Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 15 nº 1 - Jan/Mar - 2018

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Páginas 80 a 88


Síndrome Metabólica em adolescentes com Lúpus Eritematoso Sistêmico

Metabolic Syndrome in Adolescents with Systemic Lupus Erythematosus

Síndrome Metabólico en adolescentes con Lupus Eritematoso Sistémico


Autores: Jorgiane das Graças Vilar de Araujo1; Flavio Sztajnbok2; Denise Tavares Giannini3

1. Mestranda em Ciências pela Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil Nutricionista na Escola de Ciências da Saúde, da Universidade do Grande Rio (Unigranrio). Duque de Caxias, RJ, Brasil
2. Doutorado em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Reumatologista no Serviço de Reumatologia, do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA), do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
3. Doutorado em Ciências pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Nutricionista na Divisão de Nutrição, do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA), do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência:
Jorgiane das G. V. de Araujo
Estrada Professor Daltro Santos, 445, Campo Grande
Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP: 23092-205
(jo@jvnutricionista.com.br)

Recebido em 10/06/2017
Aprovado em 07/08/2017

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Como citar este Artigo

Descritores: Lúpus Eritematoso Sistêmico, síndrome X metabólica, adolescente.
Keywords: Lupus Erythematosus, Systemic, metabolic syndrome X, adolescent.
Palabra Clave: Lúpus Eritematoso Sistémico, síndrome X metabólica, adolescente.

Resumo:
OBJETIVO: Determinar a frequência de síndrome metabólica e de seus componentes em adolescentes com lúpus eritematoso sistêmico.
MÉTODOS: Foi realizado um estudo transversal no ambulatório de reumatologia do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Foram analisados adolescentes de 10 a 19 anos com diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico. A síndrome metabólica foi diagnosticada através dos critérios do International Diabetes Federation. Foram analisadas variáveis clínicas, sociodemográficas, laboratoriais e atividade física.
RESULTADOS: O estudo avaliou 42 adolescentes com média de idade de 16,8 ± 1,5 anos, sendo 37 (88%) do sexo feminino e cinco (12%) do sexo masculino. A Síndrome Metabólica foi diagnosticada em sete pacientes lúpicos (16,7%), sendo todos estes da faixa etária entre 17 a 19 anos. Sedentarismo, atividade de doença e condições socioeconômicas desfavoráveis foram as variáveis mais associadas à presença de síndrome metabólica nos adolescentes. Dentre os componentes que a integram, a circunferência da cintura elevada, hipertensão e HDL-c baixo foram os mais prevalentes.
CONCLUSÃO: Este estudo possibilitou concluir que os adolescentes que apresentaram maior prevalência de síndrome metabólica pertenciam ao sexo feminino, com faixa etária entre 17 a 19 anos, cursando ensino médio, com renda familiar menor que três salários mínimos. As características clínicas mais frequentes foram a obesidade, uso de antimaláricos, sedentários e com tempo de diagnóstico de doença no período de 1 a 3 anos.

Abstract:
OBJECTIVE: Determine the frequency of metabolic syndrome and its components in adolescents with systemic lupus erythematosus.
METHODS: A cross-sectional study was carried out at the Rheumatology Outpatient Clinic of the Center for the Study of Adolescent Health at Pedro Ernesto University Hospital. We analyzed adolescents from 10 to 19 years old with diagnosis of systemic lupus erythematosus. Metabolic syndrome was diagnosed through the criteria of the Internation Diabetes Federation. Were analyzed Clinical, sociodemographic, laboratorial variables, and physical activity.
RESULTS: The study evaluated 42 adolescents with a mean age of 16.8 ± 1.5 years, of which 37 (88%) were female and five (12%) were male. The Metabolic Syndrome was diagnosed in seven lupus patients (16.7%), all of whom were between 17 and 19 years old. Sedentarism, disease activity and unfavorable socioeconomic conditions were the variables most associated with the presence of metabolic syndrome in adolescents. Among the components that integrate it, high waist circumference, hypertension and low HDL-c were the most prevalent.
CONCLUSION: This study made it possible to conclude that the adolescents with the highest prevalence of metabolic syndrome belonged to the female sex, with ages ranging from 17 to 19 years old, attending high school, with a family income of less than three minimum wages. The most frequent clinical features were obesity, use of antimalarials, sedentary and with time of disease diagnosis in the period of 1 to 3 years.

