Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 15 nº 1 - Jan/Mar - 2018

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Páginas 50 a 57


Análise de partos em adolescentes e repercussões perinatais em uma maternidade pública na Amazônia

Analysis of childbirth's aspects in adolescents and perinatal outcomes in a public maternity in the Amazon

Análisis de partos en adolescentes y repercusiones perinatales enuna maternidad pública en el Amazonas


Autores: Natália Noemi Dias da Silva1; Laís Nogueira Chaves2; Larissa Nogueira Chaves3; Aljerry Dias do Rêgo4; Danielle Barboza Araújo5

1. Residente em Clínica Médica pela Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (FHCGV). Belém, PA, Brasil. Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Macapá, AP, Brasil
2. Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Macapá, AP, Brasil. Residente em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Presidente Dutra, da Universidade Federal do Maranhão (HUUFMA). São Luís, MA, Brasil
3. Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Macapá, AP, Brasil. Residente em Pediatria pelo Hospital da Criança e Adolescente (HCA), da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Macapá, AP, Brasil
4. Mestrando em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP). Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital do Mandaqui. São Paulo, SP, Brasil. Aperfeiçoamento em Uroginecologia pelo Hospital Pérola Byigton (HPB). Bela Vista, SP, Brasil. Diretor Clínico do Hospital da Mulher Mãe Luzia (HMML). Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Macapá, AP, Brasil. Médico Especialista
5. Graduanda em Medicina pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) - Macapá, AP, Brasil

Correspondência:
Natália Noemi Dias da Silva
Av. Profª. Cora de Carvalho, 4208, Alvorada
Macapá, AP, Brasil. CEP: 68980-545
(natalianoemids@gmail.com)

Recebido em 25/04/2017
Aprovado em 29/06/2017

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Como citar este Artigo

Descritores: Gravidez na adolescência, prematuro, recém-nascido de baixo peso.
Keywords: Pregnancy in adolescence, premature, infant, low birth weight.
Palabra Clave: Embarazoen la adolescencia, prematuro, recién nacido de bajo peso.

Resumo:
OBJETIVO: Analisar e comparar a frequência de partos entre adolescentes e mulheres adultas, as possíveis associações entre idade materna e resultados perinatais (idade gestacional, Apgar no quinto minuto, peso ao nascer), e a via de parto ocorridos no Hospital da Mulher Mãe Luzia, na cidade de Macapá-Amapá entre janeiro e dezembro de 2014.
MÉTODOS: Estudo retrospectivo e transversal usando dados oriundo dos prontuários do Hospital da Mulher Mãe Luzia referentes aos partos realizados em 2014. As variáveis analisadas foram: idade gestacional, via de parto, Apgar no quinto minuto e peso ao nascer.
RESULTADOS: Em 2014 ocorrerram 7.762 partos, sendo 2.254 adolescentes (29,04%), distribuídos nas faixas etárias de 10 a 14 anos (8,03%) e de 15 a 19 anos (91,97%). Notou-se maiores taxas de prematuridade entre as adolescentes, com índices maiores no subgrupo 10-14 anos (20,4%). Adolescentes também apresentaram maior percentual de recémnascidos com baixo peso ao nascer (11,1% contra 8,6% nas adultas), com resultados mais preocupantes na faixa etária de 10-14 anos (14,4%). Analisando-se o Apgar <7 no quinto minuto, observou-se diferença mínima entre os dois grupos (1,3% nas adolescentes e 1,2% nas adultas). A proporção de parto cesáreo foi de 37,3% para as parturientes adultas e 28,7% nas adolescentes.
CONCLUSÃO: A proporção de gravidez na adolescência no Hospital da Mulher Mãe Luzia foi maior em relação à média nacional, observando-se desfechos piores quanto a prematuridade, peso ao nascer e via de parto, com diferença mínima na variável Apgar no quinto minuto.

