Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 15 nº 2 - Abr/Jun - 2018

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Páginas 7 a 18


Conhecimento dos adolescentes sobre contracepção e infecções sexualmente transmissíveis

Knowledge of teenagers about contraception and sexually transmitted infections

Conocimiento de los adolescentes sobre anticoncepción y infecciones sexualmente transmisibles


Autores: Lorena Zuza Cruz1; Magna Santos Andrade2; Gilvânia Patrícia do Nascimento Paixão3; Rudval Souza da Silva4; Kellyne Mayara do Nascimento Maciel5; Chalana Duarte de Sena Fraga6

1. Graduação em Enfermagem pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Senhor do Bonfim, BA, Brasil. Residente em Saúde da Família pelo Departamento de Saúde da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Lagarto, SE, Brasil
2. Doutoranda em Saúde na Comunidade pela Universidade de São Paulo (USP). Ribeirão Preto, SP, Brasil. Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Feira de Santana, BA, Brasil. Docente Assistente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Senhor do Bonfim, BA, Brasil
3. Doutorado em Enfermagem pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador, BA, Brasil. Docente Assistente do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Senhor do Bonfim, BA, Brasil
4. Doutorado em Enfermagem pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador, BA, Brasil. Docente Adjunto do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Senhor do Bonfim, BA, Brasil
5. Graduação em Enfermagem pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Senhor do Bonfim, BA, Brasil. Graduanda em Medicina pelo Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ). João Pessoa, PB, Brasil
6. Mestrado em Enfermagem pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador, BA, Brasil. Docente Auxiliar do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Senhor do Bonfim, BA, Brasil

Magna Santos Andrade
Universidade do Estado da Bahia, Rodovia Lomanto Junior
Br 407, Km 127. Senhor do Bonfim, BA, Brasil. CEP: 48970-000
(magnaenf@yahoo.com.br)

Submetido em 11/01/2017
Aprovado em 07/04/2017

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Como citar este Artigo

Descritores: Educação em enfermagem, adolescente, conhecimento, prevenção primária, sexualidade.
Keywords: Education, nursing, adolescent, knowledge, primary prevention, sexuality.
Palabra Clave: Educación en enfermería, adolescente, conocimiento, prevención primaria, sexualidad.

Resumo:
OBJETIVO: Descrever o conhecimento sobre métodos contraceptivos e infecções sexualmente transmissíveis entre adolescentes de escolas públicas do município de Senhor do Bonfim, Bahia.
MÉTODOS: Estudo descritivo de abordagem quantitativa, sendo pesquisados 185 adolescentes. Os dados foram coletados através de questionário estruturado auto aplicado.
RESULTADOS: Os pais foram a principal fonte de informação sobre sexualidade para 34,1% dos estudantes; 68,2% afirmaram que o método mais adequado para evitar gravidez na adolescência é o preservativo; 98,9% sabem que o preservativo é o método mais adequado para prevenir infecções sexualmente transmissíveis; 38% disseram que pode se contaminar por infecções sexualmente transmissíveis compartilhando o mesmo vaso sanitário e/ou toalha.
CONCLUSÃO: Os adolescentes conhecem os métodos de prevenção, todavia, ainda é evidente a presença que há equívoco e compreensão deturpada sobre alguns mecanismos de contaminação. Compreender os conhecimentos dos adolescentes é fundamental para a estruturação de estratégias que consolidem informações adequadas e que possibilitem reduzir os casos de infecções sexualmente transmissíveis e gestação não planejada.

