Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 16 nº 2 - Abr/Jun - 2019

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Páginas 72 a 81


Perfil de adolescentes e jovens adultos portadores de HIV/AIDS na regiao nordeste brasileira entre os anos de 2004 e 2016

Profile of adolescents and young adults with HIV/AIDS in the Brazilian northeast region between the years 2004 and 2016

Perfil de adolescentes y adultos jóvenes con VIH/SIDA en la región noreste de Brasil entre 2004 y 2016


Autores: David de Alencar Correia Maia1; Izolda Souza Costa2; Hatus da Silva Almeida3; Deyvison de Lacerda Lopes4; Sueli de Souza Costa5

1. Doutorado em Ciências da Odontológicas pela Faculdade Sao Leopoldo Mandic (SLMANDIC). Mestrado em Psicologia pela Universidadede Fortaleza (UNIFOR). Docente pelo Centro Universitário Fametro (UNIFAMETRO). Fortaleza, CE, Brasil
2. Mestranda em Saúde e Ambiente pela Universidade Federal do Maranhao (UFMA). Sao Luís, MA, Brasil
3. Graduando em Medicina pela Universidade Federal do Maranhao (UFMA). Sao Luís, MA, Brasil
4. Graduando em Medicina pela Universidade Federal do Maranhao (UFMA). Sao Luís, MA, Brasil
5. Doutorado em Ciências Odontológicas pela Faculdade Sao Leopoldo Mandic (SLMANDIC). Mestrado em Odontologia pela UniversidadeCruzeiro do Sul (UNICSUL). Pinheiro, MA, Brasil

Correspondência:
David de Alencar Correia Maia
Complexo Odontológico FAMETRO
Av. Filomeno Gomes, nº184 - Jacarecanga
Fortaleza, CE, Brasil. CEP: 60010-281
(davidmaia42@gmail.com)

Submetido em: 20/11/2018
Aprovado em 09/02/2019

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Como citar este Artigo

Descritores: Infecçoes por HIV; Soroprevalência de HIV; Adolescente; Adulto Jovem; Vulnerabilidade em Saúde.
Keywords: HIV infections; HIV Seroprevalence; Adolescent; Young Adult; Health Vulnerability.
Palabra Clave: Infecciones por HIV; Seroprevalencia de HIV; Adolescente; Adulto Joven; Vulnerabilidad en Salud.

Resumo:
OBJETIVO: Descrever as características do HIV/AIDS em adolescentes e jovens adultos entre os anos de 2004 e 2016 nos nove Estados da Regiao Nordeste brasileiro.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo de série temporal, com dados disponíveis no Sistema de Informaçao de Agravos de Notificaçao (SINAN) entre janeiro de 2004 e julho de 2016.
RESULTADOS: No período, foram notificados um total de 6981 novos casos na Regiao. A maioria tem como características: idade entre 21 e 24 anos (70,90%); gênero masculino (60,74%); raça parda (65,17%); comportamento heterossexual (53,56%); com maior concentraçao de casos no Estado de Pernambuco (23,53%). De 2004 a 2008, observa-se um crescimento do número total de casos, caindo em 2009, voltando a crescer a partir de 2010, chegando ao seu pico em 2013 (945 novos casos), reduzindo novamente a partir de 2014. Os maiores coeficientes de incidência foram observados nos grupos com menor escolaridade.
CONCLUSAO: A AIDS em adolescentes apresentou tendência de crescimento na última década, havendo maior incidência entre os homens, na faixa etária entre 21 e 24 anos, heterossexuais, o que justifica a criaçao de campanhas de prevençao específicas para a populaçao adolescente e adulta jovem, visando o enfrentamento da doença.

Abstract:
OBJECTIVE: Describe the characteristics of HIV/AIDS among adolescents and young adults between the years 2004 and 2016 in the nine states of the Brazilian Northeast Region.
METHODS: This is a time-series study with data available in the SINAN Information System between January 2004 and July 2016.
RESULTS: A total of 6981 new cases were reported in the Region. Most of them have these characteristics: age between 21 and 24 years (70.90%); male gender (60.74%); brown skin color (65.17%); heterosexual behavior (53.56%); with the highest concentration of cases in the State of Pernambuco (23.53%). From 2004 to 2008, there was a growth in the total number of cases, falling in 2009, growing again from 2010, reaching its peak in 2013 (945 new cases), reducing again from 2014. The highest coefficients were observed in the groups with lower school leveals.
CONCLUSION: AIDS among adolescents showed a trend to grow in the last decade, with a higher incidence among heterosexual men, between the ages of 21 and 24, justifying the creation of specific prevention campaigns for adolescents and young adults, aimed at coping with the disease.

