Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 16 nº 2 - Abr/Jun - 2019

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Páginas 27 a 37


Violência familiar e insatisfaçao com a imagem corporal entre adolescentes do Programa Bolsa Família tratados numa unidade básica de saúde

Family violence and body image dissatisfaction among adolescents from the Bolsa Família Program treated at a basic health unit

Violencia familiar e insatisfacción con la imagen corporal en adolescentes del Programa Bolsa Familia atendidos en una unidad básica de salud


Autores: Ana Maria Vieira Lourenço da Silva1; Maria Helena Hasselmann2

1. Doutora em Alimentaçao, Nutriçao e Saúde pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Nutricionista da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro - Policlínica Hélio Pellegrino - Prefeitura do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
2. Doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professora Adjunta do Instituto de Nutriçao-Departamento de Nutriçao Social - da UERJ. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência:
Ana Maria Vieira Lourenço da Silva
Policlínica Hélio Pellegrino
Rua do Mattoso, nº96, Praça da Bandeira
Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP: 20270133
(amvls@hotmail.com)

Submetido em 27/08/2018
Aprovado em 05/02/2019

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Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Imagem Corporal; Adolescente; Violência Doméstica.
Keywords: Body Image; Adolescent; Domestic Violence.
Palabra Clave: Imagen Corporal; Adolescente; Violencia Doméstica.

Resumo:
OBJETIVO: Investigar a relaçao entre violência familiar física e psicológica contra o adolescente e a insatisfaçao com a imagem corporal.
MÉTODOS: Este estudo avaliou a insatisfaçao com a imagem corporal pela Body Area Scale; a violência psicológica contra o adolescente pela Escala de violência psicológica contra os adolescentes e a violência física entre os pais e os adolescentes pelo Conflict Tactics Scales Form R (CTS-1). Foram analisados 201 adolescentes de 10 a 19 anos, inscritos num Programa de Assistência Familiar de um Centro de Saúde na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Análises bivariadas e multivariadas foram realizadas para estimar associaçoes entre violência familiar (física e psicológica) e a insatisfaçao com a imagem corporal. As associaçoes entre as variáveis foram expressas como razoes de chances e seus respectivos intervalos de confiança (95%) estimadas via regressao logística.
RESULTADOS: A violência psicológica foi associada à insatisfaçao com a imagem corporal somente para adolescentes do sexo feminino (OR = 4,2; intervalo de confiança de 95%, 1,37 a 12,86).
CONCLUSAO: Esses resultados sugerem que é importante implementar políticas de educaçao e saúde para informar o público sobre os efeitos nocivos da violência psicológica durante a adolescência.

Abstract:
OBJECTIVE: Investigate the relationship between physical and psychological family violence against the adolescent and dissatisfaction with body image.
METHODS: This study assessed the dissatisfaction with body image through the Body Area Scale; the psychological violence by the Scale of psychological violence against adolescents and the physical violence between parents and adolescents by the Conflict Tactics Scales Form R (CTS-1). A total of 201 adolescents aged 10 to 19 years old enrolled in a family care program at a health center in the municipality of Rio de Janeiro, Brazil, were analyzed. We conducted bivariate and multivariate analysis to estimate associations between family violence (psychological and physical violence) and dissatisfaction with body image. Associations between variables were expressed as odds ratios and their respective 95% confidence intervals were estimated via logistic regression.
RESULTS: Psychological violence was associated with dissatisfaction with body image only for female adolescents (OR = 4.2; 95% confidence interval 1.37 to 12.86).
CONCLUSION: These results suggest that it is important to implement education and health policies to inform the public on the harmful effects of psychological violence during adolescence.

Resumen:
OBJETIVO: Investigar la relación entre violencia familiar física y psicológica contra el adolescente y la insatisfacción con la imagen corporal.
MÉTODOS: Este estudio evaluó la insatisfacción con la imagen corporal por la Body Area Scale; la violencia psicológica contra el adolescente por la Escala de violencia psicológica contra los adolescentes y la violencia física entre los padres y los adolescentes por el Conflict Tactics Scales Form R (CTS-1). Fueron analizados 201 adolescentes de 10 a 19 años, inscritos en un Programa de Asistencia Familiar de un Centro de Salud en la ciudad de Rio de Janeiro, Brasil. Análisis bivariados y multivariados fueron realizados para estimar asociaciones entre violencia familiar (física y psicológica) y la insatisfacción con la imagen corporal. Las asociaciones entre las variables fueron expresadas como razones de posibilidad y sus respectivos intervalos de confianza (95%) estimadas vía regresión logística.
RESULTADOS: La violencia psicológica fue asociada a la insatisfacción con la imagen corporal solamente para adolescentes del sexo femenino (OR = 4,2; intervalo de confianza del 95%, 1,37 a 12,86).
CONCLUSION: Esos resultados sugieren que es importante implementar políticas de educación y salud para informar al público sobre los efectos nocivos de la violencia psicológica durante la adolescencia.