Abstract:
OBJECTIVE: Describe the knowledge about contraception and sexually transmitted infections among adolescents from public schools in the city of Senhor do Bonfim, Bahia.
METHODS: A descriptive and quantitative study with 185 adolescents. Data were collected through structured self-applied questionnaire.
RESULTS: The parents were the main source of information about sexuality for 34.1% of students; 68.2% said that the condom was the most appropriate method to avoid pregnancy; 98.9% know that the condom is the appropriate method to prevent sexually transmitted infections; 38% said they may be contaminated with sexually transmitted infections by sharing a toilet sit and/or towel.
CONCLUSION: Teenagers know the methods of prevention, however, mistaken and distorted understanding about contamination mechanisms are still evident. Understand the knowledge of adolescents is key for developing strategies that strengthen appropriate information and reduce cases of sexually transmitted infections and unplanned pregnancy.

Resumen:
OBJETIVO: Describir el conocimiento sobre métodos contraceptivos y infecciones sexualmente transmisibles entre adolescentes de escuelas públicas del municipio de Senhor do Bonfim, Bahía.
MÉTODOS: Estudio descriptivo de enfoque cuantitativo, siendo investigados 185 adolescentes. Los datos fueron recogidos a través de un cuestionario estructurado auto aplicado.
RESULTADOS: Los padres fueron la principal fuente de información sobre sexualidad para el 34,1% de los estudiantes; 68,2% afirmaron que el método más adecuado para evitar el embarazo en la adolescencia es el preservativo; 98,9% saben que el preservativo es el método más adecuado para prevenir infecciones sexualmente transmisibles; 38% dijeron que se puede contaminar por infecciones sexualmente transmisibles compartiendo el mismo inodoro sanitario y/o toalla.
CONCLUSIÓN: Los adolescentes conocen los métodos de prevención, sin embargo, todavía es evidente la presencia equivocaciones y comprensión distorsionada sobre algunos mecanismos de contaminación. Comprender los conocimientos de los adolescentes es fundamental para la estructuración de estrategias que consoliden informaciones adecuadas y que posibiliten reducir los casos de infecciones sexualmente transmisibles y embarazo no planificado.

INTRODUÇÃO

A adolescência é uma etapa de crescimento e desenvolvimento do ser humano, situada entre a infância e a fase adulta, marcada por transformações físicas, psíquicas e sociais, sendo definida pela Organização das Nações Unidas como a faixa etária que compreende dos 10 aos 19 anos de idade1.

A precocidade no início da vida sexual entre os adolescentes é uma característica cada vez mais notória e esses jovens podem se deparar com situações inusitadas como Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e contaminação pelo Vírus da Imunodeficiência Humana Adquirida (HIV)/Síndrome da Imunodeficiência Humana (AIDS). Além disso, é na adolescência que a sexualidade se manifesta de forma mais evidente, e devido ao despreparo do jovem em lidar com esse aspecto, não apenas os riscos de infecção por ISTs aumentam, mas também se elevam as chances de uma gravidez indesejada2-3.

Desde o início da epidemia da AIDS em 1980, até junho de 2014, o Brasil teve 756.998 casos registrados de HIV/AIDS. A maior concentração dos casos no Brasil abrange a faixa etária de 25 a 39 anos, porém 81.205 dos casos aconteceram no grupo entre 15 e 24 anos. Nos últimos 10 anos houve um aumento da taxa de detecção, sendo observado aumento da incidência de 53,2 % entre os jovens de 15 a 19 anos e 10,4% no grupo de 20 a 24 anos4. Em relação à gravidez na adolescência, no ano de 2013, aproximadamente 20% dos nascidos-vivos foram de mães adolescentes5.

Os métodos de prevenção e contracepção são conhecidos por grande parte da população em idade reprodutiva, bem como por profissionais de saúde e educadores. Porém, entre os adolescentes, nem sempre é explorada a questão da eficácia e uso desses métodos, sendo essa informação de extrema importância para a prática da prevenção6.

O Brasil é um país extenso em território e diverso em relação aos aspectos culturais, sociais e econômicos de sua população, por isso, compreender a visão dos jovens das diversas localidades sobre os fatores que envolvem o planejamento reprodutivo e as ISTs é fundamental para a estruturação e implementação de estratégias que atendam os adolescentes de maneira equânime.