Abstract:
OBJECTIVE: Evaluate and compare the frequency of childbirths betweeen adolescents and adult women, the possible associations between mother age and perinatal arrives (weight, gestational age and Apgar 5'), and delivery mode of childbirth occurred at Mulher Mãe Luzia Hospital in the city of Macapá - Amapá between January and December 2014.
METHODS: A retrospective and cross-sectional study using Mulher Mãe Luzia Hospital´s deliveries database in 2014. The analyzed variables were: pregnancy age, delivery mode, Apgar 5' and birth weight.
RESULTS: In 2014 occurred 7,762 deliveries, 2,254 being adolescents (29.04%), distribuited between 10 to 14 years old (8,03%) and 15 to 19 years (91,97%). It was noticed that premature delivery had bigger rates in the adolescents group, with higher index in the 10-14 years old subgroup (20.4%). Adolescents also presented higher percentageof low birth weight (11.1% against 8.6% in adult women), more concerning results in the group with 10-14 years (14.4%). Analyzing the Apgar 5'<7, it was noticed a minimal difference between the two groups (1.3% in adolescents and 1.2% in adults).
CONCLUSION: The proportion of teenage pregnancy at Mulher Mãe Luzia Hospital was considered high in relation to the national average, noticing worse outcomes regarding premature birth, low birth weight and type of delivery, with a minimal difference in the variable Apgar 5'.

Resumen:
OBJETIVO: Analizar y comparar la frecuencia de nacimientos entre adolescentes y mujeres adultas, las posibles asociaciones entre edad materna y resultados perinatales (edad gestacional, Apgar en el quinto minuto, peso al nacer), y la vía de parto ocurridos en el Hospital de la Mujer Madre Luzia, en la ciudad de Macapá-Amapá entre enero y diciembre de 2014.
MÉTODOS: Estudio retrospectivo y transversal usando datos oriundos de las fichas del Hospital de la Mujer Madre Luzia referentes a los nacimientos realizados en 2014. Las variables analizadas fueron: edad gestacional, vía de parto, Apgar en el quinto minuto y peso al nacer.
RESULTADOS: En 2014 ocurrieron 7.762 nacimientos, siendo 2.254 adolescentes (29,04%), distribuidos en las franjas etarias de 10 a 14 años (8,03%) y de 15 a 19 años (91,97%). Se notó mayores tasas de precocidad entre las adolescentes, con índices mayores en el subgrupo 10-14 años (20,4%). Adolescentes también presentaron mayor porcentaje de recién nacidos con bajo peso al nacer (11,1% contra 8,6% en las adultas), con resultados más preocupantes en la franja etaria de 10-14 años (14,4%). Analizándose el Apgar<7 en el quinto minuto, se observó diferencia mínima entre los dos grupos (1,3% en las adolescentes y 1,2% en las adultas). La proporción de parto cesáreo fue del 37,3% para las parturientas adultas y 28,7% en las adolescentes.
CONCLUSIÓN: La proporción de embarazo en la adolescencia en el Hospital de la Mujer Madre Luzia fue mayor con relación a la media nacional, observándose finales peores en cuanto a la precocidad, peso al nacer y vía de parto, con diferencia mínima en la variable Apgar en el quinto minuto.

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde considera a adolescência o período correspondente a idade entre 10 aos 19 anos, englobando a pré-adolescência dos 10 aos 14 anos. Dessa forma, a adolescência propriamente dita equivale ao intervalo entre os 15 aos 19 anos1.

No que concerne às taxas de gravidez na adolescência, atualmente, a cada ano, cerca de 16 milhões de mulheres entre 15 e 19 anos concebem uma criança, o que corresponde a cerca de 11% de todos os nascimentos mundiais, evidenciando que uma em cada cinco meninas engravidam até os 18 anos2.

A gravidez na adolescência é considerada em alguns países com um problema de saúde pública. É sabido que ela acarreta efeitos negativos nesta faixa etária, tanto à saúde da mulher quanto à sua inserção no mercado de trabalho, refletindo no seu crescimento pessoal e profissional3,4. Como evidenciado no estudo realizado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a ocorrência de gravidez entre adolescentes é mais elevada nos países menos desenvolvidos, que apresentaram em 2010 uma média de 103 nascimentos para cada 1000 mulheres na faixa etária entre 15 e 19 anos. Essa média é cinco vezes mais alta que a observada nas regiões mais desenvolvidas, de 21 nascimentos em cada 1000 mulheres na mesma faixa etária5.