INTRODUÇAO

A imagem corporal pode ser conceituada como um construto multidimensional que representa como os indivíduos pensam, sentem e se comportam em relaçao ao seu atributo físico. Problemas com a imagem corporal podem variar de insatisfaçao moderada e preocupaçao com o corpo até um profundo descontentamento com a aparência física1.

Estudos revelaram um alto nível de insatisfaçao com a imagem corporal em adolescentes, sendo mais acentuada no sexo feminino. No geral, a pesquisa mostra que a insatisfaçao com a imagem corporal pode estar ligada às práticas nao saudáveis para controlar o peso, aos transtornos alimentares (anorexia, bulimia e compulsao alimentar) e à autopercepçao negativa em relaçao ao peso, saúde e bem-estar1.

A literatura sugere que a insatisfaçao com o corpo tem uma etiologia multifatorial e pode ser o resultado de características físicas: tamanho corporal versus cultura, ambiente social (ênfase na magreza e aparência), fatores psicológicos (baixa autoestima e depressao) e um ideal de imagem corporal diferenciado entre os sexos (magro e sexy para mulheres e forte e musculoso para homens)1. Fatores socioeconômicos - educaçao, raça/etnia, renda e classe econômica - também sao apontados como influenciadores da insatisfaçao corporal2.

Com os avanços no conhecimento dos determinantes sociais da saúde, as pesquisas na área de imagem corporal passaram a considerar a violência como mais um aspecto importante no seu desenvolvimento. Kearney-Cooke e Striegel-Moore3 afirmam que na presença da violência, um sentimento negativo ou de vergonha sobre o corpo - insatisfaçao corporal - pode surgir e favorecer a prática nao saudável ou inapropriada de alimentaçao.

Seguindo essa mesma linha de argumentaçao, outros estudos sugerem uma relaçao entre abuso sexual com desordens alimentares em jovens do sexo feminino4. Nao obstante, importa mencionar que outros tipos de abuso como a violência psicológica e física também sao apontados como possíveis determinantes da percepçao da imagem corporal5.

Portanto, desvendar as causas de insatisfaçao corporal é de suma importância para que se possa minimizar as suas consequências na saúde dos indivíduos, principalmente entre os adolescentes. A exploraçao de outros tipos de violência possibilitará aos profissionais de saúde e ao público em geral um melhor entendimento sobre a relaçao entre a violência familiar e as possíveis alteraçoes na imagem corporal. Este estudo objetivou investigar a relaçao entre a violência familiar física e psicológica sofrida pelos adolescentes e a insatisfaçao com a imagem corporal.


MÉTODO

A pesquisa foi realizada em uma unidade municipal de saúde do Rio de Janeiro (Policlínica Hélio Pellegrino) e envolveu 201 adolescentes entre 10 e 19 anos que receberam benefícios do Programa Bolsa Família (PBF). Esses jovens foram selecionados por meio de uma amostra de conveniência e apresentam características similares quanto ao status socioeconômico, por exemplo, dentre os pré-requisitos exigidos pelo programa destacam-se: apresentar baixa renda familiar, ter frequência escolar constante e comprovar o acompanhamento do seu estado de saúde de forma periódica numa unidade de saúde. Esses adolescentes foram monitorados pelo serviço de nutriçao dessa unidade de saúde no período de 2008 a 2009.

Os dados foram obtidos por meio de um questionário pré-testado, composto por questoes referentes ao desfecho (insatisfaçao com a imagem corporal), a exposiçao central (violência familiar física e psicológica) e covariáveis (informaçoes demográficas e pessoais).