OBJETIVO

Descrever o conhecimento sobre métodos contraceptivos e Infecções Sexualmente Transmissíveis entre adolescentes de escolas públicas do município de Senhor do Bonfim, Bahia (BA).


MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo de abordagem quantitativa, realizado em escolas estaduais da zona urbana do município de Senhor do Bonfim - BA, e consiste em um recorte de um projeto de pesquisa intitulado "Adolescência e Sexualidade".

Foram pesquisados 185 adolescentes. Inicialmente a proposta era realizar um censo e estudar os 457 alunos matriculados no terceiro ano do ensino médio de três escolas, que estivessem dentro dos critérios de inclusão. No entanto, a grande evasão escolar observada nas salas de aula inviabilizou que o total de adolescentes de 14 a 19 anos fosse pesquisado.

Os critérios de inclusão considerados foram: adolescentes de ambos os sexos, dentro da faixa etária de 14 a 19 anos regularmente matriculados no terceiro ano do ensino médio das três escolas estaduais localizadas na zona urbana do município de Senhor do Bonfim no ano de 2014.

Os dados foram coletados através de um questionário estruturado auto aplicado, desenvolvido a partir da revisão de literatura e do questionário produzido pela Organização Mundial de Saúde elaborado para a verificação da saúde dos adolescentes7. Foi realizado um pré-teste com 17 alunos do ensino médio de uma das escolas estaduais e posteriormente o instrumento foi ajustado de acordo com as demandas que surgiram durante a sua aplicação. O questionário final foi constituído por 52 questões, divididas em cinco blocos: 1) características socioeconômicas e familiares; 2) fontes de informação e conhecimento sobre saúde reprodutiva; 3) relacionamento e uso de contraceptivos; 4) conhecimento sobre HIV/AIDS e IST; 5) preservativo, conhecimentos e atitudes. Dessas 52 questões, 29 abordavam aspectos sobre o conhecimento dos adolescentes em relação à educação sexual, contracepção e IST.

O questionário foi aplicado aos adolescentes em suas respectivas salas de aula, sendo que inicialmente, os jovens foram orientados pelos pesquisadores sobre os objetivos do estudo, preenchimento do instrumento, e na condição de aceite em participar da pesquisa era realizada a leitura e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (jovens maiores de idade) e do Termo de Assentimento (jovens menores de idade). Em relação aos menores de idade, foi realizada uma reunião prévia com os pais e responsáveis onde os mesmos assinaram o TCLE para autorização da participação do jovem no estudo. A coleta de dados foi realizada entre os meses de setembro a novembro de 2014.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado da Bahia, com base na Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, e recebeu o parecer de aprovação n° 558.605.

Os dados coletados foram armazenados em banco de dados, processados e analisados no programa Statical Package for Social Sciences (SPSS) versão 9.0. Na primeira etapa, com o objetivo de avaliar a qualidade da digitação, foi realizada análise da consistência do banco de dados com a listagem das frequências simples das variáveis e posteriormente foram corrigidos os erros de digitação encontrados. Em seguida foi desenvolvida análise exploratória e descritiva da amostra estudada através do cálculo das frequências absolutas das variáveis pesquisadas.


RESULTADOS

O estudo foi constituído por 185 adolescentes na faixa etária de 16 a 19 anos de idade, não havendo jovens com menos de 16 anos nas turmas pesquisadas. A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas do grupo estudado, onde 83,3% (n=150) residiam na zona urbana, 60% (n=111) eram do sexo feminino, 31,4% (n=58) tinham idade entre 16 a 17 anos, 93,0% (n=172) não tinham filhos, 72,3% (n=133) consideravam-se de cor preta/parda, 88,0% (n=162) eram solteiros, 55,5% (n=102) denominaram-se católicos e 79,2% (n=145) tinham renda familiar mensal menor que um salário mínimo.




