Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 16 nº 2 - Abr/Jun - 2019

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Páginas 64 a 71


Levantamento do comportamento de risco para transtorno alimentar, estado nutricional e fontes de informaçao utilizadas por adolescentes

Risk Behavior Survey for Eating Disorder, Nutritional Status and Sources of Information Used by Adolescents

Encuesta de comportamiento de riesgo para trastornos alimenticios, estado nutricional y fuentes de información utilizadas por adolescentes


Autores: Cinthia Monteiro da Silva1; Ana Manuela Ordoñez2

1. Residente em Saúde da Família pela Universidade Federal da Integraçao Latino-Americana (UNILA). Graduaçao em Nutriçao pelo Centro Universitário Uniao das Américas (UNIAMÉRICA). Nutricionista pela Universidade Federal da Integraçao Latino-Americana (UNILA). Foz do Iguaçu, PR, Brasil
2. Mestrado em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal do Paraná. Docente do curso de Nutriçao pelo Centro Universitário Uniao das Américas (UNIAMÉRICA). Foz do Iguaçu, PR, Brasil

Correspondência:
Cinthia Monteiro da Silva
Faculdade Uniao das Américas, Nutriçao
Avenida das Cataratas, nº1118 - Vila Yolanda
Foz do Iguaçu, PR, Brasil. CEP: 85853-000
(cinthiamonteiro19@hotmail.com)

Submetido em 20/11/2019
Aprovado em 11/03/2019

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente; Comportamento Alimentar; Transtornos da Alimentaçao e da Ingestao de Alimentos.
Keywords: Adolescent; Feeding Behavior; Feeding and Eating Disorders.
Palabra Clave: Adolescente; Comportamiento Alimenticio; Trastornos de la Alimentación y de la Ingestión de Alimentos.

Resumo:
INTRODUÇAO: A adolescência é uma fase de vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos alimentares onde ocorrem intensas mudanças psicológicas, biológicas e adaptaçoes sociais.
OBJETIVO: Identificar a prevalência de comportamento de risco ao desenvolvimento de transtornos alimentares em adolescentes e a sua associaçao com sexo, estado nutricional e fontes de informaçao em nutriçao.
MÉTODOS: Estudo realizado com 191 adolescentes de ambos os sexos, com idade entre 15 e 19 anos. Para identificar comportamentos de risco para transtorno alimentar utilizou-se o Teste de Atitudes Alimentares (EAT-26). Avaliou-se o estado nutricional através do Indice de Massa Corporal conforme os padroes da Organizaçao Mundial da Saúde. Por fim, foi aplicado o Questionário de Fontes de Informaçao em Nutriçao. Os dados da pesquisa foram analisados por meio de estatística descritiva.
RESULTADOS: Encontrou-se 28% de risco para o desenvolvimento de transtorno alimentar na amostra analisada, com maior risco entre as adolescentes do sexo feminino (37%). Em relaçao ao estado nutricional, a maioria dos adolescentes avaliados apresentou eutrofia (75%). A fonte de informaçao mais utilizada pelos participantes foi a internet (87%) seguido da televisao (57%).
CONCLUSAO: O estudo mostrou um percentual relevante de risco para transtorno alimentar. Assim, em decorrência dos impactos gerados pela patologia, se faz importantes açoes voltadas a esse público para a prevençao.

Abstract:
INTRODUCTION: Adolescence is a phase of vulnerability to the development of eating disorders where intense psychological, biological changes and social adaptations occur.
OBJECTIVE: Identify the prevalence of risk behavior for the development of eating disorders in adolescents and its association with sex, nutritional status and sources of nutrition information. Methods: A study was conducted with 191 adolescents of both sexes, ages between 15 and 19 years. Eating Attitudes Test (EAT-26) was used to identify risk behaviors for eating disorders. The nutritional status was evaluated through the Body Mass Index according to World Health Organization standards. Finally, the Questionnaire on Nutrition Information Sources was applied. The research data were analyzed through descriptive statistics.
RESULTS: We found 28% risk of developing an eating disorder in the analyzed sample, with higher risks among female adolescents (37%). Regarding nutritional status, the majority of adolescents evaluated presented eutrophy (75%). The most used information source was internet (87%) followed by television (57%).
CONCLUSION: The study showed a relevant percentage of risk for eating disorder. Thus, due to the impacts generated by the pathology, it is important to take actions aimed at this public for prevention.