A insatisfaçao com a imagem corporal foi medida pela versao em português da Body Area Scale6. A escala consta de 15 itens que abrangem o grau de insatisfaçao com as seguintes partes do corpo: face, cabelo, nádegas, quadris, coxas, pernas, estômago, cintura, peito/tórax, costas/ ombros, braços, tônus muscular, peso, altura e todas as outras áreas. Para cada área, o adolescente se auto-avaliou segundo uma escala de variaçao de muito insatisfeito (escore 1) a muito satisfeito (escore 5). A imagem corporal foi avaliada segundo a média do total de escores de todas as áreas corporais7, ou seja, rosto + cabelo + nádegas + todas as áreas/16 (número total de áreas corporais) e classificada em satisfatória (média >3) e insatisfatória ( média ≤ 3)8.

A violência física foi medida por uma versao em língua portuguesa do instrumento Conflict Tactics Scales (CTS-1)9. O CTS-1 destina-se a medir as estratégias utilizadas pelos familiares para resolver possíveis desavenças e, indiretamente, para captar uma situaçao de violência familiar. As relaçoes familiares consideradas no presente estudo foram dos pais (pai e mae) com adolescentes. As escalas de violência física menor (itens k-m) e violência física grave (itens n-s) foram classificadas da seguinte maneira: nao ocorreram na relaçao e ocorreram pelo menos uma vez na relaçao10. O período de tempo investigado foi de 12 meses antes da entrevista.

A violência psicológica foi medida por uma versao em português da escala de violência psicológica contra adolescentes11. Essa escala avaliou as experiências vividas pelo jovem que teve em suas relaçoes, uma pessoa significativa denegrindo suas qualidades, capacidades, desejos e emoçoes ou exercendo cobranças comportamentais excessivas. Esta constitui-se de 18 itens fechados, com cinco opçoes de respostas: nunca, raramente, às vezes, quase sempre e sempre que apresentam pontuaçao 1, 2, 3, 4 e 5, respectivamente. A pontuaçao é realizada pela soma dos escores de cada item, dividindo esta soma pelo total de pontos que cada adolescente poderia fazer no questionário e multiplicando por 100. A presença ou ausência da violência psicológica é guiada pela mediana desse percentual de pontos, ou seja, presença de violência psicológica (percentual de pontos ≥ mediana) e ausência de violência psicológica (percentual < mediana)12.

Foram coletadas informaçoes demográficas e características dos adolescentes, como idade, sexo, raça/cor (negra e nao negra), estado de saúde (bom ou ruim), discriminaçao racial (presente ou ausente), condiçoes de habitaçao, rede e apoio social, maturaçao sexual e estado nutricional.

As condiçoes de habitaçao foram avaliadas por um instrumento composto de itens correspondentes à aglomeraçao de pessoas, materiais usados para construir a casa, tipo de piso, eletricidade, abastecimento de água, esgotamento sanitário e a forma como o lixo é recolhido. Os dados foram pontuados e o escore total foi considerado como condiçoes de habitaçao satisfatórias quando ≥ 9 e condiçoes de habitaçao insatisfatórias quando < 913.

As variáveis rede e apoio social foram avaliadas por uma versao em língua portuguesa do questionário de apoio social utilizado no Medical Outcomes Study14. Esse instrumento mede a percepçao da disponibilidade de apoio. Ele é composto de cinco dimensoes: 1) material; 2) afetiva; 3) interaçao social positiva; 4) emocional e 5) informaçao. Cada dimensao compreende questoes que sao pontuadas por escores que variam entre 1 e 5, correspondendo às respostas nunca, raramente, às vezes, quase sempre e sempre. Por meio da soma dos escores das perguntas de cada uma das dimensoes, a pontuaçao foi realizada dividindo-se pelo total máximo de escores referente a cada dimensao e multiplicado por 100. A medida de apoio social foi obtida pela pontuaçao média das cinco dimensoes15. Considerou-se que o apoio social era satisfatório quando a média era igual ou maior que 75%. Para aferir a rede social, o instrumento apresenta itens referentes à quantidade de amigos e parentes, e a participaçao do adolescente em atividades sociais15. As informaçoes referentes à quantidade de pessoas com quem o adolescente pode contar foram distribuídos como 0, 1, 2 e 3 ou mais.

A maturaçao sexual foi auto-aferida por meio da visualizaçao da tabela de Tanner com fotos representando os cinco estágios do desenvolvimento puberal16 e o adolescente foi classificado como pré-púbere ou púbere17.