A Tabela 2 apresenta os resultados referentes à fonte de informação sobre sexualidade, sendo observado que para um terço dos jovens os pais constituem a principal fonte de informação sobre sexualidade. 78,4% (n=145) referiram que já assistiram alguma aula sobre sexualidade e 96,2% (n=178) afirmaram que deveriam ter mais aulas sobre sexualidade na escola.




Com relação ao conhecimento sobre planejamento familiar e prevenção de ISTs, a Tabela 3 mostra que para 68,2% (n=116) dos pesquisados o preservativo é o método mais adequado para evitar gravidez na adolescência. Quanto aos mecanismos conhecidos para evitar ISTs, 98,9% (n=182) referiram o preservativo.




Sobre o conhecimento referente às ISTs e seus sintomas, observa-se na Tabela 4 que 98,4% (n=182) dos estudantes já ouviram falar sobre HIV/AIDS e, a respeito de quais sintomas um indivíduo com IST poderia apresentar, aproximadamente dois terços apontaram a presença de úlceras, feridas e coceira no pênis ou vagina.




A tabela 5 traz a opinião sobre aspectos relacionados às ISTs e ao uso do preservativo. 38% (n=69) dos adolescentes referiram que pode haver contaminação por ISTs compartilhando o mesmo vaso sanitário e/ou toalha, 13% (n=23) concordaram que o contágio de ISTs pode ocorrer sentando no local que a pessoa infectada estava sentada.




Observa-se que 45% (n=81) assinalaram que o preservativo diminui o prazer da relação sexual, 30% (n=56) afirmaram que o preservativo pode sair do pênis e sumir dentro do corpo da mulher durante a relação sexual. Para 19,9% (n=36) dos jovens o preservativo é adequado para usar apenas em relações eventuais, 17,7% (n=32) concordaram com a afirmativa que o uso de dois preservativos ao mesmo tempo aumenta a chance de prevenção (Tabela 5).

Dentre os pesquisados, 9% (n=16) concordaram com o fato de não haver necessidade de usar preservativo na primeira relação, pois não há risco de gestação, 5,5% (n=10) afirmaram que não precisa usar preservativo na primeira relação por não haver risco de contágio de ISTs (Tabela 5).


DISCUSSÃO

No presente estudo, a principal fonte de informação sobre sexualidade citada pelos jovens, foram seus pais (34,1%, n=58). Em pesquisa realizada na cidade de Bauru-SP com estudantes de uma escola da rede pública, a proporção de jovens que tinham os pais como principal fonte de informação foi ainda maior (82%)8. Até pouco tempo atrás, temas relacionados com a sexualidade eram considerados dentro das famílias como tabus, sendo repreendidos e silenciados. Atualmente, em alguns núcleos familiares esse tema tem sido discutido de forma transparente através do diálogo e da busca de apoio profissional, quando necessário9.

A figura do professor ficou em sexto lugar em relação às fontes de informação, o que difere de pesquisas realizadas em Goiânia-GO e na Grâ-Bretanha onde cerca de 80% dos jovens informaram que o principal local para informações sobre sexualidade é a escola10,11. A não observação do professor entre as fontes de informação mais importantes no presente estudo é preocupante, o que faz questionar a importância da escola no desempenho de sua função social enquanto educadora, além de ser um espaço de convivência diária do adolescente, devendo ser um lugar onde o jovem possa levar e esclarecer dúvidas, questionamentos, principalmente relacionados à sexualidade.

É perceptível também, que a mídia tem importante participação na aquisição de conhecimentos referentes aos aspectos relacionados à sexualidade, onde a internet assumiu a segunda posição em relação às principais fontes de informações para os jovens das escolas pesquisadas. Os meios de comunicação possuem ampla difusão e o valor atribuído a eles pode ser preocupante, pois não são mecanismos mais adequados para se obter esclarecimentos suficientes sobre o tema10, já que muitas vezes informações equivocadas são divulgadas e nem sempre a abordagem é adequada para a sensibilização dos jovens.

