Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 16 nº 3 - Jul/Set - 2019

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Páginas 17 a 22


Atividade educativa em saúde sexual e reprodutiva para meninas em situação social de risco

Educative activity in reproductive and sexual health for girls in social risk situation


Autores: Karine Corcione Turke1; Paulo Afonso Ribeiro2; Camila Sando3; Graziella Luciano Antonio4; Victoria Cassioti Teodoro5; Lígia de Fátima Nóbrega Reato6

1-5. Graduanda em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Santo André, SP, Brasil
6. Doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Docente pelo Departamento de Pediatria do curso de Medicina da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Santo André, SP, Brasil

Karine Corcione Turke
(karineturke@hotmail.com)
Faculdade de Medicina do ABC - FMABC
Av. Lauro Gomes, 2000 - Vila Sacadura Cabral
Santo André - SP, Brasil. CEP: 09060-870

Submetido em 30/11/2018
Aprovado em 18/03/2019

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Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente; Sexualidade; Educação Sexual.
Keywords: Adolescent; Sexuality; Sex Education.

Resumo:
OBJETIVO: Descrever uma ação educativa realizada sobre o tema sexualidade para pré-púberes e adolescentes do sexo feminino atendidos em instituição beneficente localizada na periferia da região metropolitana de São Paulo.
MÉTODOS: As participantes em situação de risco foram divididas em dois grupos: grupo 1 (8-9 anos) e grupo 2 (10-13 anos) e foram estimuladas a desenhar um boneco, sob instruções norteadoras. Após a realização da dinâmica, houve uma apresentação do Estadiamento de Tanner, havendo também uma roda de conversas para esclarecimento de dúvidas.
RESULTADOS: Enquanto o grupo 2 se mostrou, a princípio, tímido, o grupo 1 se mostrou curioso e receptivo. No decorrer da dinâmica, o grupo 2, ao sentir maior segurança, começou a relatar fatos mais íntimos, como relações interpessoais. Já o grupo 1 apresentou dúvidas em relação ao desenvolvimento corporal e processos fisiológicos tal qual a menstruação.
CONCLUSÃO: Houve participação favorável de ambos os grupos além de boa receptividade. A ação se tornou efetiva na medida em que dúvidas foram respondidas. Assim, ações como essa se fazem necessárias para promover a saúde e o bem-estar físico e psicológico das jovens em situação de maior vulnerabilidade social.

Abstract:
OBJECTIVE: Describe an educational action about the sexuality theme for girls supported by a charitable institution in the periferic metropolitan region of São Paulo.
METHODS: The participants in risky situation were divided into 3 groups: group 1 (8-9 years) and group 2 (10-13 years), and the teens were stimulated to draw a doll, attributing to it characteristics under guiding instructions. After the dynamic, a Tanner Staging poster was presented and the group talked for questions and possible doubts.
RESULTS: While group 2 was at first shy, group 1 was curious and receptive. In the course of the dynamics, group 2, when feeling secure, started sharing more intimate facts, such as interpersonal relations. Group 1, on the other hand, had doubts about the body development and physiological processes such as menstruation.
CONCLUSION: There was favorable participation of both groups besides good receptivity. The action became effective as doubts were answered. Thus, actions like this are necessary to promote the health and physical and psychological well-being of young people in situations of greater social vulnerability.

INTRODUÇÃO

A adolescência, que segundo a Organização Mundial da Saúde corresponde à faixa etária entre 10 e 19 anos, é marcada por mudanças que abrangem diversos campos: físico, emocional, mental, sexual e social1. Neste período, as desigualdades sociais e de gênero são causas importantes na propagação de condutas sexuais de risco e levam a uma maior chance de adquirir infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ou gravidez indesejada2. É sabido que adolescentes que não recebem informações sobre ISTs e/ou informações sobre prevenção da gravidez, encontram-se sob maior risco de terem relações sexuais desprotegidas3.

A precariedade quanto ao acesso da informação por parte dos jovens em situações vulneráveis justifica ações que visem esclarecê-los sobre a sexualidade e alertá-los para os riscos da prática de sexo não seguro4.

Dessa forma, ações educativas têm como objetivos transmitir informações acerca da puberdade e suas transformações, assim como orientá-los para o uso de preservativos e esclarecê-los sobre dúvidas relacionadas à sexualidade.


MÉTODOS

Este estudo é do tipo transversal e descritivo a respeito de ação de extensão realizada com um grupo de jovens em situação de risco social no qual foram abordados os temas puberdade e educação sexual. O presente desenho de estudo foi desenvolvido a partir de um projeto de humanização do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), e contou com apoio de profissionais de assistência social e psicologia do Instituto de Hebiatria para planejamento e execução. Sob supervisão técnica, acadêmicos do segundo ano do curso de Medicina realizaram dinâmica com pré-púberes e adolescentes atendidos na Instituição Beneficente Irmã Marli, localizada na periferia do município de Santo André, São Paulo.

Questões éticas

Foi feito contato com os coordenadores, além de uma visita prévia à instituição previamente a execução do projeto. Também foi solicitada autorização por escrito, e envio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecimento para os responsáveis legais, assim como Termo de Assentimento para as participantes. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FMABC sob CAAE nº. 90038018.3.0000.0082. Foram incluídas na pesquisa as meninas que estavam presentes no dia da ação e que concordaram em participar da dinâmica. As participantes foram divididas em grupos etários de 8 e 9 anos (Grupo 1) e 10 a 13 anos (Grupo 2), sendo todos do sexo feminino, atendidos pela Instituição.