Resumen:
INTRODUCCION: La adolescencia es una fase de vulnerabilidad al desarrollo de trastornos alimenticios donde ocurren intensas mudanzas psicológicas, biológicas y adaptaciones sociales.
OBJETIVO: Identificar la prevalencia de comportamiento de riesgo al desarrollo de trastornos alimenticios en adolescentes y su asociación con sexo, estado nutricional y fuentes de información en nutrición.
MÉTODOS: Estudio realizado con 191 adolescentes de ambos sexos, con edad entre 15 y 19 años. Para identificar comportamientos de riesgo para trastorno alimenticio se utilizó el Test de Actitudes Alimenticias (EAT-26). Se evaluó el estado nutricional a través del Indice de Masa Corporal conforme los estándares de la Organización Mundial de Salud. Finalmente, fue aplicado el Cuestionario de Fuentes de Información en Nutrición. Los datos de la pesquisa fueron analizados por medio de estadística descriptiva.
RESULTADOS: Se encontró 28% de riesgo para el desarrollo de trastorno alimenticio en la muestra analizada, con mayor riesgo entre las adolescentes del sexo femenino (37%). En relación al estado nutricional, la mayoría de los adolescentes evaluados presentó eutrofia (75%). La fuente de información más utilizada por los participantes fue internet (87%) seguido de televisión (57%).
CONCLUSION: El estudio mostró un porcentaje relevante de riesgo para trastorno alimenticio. Así, en consecuencia de los impactos generados por la patología, se realizan importantes acciones vueltas a ese público para la prevención.

INTRODUÇAO

De acordo com a Organizaçao Mundial da Saúde, a adolescência é o período compreendido entre a faixa etária dos 10 aos 19 anos1, onde os indivíduos deixam comportamentos da infância e adquirem características da vida adulta. Nessa fase, acontecem alteraçoes biológicas e comportamentais, marcadas por intenso crescimento e desenvolvimento físico, amadurecimento cognitivo e busca por adequaçao social. Tais condiçoes podem favorecer conflitos relacionados à aparência física que podem afetar a alimentaçao, com aumento do risco para desenvolver transtornos alimentares2.

Comportamentos de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares sao expressos por preocupaçao excessiva com os alimentos, podendo resultar em restriçao alimentar e episódios de compulsao, caracterizados principalmente pela ingestao de grandes quantidades de alimentos em um curto período de tempo, que se dá, sobretudo, após um período de restriçao alimentar severa. Também podem estar presentes atitudes purgativas como o uso de laxantes, diuréticos ou outros medicamentos, autoinduçao de vômitos e prática excessiva de exercícios físicos, além de insatisfaçao corporal e comportamento rígido relacionado à alimentaçao3. De acordo com Fortes et al.4, aproximadamente 25% dos jovens no mundo apresentam esse tipo de comportamento relacionado à alimentaçao.

Transtornos alimentares sao desvios de comportamento alimentar de ordem psicológica que podem acarretar prejuízos biopsicossociais, associados com o aumento da morbimortalidade. A insatisfaçao e distorçao da imagem corporal e a superestimaçao do peso constituem precedentes para transtorno alimentar e interferem na interaçao do indivíduo com seu peso, corpo e saúde.

Observa-se que, quando existe insatisfaçao com a imagem corporal é comum a adesao de atitudes para adequaçao à aparência desejada, a qualquer custo. De modo geral, indivíduos com transtorno alimentar, antes da patologia instalada, já demons-tram algumas disfunçoes no comportamento alimentar que sinalizam o risco de desenvolver transtornos da alimentaçao5.

As principais complicaçoes orgânicas dos transtornos alimentares sao distúrbios endócrinos, como amenorréia, aumento dos níveis de cortisol, diminuiçao da concentraçao de testosterona; alteraçoes metabólicas, como hipercolesterolemia e hipoglicemia; alteraçoes ósseas, como osteopenia e osteoporose; alteraçoes hidroeletrolíticas, com distúrbios nos níveis séricos de vitaminas e minerais; alteraçoes hematológicas, como anemia e hipoplasia de medula; alteraçoes físicas, como regressao dos caracteres sexuais secundários, além de hipotensao arterial, arritmia cardíaca, insuficiência renal e insuficiência pulmonar. Esse quadro pode comprometer o processo de maturaçao e desenvolvimento, sendo que o impacto orgânico dos transtornos alimentares na adolescência pode ocasionar consequências que se perpetuam na vida adulta. Adolescentes com transtorno alimentar apresentam maior propensao ao suicídio6.