Quase a totalidade dos adolescentes estudados apontou a necessidade de mais aulas sobre sexualidade na escola. Em pesquisa realizada com estudantes de uma escola estadual de São Paulo-SP, 54,7% dos jovens disseram que a escola não realiza orientação sexual3. Além da escassez de atividades que discutam aspectos referentes à sexualidade, nas ocasiões em que essas ações são desenvolvidas, as escolas direcionam a discussão para um enfoque biológico, onde a dimensão subjetiva da sexualidade é deixada de lado fazendo com que o conhecimento adquirido seja distante do que é vivenciado pelo aluno, e tal abordagem normalmente não corresponde às expectativas sobre as dúvidas e questionamentos dos adolescentes3.

Em relação aos métodos que acham mais adequados para a contracepção na adolescência, o preservativo foi o mais citado (68,2%, n=116). Mas, é importante destacar que só citar o método não significa que necessariamente haja o conhecimento apropriado sobre o seu uso, vantagens, desvantagens e formas de acesso12.

Quanto aos métodos conhecidos para prevenir ISTs, o preservativo também foi referido por quase a totalidade dos alunos analisados (98,9%, n=182). Resultado semelhante foi observado em estudo realizado em duas escolas públicas do Rio de Janeiro-RJ5.

Embora os jovens tenham algum conhecimento sobre como prevenir as ISTs, observa-se a tendência de crescimento da AIDS na população jovem5. Dessa forma, reforçar as concepções sobre ISTs e HIV/AIDS pode possibilitar o processo de reflexão e ação do adolescente reduzindo a sua vulnerabilidade a essas enfermidades13.

A IST mais conhecida pelo grupo pesquisado foi a HIV/AIDS (98,4%, n=182), fato observado em outros estudos realizados em Araçatuba-SP e Canoas-RS, onde 91,2% e 92,3%, respectivamente, dos jovens conheciam essa patologia14-15. Em relação aos demais tipos de infecções, mais da metade dos jovens referiram conhecer a Gonorreia, Sífilis, Hepatite, Herpes genital e o Papilomavírus Humano (HPV) como doenças de transmissão sexual. Em um estudo realizado em Araçatuba-SP verificou-se que a maioria dos jovens apontou conhecer, além da HIV/AIDS, Herpes, HPV, Gonorreia, Sífilis e o Condiloma14. Dessa forma, percebe-se que esses adolescentes conhecem uma média de cinco a seis ISTs, o que mostra um bom nível de informação em relação às infecções existentes.

Sobre o conhecimento relativo aos sintomas que um indivíduo pode apresentar ao adquirir IST, mais da metade dos jovens citaram na seguinte frequência decrescente: úlceras e feridas, coceira, corrimento- sejam no pênis ou vagina, e dor ao urinar. Uma pesquisa realizada com estudantes de Embu-SP mostrou que a presença de feridas nos órgãos genitais também foi o sintoma mais apontado, seguido do corrimento e coceira nestes órgãos16, corroborando com o presente estudo como os três sinais e sintomas mais conhecidos. Conhecer os sinais e sintomas mais comuns decorrentes de contaminação por ISTs pode contribuir para o autocuidado dos adolescentes, pois o reconhecimento da sintomatologia representa um alerta para a procura por serviços de saúde para a realização do diagnóstico e tratamento.

É importante destacar que no presente estudo observou-se a existência de mitos, preconceitos e fantasias envolvendo questões sobre sexualidade, como a possibilidade de contaminação por ISTs ao compartilhar a mesma toalha ou pelo fato de sentar-se no mesmo local que a pessoa infectada estava sentada. O conhecimento equivocado aliado à falta de informação e às condições biológicas aumenta a vulnerabilidade para a transmissão de ISTs na adolescência17. Além disso, a disseminação de conceitos errôneos sobre a contaminação por ISTs pode acarretar comportamentos preconceituosos nos casos onde se conhece quem é o portador da infecção, podendo gerar estigmas nestes jovens, o que pode levar a sequelas psicológicas e sociais na vida do adolescente.