Resumen:
OBJETIVO: Describir las características del HIV/SIDA en adolescentes y jóvenes adultos entre los años 2004 y 2016 en los nueve Estados de la Región Noreste brasileña.
MÉTODOS: Se trata de un estudio de serie temporal, con datos disponibles en el Sistema de Información de Agravios de Notificación (SINAN) entre enero de 2004 y julio de 2016.
RESULTADOS: En el periodo, fueron notificados un total de 6981 nuevos casos en la Región. La mayoría tiene como características: edad entre 21 y 24 años (70,90%); género masculino (60,74%); raza parda (65,17%); comportamiento heterosexual (53,56%); con mayor concentración de casos en el Estado de Pernambuco (23,53%). De 2004 a 2008, se observa un crecimiento del número total de casos, cayendo en 2009, volviendo a crecer a partir de 2010, llegando a su tope en 2013 (945 nuevos casos), reduciendo nuevamente a partir de 2014. Los mayores coeficientes de incidencia fueron observados en los grupos con menor escolaridad.
CONCLUSION: El SIDA en adolescentes presentó tendencia de crecimiento en la última década, habiendo mayor incidencia entre los hombres en la franja etaria entre 21 y 24 años, heterosexuales, lo que justifica la creación de campañas de prevención específicas para la población adolescente y adulta joven, con miras al enfrentamiento de la enfermedad.

INTRODUÇAO

Na década de 80 houve o surgimento de uma nova doença que inicialmente foi identificada como uma síndrome, sendo posteriormente reconhecida como entidade clínica, de etiologia viral, denominada Acquired Imunodeficiency Syndrome (AIDS). Entre 1980 a 1985 surgiram os primeiros casos da doença nos EUA, Haiti e Africa Central, sendo que no Brasil o primeiro caso foi descoberto em 1980. Nesse mesmo ano reforçou-se o conhecimento do fator de possível transmissao por contato sexual, uso de drogas ou exposiçao a sangue e derivados. Os primeiros casos de AIDS notificados no Brasil surgiram nos chamados grupos de risco, que incluía homossexuais do sexo masculino, usuários de drogas injetáveis e prostitutas1.

Entretanto, a evoluçao da epidemia revelou a capacidade de alcançar todas as pessoas que adotavam comportamentos de risco, como, por exemplo, manter relaçoes sexuais sem preservativo ou compartilhar seringas2. Esta síndrome foi responsável por mudanças significativas no campo da saúde e em outras áreas por envolver aspectos relacionados a saúde e comportamento. E, apesar de ter acarretado desafios para a área científica e conferir maior visibilidade a questoes relacionadas à sexualidade, a prevençao por meio de campanhas e o alerta aos agravos a saúde tem sido medida de importância para a Saúde Pública, garantindo a qualidade de vida da populaçao3.

As evoluçoes epidemiológicas permitiram direcionar a doença nao só para grupos isolados (homossexuais, prostitutas e usuários de drogas injetáveis), mas para a sociedade como um todo. Esse direcionamento mostrou o crescimento da infecçao pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) em mulheres na idade fértil. Mesmo assim, nao houve a mudança do estigma em relaçao à doença2. O conceito de risco ou comportamento de risco entrou em desuso, sendo substituído atualmente por vulnerabilidade social, onde fatores estruturais levaram ao avanço da epidemia, como condiçoes materiais de existência, sexualidade, cidadania, raça/cor, entre outros, requerendo do Estado políticas e/ ou açoes de combate ao HIV/AIDS numa perspectiva social e nao meramente sanitária2,4. Além disto, a naturalizaçao da infecçao do HIV/AIDS como doença controlável por medicamentos, crença na impossibilidade de transmissao do HIV relacionadas com carga viral indetectável, sentimento de invencibilidade que surge com o tempo de convívio entre o casal, e sua influência na manutençao do sexo seguro sao fatores de vulnerabilidade, que contribuem para o aumento do número de casos5-6.

