Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 15 nº 4 - Out/Dez - 2018

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Páginas 73 a 81


Confiabilidade de instrumento para avaliação do conhecimento de adolescentes sobre hanseníase

Reliability of instrument for evaluating the knowledge of adolescents about leprosy

Confiabilidad de instrumento para evaluación del conocimiento de adolescentes sobre hanseniasis


Autores: Alan Maique Ribeiro Fernandes da Costa1; Luiz Paulo de Jesus Miranda Silva2; Bruna Hinnah Borges Martins de Freitas3; Juliano Bortolini4

1. Graduação em Enfermagem pela Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso (FAEN/UFMT). Cuiabá, MT, Brasil
2. Graduação em Enfermagem pela Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso (FAEN/UFMT). Cuiabá, MT, Brasil
3. Graduação em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Sinop. Mestre em Enfermagem pela Faculdade de Enfermagem (FAEN/UFMT). Professora da FAEN/UFMT. Cuiabá, MT, Brasil
4. Graduação em Matemática pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mestrado e Doutorado em Estatística e Experimentação Agropecuária pela Universidade Federal de Lavras. Professor do Departamento de Estatística da UFMT. Cuiabá, MT, Brasil

Bruna Hinnah Borges Martins de Freitas
Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso
Av. Fernando Corrêa da Costa, nº 2.367, Bairro Boa Esperança
Cuiabá, MT, Brasil. CEP: 78060-900
(bruhinnah@gmail.com)

Submetido em 12/07/2018
Aprovado em 05/08/2018

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Como citar este Artigo

Descritores: Psicometria, reprodutibilidade dos testes, conhecimento, adolescente, hanseníase.
Keywords: Psychometrics, reproducibility of results, knowledge, adolescent, leprosy.
Palabra Clave: Psicometría, reproducción de los test, conocimiento, adolescente, hanseniasis.

Resumo:
OBJETIVO: Avaliar a confiabilidade do Instrumento para avaliação do conhecimento de adolescentes sobre hanseníase.
MÉTODOS: Estudo metodológico realizado com 150 adolescentes de 10 a 14 anos matriculados em escolas públicas de Cuiabá - MT. A estabilidade foi analisada por meio do coeficiente Kappa e a consistência interna através da correlação do ponto bisserial e do coeficiente de Kuder-Richardson.
RESULTADOS: Em relação a estabilidade do instrumento, a maioria dos itens apresentou o coeficiente Kappa entre 0,43 a 0,93, apenas um item obteve 0,27. Quanto à consistência interna, a exclusão de qualquer um dos itens do instrumento não aumentou o valor do coeficiente de Kuder-Richardson do instrumento geral, que foi de 0,82. Todos os itens apresentaram a Correlação ponto bisserial superior a 0,3.
CONCLUSÃO: Conclui-se que o instrumento em questão parece confiável para avaliar o conhecimento de adolescentes sobre hanseníase. A avaliação do instrumento em outros ambientes e amostras permitirá a continuidade do processo de validação para melhor ilação de sua aplicabilidade.

Abstract:
OBJECTIVE: Assess the reliability of the Instrument for the evaluation of adolescents' knowledge about leprosy.
METHODS: A methodological study with 150 adolescents with ages between 10 to 14 enrolled in public schools in Cuiabá - MT. Stability was analyzed using the Kappa coefficient and the internal consistency through the bisserial point correlation and Kuder-Richardson coefficient.
RESULTS: Regarding instrument stability, the majority of the items presented Kappa coefficient between 0.43 and 0.93, only one item obtained 0.27. As to the internal consistency, the exclusion of any of the instrument items did not increase the Kuder-Richardson coefficient of the general instrument, which was 0.82. All items presented the bisserial point correlation higher than 0.3.
CONCLUSION: It is concluded that the instrument in question seems reliable to evaluate the knowledge of adolescents about leprosy. The evaluation of the instrument in other environments and samples will allow the continuity of the validation process to better illustrate its applicability.