Foi apontado por quase metade dos jovens que o preservativo diminui o prazer da relação sexual. No estudo com alunos de um colégio municipal de Canoas-RS, foi observado que 28,5% dos adolescentes consideraram que o preservativo interfere de modo negativo no prazer sexual15. Deve-se destacar que opiniões como essa podem contribuir para o abandono do uso do preservativo pelos adolescentes.

A ideia de que o preservativo é adequado para usar apenas em relações eventuais foi informada por 9,9% (n=36) dos pesquisados. Essa concepção foi corroborada por uma pesquisa com jovens matriculados em escolas públicas do Estado da Paraíba que mostrou que a utilização do preservativo também estava associada a parceiros ocasionais18. Assim, observa-se que o tipo de envolvimento afetivo, como o status de relacionamento "ficar" ou namorar pode interferir no uso do preservativo, e que o preservativo além de ser visto como uma barreira ao prazer sexual pode estar associado à infidelidade ou à desconfiança, sendo utilizado apenas em relacionamentos com parceiros "não conhecidos"19.

Outra questão importante foi em relação à primeira relação sexual e a não utilização do preservativo, pois alguns entrevistados afirmaram que a mulher não tem risco de engravidar (9%, n=16) e de adquirir ISTs (5,5%, n=10) na primeira relação. A não utilização do preservativo além de estar associado à inexperiência e dificuldade no manejo, ocorre também pela presença de crenças que na primeira relação sexual não é possível engravidar ou infectar por IST20.

A utilização de métodos contraceptivos depende de uma série de fatores, entre os quais estão questões financeiras e de acesso aos métodos, assim como o grau de liberdade e autonomia alcançadas na adolescência.

Como limitações do estudo tem-se o fato de alguns jovens não terem respondido algumas das questões propostas. Em pesquisas com adolescentes, há possibilidade dos participantes não responderem as questões de modo fidedigno, principalmente as perguntas relacionadas ao início da relação sexual, número de parceiros e uso de métodos de contracepção e prevenção, pois mesmo sendo garantido o sigilo na pesquisa, os adolescentes podem ter receio que aspectos relacionados à sua intimidade sejam descobertos. A grande evasão escolar também foi outra limitação que inviabilizou o estudo de uma amostra maior.


CONCLUSÃO

O estudo mostra que os pais têm um papel preponderante na educação sexual dos seus filhos na adolescência, percebe-se assim, que a família vem adquirindo espaço e notoriedade dentro das discussões sobre sexualidade com os jovens. No entanto, a escola não teve um papel de relevância em relação à educação sexual no presente estudo, e os próprios jovens demostram a necessidade de mais aulas e atividades sobre a temática.

É necessário também, avaliar o papel da mídia diante da disseminação dessas informações para os adolescentes, pois em um contexto de acesso fácil e rápido à diversas informações, as mesmas podem tanto auxiliar na difusão e construção do conhecimento, como também não ser uma fonte suficiente de esclarecimentos, podendo gerar dúvidas e entendimentos dúbios e imprecisos relativo aos aspectos sexuais.

Observou-se que os adolescentes possuem um conhecimento adequado sobre métodos de prevenção de IST e contracepção, mas alguns ainda mostram conhecimento equivocado, como a crença de que não há possibilidade de adquirir uma IST ou ocorrer uma gestação na primeira relação sexual.

Neste contexto, é necessário compreender o conhecimento dos adolescentes e identificar as lacunas presentes, para que estratégias possam ser estruturadas e implementadas por famílias, escolas e profissionais de saúde, melhorando a educação sexual desses jovens, reduzindo deste modo os riscos de gravidez indesejada e contaminação por ISTs.


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