Hoje a HIV/AIDS atinge diversos grupos, independente do sexo, gênero ou opçao sexual e nos últimos anos tem ampliando o número entre adolescentes e jovens adultos6. Os Descritores em Ciências da Saúde (DECs)7 classificam como adolescente o indivíduo que se encontra na faixa etária compreendida entre 13 e 18 anos, e jovem adulto seria aquele que se encontra entre 19-24 anos. Entretanto, a Organizaçao Mundial de Saúde8 (OMS) considera como adolescência o período de 10 a 19 anos, distinguindo ainda a adolescência inicial de 10 a 14 anos e a adolescência final entre 15 a 25 anos. A preocupaçao com a faixa etária da adolescência final descrita pela OMS8 surge do fato de que, nela, a vulnerabilidade é maior por se tratar de uma etapa da vida onde sao comuns os conflitos do âmbito social, psicológico e físico, e onde há a descoberta do prazer9. Sendo portanto, necessárias açoes de educaçao em saúde que orientem sobre os riscos de contaminaçao de doenças sexualmente transmissíveis (DST) em geral e da AIDS6,10. Essa fase há muitas mudanças biológicas, cognitivas, emocionais e sociais, sendo o momento em que sao adotadas "novas práticas e comportamentos, ganho de autonomia, exposiçao a diversas situaçoes e riscos que podem levá-los a se contaminarem"10.

Além disso, tem havido uma elevaçao anual no número de jovens contaminados por HIV/AIDS, sendo este aumento devido a vulnerabilidade do adolescente, que torna-se sexualmente ativo antes dos 15 anos de idade11. Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde sobre o comportamento sexual da populaçao em 2008 confirma esta informaçao, onde os dados revelam que entre brasileiros de 16-24 anos do sexo masculino, 36,9% tiveram relaçoes sexuais antes dos 15 anos de idade e entre o sexo feminino, o percentual foi de 17%12.

O início da vida sexual precoce está associado à alta incidência de doenças sexualmente transmissíveis (DST), considerado como um dos agravos mais frequentes à saúde6,13-14. No Brasil, a cada ano, um contingente de 4 milhoes de jovens torna-se ativos sexualmente, onde a idade mediana da primeira relaçao sexual é de 14 anos para homens, e de 15 anos para as mulheres, e o início precoce da vida sexual pode ser considerado um agravante para o comportamento de risco frente ao HIV/AIDS, sendo também o ato sexual desprotegido um agravante para a gravidez na adolescência6,10,14.

Os fatores que têm contribuído para aumentar a incidência de relaçoes sexuais entre adolescentes sao múltiplos e complexos, sendo difícil avaliar a importância de cada um deles14. Mas consequências da baixa idade da menarca feminina podem ser observadas no rejuvenescimento do processo reprodutivo no Brasil, cuja taxa de fecundidade entre as mais jovens aumentou de 17% para 23% nos últimos 10 anos15 e na feminizaçao da AIDS, mais intensa entre 13 e 19 anos, onde já houve inversao da proporçao de casos entre o sexo masculino e o feminino16.

Esta vulnerabilidade do grupo incluído na adolescência final torna este estudo relevante ao descrever a incidência de HIV/AIDS nestas faixas etárias, alertando para um maior cuidado e atençao da educaçao e de programas de saúde específicos para estes grupos.

Mais da metade das novas infecçoes por HIV que ocorrem na atualidade afetam a populaçao de 15 a 24 anos de idade. Entretanto, as necessidades dos milhoes de jovens do mundo continuam sistematicamente desatendidas quando se elaboram as estratégias sobre HIV/AIDS ou se estabelecem políticas. Estima-se que 11,8 milhoes de jovens de 15 a 24 anos vivem com HIV/AIDS hoje em dia em todo o mundo. A cada dia, cerca de 6 mil jovens dessa faixa etária se infectam com o HIV11. Das 4.500 novas infecçoes por HIV em 2016, 35% ocorreram entre jovens de 15 a 24 anos, e anualmente uma em cada dez pessoas sexualmente ativas adquire uma DST17.

O total de casos de AIDS em jovens de 15 a 24 anos, de 1982 até junho de 2011, corresponde a 66.698. No ano de 2010, a regiao com a maior taxa de incidência foi a Sul (14,3 casos a cada 100 mil habitantes), seguida da Norte (12,8), Sudeste (9,2), Centro-Oeste (7,9) e Nordeste (6,9). A razao de sexos em jovens de 15 a 24 anos, atualmente em 1.4, ou seja, a cada 14 homens com HIV/AIDS, existem 10 mulheres em igual situaçao18.