Em vista disso, a adolescência é a fase de maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos alimentares devido à preocupaçao excessiva com a aparência física e exacerbada suscetibilidade às influências ambientais e informaçoes sobre corpo, saúde e alimentaçao a que esses indivíduos estao expostos. Esse quadro reforça a relevância dos estudos sobre comportamentos alimentares em adolescentes4.

A fragilidade frente ao volume de informaçoes disponíveis demonstra a importância da qualidade das que se referem à alimentaçao e à nutriçao na promoçao da saúde e da alimentaçao adequada e saudável. Portanto, é preocupante o nível de exposiçao da populaçao adolescente às fontes de informaçoes sobre nutriçao de duvidosa confiabilidade. Muitas mensagens veiculadas nos meios de comunicaçao sao imprecisas, instáveis e distorcidas, reforçando os ideais de beleza, propagando dietas da moda e gerando insegurança sobre a alimentaçao. Contribuindo assim, para a adoçao de comportamentos alimentares de risco que podem evoluir para um quadro de transtorno alimentar7.

Assim, o objetivo do presente estudo foi identificar a ocorrência de comportamento de risco para o desenvolvimento de transtorno alimentar e a sua associaçao com sexo, estado nutricional e fontes de informaçao em alimentaçao e nutriçao em adolescentes.


MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa observacional, exploratória e seccional. A abordagem aos dados foi quantitativa-descritiva. A pesquisa foi realizada com 191 adolescentes de ambos os sexos, com idade entre 15 e 19 anos, matriculados no ensino médio de uma escola pública durante o mês de agosto de 2017. A amostragem foi feita por conveniência e nao é probabilística, e foi realizada entre os 487 estudantes do ensino médio matriculados nos turnos matutino e noturno.

Para a coleta de dados, foram convidados a participar da pesquisa todos os alunos matriculados nas turmas de ensino médio presentes nos dias destinados à explanaçao da pesquisa. Foram incluídos apenas os indivíduos com idade entre 15 e 19 anos, devidamente matriculados, que apresentaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE para maiores de idade assinado. Para indivíduos com menos de 18 anos o TCLE foi assinado pelo responsável. Todos os indivíduos menores de idade precisaram assinar o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido - TALE, aceitando participar da pesquisa. Essa pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Oeste do Paraná UNIOESTE, sob o número de parecer 2.162.785.

Para avaliaçao da presença de comportamento de risco para transtorno alimentar foi utilizado o Teste de Atitudes Alimentares - EAT-26. O teste é composto por 26 questoes de autopreenchimento e foi desenvolvido por Garner e Garfinkel no ano de 1979 e validado para o português por Bighetti e Ribeiro8.

As questoes sao divididas em três escalas. A primeira escala refere-se à dieta e diz respeito à negaçao disfuncional a alimentos e a preocupaçao exacerbada com a forma corporal. A segunda escala diz respeito à bulimia e preocupaçao com os alimentos e verifica a ocorrência de episódios de compulsao alimentar seguidos de comportamentos purgativos para evitar o ganho de peso. A última escala é a de controle oral, que demonstra o autocontrole diante dos alimentos e identifica fatores ambientais que se relacionam com a ingestao de alimentos8.

As opçoes de respostas sao em escala do tipo Likert, com seis alternativas e pontuaçao que varia de 0 a 3. As alternativas nunca, quase nunca e poucas vezes sao equivalentes a 0 pontos, às vezes é igual a 1 ponto, muitas vezes a 2 pontos e sempre a 3 pontos. Na questao 25 essa ordem é inversa. Ao final, soma-se a pontuaçao de cada questao e se essa for igual ou maior a 21 pontos, indica presença de comportamento de risco para transtorno alimentar8.