O estado nutricional foi avaliado de acordo com o índice de massa corporal (IMC) calculado a partir da divisao do peso corporal (kg) pela altura (m) ao quadrado. O IMC foi classificado de acordo com os critérios da Organizaçao Mundial da Saúde18 e depois dicotomizado para análise de regressao logística em peso adequado/baixo peso e excesso de peso.

Todas as análises foram conduzidas separadamente para adolescentes do sexo masculino e feminino, por considerar que existem diferenças entre os sexos quanto a percepçao da imagem corporal. A análise estatística dos dados procedeu da seguinte maneira:


Análise univariada, determinando frequências absolutas e relativas (prevalência) para variáveis categóricas, e medida-sumário (média, mediana, desvio padrao) para variáveis numéricas;

Análise bivariada, considerando a variável imagem corporal como desfecho. Para as variáveis categóricas, de acordo com as tabelas de contingência determinadas para cada variável versus desfecho, selecionou-se o teste Chi-quadrado para testar a associaçao entre elas. Para as variáveis numéricas, foi utilizado o teste t de Student nao pareado;

Análise de regressao logística univariada (bruta) entre as variáveis de exposiçao (violência física menor, violência física grave e violência psicológica) e variável de desfecho (insatisfaçao com a imagem corporal) e covariáveis de interesse;

Foram criados modelos logísticos multivariados para cada variável de exposiçao (violência física menor, violência física grave e violência psicológica) e variável de desfecho (insatisfaçao com a imagem corporal), ajustados por covariáveis que apresentaram p < 0,20 nas análises brutas. O critério de significância estatística para o modelo logístico multivariado foi de p < 0,05;

O diagnóstico dos modelos foi realizado pelo teste de Hosmer-Lemeshow. O modelo foi considerado bem ajustado quando p > 0,05; e

Odds ratios (OR) para cada variável de exposiçao nos modelos logísticos multivariados, além dos respectivos intervalos de confiança de 95% e valor de p.


Para realizar a análise, o estudo utilizou o Epi Info 2000 para criaçao do banco de dados, o software R Studio versao 0.96.0331, e a versao R 2.15 com pacotes MKmisc e epicalc e extensoes para uma análise mais aprofundada.

Somente adolescentes e seus responsáveis legais que concordaram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foram incluídos na pesquisa. A pesquisa foi aprovada e autorizada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (parecer nº 122A / 2007).


RESULTADOS

A Tabela 1 mostra as informaçoes demográficas e pessoais dos adolescentes estudados. Em relaçao à imagem corporal, cerca de 20% dos adolescentes estavam insatisfeitos. As adolescentes do sexo feminino possuíam maiores valores de insatisfaçao com a imagem corporal do que os adolescentes do sexo masculino mas esta diferença nao foi estatisticamente significativa (p = 0,454).




A Tabela 2 mostra a frequência de cada tipo de violência familiar realizada pelos pais contra adolescentes. Quase metade da amostra experimentou violência psicológica, mas os adolescentes de sexo feminino foram as maiores vítimas. No que diz respeito aos outros tipos de violência, 30% de ambos os sexos sofreram violência física grave e cerca de 40% sofreram violência física menor.




Com base nos resultados obtidos a partir da análise bivariada (Tabela 3), observou-se que, para os adolescentes do sexo masculino, seu estado nutricional se associou significativamente com a imagem corporal (p = 0,018). Aqueles com excesso de peso tinham 4 vezes mais chances de estarem insatisfeitos com sua imagem corporal. Para as adolescentes do sexo feminino, além do estado nutricional (p = 0,019), a violência psicológica (p = 0,015) e as condiçoes de habitaçao (p = 0,041) também se associam de forma significativa à insatisfaçao com a imagem corporal, ou seja, o excesso de peso, a presença de violência psicológica e a condiçao de habitaçao inadequada geram cerca de 3 vezes mais chances de insatisfaçao com a imagem corporal.




As informaçoes dos modelos multivariados em relaçao à OR e seus respectivos intervalos de confiança sao mostrados na Tabela 4. Nos modelos foram utilizadas as variáveis explicativas (tipos de violência), o estado nutricional e a idade para os adolescentes do sexo masculino e para as adolescentes do sexo feminino foram os tipos de violência, o estado nutricional e a condiçao de habitaçao.