Considerando os dados oficiais sobre as características clínico-epidemiológicas de adolescentes na faixa estaria entre 15 e 24 anos com HIV/ AIDS na Regiao Nordeste, entre os anos de 2004 e junho de 2016, se torna importante analisar esse contexto com a finalidade de descrever o perfil da populaçao contaminada nesta faixa etária. Dessa maneira, é possível sugerir a criaçao de políticas públicas de prevençao e tratamento no intuito de orientar novas pesquisas e orientar os profissionais da área da saúde interessados na matéria.


OBJETIVO

Descrever o perfil da populaçao adolescente portadora de HIV/AIDS na regiao Nordeste, entre os anos 2004 e 2016.


MÉTODOS

Para caracterizar o perfil de adolescentes na faixa etária de 15 a 24 anos portadores AIDS/ HIV no Nordeste brasileiro utilizou-se o método transversal, analítico, descritivo e exploratório.

A coleta de dados foi realizada no SINAN (Sistema de Informaçoes de Agravos de Notificaçao), no SISCEL (Sistema de Controle de Exames Laboratoriais da Rede Nacional de Contagem de Linfócitos CD4+/CD8 e Carga Viral) e no SIM (Sistema de Informaçoes de Mortalidade), disponibilizados pelo Departamento de Informática do Sistema Unico de Saúde (DATASUS), no endereço eletrônico (http://www.datasus.gov.br), considerando o período de 01/01/2004 a 30/06/2016. Esse banco de dados é de livre acesso ao público.

Foram considerados e estudados os casos de HIV/AIDS notificados no sistema, por ano de diagnóstico, entre 1º de janeiro de 2004 a 30 de junho de 2016 (último período disponível).

A populaçao escolhida para o presente estudo foi de adolescentes na faixa etária de 15 a 24 anos portadores de HIV/AIDS, notificados pelos sistemas SINAN, SIM, SISCEL. Todos os 6.981 casos notificados pelo sistema no período foram estudados, este número correspondeu a 100%, nesta faixa etária na Regiao Nordeste brasileira.

As variáveis abordadas neste estudo foram às seguintes: idade, gênero, escolaridade (anos de estudo), opçao sexual e raça. Os dados destas variáveis foram coletados por Estado e sempre cruzadas com a faixa etária divididas em: de 15 a 20 anos e de 21 a 24 anos.

Foi estabelecida ligaçao entre os bancos de dados do SINAN, SISCEL e SIM. Os dados foram apresentados em formas de tabelas e gráficos. Os dados foram inseridos em planilha Excel onde foi realizada a compilaçao inicial. Os resultados foram analisados por meio de tabelas de distribuiçao de frequências e gráficos em Excel 2007. As análises foram realizadas no programa SAS (SAS Institute Inc., Cary, NC, USA, Release 9.2, 2010.). O processo adotado na análise dos dados envolveu medidas em razao de coeficiente de incidência de acordo com o gênero, faixa etária, escolaridade, raça e opçao sexual. Os coeficientes de incidência foram medidos por excelência do risco e de agravo da doença nestes grupos.

Esse estudo encontra-se em conformidade com as normas da Resoluçao 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, nao requerendo o parecer do Comitê de Ética em Pesquisa, por utilizar-se de banco de dados de acesso livre ao público.


RESULTADOS

A maioria dos adolescentes notificados com HIV/AIDS na regiao Nordeste no período analisado está na faixa entre 21 a 24 anos (70,90%), sao do gênero masculino (60,74%) e raça parda (65,17%). Um número elevado de pessoas (23,32%) nao informou o grau de instruçao, mas a maioria dos que informaram (32,95%) possui nível fundamental incompleto, e a minoria se encontra nos extremos (analfabeto, 2,25%; ou superior completo, 2,87%).

Em relaçao ao ano de notificaçao, observa-se maior número de casos no gênero masculino em todo o período pesquisado (Figura 1). Dentre esses, prevalece a faixa etária dos 21 a 24 anos, havendo maior incidência na raça parda, e com ensino fundamental incompleto (Figura 2).


Figura 1. Número de casos notificados de HIV/AIDS no Nordeste brasileiros em adolescentes da faixa etária entre 15-24 anos, em funçao do ano e do gênero.