Resumen:
OBJETIVO: Determinar La frecuencia de síndrome metabólico y de sus componentes en adolescentes con lupus eritematoso sistémico.
MÉTODOS: Fue realizado un estudio transversal en el ambulatorio de reumatología del Núcleo de Estudios de Salud del Adolescente del Hospital Universitario Pedro Ernesto. Fueron analizados adolescentes de 10 a 19 años con diagnóstico de lupus eritematoso sistémico. El síndrome metabólico fue diagnosticado a través de los criterios del International Diabetes Federation. Fueron analizadas variables clínicas, sociodemográficas, de laboratorio y actividad física.
RESULTADOS: El estudio evaluó 42 adolescentes con media de edad de 16,8 ± 1,5 años, siendo 37 (88%) del sexo femenino y cinco (12%) del sexo masculino. El Síndrome Metabólico fue diagnosticado en siete pacientes con lupus (16,7%), siendo todos éstos de la franja etaria entre 17 a 19 años. Sedentarismo, actividad de enfermedad y condiciones socioeconómicas desfavorables fueron las variables más asociadas a la presencia de síndrome metabólico en los adolescentes. Entre los componentes que la integran, la circunferencia de cintura elevada, hipertensión y HDL-c bajo fueron los más prevalentes.
CONCLUSIÓN: Este estudio posibilitó concluir que los adolescentes que presentaron mayor prevalencia de síndrome metabólico pertenecían al sexo femenino, con franja etaria entre 17 a 19 años, cursando enseñanza media, con renta familiar menor a tres salarios mínimos. Las características clínicas más frecuentes fueron la obesidad, uso de antimaláricos, sedentarios y con tiempo de diagnóstico de enfermedad en el período de 1 a 3 años.

INTRODUÇÃO

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença inflamatória autoimune, multissistêmica, de origem desconhecida que se caracteriza por apresentar diversos auto-anticorpos1. É descrito na literatura que pacientes lúpicos apresentam maior probabilidade de desenvolver eventos cardiovasculares, embora o seu mecanismo ainda seja desconhecido. Propõe-se que o próprio lúpus, por ser uma doença inflamatória, desencadeie ativação crônica do sistema imune, com maior estimulação de citocinas inflamatórias, levando à formação da aterosclerose prematura2.

Dentre os fatores de risco modificáveis para aterosclerose em adolescentes com LES destacam-se a obesidade, hipertensão arterial sistêmica (HAS), resistência à insulina, diabetes mellitus, dislipidemia - elevada lipoproteína de baixa densidade - Low Density Lipoprotein (LDL), aumento de triglicerídeos (TG) e baixa lipoproteína de alta densidade - High Density Lipoprotein (HDL), tabagismo, aumento de homocisteína e interleucinas (IL-1), (IL-6) e (IL-8)3. Os fatores não modificáveis incluem idade, sexo, genética e história familiar. Os fatores de risco cardiovasculares modificáveis são mais prevalentes em pacientes lúpicos, acarretando em alterações da integridade do endotélio vascular, com presença na fase ativa ou de remissão da doença4.

A síndrome metabólica (SM) é um conjunto de fatores de risco para doenças cardiovasculares, que incluem obesidade abdominal, resistência à insulina, hipertensão arterial e dislipidemia5. A SM se tornou um distúrbio frequente no Brasil, acometendo cerca de 7,5% a 30% da população brasileira, sendo considerada um grande problema de saúde pública6.

Estudo realizado com pacientes lúpicos evidenciaram alta prevalência de excesso de peso, o que aumenta em 50% a chance de desenvolvimento de SM7. Reforça-se a magnitude com que estes indivíduos são susceptíveis ao desenvolvimento de distúrbios metabólicos ao longo da terapêutica, sendo de grande importância a detecção precoce de alterações metabólicas que possibilitam medidas de estímulo à melhora da qualidade de vida e promoção da saúde8.Adicionalmente, destaca-se a carência de estudos sobre perfil metabólico de adolescentes com LES. Diante disto, o objetivo deste trabalho foi determinar a frequência de SM, e de seus componentes em adolescentes com LES.


