Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 15 nº 2 - Abr/Jun - 2018

Artigo Original Imprimir 

Páginas 29 a 38


Vidas perdidas: análise descritiva do perfil da mortalidade dos adolescentes no Brasil

Lost lives: a descriptive analysis of the profile of adolescent´s mortality in Brazil

Vidas perdidas: análisis descriptivo del perfil de la mortalidad de los adolescentes en Brasil


Autores: Caroline da Rosa

Doutoranda em Epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil

Caroline da Rosa
Rua Professor Fitzgerald, 177, Petrópolis
Porto Alegre, RS, Brasil. CEP: 90470-160
(caroliner2007@gmail.com)

Submetido em 27/06/2017
Aprovado em 10/07/2017

PDF Português            

Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, mortalidade, causas de morte.
Keywords: Adolescent, mortality, cause of death.
Palabra Clave: Adolescente, mortalidad, causas de muerte.

Resumo:
OBJETIVO: Realizar uma análise descritiva do perfil epidemiológico da mortalidade dos adolescentes no Brasil no quinquênio de 2008 a 2012.
MÉTODOS: Estudo epidemiológico observacional, descritivo, retrospectivo, baseado em dados secundários obtidos no DATASUS - Sistema de Informação sobre Mortalidade. As variáveis socioeconômicas estudadas foram: sexo, cor/raça, escolaridade e estado civil. Foi analisada a causa da morte de acordo com os capítulos do CID-10. Esse estudo utiliza-se da estatística descritiva e do cálculo do coeficiente de mortalidade específico por idade para a análise dos dados.
RESULTADOS: Na série temporal analisada foram registradas 126.031 mortes de adolescentes. O ano de 2012 apresentou o maior registro de mortes e aumento do coeficiente de mortalidade específico por idade. Os adolescentes do sexo masculino corresponderam a 75,26% dessa população. Foram predominantes a cor de pele parda (52,22%), escolaridade de 4 a 7 anos de estudo (35,63%) e o estado civil solteiro (92,02%). As causas externas de morbidade e mortalidade representaram 66,25% das mortes no período. Identificou-se que, entre as causas externas, a agressão foi a mais frequente (51,62%) seguido dos acidentes de transporte (25,62%). O sexo masculino é acometido com uma frequência muito maior que o sexo feminino nas mortes por causas externas em adolescentes.
CONCLUSÃO: As causas externas foram responsáveis por dois terços das mortes de adolescentes no Brasil. Para que o adolescente possa ter o direito a vida garantido, é necessária uma articulação intersetorial, sendo o Sistema Único de Saúde um importante local de promoção de saúde no seu conceito mais amplo.

Abstract:
OBJECTIVE: Perform a descriptive analysis of the epidemiological profile of adolescent´s mortality in Brazil in the five-year period from 2008 to 2012.
METHODS: An observational, descriptive, retrospective epidemiological study based on secondary data obtained from the DATASUS - Mortality Information System. The socioeconomic variables studied were: gender, color / race, education level and marital status. The cause of death was analyzed according to the ICD-10 chapters. This study uses the descriptive statistics and the calculation of the age-specific mortality rate for data analysis.
RESULTS: In the analyzed time series were recorded, 126.031 adolescent deaths. The year 2012 presented the highest death register and increase of the age-specific mortality coefficient. The male adolescents corresponded to 75.26% of this population. Brown skin color were predominant (52.2%) in the analyzed adolescent, as well as having 4-7 years of scholarity (35.36%) and single marital status (92.02%). External causes of morbidity and mortality accounted for 66.25% of deaths in the period. It was identified that, among external causes, assault was the most frequent (51.62%) followed by transport accidents (25.62%). The male adolescents are more prone to death by external factors than females.
CONCLUSION: External causes were responsible for two thirds of the adolescents Brazilian deaths. In order for the adolescent to have his right to a guaranteed life, it is necessary an intersectoral action, where the Unified Health System has an important place of health promotion in its broadest concept.