Dados importantes a serem considerados referem-se ao risco de morte materna entre as adolescentes. Segundo um estudo realizado pela The Save the Children Fundation, em 2012 estimou-se um risco de morte materna aos 15 anos de 395 em 100 mil nascidos vivos nos países desenvolvidos, e de 667 em 100 mil nascidos vivos nos países em desenvolvimento6. Outro ponto de suma importância refere-se à evolução da gestação entre as adolescentes, onde é demonstrado um aumento da incidência de prematuridade, baixo peso ao nascimento, restrição de crescimento intrauterino, sofrimento fetal agudo intraparto, diabete gestacional, pré-eclâmpsia e aumento da incidência de cesarianas. Porém, em relação ao tipo de parto, a literatura é controversa quanto à prevalência de cesariana entre gestantes adolescentes7,8,9.

Segundo dados nacionais, a ocorrência de gravidez na adolescência ainda é expressiva e possui taxas consideráveis em no Macapá, provavelmente relacionadas à precariedade dos serviços de planejamento familiar e educação sexual. Tendo em vista a escassez de dados no Amapá sobre este tema, observou-se a importância de analisar a frequência e os fatores associados à gravidez na adolescência em nosso meio, para que, dessa forma, conheçamos a magnitude de tal problema, a fim de nortear estratégias para prevenir a gravidez indesejada nesta faixa etária e minimizar suas consequências negativas sobre essas adolescentes. Em vista de todas as repercussões que a gravidez na adolescência implica, esse estudo tem como objetivo avaliar a frequência de gravidez na adolescência na Maternidade pública de Macapá - Amapá (AP) e sua associação com a ocorrência de partos cesarianos, prematu-ridade, baixo peso ao nascer e Escore de Apgar menor que 7 no quinto minuto. Em inglês, a palavra Apgar constitui um acrônimo referente aos parâmetros considerados: A - activity (tônus muscular); P - pulse (frequência cardíaca); G - Grimace (irritabilidade reflexa); A - appearance (coloração da pele); R - respiration (respiração).


MÉTODOS

Foi realizado um estudo retrospectivo e transversal utilizando as informações do Banco de Dados pertencente ao Serviço de Arquivo Médico e Estatística (SAME) do Hospital da Mulher Mãe Luzia (HMML) - integrante do Sistema Único de Saúde - no município de Macapá-AP, referentes ao período de janeiro a dezembro de 2014.

As mães foram subdivididas por faixa etária em três grupos: adolescentes com 10 a 14 anos, adolescentes com 15 a 19 anos, e adultas com idade maior que 19 anos. As variáveis analisadas foram: via de parto (via vaginal ou cesariana), idade gestacional (maior que 37 ou menor/igual a 37 semanas), peso ao nascer (considerando baixo peso <2500g e peso normal ≥ 2500g) e Apgar (menor que 7 no quinto minuto ou maior/ igual a 7 no quinto minuto).

Foram incluídas na análise pacientes que tiveram o parto assistido no HMML durante o período mencionado. Os critérios de exclusão da pesquisa foram: parturientes com gestações múltiplas, ocorrência de aborto (idade gestacional menor que 22 semanas ou peso ao nascer menor que 500 gramas), natimortos e registros de parto incompletos.

Foram avaliados 7762 partos no período de um ano, sendo aplicados métodos estatísticos descritivos e inferenciais. As variáveis quantitativas foram apresentadas por medidas de tendência central e de variação. As variáveis qualitativas foram apresentadas por distribuições de frequências absolutas e relativas. A comparação entre as variáveis qualitativas foi realizada pelo teste do Qui-quadrado. As variáveis quantitativas foram comparadas pelo teste t de Student. Foi previamente fixado o nível de significância alfa = 0.05 para rejeição da hipótese de nulidade. O processamento estatístico foi realizado nos softwares GrafTable versão 2.0 e Bioestat versão 5.3.