Para os adolescentes do sexo masculino (Tabela 4), as análises mostraram que nenhum tipo de violência foi significativamente associado à insatisfaçao com a imagem corporal (violência física menor - p = 0,668; violência física grave - p = 0,670 e violência psicológica - p = 0,854). Para as adolescentes do sexo feminino (Tabela 4), apenas a violência psicológica esteve significativamente associada à insatisfaçao com a imagem corporal (p = 0,012). Assim, as adolescentes do sexo feminino que sofreram violência psicológica tiveram 4,2 vezes mais chances de estarem insatisfeitas com a imagem corporal do que aqueles que nao sofreram violência psicológica. Apesar de nao serem estatisticamente significativas, as associaçoes foram positivas entre a violência física e a insatisfaçao com a imagem corporal das adolescentes (violência física menor - p = 0,242 e violência física grave - p = 0,076). Quanto mais grave a violência física, maior é a insatisfaçao com a imagem corporal - violência física menor (OR=1,8; IC=0,67-4,80) e violência física grave (OR=2,5; IC=0,91-7,01). O diagnóstico do modelo logístico multivariado mostrou, em ambos os sexos, valor de p superior a 0,05 para todos os tipos de violência familiar (dados nao mostrados).


DISCUSSAO

Este estudo investigou a relaçao entre a violência familiar realizada pelos pais e a insatisfaçao com a imagem corporal dos adolescentes monitorados pelo Programa de Assistência à Família. Era esperado que o adolescente vítima de violência apresentasse maior insatisfaçao com sua imagem corporal. Essa hipótese foi suportada somente para as adolescentes do sexo feminino vítimas de violência psicológica, tanto em análises bivariadas quanto multivariadas.

A exposiçao a fatores estressantes nos estágios iniciais da vida pode afetar a imagem corporal. Murray, Byrne e Rieger19, em seu estudo envolvendo 533 adolescentes australianos, examinaram a relaçao entre estresse e imagem corporal e descobriram que as adolescentes do sexo feminino com maiores níveis de estresse apresentaram mais sintomas de depressao, maior insatisfaçao com a imagem corporal e baixa autoestima do que os adolescentes do sexo masculino. Quando se considera que a existência de violência familiar pode ser uma situaçao estressante para os adolescentes20, a imagem corporal é consequentemente afetada de forma negativa, o que leva aos mesmos resultados do presente estudo. Desta forma, as adolescentes do sexo feminino expostos à violência mostram maior insatisfaçao com a imagem corporal.

Em relaçao aos tipos de violência, os estudos que investigaram a relaçao entre violência e imagem corporal em adolescentes avaliaram a violência sexual21-23, a violência física21, 23 e a negligência22. Schaaf e McCanne23, pesquisando estudantes do sexo feminino, nao encontraram relaçao entre violência física e sexual e distorçoes da imagem corporal, apesar do fato de jovens do sexo feminino que sofreram abuso físico terem maior expectativa pessoal e maior dificuldade em identificar emoçoes e sensaçoes de fome e saciedade. No entanto, Logio21, ao avaliar 1571 adolescentes em New Castle (EUA), observou que aqueles que sofreram violência física e sexual mostraram alteraçao na percepçao de sua imagem corporal para o excesso de peso, com maior evidência para as adolescentes do sexo feminino. Ao mesmo tempo, havia uma forte correlaçao entre os adolescentes com histórico de abuso e a presença de desordens alimentares e comportamento de dieta. Ramalhete e Santos22, em um estudo com adolescentes do sexo feminino que foram vítimas de negligência e abuso sexual, observaram que esses adolescentes apresentavam uma visao mais negativa do corpo, independentemente do tipo de violência. Esses achados identificam experiências passadas de abuso como fator de risco para práticas alimentares nao saudáveis e uma autoavaliaçao da imagem corporal nao salutar.

É importante ressaltar que existem poucos estudos sobre o assunto5,21,22 e estes empregam diferentes metodologias para avaliar a imagem corporal e medir a violência familiar. No que diz respeito à imagem corporal, os instrumentos/escalas podem avaliar os distúrbios na imagem corporal de acordo com os aspectos perceptual e atitudinal. Estudos que expressam o componente perceptual medem a imagem corporal pelo grau de acurácia com que o tamanho corporal é percebido, enquanto o atitudinal expressa os componentes afetivos e cognitivos24. A maioria dos estudos acima mencionados mediu a imagem corporal de acordo com o aspecto atitudinal, apesar do uso de diferentes escalas/instrumentos. Vale ressaltar que este estudo também avaliou a imagem corporal pelo aspecto atitudinal. Já na violência familiar, existe uma discordância entre os pesquisadores quanto à definiçao de quais tipos de comportamentos ou puniçoes devem ser considerados como abusos e também quanto à temporalidade - passado versus atual25. Consequentemente, nem sempre é possível comparar os resultados encontrados nas poucas investigaçoes existentes. Mesmo assim, evidências sugerem que um ambiente familiar estressante gera sérios problemas no desenvolvimento de crianças e adolescentes26.