Resumen:
OBJETIVO: Realizar un análisis descriptivo del perfil epidemiológico de la mortalidad de los adolescentes en Brasil en el quinquenio de 2008 a 2012.
MÉTODOS: Estudio epidemiológico observacional, descriptivo, retrospectivo, basado en datos secundarios obtenidos en el DATASUS - Sistema de Información sobre Mortalidad. Las variables socioeconómicas estudiadas fueron: sexo, color / raza, escolaridad y estado civil. Se analizó la causa de la muerte de acuerdo con los capítulos del CID-10. Este estudio se utiliza de la estadística descriptiva y del cálculo del coeficiente de mortalidad específico por edad para el análisis de los datos.
RESULTADOS: En la serie temporal analizada se registraron 126.031 muertes de adolescentes. El año 2012 presentó el mayor registro de muertes y el aumento del coeficiente de mortalidad específico por edad. Los adolescentes del sexo masculino correspondieron al 75,26% de esa población. En la mayoría de los casos, el color de piel parda (52,22%), la escolaridad de 4 a 7 años de estudio (35,63%) y el estado civil soltero (92,02%). Las causas externas de morbilidad y mortalidad representaron el 66,25% de las muertes en el período. Se identificó que, entre las causas externas, la agresión fue la más frecuente (51,62%) seguida de los accidentes de transporte (25,62%). El sexo masculino es acometido con una frecuencia mucho mayor que el sexo femenino en las muertes por causas externas en adolescentes.
CONCLUSIÓN: Las causas externas fueron responsables de dos tercios de las muertes de adolescentes en Brasil. Para que el adolescente pueda tener el derecho a la vida garantizado, es necesaria una articulación intersectorial, siendo el Sistema Único de Salud un importante lugar de promoción de salud en su concepto más amplio.

INTRODUÇÃO

A adolescência é caracterizada por ser uma das fases mais rápidas do desenvolvimento humano. Além das transformações físicas e biológicas, a adolescência também é caracterizada por um período de vulnerabilidade física, psicológica e social com complexas mudanças. No entanto, é necessário considerar um fato importante: tanto o desenvolvimento biológico, quanto o psicológico e social vão depender do contexto sociocultural no qual se insere a família do adolescente, delineando assim suas possibilidades e limitações1.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define os limites cronológicos da adolescência dos 10 aos 19 anos de idade, ou seja, a segunda década de vida2. Esse critério é adotado no Brasil pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Estima-se que os adolescentes representam 18% da população mundial3. No Brasil, os adolescentes representaram 17,91% da população brasileira no ano de 2010, dado que corrobora com a estimativa global. Analisando os dados demográficos observa-se que o Brasil atravessa um declínio no número de adolescentes: no censo de 2000 os adolescentes representaram 20,78% da população brasileira, no censo em 1991 representaram 21,82% e no censo de 1980 representavam 23,38%4.

Diversos autores e publicações oficiais salientam a complexidade da adolescência5-6-7-8, onde os adolescentes atravessam um processo dinâmico de maturação. É uma fase de grandes transformações corporais concomitantemente com o surgimento de novas habilidades cognitivas.

O seu novo papel na sociedade traz consigo um constante questionamento de valores. Todas essas modificações resultam em uma predisposição a novas experiências testando atitudes e situações que podem ameaçar sua saúde presente e futura, como por exemplo: acidentes, gravidez não planejada, doenças sexualmente transmissíveis, uso de drogas e distúrbios alimentares6.

De acordo com a OMS, as taxas de mortalidade na adolescência são baixas em comparação com outras faixas etárias, e têm mostrado um leve declínio na última década. Globalmente, as principais causas de morte entre os adolescentes são acidentes de trânsito, AIDS, suicídio, infeções respiratórias inferiores e violência interpessoal2. Um estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância em 2011, também aponta que os riscos à sobrevivência e à saúde do adolescente têm diversas causas, inclusive acidentes, aids, gestação precoce, abortos inseguros, comportamentos de risco, problemas de saúde mental e violência3.

No Brasil, as causas da mortalidade dos adolescentes é uma preocupação que assola a saúde pública há tempos9-10-11. A vulnerabilidade e riscos aos quais essa faixa etária está exposta demostra que um grande número de adolescentes tem a sua vida interrompida, tendo a morbidade e mortalidade com as causas externas centrais desse fato12. Este estudo tem o objetivo de realizar uma analisar descritiva do perfil epidemiológico da mortalidade dos adolescentes no Brasil no quinquênio de 2008 a 2012. A análise proposta visa dar visibilidade ao tema para que ações mais eficazes possam ser direcionadas a políticas públicas voltadas a garantir ao adolescente o direito à vida.


MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico observacional, descritivo, retrospectivo, baseado em dados secundários obtidos no DATASUS - Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Este sistema é gerido pelo Departamento de Análise de Situação de Saúde, da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, em conjunto com as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde. As Secretarias de Saúde coletam as Declarações de Óbitos dos cartórios e inserem as informações nelas contidas no SIM. Uma das informações primordiais é a causa básica de óbito, a qual é codificada a partir do declarado pelo médico atestante, segundo regras estabelecidas pela OMS.

Foram coletados dados referentes a mortalidade dos adolescentes no Brasil. Como a OMS estabelece que os adolescentes estão inseridos na faixa dos 10 aos 19 anos de idade, foram selecionadas no DATASUS duas faixas etárias: uma dos 10 aos 14 anos, e outra dos 15 aos 19 anos. O caminho seguido na base de dados foi DATASUS - Informações de Saúde (TabNet) - Estatísticas Vitais - Mortalidade4. No SIM, as declarações de óbito estão codificadas utilizando-se a 10ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças - CID-10. Para essa análise foi considerada óbitos por residência, ou seja, número de óbitos ocorridos contados segundo o local de residência do falecido.

A série temporal analisada foi do ano de 2008 ao de 2012 por serem os anos em que os dados demográficos e socioeconômicos da população residente estavam publicados integralmente no portal do DATASUS, permitindo dessa forma o cálculo do coeficiente de mortalidade específico por faixa etária no território nacional e em cada unidade federativa. Para fins de comparação foram utilizados dados demográficos da população residente de outros anos. Todos os dados desse estudo foram extraídos do portal do DATASUS4.

As variáveis socioeconômicas estudadas foram: sexo, cor/raça, escolaridade e estado civil.

A causa da morte foi analisada de acordo com os capítulos do CID-10. O capítulo XX do CID-10, que se refere as causas externa de morbidade e mortalidade, foi detalhado utilizando a lista de elementos do CID-BR-10.

Os dados coletados foram tabulados através de uma planilha eletrônica (programa Excel® versão 2010). Esse estudo utiliza-se da estatística descritiva e do cálculo do coeficiente de mortalidade específico por idade para a análise dos dados.

A presente pesquisa utiliza somente dados secundários de banco de dados de domínio público. Por esse motivo é dispensada da necessidade de aprovação em Comitê de Ética em Pesquisa, conforme preconizado pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) n° 466/12.


RESULTADOS

Na série temporal analisada foram registradas 126.031 mortes de adolescentes no Brasil. O ano de 2012 foi o ano com maior registro de mortes dessa população, contabilizando 26.979 mortes. Com base nos dados analisados foi constado que as mortes de adolescentes representaram em média 2,22% do total de mortes da população brasileira. Em quinquênios anteriores, nos anos de 2001 a 2005 as mortes de adolescentes representaram 2,56% do total de mortes no Brasil e no quinquênio de 1996 a 2000 estas representaram 2,78%.

Na Tabela 1 estão tabuladas as características socioeconômicas dos adolescentes que foram a óbito no Brasil no período em estudo. Observa-se que os adolescentes do sexo masculino correspondem a 75,26% dessa população, e a cor parda foi predominante em 52,22% dos casos. A maior frequência de escolaridade da população foi de 4 a 7 anos de estudo que representou 35,63% sendo que a segunda maior frequência foi registrada para o item ignorado (25,89%). Os adolescentes que foram a óbito no período eram predominantemente do estado civil solteiro (92,02%).




O coeficiente de mortalidade específico por faixa etária, calculada por 100.000 habitantes dos 10 aos 19 anos, foi maior em 2012 do que nos outros anos da série sendo que apresentou um aumento considerável de 2011 para 2012, em que esse coeficiente passou de 73,36 para 77,65. Quando o coeficiente de mortalidade específico para a faixa etária é analisado por unidades federativas, identificou-se que o Estado do Paraná na região sul, do Rio de Janeiro e do Espírito Santo na região sudeste, da Bahia, Alagoas e Pernambuco na região nordeste e o Estado do Pará na região norte apresentaram em todos os anos analisados o seu coeficiente acima do coeficiente nacional. O Estado de São Paulo apresentou o menor coeficiente em todos os anos analisados. Nos anos de 2008 e 2009, o maior coeficiente foi registrado no Estado do Espírito Santo, já nos anos de 2010, 2011 e 2012 o Estado de Alagoas contabilizou o maior número de mortes de adolescentes em relação a população nessa faixa etária (Tabela 2).