Resumen:
OBJETIVO: Evaluar la confiabilidad del Instrumento para la evaluación del conocimiento de adolescentes sobre hanseniasis.
MÉTODOS: Estudio metodológico realizado con 150 adolescentes de 10 a 14 años matriculados en escuelas públicas de Cuiabá - MT. La estabilidad se analizó mediante el coeficiente Kappa y consistencia interna por el punto biserialy del coeficiente de correlación Kuder -Richardson.
RESULTADOS: Con respecto a la estabilidad del instrumento, la mayoría de los artículos presentan el coeficiente Kappa de 0,43 a 0,93; sólo un elemento obtuvo 0,27. La consistencia interna, la exclusión de cualquiera de los elementos del instrumento no aumentó el valor del coeficiente de Kuder -Richardson del instrumento general, que fue de 0,82. Todos los artículos mostraron un punto biserial de correlación por encima de 0,3.
CONCLUSIÓN: Se concluye que el instrumento en cuestión parece confiable para evaluar el conocimiento de adolescentes sobre hanseniasis. La evaluación del instrumento en otros ambientes y muestras permitirá la continuidad del proceso de validación para mejor verificación de su aplicabilidad.

INTRODUÇÃO

A hanseníase é uma condição infectocontagiosa crônica com grande potencial para ocasionar deformidades e incapacidades físicas. O diagnóstico precoce e o tratamento oportuno são fatores elementares no desfecho de cada caso. O tratamento é realizado por meio da Poliquimioterapia (PQT) oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS)1.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1981, vislumbrando o controle e erradicação da hanseníase, recomendou o tratamento com terapia multidrogas e, nos anos seguintes, instituiu o tratamento gratuito às pessoas acometidas pela hanseníase1.

Por meio dessa política, ao longo da última década a taxa de detecção de hanseníase no Brasil manteve-se em curva decrescente. Entretanto, a meta de erradicação da hanseníase como um problema de saúde pública ainda não foi alcançada2. Situação de hiperendemicidade em menores de 15 anos (≥10 casos por 100 mil habitantes) entre os anos de 2001 a 2016 foi verificada em oito Unidades de Federação (UF) brasileiras, incluindo no Mato Grosso2. Esses achados sugerem transmissão ativa do agente etiológico e falhas nas estratégias de controle da doença.

Considerada uma doença milenar, a hanseníase é permeada por estigmas resultantes de uma construção social que perdura até os dias de hoje, interferindo significativamente no seu enfrentamento. A falta de conhecimento em relação à doença permite essa manutenção de mitos e concepções elaboradas social e historicamente que interferem no seu curso3.

Para Bonin et al.4, a falta de conhecimento sobre sua condição de saúde gera isolamento social, desordens biopsicossociais e aumento de comorbidades. Esses fatores favorecem a não adesão ao tratamento, onerando o serviço público de saúde e interferindo na própria qualidade de vida do sujeito. Além disso, o conhecimento contribui para a promoção da saúde e prevenção de agravos. Neste sentido, a educação em saúde apresenta-se como ferramenta facilitadora da construção de conhecimento, pois propicia oportunidade de se compreender aspectos relacionados ao processo saúde-doença de forma crítica e emancipadora, através da reflexão profunda da realidade a qual o sujeito está inserido5. Considerando a vulnerabilidade dos adolescentes em relação à hanseníase, ressalta-se a necessidade de uma abordagem educativa assertiva e de qualidade.

Tal estratégia foi verificada no campo da hanseníase em nove estudos, conforme revisão de literatura sobre práticas educativas de hanseníase com adolescentes. Essas práticas foram implementadas e investigadas sobretudo por enfermeiros. Porém, no que tange ao conhecimento, a avaliação dessas intervenções não foi feita com instrumentos válidos e confiáveis6.

