adolescente, porém, esta correlação foi fraca, pois os adolescentes foram menos críticos em relação a sua aparência estética que os profissionais13,22-24.

A literatura sugere que o tratamento ortodôntico pode trazer alguns benefícios psicossociais, como melhora da percepção estética e redução da ansiedade social4,29. Os achados de Feu et al. (2012)15 corroboram com este pensamento pois, ao compararem trêsgrupos de adolescentes: sem tratamento, a espera de tratamento ortodôntico e no início de um tratamento ortodôntico, verificaram que, no início, o grupo em tratamento ortodôntico teve uma pontuação de autopercepção estética 96% maior que o grupo sem tratamento, principalmente na primeira semana de tratamento. Esse resultado provavelmente ocorreu porque no início do tratamento as maloclusões tornam-se mais evidentes, as dores e o desconforto com o aparelho são maiores, e influenciam na elevação da insatisfação do adolescente. Porém, na entrevista final, as queixas do grupo em tratamento foram 20% inferiores aos outros grupos. Corroborando com os estudos supracitados, Hirvinen et al. (2012)24 compararam adolescentes tratados ortodonticamente e não tratados, sendo os primeiros significativamente mais satisfeitos com sua aparência dental (P= 0,034).

Por outro lado, De Baets et al. (2012)14 encontrou uma significativa associação entre necessidade de tratamento ortodôntico e qualidade de vida relacionada à saúde bucal, e entre autoestima e qualidade de vida. No entanto, não foi encontradanenhuma evidência de que a autoestima influencie a relação entre qualidade de vida e necessidade de tratamento ortodôntico.

Nammontri et al. (2013)28 conduziram uma intervenção de base escolar para melhorar fatores psicossociais relacionados à saúde bucal e os resultados demonstraram que houve no grupo de intervenção uma melhora na percepção da estética dental e na qualidade de vida relacionada à saúde bucal, sendo necessários outros estudos para acompanhar a estabilidade dos resultados obtidos.

A análise de regressão do estudo com adolescentes canadenses de Agou et al. (2008)12 demostrou que a autoestima contribuiu significantemente com variações de escores de autopercepção, entretanto, a quantidade de variância explicada pelas medidas normativas das maloclusões são relativamente pequenas. Os relatos dos impactos psicossociais são semelhantes aos encontrados empacientes nigerianos em tratamento ortodônticos, enfatizando as consequências negativas da maloclusão26.

Quanto ao papel do gênero na autopercepção da maloclusão, Peres et al. (2008)20 realizaram em seu estudo uma análise de regressão de Poisson com variância robusta, a fim de identificar os fatores de risco para a insatisfação com aparência do sorriso e ajuste de variáveis de confusão como presença de cárie e nível socioeconômico, e assim, obtiveram uma associação positiva entre maloclusão e insatisfação com o sorriso apenas em meninas.

Colaborando com esse estudo, Jung et al. (2010)16 observaram que dentes anteriores apinhados causam baixa autoestima em meninas adolescentes e após a correção com tratamento ortodôntico fixo, esta melhora significativamente, apresentando níveis semelhantes a adolescentes com oclusão normal. Já nos meninos, o tratamento ortodôntico não repercute em diferenças significativas na autoestima. Spaljet et al. (2010)22 também detectaram que adolescentes do sexo feminino e mais jovens pontuam mais alto na necessidade de tratamento ortodôntico autopercebido. Entretanto, Momeni e Salehi (2010)17, Nagarajan e Pushpanjali (2010)26 e Peres et al. (2010)10 encontraram correlação significativa entre maloclusão normativa e autopercebida da mesma forma em ambos os sexos. Já Ajayi (2011)27, obteve maior número de insatisfação com aparência dos dentes e maior desejo de tratamento ortodôntico entre os meninos (P < 0,05). Esse resultado diverge dos demais, mas visto que sua amostra era de apenas 91 estudantes, esta provavelmente retrata uma característica local que não deve ser generalizada para população.