As mortes por causas externas de morbidade e mortalidade, incluídas no capítulo XX do CID-10, são identificadas com a principal causa de morte dos adolescentes no Brasil. As causas externas representaram 66,25% das mortes da população de 10 aos 19 anos na série temporal analisada. A segunda causa de morte mais frequente entre os adolescentes foram as neoplasias, capítulo II do CID-10, com 6,56%. Esses dados estão representados na Tabela 3.




As causas externas foram analisadas detalhadamente utilizando a lista de elementos do CID-BR-10. Identificou-se que a agressão representou 51,62% das mortes por causa externas no período analisado, seguido dos acidentes de transporte (25,62%) (Tabela 4). O ano de 2012 foi o ano da série temporal em ocorreu a maior frequência de mortes por agressão no período, chegando a representar 36,45% do total das mortes de adolescentes no ano.




Na Tabela 4 também está representada a frequência das causas externas, detalhada pela lista de elementos do CID-BR-10, separada pelos gêneros feminino e masculino. Observa-se que o sexo masculino é acometido com uma frequência muito maior que o sexo feminino nas mortes por causas externas. O envolvimento do sexo masculino nas mortes por causas externas foi de 85,24% enquanto o sexo feminino foi de 14,76%.


DISCUSSÃO

Nesse estudo foi encontrado o alarmante dado de que 66,25% das mortes de adolescentes são ocasionadas por causas externas, capítulo XX do CID-10. As causas externas são traumatismos, lesões ou quaisquer outros agravos à saúde - intencionais ou não - de início súbito e como consequência imediata de violência ou outra causa exógena13. As agressões estão incluídas nesse capítulo, e são a principal causa de morte entre as causas externas de morbidade e mortalidade. No ano de 2012, 36,45% dos adolescentes falecidos na faixa de 10 a 19 anos perderam a sua vida como consequência de agressões. Quando comparamos esse percentual com o relativo à população total (4,8%) verificamos uma diferença esterrecedora12.

Minayo14 no seu estudo sobre a violência na adolescência afirma que a vítima preferencial dos homicídios é o jovem não branco, pobre, do sexo masculino, com idade média entre 15 e 18 anos, residente nas periferias ou favelas urbanas, assassinado geralmente por projétil de arma de fogo e denominado marginal nos registros policiais. Na presente análise pode-se constatar o envolvimento predominante do sexo masculino nas causas externa, principalmente nas agressões, que englobam os homicídios. As demais variáveis socioeconômicos elencadas por Minayo não foram analisadas especificamente para as causas externas nesse estudo.

A julgar pelos dados encontrados nessa análise podemos descrever o perfil do adolescente que vai a óbito no Brasil: é predominantemente do sexo masculino, da cor parda, com 4 a 7 anos de estudo formal, solteiro e vítima de causas externas de morbidade e mortalidade. A constatação de que os principais determinantes que matam os nossos adolescentes estão fora dos procedimentos estritamente médicos14 geram a sensação de que esse cenário pode ser modificado. Todavia esse fenômeno não é exclusivo da sociedade brasileira. A grande vulnerabilidade do adolescente à morte por causas externas, principalmente os adolescentes do sexo masculino, foi descrita em diversos outros estudos com dados da realidade do Brasil e do mundo9-15-16-17-18 .

O coeficiente de mortalidade específico por idade foi calculado para o território nacional e em cada unidade federativa possibilitando uma visualização geral e fragmentada do cenário brasileiro, respectivamente. Dessa forma é possível verificar os locais em que os adolescentes estão mais vulneráveis. Identificar essa realidade é fundamental para uma tomada de decisão por parte da gestão. Pode-se constatar que São Paulo apresentou em todos os anos da série temporal o menor coeficiente de mortalidade específico para a idade. Ao analisar a violência letal a qual os adolescentes estão expostos através do Índice de Homicídio da Adolescência de 2012, notou-se que São Paulo, o estado mais populoso do país e com um grande número de municípios de grande porte, teve a maior queda desse índice nos últimos anos. Esse fenômeno não se restringiu apenas a capital, mas ampliou-se a um conjunto de municípios do Estado12.