MÉTODOS

Foi realizado um estudo do tipo transversal no ambulatório de reumatologia do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Participaram do estudo todos os adolescentes com o diagnóstico de LES9 de ambos os sexos, com idade entre 10 a 19 anos que assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Os critérios de exclusão foram incapacidade de ficar em ortostatismo ou em decúbito dorsal para realização da avaliação nutricional.

As medidas antropométricas realizadas foram peso (kg), medido por balança digital da marca Micheletti com capacidade para 200kg e graduação de 0,05kg, e estatura (cm) com auxílio de um estadiômetro fixado à parede da marca Sanny, com precisão de 0,1 cm. O índice de massa corporal (IMC) foi calculado através da relação peso (kg) /estatura (m2), com posterior classificação do estado nutricional, realizada através de critérios estabelecidos para adolescentes da Organização Mundial da Saúde (OMS)
em 200710. Para a medida da circunferência da cintura (CC) utilizou-se fita inelástica milimetrada no ponto médio entre a última costela fixa e a borda superior da crista ilíaca direita, medida ao final de uma expiração normal. Para a classificação da CC, utilizaram-se os parâmetros de Freedman11. Os critérios para diagnóstico de SM foram realizados de acordo com as recomendações da Internation Diabetes Federation (IDF)12 como mostra a tabela 1.




Os pacientes foram selecionados em grupos com um, dois ou mais de dois componentes da SM. Os critérios diagnósticos referidos pelo IDF (2007)12 foram a obesidade abdominal - que compreende a circunferência da cintura aumentada de acordo com percentil > 90 para idade e sexo, triglicerídeos > 150mg/dl, HDL < 40mg/dl, pressão sanguínea sistólica ≥ 130 e diastólica ≥ 80mmHg, ou uso de medicação hipotensora, glicemia de jejum ≥ 100mg/dl ou uso de medicação hipoglicemiante. Para avaliação da glicemia de jejum foi utilizado o método enzimático hexoquinase, para a dosagem de triglicerídeos, colesterol total e HDL utilizou-se o método colorimétrico enzimático. Os exames laboratoriais foram realizados no laboratório do próprio hospital após indicação de jejum de doze horas.

Dados referentes a escolaridade e renda familiar foram extraídos dos prontuários dos pacientes. A medida da pressão arterial (PA) foi realizada no braço direito com manguito apropriado, determinado pela circunferência braquial (CB), cobrindo aproximadamente 80% da distância entre o olécrano e o acrômio, através do método oscilométrico, com a utilização do equipamento Omron 705-IT®. Foram realizadas três medidas com intervalo de três minutos, após o adolescente descansar por cinco minutos. Foram considerados normotensos os adolescentes com PA sistólica e/ou diastólica abaixo do percentil 90 para altura, sexo e idade; com PA limítrofe, se a sistólica e/ou diastólica se situavam entre os percentis 90 e 95 e; como hipertensos, se a PA sistólica e/ou diastólica acima do percentil 9513.

Foi aplicado o Questionário Internacional de Atividade Física - Physical Activity 36 Questionnaire for Older Children (PAQ-C) na investigação do nível de atividade física. Aqueles que obtiveram escore > 300 minutos/semana foram classificados como ativos e aqueles com <300 minutos/ semana, inativos. Foram excluídos desta variável os indivíduos com nível superior a 2.100 minutos/ semana de atividade física14.

O índice SLEDAI (Systemic Lupus Erythematosus Disease Activity Index) foi utilizado para determinar atividade de doença nos adolescentes com LES15 e adotou-se ponto de corte um valor ≥ 3 para classificar atividade da doença. Analisou-se o uso, ou não, de corticoides e antimalárico, adotando como ponto de corte a administração contínua de, no mínimo, um mês de uso16.