O levantamento das fontes de informaçao mais utilizadas foi realizado por meio do Questionário de Fontes de Informaçao em Nutriçao, simplificado de Ferraz (2002)9, que é composto por uma única questao em que devem ser assinaladas as fontes utilizadas para obter informaçoes sobre assuntos relacionados à alimentaçao e nutriçao. O questionário é composto de oito opçoes sendo que nao há limite de alternativas a serem assinaladas. As opçoes sao: TV, internet, médico/nutricionista, embalagem dos alimentos, livros, revistas e jornais, amigos e família ou outra, sendo que quando essa última era assinalada, era preciso especificar a fonte9.

A avaliaçao antropométrica foi realizada por meio da aferiçao do peso e da estatura corporal e o Indice de Massa Corporal - IMC foi obtido de acordo com a fórmula de Quetelet (IMC = massa corporal (kg) / estatura (m2)). A classificaçao do estado nutricional foi executada utilizando o software WHO AnthroPlus para verificaçao do percentil, que posteriormente foi classificado de acordo com os pontos de corte propostos pela Organizaçao Mundial da Saúde - OMS10. Os resultados da pesquisa foram expressos em percentil, e representados em tabelas e gráficos, onde utilizou- se a planilha eletrônica do Microsoft Excel.

Foi realizada análise estatística descritiva dos dados, através da frequência, média, valores mínimos, valores máximos e desvio padrao. Foram executados testes para estatística analítica (correlaçao e Qui-quadrado), nao havendo associaçao entre as variáveis de estudo.


RESULTADOS

Participaram da pesquisa 191 adolescentes, destes, 60% (n=115) eram do sexo feminino e 40% (n=76) do sexo masculino. A média de idade foi de 16,71±1,15 anos (15 - 19), sendo que a maioria (31%) esteve concentrada na faixa de 16 a 16,9 anos.

Em relaçao à avaliaçao antropométrica, o IMC médio foi de 22,47±4,02 kg/m2 (15,79 - 40,09). Quanto à classificaçao do estado nutricional pelo IMC, 75% (n=143) dos adolescentes avaliados apresentou eutrofia. Entre as participantes do sexo feminino, 74% (n=85) apresentaram eutrofia, 17% (n=19) sobrepeso, 8% (n=9) obesidade, 2% (n=2) magreza e nenhuma apresentou obesidade grave. Dos participantes do sexo masculino, 76% (n=58) apresentaram eutrofia, 13% (n=10) sobrepeso, 8% (n=6) obesidade, 1% (n=1) magreza e 1 (1%) obesidade grave. A classificaçao do estado nutricional dos indivíduos avaliados está descrita na tabela 1.




A pontuaçao média do EAT-26 foi de 15,40±9,77 pontos (0-50). Entre os participantes da pesquisa, 28% (n=53) obtiveram resultado positivo para presença de comportamento de risco (ponto de corte acima de 21 pontos) e 72% (n=138) nao apresentaram resultado acima de 21 pontos.

Entre os participantes do sexo feminino, 37% (n=43) foram identificados com comportamento de risco para transtorno alimentar. Entre os indivíduos do sexo masculino, 13% (n=10) expressaram esse comportamento. Entre os adolescentes entrevistados com presença de risco para transtorno alimentar, 16% (n=30) apresentavam idade entre 16 e 17,9 anos. A prevalência do comportamento de risco de acordo com o sexo está exposto na tabela 2.




Em relaçao às fontes de informaçao sobre alimentaçao e nutriçao utilizadas pelo público estudado, observou-se que 87% (n=166) relataram utilizar a internet como principal fonte de informaçao, seguida pela TV 57% (n=109), amigos e família com 48,5% (n=93), conforme tabela 3.




DISCUSSAO

Evidências expressam que a adolescência é um período de vulnerabilidade ao desenvolvimento de conflitos relacionados à alimentaçao, pois nessa fase as necessidades nutricionais estao elevadas e há grande suscetibilidade à influência de fatores ambientais. A busca pela identidade também é um fator importante característico dessa faixa etária e que pode contribuir para a insatisfaçao corporal, principal fator de risco ao desenvolvimento de transtorno alimentar4,6,11.

A prevalência de normalidade do estado nutricional em adolescentes pode ser explicada pela alta demanda nutricional característica desta fase devido à complexidade do processo de desenvolvimento e maturaçao. Durante esse período, apesar da alimentaçao geralmente apresentar padrao irregular e presença de comportamentos disfuncionais, mantém-se a normalidade do IMC desses indivíduos, conforme elucidam Pinho et al.12.