O sistema único de saúde (SUS) conta com programas de atenção a saúde do adolescente há décadas. A essência do SUS são as práticas de prevenção de agravos e promoção de saúde. Contudo, na faixa etária entre os 10 e 19 anos verifica-se um aumento de problemas que poderiam ser evitados por essas medidas. Diante desse cenário, a alternativa viável e coerente é a modificação da ênfase dos serviços de saúde dirigidos ao adolescente. Os profissionais de saúde devem incluir medidas preventivas como um componente fundamental de sua prática assistencial, ao invés da atenção estritamente biológica e curativa. A atividade de promoção de saúde direcionada para a população jovem é mais eficaz quando desenvolvida numa perspectiva de saúde coletiva, pois considera o indivíduo dentro de seu contexto. Este enfoque facilita a abordagem dos problemas desse público, como atividade sexual precoce, pressão de grupo, uso de drogas, prevenção de acidentes e violência urbana. Internacionalmente, intitula-se promoção de saúde às intervenções que permitem ao adolescente adquirir competência e segurança na autogestão de sua vida6.

Os dados dessa análise são dados secundários obtidos através do SIM, que foi criado em 1975 com o objetivo principal de fornecer subsídios para traçar o perfil de mortalidade no país, e possui abrangência nacional desde 197916. Os dados provenientes das estatísticas de mortalidade são afetados por várias fontes de erro, mas dentro de uma perspectiva epidemiológica, fornecem dados valiosos sobre o estado de saúde das populações. A utilização dos dados depende, entre outros motivos, do adequado preenchimento dos registros, da acurácia na determinação da causa básica do óbito19. A captação de óbitos pelo SIM e a qualidade no preenchimento da declaração de óbito têm melhorado sensivelmente em todo o País. Os óbitos por causas externas em particular, têm encaminhamento obrigatório para institutos médicos legais onde as declarações de óbito tendem a ser melhor preenchidas20. A melhora na qualidade das estatísticas vitais permite que as informações e as suas respectivas análises possam proporcionar mudanças positivas nas condições de vida da população, pois têm-se a oportunidade de fornecer subsídios aos gestores nos processos de planejamento das ações e na tomada de decisão.

Contudo, mesmo que seja possível comemorar melhores desempenhos nas estatísticas vitais no Brasil, a presente análise constou que existem aspectos dos registros que precisam ser aprimorados, como no caso da variável escolaridade. Esse item foi ignorado em 25,89% dos registros da série temporal analisada. O preenchimento incompleto da variável escolaridade nos registros vitais também foi constatado por Soares Filho et al.20, que apontam que essa variável oferece informações mais fidedignas e menos flutuantes do que renda média mensal para definir o nível socioeconômico da população. Informações ausentes sobre escolaridade ou qualquer outra variável que se queira considerar, podem induzir a conclusões errôneas prejudicando o monitoramento dos eventos na população.


CONCLUSÃO

A presente análise descritiva do perfil de mortalidade dos adolescentes no Brasil mostra que a maioria dos adolescentes brasileiros têm suas vidas interrompidas por causas externas de morbidade e mortalidade. Para o adolescente brasileiro ter o seu direito a vida garantido é necessário priorizar esse tema nas agendas públicas. Alertar a população e os gestores públicos torna-se imprescindível para que as dimensões do problema da violência letal contra adolescentes possam ser modificadas.

O maior êxito para se reduzir a mortalidade de adolescentes vítimas de causas externas passa por uma questão de articulação intersetorial. Nessa perspectiva, o SUS se constitui em um importante espaço de prevenção de agravos e promoção de saúde no seu conceito mais amplo.


REFERÊNCIAS

1. Traverso-Yépez MA, Pinheiro VS. Adolescência, saúde e contexto social: esclarecendo práticas. Psicol Soc 2002; 14 (2): 133-147.