Quanto aos tipos de maloclusão e a autopercepção dos adolescentes, o apinhamento dos dentes anteriores e superiores foram a característica oclusal que mais influenciou os adolescentes a procurarem um tratamento ortodôntico26. Os resultados das análises de regressão logística dos estudos de Marques et al. (2009)4 e de Moura et al. (2013)18 com adolescentes brasileiros, indicaram que o fator diretamente envolvido no desejo por um tratamento ortodôntico e insatisfação com o sorriso é o desalinhamento de mais de 2mm nos incisivos superiores, seguido pelos espaço entre os incisivos e mordida aberta anterior de mais de 2mm. O estudo de Tessarollo e colaboradores23 (2012) também encontrou que o desalinhamento maxilar (P=0.010) e mandibular (P=0,008) são os principais motivos para insatisfação com a aparência, mas a perda dental foi outra característica com forte impacto (P=0,010). Adolescentes que pontuam alto na necessidade de tratamento ortodôntico normativo, e possuem uma elevada autopercepção, são insatisfeitos com a aparência dos seus dentes e evitam sorrir13.

Considerando o grau de severidade da maloclusão e o nível de insatisfação com o sorriso, Tessarollo et al. (2012)23 e Nagarajan e Pushpanjali (2010)25 verificaram que a insatisfação com a aparência dos dentes aumenta com o aumento da severidade da maloclusão, no entanto, o mesmo não ocorre com a função de fala e mastigação. A cada aumento de unidade de medida normativa de maloclusão, de acordo com o Dental Aesthetic Indice (DAI), ocorreu um aumento de 5% na probabilidade de insatisfação com a aparência dental.

Paula et al (2011)19 verificaram que insatisfação com a aparência, níveis mais elevados de maloclusão e sorriso gengival são associados com maiores impactos psicossociais, sendo a satisfação com a aparência o coeficiente de regressão mais significativo (P <0,001). Resultados semelhantes foram encontrados por Onyeaso e colaboradores26 (2005) que obtiveram diferenças altamente significativas de implicações psicossomáticas devido à maloclusões, entre indivíduos com maloclusão normal ou leve e aqueles com maloclusão acentuada (P <0,001), indicando a consciência da maloclusão, a insatisfação com a aparência dos dentes e o impacto da aparência desfavorável dos dentes em comparação com as de seus pares. Já Phillips e Beal (2009)21 afirmaram que o nível de satisfação (sentimentos positivos) está mais fortemente relacionado com a autopercepção do que com a severidade da maloclusão.

Levando em consideração a prevalência das maloclusões e a grande demanda por um tratamento ortodôntico nos serviços públicos, a avaliação da autopercepção dos adolescentes torna-se uma ferramenta importante que pode subsidiar o planejamento deste serviço. Possibilitando a seleção dos pacientes mais necessitados e a criação de políticas públicas levando em consideração o princípio da equidade30, onde os menos favorecidos psicologicamente, que possuem uma maior necessidade apoio e incentivo sejam favorecidos em comparação com seus homólogos que possuem uma autoestima mais elevada.


CONCLUSÃO

Quanto à autopercepção das maloclusões pelos adolescentes podemos concluir que quanto mais severa a maloclusão, maior a autopercepção. Todavia, indivíduos com baixa autoestima tendem a perceber mais as imperfeiçoes mesmo em casos de maloclusão leve. A maioria dos estudos observou uma associação positiva entre a insatisfação com a aparência dos dentes e adolescentes do sexo feminino. O apinhamento da região anterior da maxila e o espaço entre os dentes foram às características da maloclusão mais percebidas subjetivamente.

A literatura demostrou que a autopercepção das maloclusões pelos adolescentes impacta na qualidade de vida, autoestima e satisfação pessoal e, portanto seria importante a inclusão desse critério subjetivo nas avaliações ortodônticas para que se possa priorizar indivíduos mais necessitados, considerando o adolescente como um ser biopsicossocial.


NOTA DE AGRADECIMENTOS

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. As autoras Aline Cavalcanti da Costa e Fabrícia Soares Rodrigues, receberam suporte financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em formato de bolsa de estudos e pesquisas.


REFERÊNCIAS

1. Brasil. Ministério da Saúde. Projeto S.B. Brasil 2010. Pesquisa Nacional de Saúde Bucal- Resultados Principais. Brasília, 2011[acesso 2015 Jul 12]. [Internet]. Disponível em: http://dab.saude.gov.br/CNSB/sbbrasil/arquivos/projeto_sb2010_relatorio_final.pdf

2. Fernandes LMF, Moura F, Gamaliel S, Correa-Faria P. Cárie Dentária e Necessidade de Tratamento Ortodôntico: Impacto na Qualidade de Vida de Escolares. Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clinica Integrada 2013; 13(1).