Os cuidados éticos referentes aos dados extraídos do banco de dados do HMML se basearam na obtenção da autorização para a sua utilização em pesquisa epidemiológica frente às instituições detentoras dos dados, a Coordenação do Comitê de Ética e Pesquisa(parecer nº 1.094.603) da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) e nas recomendações contidas no Código de Nuremberg (1947), na Declaração de Helsinque (1964 e suas revisões de 1975, 1983 e 1989) e na Resolução Nª 466, de 12 de Dezembro de 2012, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) pertencente ao Conselho Nacional de Saúde (CNS).


RESULTADOS

No ano de 2014 foram realizados 8323 partos no HMML, porém, devido aos critérios de exclusão foram desconsiderados: 80 casos de gestação gemelar, 16 casos de aborto, 140 casos de natimorto e 325 casos devido a dados incompletos. Dos 7.762 partos estudados, 2.254 (29,04%) foram de mulheres com idade entre 10 a 19 anos e 5.508 (70,96%) tinham20 anos ou mais (Tabela 1). Os resultados são apresentados em tabelas com números absolutos e relativos e as mães estão agrupadas em adolescentes e adultas. O grupo das adolescentes foi subdividas em dois grupos, aquelas com 10 a 14 anos classificadas em pré-adolescentes, com média de idade de 13,7 anos e frequencia de parto de 8,03%, e as com 15 a 19 anos classificadas em adolescentes propriamente dita, tendo média de 17,3 anos e frequencia de parto de 91,97%. A média de idade das adultas foi de 27,2 anos.




Tipo de Parto

Observou-se que as maiores proporções de parto cesáreo ocorreram em mães adultas (37,3%), tendo as mães adolescentes a maior proporção de partos vaginais (71,3%). Dentre
as adolescentes, as mais submetidas a cesarianas foram as da faixa etária entre 15 a 19 anos (29%) (Tabela 2).




Idade Gestacional

Notou-se que as maiores taxas de prematuridade ocorreram na faixa etária das adolescentes (14,1%), enquanto nas adultas a proporção observada foi de 12%. Constatou-se valor ainda maior (20,4%) no subgrupo de 10 a 14 anos (Tabela 3). Na comparação entre adolescentes e adultas não foi observado significância estatística (p-valor=0,54330).




Peso ao nascer

A proporção de recém-nascidos com peso menor que 2500g e maior/igual a 2500g avaliada dentro de cada grupo mostrou diferença altamente significante (Tabela 4). As adolescentes
apresentaram maior percentual de recém-nascidos com baixo peso ao nascer (11,1%), enquanto nas adultas se verificou 8,6% (a comparação entre estes dois grupos não mostrou resultado estatisticamente significante). Na faixa etária de 10 a 14 anos foi evidenciado os piores resultados, com um maior número de recém-nascidos com baixo peso (14,4%).




Escore Apgar no 5º minuto

Houve tendência altamente significante em todas as faixas etárias para Apgar a partir de 7 ou mais, porém na comparação entre adultas e adolescentes não houve real diferença estatística (Tabela 5). Analisando-se o Apgar menor que 7 no quinto minuto, observou-se diferença mínima entre as adolescentes (1,3%) e adultas (1,2%), sendo que a faixa etária de 10 a 14 anos teve índices um pouco maiores (1,8%).




Dados publicados no caderno de Indicadores Sociodemográficos e de Saúde no Brasil10 evidenciaram uma taxa de 21,5% de partos em adolescentes brasileiras no ano de 2006. Neste
mesmo ano, no Amapá, a taxa de gravidez na adolescência correspondia a 27,27%. Na ocasião, os índices do estado só ficavam atrás dos verificados parao Tocantins (28,4%), Pará (29,3%) e Maranhão (29,5%). Observando estes dados, nota-se que a proporção de partos de mães adolescentes encontrada no presente estudo para o ano de 2014 é considerada alta (29,04%). O percentual de partos realizados em adolescentes no HMML (29,04%) se assemelhou aos encontrados em São Luis-MA (29,4%), porém, encontrava-se acima dos índices observados em Montes Claros-MG com 21,5% e Campinas-SP com 17,8%12,13,14. Tais estudos corroboram os Indicadores Sociodemográficos e de Saúde no Brasil que mostram maiores taxas de gravidez na adolescência nos estados do norte e nordeste, e taxas bem mais baixas no sul e sudeste10.