Assim sendo, apesar de haver estudos de intervenções educativas com componente avaliativo do conhecimento de adolescentes e da necessidade de se usar instrumentos válidos e confiáveis para esta avaliação, esses não foram encontrados na literatura mundial se propondo a avaliar tal construto7.

Nesse sentido, para avaliar o conhecimento de adolescentes sobre hanseníase, Soares et al.10 construíram e validaram um instrumento quanto à face, ao conteúdo e à semântica. O mesmo obteve um Índice de Validade de Conteúdo (IVC) final de 0,89 por um comitê de sete especialistas e foi validado semanticamente por 20 adolescentes com idades entre 10 a 14 anos através da técnica de análise de brainstorm. Esses não sugeriram alterações no mesmo, afirmando boa compreensão e ausência de dificuldades no seu preenchimento7.

A posteriori, esse instrumento deve ser avaliado quanto à confiabilidade que segundo Alexandre et al.8: "É um modo de demonstrar ou comunicar o rigor do processo científico e a fidedignidade das informações, descrevendo o quanto um teste se mostra particular e irá reproduzir, em diferentes circunstâncias, resultados similares, demonstrando que nada se alterou". Para a avaliação da confiabilidade o pesquisador pode utilizar o teste de estabilidade (teste-reteste) e de consistência interna8.

O teste-reteste é aquele que ajuíza a estabilidade das respostas, averiguando se os resultados são idênticos em ocasiões distintas. A medição desse tipo de confiabilidade ressalta a suscetibilidade do instrumento a fatores externos durante um período de tempo. O teste-reteste é executado pelo emprego do mesmo questionário de avaliação duas vezes, e para o fechamento é comparado os escores8,9.

Polit e Beck9 definem como consistência interna a forma como os itens de um questionário se relacionam entre si, e se esses mensuram o mesmo construto. Dessa forma, um dispositivo de avaliação pode ser entendido como de consistência interna se este mede os mesmos traços e não desviam a atenção deste.

Diante desse contexto, Bonin et al.4 afirmam que instrumentos de avaliação do conhecimento devem ser utilizados em intervenções educativas a fim de mensurar o seu impacto, proporcionando fidedignidade à construção do saber.

Assim, para se desenvolver estudos de intervenção educativa e mensurar o seu impacto no conhecimento de adolescentes sobre hanseníase faz-se necessário, além da construção e validação quanto à face, ao conteúdo e à semântica, já realizada por Soares et al.10, a avaliação da confiabilidade do mesmo. A determinação da confiabilidade é fundamental para certificar a qualidade metodológica de instrumentos de medida8. Deste modo, o objetivo deste estudo foi avaliar a confiabilidade de Instrumento para Avaliação do Conhecimento de Adolescentes sobre Hanseníase (IACAH).


MÉTODO

Esse estudo faz parte de uma pesquisa matricial intitulada "Educação em saúde e busca ativa de hanseníase em menores de quinze anos em Cuiabá, MT" que foi avaliado e aprovado para implementação pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Muller (HUJM), sob o parecer 1.579.925 e CAAE 53659616.5.00005541, em 8 de junho de 2016, em atenção às recomendações da Resolução n.º 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde referentes às pesquisas relacionadas aos seres humanos. A coleta de dados teve início mediante autorização das escolas, assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido pelos pais/responsáveis dos adolescentes e termo de assentimento pelos adolescentes.

Trata-se de um estudo de investigação metodológica da confiabilidade de um instrumento psicométrico para coleta de dados, já validado quanto à face, ao conteúdo e à semântica anteriormente. O estudo foi realizado em seis escolas públicas estaduais da zona urbana de Cuiabá no Mato Grosso (MT) escolhidas aleatoriamente, no período de fevereiro a maio de 2018.