Apesar da relativa ausência de estudos que examinem a relaçao entre violência psicológica e insatisfaçao com a imagem corporal em adolescentes, a pesquisa existente mostra uma ligaçao entre violência na infância e problemas com a imagem corporal na idade adulta26. A violência sofrida na infância tem consequências negativas e pode levar ao surgimento de psicopatologias na vida adulta. A violência psicológica tem sido associada à autocrítica, insatisfaçao com a imagem corporal, depressao e baixa autoestima entre os adultos5.

Portanto, é importante ter um ambiente familiar seguro e acolhedor para desenvolver uma imagem corporal saudável nos indivíduos, particularmente no caso dos adolescentes. O corpo nao é simplesmente uma máquina biológica, mas um corpo que compreende uma história de experiências relacionais que auxiliará no desenvolvimento do indivíduo e na habilidade de lidar com as situaçoes estressantes. É também um meio de regular as afeiçoes ou resolver problemas de natureza relacional/pessoal27. Eubanks et al.4, em seu estudo com 38 universitários, observaram que as vítimas de abuso físico e psicológico sentiam que seus pais as amavam menos, davam menos apoio a elas e figuravam como um modelo negativo em suas vidas. Isso mostra mais uma vez como a existência de violência física ou psicológica dentro da família pode afetar negativamente a vida dos indivíduos envolvidos. Nessa perspectiva, relacionamentos saudáveis que os adolesecentes desfrutam com outros membros da família sao potencialmente decisivos para levar ao desenvolvimento adequado e boas relaçoes sociais27.

Este estudo tem certas limitaçoes: a primeira diz respeito ao desenho amostral, que foi baseado em um corte transversal, que nao é capaz de inferir a temporalidade das associaçoes descritas. A segunda limitaçao refere-se ao tipo de amostra. O presente estudo utilizou uma amostra de conveniência de indivíduos cadastrados no Programa de Assistência à Família, com características socioeconômicas semelhantes. Outra limitaçao a ser considerada refere-se às variáveis que podem estar envolvidas na relaçao entre a violência e a insatisfaçao com a imagem corporal, que nao foram abordadas aqui e que podem gerar problemas de imagem corporal, tais como: vergonha, autocrítica, mudanças de humor, perfeccionismo, puberdade, autoobjetificaçao, identificaçao de papéis de gênero, sexualidade, ansiedade e outras experiências que sao potenciais mediadores na relaçao entre maus-tratos na infância e problemas de imagem corporal.5. Além disso, tendo em conta que algumas crianças que sofrem maus-tratos nao desenvolvem consequências psicológicas graves ou outros problemas de saúde, é uma tarefa importante para o futuro identificar os fatores que protegem essas crianças das consequências negativas do abuso. Desse ponto de vista, é importante que outras pesquisas investiguem a relaçao entre violência familiar e imagem corporal, elaborando estudos longitudinais e considerando outros aspectos, como mecanismos compensatórios, fatores psicológicos e a percepçao da relaçao familiar que quando favoráveis auxiliam na superaçao do trauma.


CONCLUSAO

Apesar das limitaçoes, este foi o primeiro estudo sobre a relaçao entre as violências física e psicológica e a insatisfaçao com a imagem corporal em adolescentes brasileiros. Com base nos resultados deste estudo, pode-se supor que a violência psicológica está ligada à insatisfaçao com a imagem corporal em adolescentes do sexo feminino. Esse conhecimento pode ajudar a fundamentar estratégias que permitam aos adolescentes e aos seus pais compreenderem os efeitos prejudiciais que um ambiente familiar desfavorável pode ter no crescimento e desenvolvimento de um adolescente. Também deve ficar claro para a sociedade que a violência, culturalmente aceita como parte do processo educacional, pode ter consequências negativas para a formaçao da imagem corporal.


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