2. World Health Organization. Health for the world's adolescents: a second chance in the second decade. Geneva 2014. [acesso em 15 abr 2017]. Disponível em: <http://apps.who.int/adolescent/second-decade/>.

3. Fundo das Nações Unidas para a Infância. Situação Mundial da Infância 2011: Adolescência uma fase de oportunidades. Caderno Brasil. Nova Yorque 2011. [acesso em 15 abr 2017]. Disponível em: <https://www. unicef.org/brazil/pt/br_cadernoBR_SOWCR11(3).pdf>.

4. Brasil. Ministério da Saúde. DATASUS. Informações de Saúde. [Internet]. 2008-2012. [acesso em 16 abr 2017]. Disponível em: <http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php>.

5. Outeiral J. Adolescer: Estudos sobre adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.

6. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Saúde do adolescente: competências e habilidades. Brasília: Ministério da Saúde; 2008. (Série B Textos Básicos de Saúde). [acesso em 04 jun 2017]. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_adolescente_competencias_habilidades.pdf>

7. Eisenstein E. Adolescência: definições, conceitos e critérios. Adolesc Saude 2005; 2(2):6-7.

8. Valle LELR, Mattos MJVM. Adolescência: as contradições da idade. 2ª ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010.

9. Yunes J, Primo E. Características da mortalidade em adolescentes brasileiros das capitais das Unidades Federadas. Rev Saúde Pública 1983; 17:263-78.

10. Siqueira AAF, Tanaka ACA. Mortalidade na adolescência com especial referência à mortalidade materna, Brasil, 1980. Rev Saúde Pública 1986; 20(4): 274-9.

11. Lolio CA, Santo AH, Buchalla CM. Mortalidade de adolescentes no Brasil, 1977, 1980 e 1985. Magnitudes e tendências. Rev. Saúde Pública 1990; 24(6): 481-9.

12. Borges D, Cano I (org). Homicídios na adolescência no Brasil-IHA 2012. Rio de Janeiro: SDH, 2014. [acesso em 04 jun 2017]. Disponível em: <http://prvl.org.br/wp-content/uploads/2015/01/IHA_2012.pdf>.

13. Gonsaga RAT, Rimoli CF, Pires EA, Zogheib FS, Fujino MVT, Cunha MB. Avaliação da mortalidade por causas externas. Rev Col Bras Cir 2012; 39(4): 263-267.

14. Minayo MCS. A violência na adolescência: um problema de saúde pública. Cad Saúde Pública 1990; 6(3): 278-292.

15. Malta DC, Mascarenhas MDM, Bernal RTI, Andrade SSCA, Neves ACM, Melo EM et al. Causas externas em adolescentes: atendimentos em serviços sentinelas de urgência e emergência nas Capitais Brasileiras-2009. Ciênc saúde coletiva 2012; 17(9): 2291-2304.

16. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação em Saúde. Saúde Brasil 2013: uma análise da situação de saúde e das doenças transmissíveis relacionadas à pobreza / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise de Situação em Saúde - Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 384 p.

17. Patton GC, Coffey C, Sawyer SM, Viner RM, Haller DM, Bose K et al. Global patterns of mortality in young people: a systematic analysis of population health data. Lancet 2009; 374(9693):881-92.

18. Yunes J, Zubarew T. Mortalidad por causas violentas en adolescentes y jóvenes: un desafío para la región de las Américas. Rev Bras Epidemiol 1999; 2(3): 102-71.

19. Bonita R, Beaglehole R, Kjellström T. Epidemiologia Básica. Washington DC: Organización Panamericana de la Salud, 2003.

20. Soares Filho AMS, Souza MFM, Gazal-Carvalho C, Malta DC, Alencar AP, Silva MMA et al. Análise da mortalidade por homicídios no Brasil. Epidemiol Serv Saúde 2007; 16 (1):7-18.
adolescencia adolescencia adolescencia
GN1 © 2004-2018 Revista Adolescência e Saúde. Fone: (21) 2868-8456 / 2868-8457
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente - NESA - UERJ
Boulevard 28 de Setembro, 109 - Fundos - Pavilhão Floriano Stoffel - Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ. CEP: 20551-030.
E-mail: revista@adolescenciaesaude.com