Figura 2. Número de casos notificados de HIV/AIDS no Nordeste brasileiro em adolescentes entre 15 e 24 anos, em funçao do ano e do grau de instruçao.



Em funçao da Categoria de Exposiçao Hierárquica, em 16,28% dos casos pesquisados nao consta a informaçao da categoria de exposiçao ao HIV/AIDS, representando um total de 1.137 notificaçoes (Tabela 1). Entre aqueles em que havia a informaçao, há maior incidência em indivíduos heterossexuais, segundo notificaçoes de todos os anos.




Quanto ao estado brasileiro da regiao Nordeste, Pernambuco foi o que apresentou o maior número de casos notificados no período analisado (23,53%), seguido de Bahia (18,94%), Ceará (17,64%) e Maranhao (11,58%), sendo que o me-nor número ocorreu em Sergipe (4,55%) (Tabela 2). Ao se analisar por gênero, os mesmos estados se classificam na mesma posiçao no ranking das notificaçoes, sendo que oito dos nove estados nordestinos apresentaram a predominância do gênero masculino, com exceçao da Bahia (Figura 3).




Figura 3. Número de casos notificados de HIV/AIDS no Nordeste brasileiro em adolescentes entre 15 e 24 anos em funçao do Estado notificado, no período de janeiro de 2004 a junho de 2016.



DISCUSSAO

Os resultados obtidos na pesquisa demonstram que incidência de HIV em indivíduos adolescentes na faixa etária de 15 a 24 anos no período estudado tem reduzido. No Brasil, segundo dados da UNAIDS17, "de 2006 a 2015 a taxa de detecçao de casos de AIDS entre jovens do sexo masculino com 15 a 19 anos quase que triplicou (de 2,4 para 6,9 casos por 100 mil habitantes) e entre os jovens de 20 a 24 anos, a taxa mais do que dobrou (de 15,9 para 33,1 casos por 100 mil habitantes)"17. A pesquisa apontou 95,02 casos por 100 mil habitantes nesta regiao geográfica, cuja populaçao de jovens entre 15 e 24 anos de idade é de 7.346.838 habitantes, segundo o IBGE19.

O Ministério da Saúde20 disponibiliza dados da epidemia por regiao geográfica, sendo que a última publicaçao, em 2016, demonstra que no período de 2001 a 2011, a taxa de incidência caiu no Sudeste de 23 para 21 casos por 100 mil habitantes. Nas outras regioes, essa taxa de incidência teve aumento: 27 para 31 no Sul; 9 para 20 no Norte; 14 para 17 no Centro-Oeste; e 7 para 14 no Nordeste20. Entretanto, ao analisar os dados observados na presente pesquisa, nota-se que os casos no Nordeste diminuíram, e que, quando analisado ano a ano, demonstra-se uma oscilaçao: houve pequeno aumento do número de casos entre 2004 e 2005; no ano de 2006 decresceu e voltou a aumentar ano a ano até 2013; mas em 2014 houve queda expressiva, indo de 945 casos em 2013 para 416 em 2014.

Os resultados desta pesquisa apontaram a prevalência de HIV/AIDS em indivíduos do gênero masculino, na faixa etária de 15 a 24 anos. Entretanto, para o Ministério da Saúde20, esta diferença vem diminuindo ao longo dos anos no contexto brasileiro. Entretanto, na regiao Nordeste, esta pesquisa demonstra pequena diferença no número de casos por gênero entre os anos de 2004 a 2009. Mas, de 2010 a 2014, a razao entre o número de casos no gênero masculino e do gênero feminino sofreu ampliaçao: em 2004, a razao era de 1,01 casos do primeiro em relaçao ao segundo; em 2016 chegou a 1,54 casos no gênero masculino para cada 1 no feminino. Apesar disto, a razao de casos entre a populaçao masculina e feminina mantém-se estável, acompanhando os dados nacionais20.