3. Bellot-arcís C. Orthodontic treatment need in a Spanish young adult population. Medicina Oral, Patología Oral y Cirugía Buca. 2012;17(4):638-43.

4. Marques LS, Pordeus IA, Ramos-Jorge ML, Filogônio CA, Filogônio CB, Pereira LJ, Paiva SM. Factors associated with the desire for orthodontic treatment among Brazilian adolescents and their parents. BMC Oral Health [Internet]. 2009 [acesso 2015 Jul 01]; 9: 34-9. Disponível em: http://www.biomedcentral.com/content/pdf/1472-6831-9-34.pdf

5. Cruz MMD. Senso de coerência e sua relação com a saúde bucal dos adolescentes. Dissertação de Mestrado em Saúde Coletiva. Camaragibe: Universidade de Pernambuco.100f 2013.

6. Eriksson M, Lindstrom B. Antonovsky's sense of coherence scale and its relation to quality of life: a systematic review. J Epidemiol Community Health 2007;61:938-44.

7. Rihs LB, Held RBD, Sousa M DLRD, Guariento, ME Cintra, FA, Neri AL,D'Elboux, MJ. Autopercepção em saúde bucal em idosos frágeis. Revista da Associacao Paulista de Cirurgioes Dentistas. [Internet]. 2012 [acesso 2015 Jul 12]; 66(2):105-9. Disponível em: http://revodonto.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-52762012000200004&lng=p&nrm=iso&tlng=p

8. Locker D, Berka E, Jokovic A, Tompson B. Does self-weighting of items enhance the performance of an oral health-related quality of life questionnaire? Community Dentistry and Oral Epidemiology. [Internet]. 2007 [acesso 2015 Jul 11]; 35:35-43. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1600-0528.2007.00317.x/abstract;jsessionid=AE1593314232B3939B0B0631D00A269A.f02t02?userIsAuthenticated=false&deniedAccessCustomisedMessage

9. Potreck R, Friederike JG, Selbszuwendung SS. Phychoterapeutische Interventionen zum Aufbau Von Selbstwertfuhl. Stuttgard:Clett-Kota, 2006.

10. Peres SHCS, Goya S, Cortellazzi KL, Ambrosano GMB, Meneghim MC, Pereira AC. Self-perception and malocclusion and their relation to oral appearance and function. Ciência & Saúde Coletiva. [Internet]. 2011 [acesso 2015 Jun 13];16:4059-66. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232011001100011&script=sci_arttext

11. Bosi MLM, Luiz RR, Morgado CMC, Costa MLSC, Carvalho RJ. Autopercepção da imagem corporal entre estudantes de nutrição: um estudo no município do Rio de Janeiro. J Bras Psiquiatr. [Internet]. 2006 [acesso 2015 Ago 03];55:(2):108-13. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/jbpsiq/v55n2/v55n2a03.pdf

12. Agou S, Locker D, Streiner DL Tompson, B. Impact of self-esteem on the oral-health-related quality of life of children with malocclusion. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2008;134(4):484-9.

13. Badran SA. The effect of malocclusion and self-perceived aesthetics on the self-esteem of a sample of Jordanian adolescents. Eur J Orthod. [Internet]. 2010 [acesso 2015 Ago 03]; 32(6):638-44. Disponível em: http://ejo.oxfordjournals.org/content/32/6/638.full-text.pdf

14. De baets E, Lambrechts H, Lemiere J, Diya L, Willems G. Impact of self-esteem on the relationship between orthodontic treatment need and oral health-related quality of life in 11- to 16-year-old children. Eur J Orthod. [Internet]. 2012 [acesso 2015 Jul 21]; 34(6):731-7. Disponível em: http://ejo.oxfordjournals.org/content/34/6/731.full-text.pdf

15. Feu D, Oliveira BH, Celeste RK, Miguel JA. Influence of orthodontic treatment on adolescents selfperceptions of esthetics. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2012;141(6):743-50.

16. Jung MH. Evaluation of the effects of malocclusion and orthodontic treatment on self-esteem in an adolescent population. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2010; 138(2):160-6.