Observa-se que indivíduos do sexo feminino aparentam ser mais vulneráveis ao desenvolvimento de comportamentos alimentares disfuncionais, o que pode ser justificado pelo empenho constante para controlar o peso corporal, principalmente entre o público adolescente4,11,13. Isso pode explicar o fato da maioria dos estudos que investigam comportamentos relacionados a transtornos alimentares serem focados exclusivamente no público feminino.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar realizada em 2015, apontaram que adolescentes do sexo feminino atribuem uma valorizaçao exagerada à aparência física, que as levam a cultivarem intensa insatisfaçao corporal e aumenta a propensao de apresentarem distúrbios de imagem. No sexo masculino, as inquietaçoes sobre a aparência física permeiam o anseio por um corpo musculoso. As maiores proporçoes de adolescentes que tiveram atitudes para perda de peso foram encontradas no sexo feminino14.

A ocorrência de comportamento de risco para transtorno alimentar na presente pesquisa é considerada preocupante, conforme apontam Cubrelati et al.13 ao indicarem que, percentuais maiores que 20% merecem atençao e refletem a necessidade de intervençao.

De acordo com Fortes et al.15, nos últimos anos aumentou a frequência de comportamentos de risco para transtorno alimentar em indivíduos do sexo masculino, em uma proporçao de 1 caso para cada 10 no público feminino, o que tem estimulado estudos mais aprofundados a respeito da etiologia e dos instrumentos de detecçao de risco para o público masculino. O questionário EAT-26 foi validado para uso em indivíduos do sexo feminino, porém, com o aumento dos casos em homens, verificou-se a necessidade de estudar sua aplicaçao para esses indivíduos. Como os estudos de Fortes et al.15, que avaliaram as qualidades psicométricas do EAT-26 para adolescentes do sexo masculino. Os autores chegaram a conclusao de que o instrumento possui boa aplicabilidade para esse público com consistência interna e reprodutibilidade comprovadas.

Fortes et al.4 construíram um modelo etiológico dos comportamentos de risco para transtornos alimentares e sugerem que o conteúdo midiático a que os adolescentes estao expostos possui relaçao direta com esses comportamentos. Além disso, a incorporaçao dos ideais de magreza e as mensagens duvidosas e subliminares nos meios de comunicaçao relacionadas a dietas, aparência corporal e alimentaçao associam-se ao desencadeamento de comportamentos alimentares inadequados.

Esses apontamentos reforçam os achados do presente estudo com indícios preocupantes referentes às fontes de informaçoes sobre alimentaçao mais utilizadas pelo público. Ressalta-se que sao escassas as pesquisas que investigaram as fontes de informaçao utilizadas para esse fim, sendo as poucas pesquisas de cunho populacional, e com um público de ampla faixa etária.

Em pesquisa realizada em 2010 pela FIESP (Federaçao das Indústrias do Estado de Sao Paulo) e pelo IBOPE (Instituto Brasileiro de Opiniao Pública e Estatística), com indivíduos de 16 a 60 anos de idade de ambos os sexos, foram avaliadas as fontes de informaçao acerca de alimentos e produtos alimentícios. Os achados revelaram que a principal fonte, utilizada por 40% dos indivíduos foi a televisao, seguida por médico ou nutricionista com 20% e a internet com 19%. Esses achados estao disponíveis em um documento intitulado Brazil Food Trends 202016.

A pesquisa populacional realizada por Pol-lard et al.7 na Austrália Ocidental entre 1995 e 2012 com indivíduos de faixa etária entre 18 e 64 anos, buscou avaliar a internet como fonte de informaçao nutricional. O resultado desse estudo revelou que o uso da internet como fonte de informaçao nutricional cresceu de 9,1% em 2004 para 33,7% em 2012. Mulheres mais jovens eram mais propensas a utilizar a internet como fonte de informaçao e a maior busca relacionava-se ao controle do peso. Chegou-se à conclusao de que as informaçoes à que os indivíduos da pesquisa estavam expostos eram imprecisas e que informaçoes precisas e confiáveis foram fornecidas por sites médicos, governamentais e universitários. No entanto, eles apareceram na segunda e terceira páginas das buscas do site, visto que eram menos prováveis de serem acessados.