Quanto à faixa etária acometida pelo HIV/ AIDS, a cada 14 segundos, um jovem entre 15 e 24 anos é infectado pelo HIV/AIDS. E de todas as novas infecçoes, cerca da metade ocorre nessa faixa etária10-14. No mundo, diariamente, mais de sete mil jovens sao infectados pelo HIV/AIDS, num total de 2,6 milhoes por ano17. No Brasil, dados do Ministério da Saúde20 indicam que foram registrados 12.046 casos de HIV/AIDS entre jovens de 10 a 19 anos desde o início da epidemia na década de 1980 até 2012, representando 1,8% dos casos notificados no país. Na nossa pesquisa, notou-se haver maior incidência em jovens na faixa etária de 21 a 24 anos (70,90%). Este resultado é relativo as notificaçoes que ocorre numa faixa etária maior, mas a contaminaçao ocorre num período anterior, tendo havido significativo aumento de casos nos grupos de 10 a 14 e de 15 a 19 anos. Há que se considerar que as infecçoes que motivaram os casos notificados no início da vida adulta (entre 20 e 24 anos) muito provavelmente ocorreram durante a adolescência10, 12.

Uma das razoes para infecçao por HIV/AIDS é a falta de acesso à informaçao, e quanto menor o grau de instruçao, menor o percentual de conhecimento das formas de prevençao e transmissao do HIV4,6,10,12,15. Nos dados coletados na presente pesquisa, há aumento na proporçao de doença na populaçao menos instruída e diminuiçao nos níveis mais instruídos de ensino. Tal fato remete a uma reflexao a respeito das estratégias de prevençao e das campanhas educativas, que devem ser claras e adaptadas ao nível de compreensao de pessoas com menos instruçao formal, sendo que o entendimento sobre as vulnerabilidades dos jovens brasileiros e suas determinantes sociais é fundamental para o fortalecimento de programas e políticas públicas6.

Quanto à forma de transmissao, o Ministério da Saúde20 registrou, em 2012, um percentual de 86,8% dos casos (todas as faixas etárias) em funçao de relaçoes heterossexuais. Nossa pesquisa corrobora com os dados nacionais onde a maioria que informou a opçao sexual se declarou heterossexual (3.739 indivíduos ou 53,56%), em todos os anos analisados, e no ano de 2012 foram notificados 336 casos em adolescentes de 15 a 24 anos, o que equivale a 37% dos casos notificados naquele ano nesta faixa etária.

A predominância de casos em heterossexuais encontrados neste estudo pode ser atribuída a vários fatores, como dificuldade de negociaçao entre os parceiros para a adoçao de medidas preventivas; dúvidas quanto à eficácia e utilizaçao de preservativo; falta de conhecimento sobre as vias de transmissao; confiança plena no parceiro; tabu sobre imunidade, além da ausência de estratégias de prevençao dos riscos de infecçao pelo HIV/ AIDS2,10,12,14,15.

Quando se analisa por Estado (Figura 3), Pernambuco apresenta o maior número de casos notificados entre a populaçao e período pesquisado, o que corrobora com outros dados que indicam que a maior incidência de HIV/AIDS no Nordeste está nas cidades litorâneas, devido haver maior turismo e exploraçao sexual nesta regiao18.


CONCLUSAO

A incidência de HIV/AIDS em adolescentes entre 15 e 24 anos no Nordeste brasileiro no período de 2004 a 2016 apresenta aumento até o ano de 2013, com comportamento divergente entre os sexos a partir desse ano, tendo decaído no sexo feminino e tendo leve crescimento total até 2015.

Após mais de três décadas do início da epidemia do HIV/AIDS, é possível observar uma expressiva mudança nas características epidemiológicas da doença e das populaçoes acometidas, denotando a queda dos preceitos que intitulavam grupos específicos como maiores predisponentes ao contágio pelo HIV e desenvolvimento da AIDS. Conforme a pesquisa, é possível observar de forma mais direta esta modificaçao nos adolescentes, onde a heterossexualizaçao é característica marcante.

Com o início da atividade sexual cada vez mais precoce, elevam-se as chances de contrair HIV/ AIDS. Com isto, faz-se necessário o planejamento e a execuçao de açoes que objetivem a reduçao dos novos contágios, assim como medidas que busquem melhora nos índices de detecçao precoce dos casos, uma vez que a populaçao adolescente nao se reconhece como vulnerável, mesmo após relaçoes sexuais desprotegidas. Além disto, os dados coletados nesta pesquisa enfatizam a importância de estabelecer programas de prevençao e atençao às HIV/AIDS aos jovens do Nordeste.

É necessário compreender a importância do levantamento e consolidaçao de indicadores, a fim de subsidiar políticas e práticas eficazes de prevençao e controle dos principais fatores de exposiçao, contribuindo assim, para mudança no quadro epidemiológico do HIV/AIDS na adolescência.


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