Para a análise de confiabilidade foram selecionados por conveniência adolescentes de 10 a 14 anos matriculados nas escolas selecionadas, que assentiram em participar da pesquisa e obtiveram o consentimento dos pais/responsáveis. A amostra foi constituída de 150 sujeitos. Não há consenso na literatura quanto à amostra necessária para análise de confiabilidade, entretanto, segundo Sapnas e Zeller10, amostras de no mínimo 50 e no máximo 100 indivíduos são suficientes quando se pretende avaliar as propriedades psicométricas de instrumentos de medidas de construtos.

Os instrumentos utilizados na pesquisa foram o de Avaliação do conhecimento de adolescentes sobre hanseníase (IACAH) e outro para caracterização dos participantes do estudo. Ambos os instrumentos foram elaborados e validados quanto à face, ao conteúdo e à semântica7.

O primeiro foi elaborado contendo 14 itens e perguntas fechadas e de múltipla escolha por meio de nove domínios definidos pelos pesquisadores. Os domínios do instrumento são: definição e etiologia, fatos epidemiológicos, sinais e sintomas, transmissão, estigma e preconceito, diagnóstico, tratamento, deformidades e incapacidades físicas e medidas de controle da doença. A validação de conteúdo foi realizada por um Comitê de sete especialistas que obteve um Índice de Validade de Conteúdo total de 0,89 para o instrumento. O mesmo também foi validado semanticamente por 20 adolescentes de 10 a 14 anos, sendo considerado compreensível e relevante quanto ao que se propõe7.

O segundo instrumento foi composto por 17 itens, contendo questões abertas e fechadas acerca de variáveis sociodemográficas e epidemiológicas. Esse obteve um Índice de Validade de Conteúdo de 0,93 pelos especialistas e foi considerado compreensível e relevante na validação semântica7.

As variáveis sociodemográficas e epidemiológicas estudadas foram: idade, sexo (feminino e masculino), se já ouviu falar ou recebeu informações sobre hanseníase (sim e não), onde já ouviu falar ou recebeu informações sobre hanseníase (em casa, na escola, na unidade de saúde e outros), sabe o que é hanseníase (sim e não), existe ou existiram casos de hanseníase na família (sim e não), já foi avaliado para hanseníase (sim, não e não sei), situação em que foi avaliado para hanseníase, conhece algum vizinho que tem ou teve hanseníase (sim e não), conhece alguém em sua escola que tem ou teve hanseníase (sim e não), tem ou já teve hanseníase (sim e não), conhecimento de adolescentes sobre hanseníase (insuficiente, regular, bom e ótimo).

Os questionários são autoaplicáveis e foram entregues aos adolescentes em espaço oferecido pela escola para a coleta de dados, sendo recolhidos pelos pesquisadores após o preenchimento. A aplicação ocorreu em duas ocasiões, denominados de teste e reteste, com um intervalo de sete dias entre eles, sendo a primeira com todos os participantes de estudo e, a segunda, com uma amostra de 30 sujeitos, assim como em outro estudo semelhante11.

A estruturação do banco de dados foi realizada por meio do software Epiinfo 3.5.4 com dupla digitação independente. Os dados de ambos os bancos foram comparados utilizando a ferramenta Data Compare para identificar possíveis incoerências, e posteriormente foram corrigidas pela consulta aos documentos de coleta originais.

Para a análise da confiabilidade foi considerada a consistência interna e o teste-reteste. Neste estudo, não se aplica a equivalência pois não envolve apreciação ou julgamento dos avaliadores, o que ocorre em entrevistas e observações8.

Parta tanto, a análise de estabilidade foi obtida por meio do teste-reteste do instrumento, com o Coeficiente de Kappa para variáveis dicotômicas ou ordinais8. Para o Coeficiente Kappa utilizou-se a seguinte classificação: se Kappa<0,0 a concordância é pobre; se 0,0 12. Esses coeficientes avaliam se um grupo de indivíduos concorda entre si na avaliação de um constructo ou, mais especificamente para o teste-reteste, se o mesmo indivíduo mantém a sua avaliação sobre um constructo, que é o desejado8.