Para a análise de dados, os mesmos foram primeiramente armazenados em planilha do software Excel versão 7. Posteriormente, foram analisados através do software STATA versão 10. As variáveis contínuas foram descritas por meio de média e desvio-padrão e as categóricas, por proporção. As variáveis foram testadas através do teste de Kolgomorov-Smirnov para verificar se as mesmas possuíam distribuição normal. Aquelas com distribuição normal foram comparadas através do teste t de Student, e as com distribuição não paramétrica, através do teste de Mann-Whitney. Para as variáveis categóricas, foi utilizado o teste do qui-quadrado. Para todas as análises, foi adotado um valor de (P<0,05) para significância.


RESULTADOS

Foram analisados 42 adolescentes, sendo 37 meninas (88%) e 5 meninos (12%). A média da idade foi de 16,8 ± 1,5 anos. Quanto à classificação do estado nutricional, obteve-se maior
número de indivíduos eutróficos (57,1%), seguidos de obesos (26,2%), com sobrepeso (12%) e baixo peso (4,7%). Observou-se que que 24 adolescentes usavam corticóides (57,2%) e 37 antimaláricos (88,1%). Em relação à atividade de doença, o índice SLEDAI esteve alterado em 23 pacientes (54,7%). Os demais resultados encontram-se na tabela 2.




Na análise individual dos componentes da SM evidenciou-se que 15 adolescentes (35,7%) apresentaram dois fatores de risco, 13 (30,9%) apresentaram um fator de risco e nenhum paciente apresentou os quatro componentes utilizados no critério da IDF. A SM foi diagnosticada em sete pacientes (16,7%). Destes, cinco (71%) eram do sexo feminino e dois (29%) do
sexo masculino. Dos sete adolescentes que foram diagnosticados com SM, todos se encontraram na faixa etária de 17 a 19 anos, sendo que seis destes (85%) possuíam renda familiar ≤ 3 salários mínimos. Neste mesmo contexto, observou-se que dentro do grupo com SM, cinco (71%) apresentavam SLEDAI ≥ 3. Como mostra a tabela 3, a média do IMC foi significativamente maior nos indivíduos com presença de SM (p=0,006) quando comparada com a média daqueles sem a SM (28,4kg/m2 vs 23,6kg/m2). Para a CC, foi verificada uma média estatisticamente significativa (p= 0,0006) naqueles com SM. Quanto à glicemia de jejum, a mesma obteve-se mais elevada nos adolescentes com SM. Um aspecto relevante neste trabalho foi o percentual de adolescentes sedentários no estudo (62,5%), e destes, 24% apresentaram a SM. Na tabela 4 encontra-se a frequência dos componentes da SM, onde a CC elevada, hipertensão e o baixo HDL foram os mais prevalentes.






DISCUSSÃO

Nesse estudo a frequência de SM foi de 16,7%. Ford et al. acharam predomínio de 4,5% de SM utilizando como referência de diagnóstico o IDF em uma população de adolescentes saudáveis americanos17. Outro estudo realizado com 79 adolescentes obesos, verificou-se prevalência de 45,5% de SM18. Quanto aos critérios de diagnóstico para SM estratificados em relação ao estado nutricional, no presente estudo confirmou-se que a SM foi mais prevalente em obesos (27,3%).

O percentual de excesso de peso mensurado no estudo foi de 38,2%. A pesquisa elaborada por Mina et al. com crianças e adolescentes com LES, evidenciou prevalência de 25% de obesidade em uma amostra com 202 pacientes, onde correlacionou-se este distúrbio metabólico com impacto negativo na qualidade vida, incluindo redução da capacidade física, disfunção social e emocional19. O trabalho realizado por Sinicato et al., revelou frequência de 31% de adolescentes lúpicos com obesidade, associado com elevados níveis de citocinas inflamatórias, com significância estatística para o TNF- alfa20.

O tratamento do LES é individualizado no que se diz respeito aos medicamentos administrados e suas dosagens, dependendo do grau de comprometimento de órgãos ou tecidos21. Os glicocorticoides são os fármacos mais utilizados no tratamento do LES, e suas doses diárias irão diferir de acordo com protocolo individualizado22. De acordo com pesquisa realizada por Mok et al., que avaliou 29 pacientes lúpicos por seismeses, observou-se que aqueles que utilizaram doses elevadas de corticóides tinham correlação com mudanças no IMC, elevação do percentual de gordura e redução de massa magra23. Neste estudo, mais da metade dos adolescentes lúpicos usavam corticóides e a maioria usava antimaláricos. Um estudo realizado por Reis et al.24 verificou frequência de 93,7% de uso de prednisona e 69,6% de antimaláricos.