Analisando os dados mais recentes publicados pelo SINASC para o ano de 2013, evidencia-se uma taxa de 19,28% de partos em adolescentes brasileiras, e de 25,84% no estado do
Amapá11, observando-se uma queda nos índices nacional e estadual, portanto aumentando a discrepância com relação ao número encontrado no ano de 2014 no HMML. Como observado, o índice encontrado neste estudo (29,04%) foi um pouco maior que o a média no estado do Amapá em 2013 (25,84%)11, o que pode estar relacionado ao fato de que a presente pesquisa ter sido realizada apenas em um hospital público, onde se concentra a população de baixa renda. Esse aspecto econômico pode influenciar na menor atenção durante o pré-natal, filhos com maiores taxas de baixo peso ao nascer e mortalidades neonatal e infantil, além de questões sociais como baixa escolaridade15.

Dados do SINASC em 2013 revelam uma proporção de partos cesáreos de 56,63% no Brasil e de 33,91% no Amapá11. Os partos cesáreos no presente estudo corresponderam a 34,81% do total de partos analisados, sendo a maioria em mães adultas (37,3%), resultado semelhante a outros obtidos em estudos nacionais que identificaram maior proporção de cesarianas entre as mulheres adultas. Cunha et al. observaram que a idade avançada representou um fator de risco para cesariana16. Martins et al. acrescentam ainda, tal fato pode estar relacionado à alta proporção de recém-nascidos de baixo peso entre as adolescentes, facilitando sua passagem pelo canal do parto, o que favoreceria o parto vaginal nesta faixa etária17.

Segundo os Indicadores Sociodemográficos e de Saúde: "A recomendação da Organização Mundial da Saúde é para que as cirurgias cesáreas sejam, no máximo, 15% do total dos partos, limitando-se a situações de risco tanto da mãe quanto da criança"10. Diante do exposto, nota-se que neste estudo o índice de cesarianas tanto em mães adolescentes quanto nas adultas está bem acima dos recomendados pela OMS.

A maior prevalência de partos cesáreos entre as mães adultas também foi verificada em outros estudos nacionais como o realizado em São Luís-MA; Campinas-SP e Montes Claros-MG12,13,14. Carniel et al. apontam que as chances para indicação destes tipos de partos foram mais elevadas em mulheres com nível socioeconômico maior, para as com pré-natal adequado, as primíparas, as multíparas e nas gestações duplas14.

Analisando a variável idade gestacional, observou-se que a prematuridade foi maior entre mães adolescentes do que em adultas, com uma diferença de 14,1% contra 12% (porém não estatisticamente significante), e essa diferença foi ainda maior na faixa etária de 10 a 14 anos que apresentou uma taxa de 20,4% mostrando uma relação entre imaturidade biológica materna e prematuridade. Simões confirma esta relação ao sugerir que fatores biológicos ligados à imaturidade são associados às maiores taxas de baixo peso, prematuridade e mortalidade infantil12. Os resultados obtidos no presente estudocorroboram comos encontrados em Montes Claros-MG e São Luís-MA, onde também houve maior número de partos prematuros em mães adolescentes12,14.

Em relação à variável peso ao nascer, não houve significância estatística, sendo observado maiores índices de baixo peso em recém-nascidos de mães adolescentes, numa diferença de 11,1% contra 8,6% nas adultas, havendo também maiores taxas de baixo peso nas mães com faixa etária de 10 a 14 anos (14,4%), fato associado à prematuridade. Para Amaya et al., o baixo peso ao nascer é o fator mais importante associado à mortalidade e morbidade perinatais quando se avalia o desfecho da gravidez, além de ser o indicador isolado mais importante de morbimortalidade infantil18. Na literatura existem estudos que evidenciam maior frequência de recém-nascidos de baixo peso ao nascer, sobretudo nas adolescentes entre 10 e 15 anos, provavelmente pelo baixo peso materno anterior à gestação, ganho ponderal insuficiente, conflitos familiares e existenciais que retardam a procura pela assistência pré-natal, maior incidência de anemia e infecções e incompleto desenvolvimento nos órgãos reprodutivos, que podem acarretar insuficiência placentária, prejudicando as trocas materno-fetais19.