A consistência interna foi examinada pelo cálculo do coeficiente de Kuder-Richardson, que é usado para formato com resposta dicotômica. Neste caso foi considerado se o indivíduo sabe ou não a resposta para cada item, e o grau de conhecimento foi classificado pelo número de acertos8. Esse coeficiente compara os itens do questionário e precisa a correlação média entre eles. Nesta escala é possível obter escore que varia de 0,00 a 1,00 sendo o valor de 0,70 apontado por alguns autores como mínimo aceitável, 0,80 como bom e acima de 0,90 é considerado com excelente8,9.

A correlação ponto bisserial foi utilizada para verificar a correlação entre as variáveis e identificar a concordância do item com o escore do instrumento. No qual, é considerado o escore do instrumento o total de acertos do indivíduo. Quando o item apresenta boa aderência ao instrumento de medida a correlação ponto bisserial deve ser superior a 0,313.

Ao preencherem os testes, os acertos foram contabilizados e classificados conforme os conceitos: insuficiente (até 24% de acertos), regular (25% a 49% de acertos), bom (50% a 74% de acertos) e ótimo (75% a 100% de acertos)14. As análises estatísticas foram realizadas no software R. As variáveis numéricas foram descritas por estatística descritiva (média, mediana e Desvio-Padrão) e as categóricas nominais foram descritas ou apresentadas em tabelas de frequência.


RESULTADOS

A amostra (n=150) foi constituída por adolescentes de 10 a 14 anos matriculados em escolas públicas de Cuiabá (MT). A idade média dos participantes foi de 12,07 anos (DP: 1,18), sendo 95 (63,3%) do gênero feminino e 55 (36,7%) do gênero masculino. Salienta-se que 92 (61,3%) dos adolescentes já ouviram falar ou receberam informações sobre hanseníase, sendo que a maioria (n=50, 54,3%) ressalta que a escola forneceu tal conhecimento.

Apenas 13 (8,8%) dos indivíduos declararam ter histórico de hanseníase na família, oito (5,3%) tinham histórico de hanseníase em vizinhos e três (2,0%) histórico de hanseníase em colegas da escola. Entre os participantes, três (2,0%) possuíam histórico de hanseníase.

Constatou-se que 76 (51,7%) dos participantes afirmaram não saber o que é hanseníase. Contudo, quando avaliados quanto ao conhecimento sobre hanseníase, 57 (38,0%) foram classificados como ótimo, 41 (27,4%) como bom, 38 (25,3%) como regular e 14 (9,3%) como ruim.

As propriedades psicométricas do Instrumento para Avaliação do Conhecimento de Adolescentes sobre Hanseníase (IACAH) foram avaliadas no presente estudo quanto à estabilidade e consistência interna. Com relação à estabilidade, os resultados da primeira aplicação do instrumento e os resultados obtidos pelo reteste foram colocados em tabelas de contingência. No que tange à concordância dos itens, um apresentou concordância justa, dois quase perfeitas, cinco moderadas e seis substanciais, conforme apresentado na tabela 1.




A consistência interna do Instrumento com seus 14 itens, avaliada por meio o Coeficiente de Kuder-Richardson, foi considerada boa e está descrita na tabela 2.




Conforme verifica-se na tabela 3, houve uma boa aderência dos itens ao instrumento (correlação ponto bisserial >0,3) e a exclusão de qualquer um dos itens do instrumento não aumentou o valor do coeficiente de Kuder-Richardson do instrumento geral, mantendo-se, portanto, os 14 itens previamente definidos.




DISCUSSÃO

Para mensurar o conhecimento de adolescentes sobre hanseníase é essencial que se tenha um instrumento válido e confiável8. Os resultados deste estudo apontam que o instrumento elaborado e validado por Soares et al.7 apresentou boa aplicabilidade.