A pesquisa também sugere que os usuários da internet nao discriminam a qualidade de informaçao sobre alimentaçao e nutriçao, nao verificando a fonte e a data do conteúdo e utilizando sites comerciais para buscar informaçoes sobre saúde. Tais apontamentos podem justificar o impacto negativo do uso excessivo e indiscriminado da internet como fonte de informaçao em nutriçao, reforçando padroes de beleza e induzindo comportamentos inadequados para alcançá-lo, principalmente entre o público feminino7.

O instrumento empregado para verificar as principais fontes de informaçao em nutriçao utilizadas pelo público da presente pesquisa foi simplificado do estudo de Ferraz9, realizado em 2001, onde participaram indivíduos com idade a partir de 16 anos. Um achado interessante que corrobora com a pesquisa realizada na Austrália é que no início da década passada, a principal fonte de informaçao encontrada eram livros, revistas e jornais, seguido de televisao, e amigos e família em terceiro lugar. Com isso, observam-se as implicaçoes do crescente uso da internet como fonte de informaçao em saúde.

Alvarenga et al.17 esclarecem que sugestoes que asseguram resultados rápidos, extremismos ao considerar um único alimento bom ou mal, orientaçoes baseadas em somente um estudo ou em estudos que nao consideram divergências individuais e populacionais sao indícios de falta de credibilidade em informaçoes sobre alimentaçao e nutriçao.

Mendonça et al.18 apontam que, no Brasil, nao existem critérios definidos para análise da qualidade de informaçoes sobre assuntos relacionados à saúde veiculadas nos meios de comunicaçao. O objetivo dessa análise é garantir que a populaçao possa confiar na informaçao disponível e que seja possível a compreensao dos riscos relacionados à adoçao de determinadas práticas. Os autores sugerem que haja um processo de certificaçao em sites que fornecem informaçoes em saúde.

Em alguns países da Europa, como Suíça e Espanha, trabalha-se com selos de qualidade em sites sobre saúde na internet, avaliados por diversos critérios para verificar a credibilidade e intangibilidade dos conteúdos. Nesses países, trabalha-se também com campanhas de orientaçao a populaçao, capacitando-os ao desenvolvimento de senso crítico. Exemplo disso é a disponibilizaçao de modelos de checklist para verificaçao da qualidade das informaçoes. Esse processo é relevante, considerando a abrangência atual das informaçoes veiculadas na internet.

A escola, como ambiente educativo, possui forte influência sobre a saúde de adolescentes. Em seu estudo com alunos da rede pública de ensino, Leite et al.19verificaram que 40,5% dos participantes nao reconheceram momentos voltados para tratar temas relacionados à saúde no ambiente escolar. Entre os participantes que responderam positivamente para a existência desses momentos, apenas 2,3% referiram ter sido abordada a temática dos transtornos alimentares.

Em vista da vulnerabilidade já abordada de indivíduos adolescentes, é essencial que as temáticas acerca de transtornos alimentares, imagem corporal e alimentaçao sejam constantemente abordadas no âmbito escolar, a fim de promover conscientizaçao a respeito da saúde nesse período da vida e prevenir o desenvolvimento de transtornos alimentares. Assim como, detectar sinais positivos precocemente, proporcionando melhor prognóstico e menor impacto dessas disfunçoes na vida adulta. Para tanto, é necessário um trabalho conjunto entre profissionais de saúde, educadores e familiares19.


CONCLUSAO

Esta pesquisa encontrou resultados preocupantes em relaçao ao comportamento de risco para transtornos alimentares entre o público adolescente estudado, comprovando a vulnerabilidade dessa fase a comportamentos alimentares disfuncionais.

Nao houve associaçao de comportamento de risco com o IMC, sexo ou fontes de informaçao utilizadas. No entanto, destaca-se o alto uso da internet como fonte de informaçao em nutriçao como um fator importante de influência para o desenvolvimento de transtornos alimentares, sendo que a ausência de confiabilidade dessas informaçoes e a propagaçao de padroes de beleza podem favorecer a adoçao de hábitos patológicos para controle do peso corporal. Dada a relevância desse assunto é fundamental que sejam desenvolvidas açoes de prevençao a transtornos alimentares voltadas para o público adolescente.


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