17. Momeni DS, Salehi P. Association between normative and self-perceived orthodontic treatment need among 12- to 15-year-old students in Shiraz, Iran. Eur J Orthod. [Internet]. 2010 [acesso 2015 Jul 24]; 32(5):530-4. Disponível em: http://ejo.oxfordjournals.org/content/early/2010/01/27/ejo.cjp139.full-text.pdf

18. Moura C, Cavalcanti AL, Gusmão ES, Soares RSC, Moura FTC, Santillo PMH. Negative self-perception of smile associated with malocclusions among Brazilian adolescents. European Journal of Orthodontics [Internet]. 2013 [acesso 2015 Jul 24];35:483-90. Disponível em: http://ejo.oxfordjournals.org/content/eortho/early/2012/04/23/ejo.cjs022.full.pdf

19. Paula DF, Silva ÉT, Campos AC, Nuñez MO, Leles CR. Effect of anterior teeth display during smiling on the self-perceived impacts of malocclusion in adolescents. Angle Orthod. [Internet]. 2011 [acesso 2015 Jul 24]; 81(3):540-5. Disponível em: http://www.angle.org/doi/10.2319/051710-263.1?url_ver=Z39.88-2003&rfr_id=ori%3Arid%3Acrossref.org&rfr_dat=cr_pub%3Dpubmed&

20. Peres KG, Barros AJ, Anselmi L, Peres MA, Barros FC. Does malocclusion influence the adolescents satisfaction with appearance? A crosssectional study nested in a Brazilian birth cohort. Community Dent Oral Epidemiol. [Internet]. 2008 [acesso 2015 Jul 24];36(2):137-43. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1600-0528.2007.00382.x/abstract;jsessionid=05EFC957843627E57C98D8A4D63EBFD6.f03t04?userIsAuthenticated=false&deniedAccessCustomisedMessage=

21. Phillips C, Beal KN. Self-concept and the perception of facial appearance in children and adolescents seeking orthodontic treatment. Angle Orthod. [Internet]. 2009 [acesso 2015 Jul 24];79(1):12-6. Disponível em: http://www.angle.org/doi/pdf/10.2319/071307-328.1

22. Spalj S, Slaj M, Varga S, Strujic M, Slaj M. Perception of orthodontic treatment need in children and adolescents. Eur J Orthod. [Internet]. 2010 [acesso 2015 Jul 24];32(4):387-94. Disponível em: http://ejo.oxfordjournals.org/content/eortho/early/2009/10/27/ejo.cjp101.full.pdf

23. Tessarollo FR, Feldens CA, Closs LQ. The impact of malocclusion on adolescents; dissatisfaction with dental appearance and oral functions. Angle Orthod. [Internet]. 2012 [acesso 2015 Jul 24];82(3):403-9. Disponível em: http://www.angle.org/doi/pdf/10.2319/031911-195.1

24. Hirvinen H, Heikinheimo K, Svedstro-oristo AL. The objective and subjective outcome of orthodontic care in one municipal health center. Acta Odontol Scand. 2012;70(1):36-41.

25. Nagarajan S, Pushpanjali K. The relationship of malocclusion as assessed by the Dental Aesthetic Index (DAI) with perceptions of aesthetics, function, speech and treatment needs among 14- to 15-year-old school children of Bangalore, India. Oral Health Prev Dent 2010;8(3):221-8.

26. Onyeaso CO, Utomi IL, Ibekwe TS. Emotional effects of malocclusion in Nigerian orthodontic patients. J Contemp Dent Pract 2005;6:64-73.

27. Ajayi EO. Dental aesthetic self-perception and desire for orthodontic treatment among school children in Benin City, Nigeria. Nig Q J Hosp Med 2011;21(1):45-9.

28. Nammontri O, Robinson PG, Baker SR. Enhancing Oral Health via Sense of Coherence: A Cluster randomized Trial. J Dent Res 2013;92(1):26-31.

29. Tatarunaite E, Playle R, Hood K, Shaw W. Richmond S. Facial attractiveness: a Longitudinal study. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2005;127:676-82.

30. Sousa MNA, Bezerra ALD, Assis EV, Nóbrega CBC, Pelino JEP. Oral health conditions in old age: older adults' perception. Journal of Nursing UFPE on line. [Internet]. 2013[acesso 2015 Ago 01]; 7(11):6610- 16. Disponível em: http://www.revista.ufpe.br/revistaenfermagem/index.php/revista/article/view/3291/pdf_4006.
adolescencia adolescencia adolescencia
GN1 © 2004-2018 Revista Adolescência e Saúde. Fone: (21) 2868-8456 / 2868-8457
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente - NESA - UERJ
Boulevard 28 de Setembro, 109 - Fundos - Pavilhão Floriano Stoffel - Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ.
E-mail: revista@adolescenciaesaude.com