No que se refere à confiabilidade do instrumento, a estabilidade da maioria dos itens foi considerada substancial ou quase perfeita em consonância com outras pesquisas, com valores considerados positivos e com significância estatística11,15. Entretanto, infere-se que no presente estudo, ocorreram alterações nas respostas obtidas nos itens que apresentaram baixos valores de concordância. O principal problema da abordagem teste-reteste é que constructos como o conhecimento podem ser modificados por experiências ocorridas entre o intervalo da aplicação, independentemente da estabilidade do instrumento9. Pesquisas com esta faixa etária são complexas, pois constata-se uma dificuldade dos adolescentes em sustentarem um discurso próprio e singular16.

Quanto à consistência interna, identificou-se um valor considerado bom, pois altas correlações foram obtidas entre os itens e o instrumento todo, estando dentro do fator de confiabilidade esperado, que se refere ao grau em que um instrumento produz resultados consistentes e coerentes a partir de seus escores17. Resultado semelhante foi encontrado em estudo que visava avaliar um instrumento para verificar o conhecimento, a experiência e a atitude de profissionais da Estratégia de Saúde da Família, frente aos casos de abuso infantil, porém acerca de outra temática18.

No presente estudo, embora a maioria dos participantes tenham mencionado não saber o que é a hanseníase, o conhecimento dos participantes do estudo foi, de maneira geral, considerado ótimo. No entanto, um estudo anterior realizado no Rio Grande do Norte com 109 adolescentes de 13 a 17 anos, evidenciou que a maioria dos adolescentes apresentaram conhecimento precário19.

Os resultados deste estudo podem estar relacionados aos adolescentes já terem ouvido falar ou terem recebido informações sobre a hanseníase em algum momento de sua vida, sendo a escola apontada como principal local de contato com a temática. Um estudo de revisão integrativa sobre prática educativa de hanseníase com adolescentes, identificou que todos os trabalhos incluídos na revisão foram desenvolvidos em escolas6. O ambiente escolar se destaca como cenário principal da construção do saber em saúde, devendo se considerar o contexto em que o adolescente está inserido para traçar a estratégia mais efetiva em busca da promoção à saúde.

Sabe-se que a educação em saúde deve ser constituída a partir da aproximação com os sujeitos em espaços comunitários, com a compreensão da saúde como uma prática social focada na necessidade da população, valorizando os saberes e conhecimentos prévios desenvolvidos. Portanto, o aumento de informações sobre a hanseníase pode favorecer a construção do conhecimento quanto à temática.

O desconhecimento acerca da doença é relacionado à baixa procura aos serviços de saúde diante de sinais e sintomas da doença, dificuldade de enfrentamento e sentimento de tristeza e vergonha, que resultam no diagnóstico tardio, estigma e preconceito19,20. Dessa forma, a educação em saúde entre adolescentes é considerada um dos componentes do controle da hanseníase, pois contribui para o diagnóstico precoce, tratamento oportuno e desmistificação dos falsos conceitos culturalmente construídos.

O estudo limita-se à realidade local e ao ambiente do ensino público. Sugere-se que a avaliação das propriedades do instrumento seja realizada em outros cenários de pesquisas, em razão das variações socioculturais existentes entre as regiões brasileiras, ampliando o número de participantes a fim de permitir maior exploração quanto à confiabilidade do instrumento. Além disso, devido ao desconhecimento de instrumento que mensure a variável estudada, não foi possível realizar a validação de critério do respectivo instrumento.


CONCLUSÃO

Conclui-se que o instrumento em questão parece confiável para avaliar o conhecimento de adolescentes sobre hanseníase, pois a maioria dos itens obtiveram a estabilidade entre moderada a quase perfeita e tanto os itens, quanto o instrumento geral, apresentaram boa consistência interna. A avaliação do instrumento em outros ambientes e amostras permitirá a continuidade do processo de validação para melhor ilação de sua aplicabilidade.


NOTA

Artigo extraído do trabalho de curso "Confiabilidade de instrumento para avaliação do conhecimento de adolescentes sobre hanseníase", apresentado à Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá-MT, Brasil.


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