A frequência de adolescentes considerados ativos de acordo com IPAQ-C foi de 37,5% (n=15). Considerando a amostra total, cerca de 62,5% (n=25) dos adolescentes analisados foram considerados sedentários, e destes, 24% (6) apresentavam SM, corroborando a importância da prática de atividade física na prevenção de fatores de risco para SM. A literatura reforça a importância na melhora da composição corporal de pacientes lúpicos com a prática de atividade física, assim como resistência ao exercício, melhor capacidade cardiorrespiratória e qualidade de vida, sem estimular atividade de doença25.

O índice SLEDAI, utilizado para classificar atividade de doença, esteve alterado em mais de 50% na amostra, indicando atividade de doença. Já em pesquisa realizada com mulheres lúpicas no Hospital Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (HU-UFMS), observou-se 22,1% de alteração26.

Após análise dos componentes isoladamente, a CC esteve alterada em 31% nos adolescentes com lúpus. Pressupõe-se que a elevação da CC se torna um agravante da SM em crianças e adolescentes, e poderia ser empregada para identificar risco de DCV na prática clínica27.

As médias de glicemia em jejum mantiveram-se mais elevadas nos adolescentes com SM quando contrastados naqueles sem SM. Um estudo realizado por Sánchez-Pérez et al. verificou presença de RI através das análises de HOMA-IR e peptídeo C em indivíduos com LES, quando comparados ao grupo controle28. Embora nossos dados não tenham verificado RI nos adolescentes lúpicos, sabe-se da importância na monitoração periódica deste parâmetro como forma de prevenção para as doenças crônicas não transmissíveis, como Diabetes mellitus29.

Níveis elevados de colesterol LDL e baixos de HDL estão intimamente relacionados com o processo de aterogênese30. Entretanto, neste estudo não foi encontrado valor significativo que relacionasse o HDL com a SM. Todavia, os valores de LDL e Colesterol total (CT), embora não façam parte do diagnóstico preconizado pela IDF, mantiveram-se elevados naqueles com presença de SM. A presença de dislipidemia agrava a progressão da aterosclerose, especialmente quando os níveis de CT, LDL e TG estiverem elevados e de HDL reduzidos31.

A HAS é um fator de risco independente para ocorrência de dano vascular aterosclerótico no lúpus. Rahman et al. descreveram importante associação entre HAS, hipercolesterolemia e eventos vasculares em pacientes com LES32. Na referida pesquisa, 50% dos avaliados apresentaram alteração na PA. Em estudo de Telles et al., o fator de risco mais prevalente para DCV nos pacientes lúpicos foi a HAS, presente em 48,8% dos indivíduos estudados33 .


CONCLUSÃO

No presente trabalho foi possível concluir que os indivíduos que apresentaram maior prevalência de SM foram adolescentes do sexo feminino, com faixa etária entre 17 a 19 anos, cursando ensino médio, renda familiar menor que três salários mínimos, obesos, utilizando remédios antimaláricos, sedentários e com tempo de diagnóstico de doença variando de um a três anos. Como limitação do estudo, expõe-se a ausência das doses individuais de corticóides utilizadas pelos adolescentes durante a realização da pesquisa.

A síndrome metabólica constitui um sério transtorno de saúde pública, sendo de extrema importância o acompanhamento de indivíduos em risco metabólico para que medidas de prevenção e controle sejam estabelecidas. Particularmente, a população jovem com LES pode apresentar ao longo da trajetória terapêutica, disfunções metabólicas com significativas complicações e o monitoramento precoce amenizam futuras intercorrências, principalmente a prevenção das DCNT's. Adicionalmente, estilos de vida saudáveis, como prática de atividade física e alimentação equilibrada são primordiais para a manutenção do estado nutricional adequado. Sendo assim, este trabalho alerta para o rastreamento de SM em adolescentes com LES, de forma que haja mais atenção para a detecção precoce de anormalidades metabólicas.


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