Em relação ao índice de Apgar menor que 7 no 5º minuto notou-se que não houve grande diferença entre os grupos de adolescentes (taxas de 1,3%) e adultas (1,2%). A maior diferença foi notada na faixa etária de 10 a 14 anos que apresentou índice de 1,8%. Um estudo semelhante realizado em Montes Claros-MG também mostrou uma variação em função da idade materna, com índice de 2,9% entre as adultas, 3,3% na faixa de 15 a 19 anos e 6,0% na faixa de 10 a 14 anos13. Porém, há necessidade de maiores informações para realizar a comparação entre os estudos, uma vez que o autor13 correlacionou os dados de Apgar com assistência ao pré-natal, notando que entre as adolescentes de 10 a 14 anos com adequada frequência ao pré-natal não houve caso algum de asfixia neonatal.

Ramos e Cuman destacam que a gravidez na adolescência é o fator de maior concentração de agravos à saúde materna, bem como de complicações perinatais, tais como baixo ganho de peso materno, desproporção cefalopélvica, pré-eclâmpsia, prematuridade, baixo peso ao nascer e Apgar baixo no quinto minuto, o que explica os maus resultados obstétricos em mães adolescentes. Porém, salientam que as intercorrências relativas à gravidez na adolescência se potencializam quando associadas a condições socioeconômicas e geográficas, bem como à fragilidade da estrutura familiar e dificuldade de acesso aos serviços assistenciais, demostrando que existe uma rede multicausal associada a essa problemática20.

Como exposto, o contexto social em que as jovens mães estão inseridas implica em resultados perinatais desfavoráveis, sendo a questão da falta ou realização incompleta de pré-natal um fator essencial a ser considerado. Goldenberg et al. confirmam este fato ao afirmar que o pré-natal não adequado confere uma maior chance de prematuridade e baixo peso ao nascer13 .


CONCLUSÃO

Muito se fala da associação entre gravidez na adolescência e resultados perinatais. Este estudo buscou a comparação analisando as variáveis idade gestacional, peso ao nascer e Apgar no quinto minuto, porém notou-se que vários são os trabalhos que apontam para uma relação complexa e multivariada. Com relação ao tipo de parto, este estudo evidenciou maior frequência de parto vaginal nas adolescentes em relação às adultas e quanto as demais variáveis estudadas (prematuridade, baixo peso ao nascer e Apgar menor que 7 no 5º minuto) não houve diferença significante entre os grupos adolescentes e adultos, porém ao comparar os dois grupos de adolescentes observamos piores resultados nas adolescentes entre 10 e 14 anos.

Como salientado anteriormente, é inegável que o índice de gravidez na adolescência registrado neste estudo (29,04%), mesmo refletindo a realidade de uma única maternidade encontra-se elevado ao comparado com a média nacional, é relevante visto ser esta a única maternidade pública da cidade de Macapá, onde são realizados a grande maioria dos partos subsidiados pelo SUS neste estado. Em vista de todas as consequências que a gravidez na adolescência impõe, nota-se a necessidade da aplicação de políticas públicas que promovam a educação sexual dos jovens, visando a sua prevenção. Além disso, também se faz necessário campanhas de conscientização sobre a importância de acompanhamento pré-natal adequado e métodos de contracepção, que atinjam todas as fases da adolescência e não apenas a adolescente grávida.

Por ser a gravidez na adolescência considerada um problema de Saúde Pública, devido suas consequências negativas tanto para a gestante quanto para o recém-nascido, é importante a aplicação de programas de prevenção à nível de atenção básica de saúde. Assim como sugere Yazlle (2009), isso poderia ser feito através da capacitação de profissionais médicos, enfermeiros, os que atuam na área da Educação, serviço social e psicologia, além do apoio de entidades governamentais e não governamentais, presentes na comunidade e que possam contribuir com um programa de prevenção da gravidez na adolescência e sua repetição.


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