Procedimentos

A dinâmica foi selecionada a partir do livro "Dinâmicas de grupo sobre Sexualidade"5 e consistiu na confecção coletiva de uma figura humana contendo características físicas, sociais e psicológicas designadas para pré-púberes e adolescentes do sexo feminino, de faixas etárias distintas. Durante a ação, foram respondidas perguntas norteadoras acerca das características demográficas do boneco produzido, bem como sobre sua relação imaginada sobre as mudanças do corpo, desejos e dúvidas.

As participantes maiores de 10 anos responderam perguntas sobre iniciação sexual, namoro, riscos e dúvidas quanto ao exercício da sexualidade. Após discussão em grupo e esclarecimentos de dúvidas, foi explicado para elas o Estadiamento de Tanner e, para as que optaram, foi apresentado um tutorial a respeito dos métodos contraceptivos de barreira, com ênfase para o preservativo masculino.

Análise estatística

Os dados obtidos foram reunidos e analisados considerando-se as seguintes variáveis: idade, percepção e entendimento das transformações corporais, resultado do desenho e da forma como foi feito, além de informações a respeito dos aspectos reprodutivos e de prevenção.

Os dados categóricos foram descritos por frequência e porcentagem. A idade dos grupos e da amostra foram descritas por meio de média e desvio padrão, mediana e percentis, dependendo da distribuição paramétrica ou não dos dados, determinada pelo Teste de Normalidade de Sha-piro-Wilk. Para tanto, foi utilizado o programa estatístico R versão 3.2.1.


RESULTADOS

Foram incluídas 18 meninas (Tabela 1), sendo oito do grupo 1 (44%) e 10 do grupo 2 (55%). No grupo 1, a idade mais prevalente foi de nove anos, correspondendo a 33% da amostra, e no grupo 2 foi 10 anos (27% da amostra). A média de idade foi 9,83 anos na amostra total, 8,75 anos no grupo 1 e 10,7 anos no grupo 2.




Em relação à dinâmica, no Grupo 1 houve grande participação das meninas no decorrer da atividade. Para informações sobre a boneca, como nome, idade, local de residência, as participantes chegaram a um fácil consenso entre si, através de votação dos itens em que mais de uma opinião era expressada. Quando questionadas acerca do corpo e de futuras mudanças pelas quais a boneca passaria, as meninas se mostraram ansiosas para conversar sobre o assunto, principalmente sobre a primeira menstruação e o uso de sutiã, e nesse momento projetaram questões relacionadas a tais eventos onde as participantes questionaram os pesquisadores sobre suas experiências pessoais.

Nenhuma das meninas do grupo 1 havia menstruado, assim como nenhuma delas havia tido contato com absorventes, e todas expressaram que não tinham disponibilidade para esse tipo de conversa em casa. Foram apresentados alguns tipos de absorventes e elas receberam orientações sobre a utilização destes e sobre higiene durante o período menstrual.

Foi observada curiosidade da maioria a respeito do crescimento de pelos, distribuição e quantidade. No final da dinâmica, uma das meninas questionou sobre o que significava "vagina", termo frequentemente utilizado pelos educadores.

No Grupo 2, houve participação favorável do grupo como um todo e no decorrer da dinâmica, as adolescentes foram capazes de transpor características do boneco para si mesmas, trazendo suas próprias dúvidas e impressões de maneira heterogênea para a discussão, norteando os aspectos da conversa. As respostas acerca da boneca (Tabela 2) foram elaboradas em consenso com o grupo todo, naqueles tópicos em que houve discordância inicial, as próprias participantes sugeriram votação.




Não foram relatadas grandes dúvidas acerca de eventos fisiológicos como a menstruação nesse grupo, uma vez que somente uma adolescente ainda não havia menstruado. Entretanto, uma das meninas indagou se meninos também iriam menstruar.

As questões norteadoras que mais despertaram o interesse das adolescentes foram sobre relacionamentos. Apesar de vergonha inicial, as participantes falaram sobre seus próprios sentimentos, sempre se comparando com as colegas. Uma das meninas questionou o porquê de sua mãe lhe proibir de beijar os meninos. Apesar disso, mais de 50% delas já haviam dado o primeiro beijo.

Uma das adolescentes relatou estar em um relacionamento sério há mais de 6 meses, com prática de relação sexual. Foi discutido também acerca da estrutura familiar, sendo que, de modo semelhante ao Grupo 1, as meninas afirmaram não ter este tipo de conversa em casa.

Ao final da dinâmica os dois grupos foram reunidos e foi apresentado os dois tipos de camisinhas (feminina e masculina), além do Estadiamento de Tanner. As meninas puderam tirar todas as dúvidas sobre como colocar a camisinha, bem como o momento oportuno para isso.


DISCUSSÃO

Durante a dinâmica, foi percebida uma heterogeneidade entre os grupos. No grupo 2, foi notada uma grande projeção das jovens na boneca, visto que elas relataram características presentes em sua realidade. Por outro lado, no grupo 1 foram notados possíveis sonhos e fantasias das meninas, e uma menor identificação.

No grupo 1, houve maior interesse nas questões fisiológicas femininas como uso do absorvente e sutiã. Compatível, assim, com o aparecimento da fase pré-puberal, o grupo 1 apresentou características da etapa inicial da adolescência, que é marcada por esse grande interesse sobre o próprio corpo6-8. Já em relação aos relacionamentos, se observou pouco interesse, visto que a boneca deste grupo foi descrita como não tendo interesse amoroso9-11.

No grupo 2, verificou-se maior interesse nas relações interpessoais, sobretudo amorosas. Dessa forma, a sexualidade das adolescentes evidenciou-se mais ampla, compreendendo o desejo de contato, calor, carinho ou amor12. A adolescente que referiu estar em um relacionamento sério e com atividade sexual, assim como as outras, foi orientada acerca da importância do uso de preservativos.

É sabido que a desinformação dos jovens sobre questões da educação sexual está relacionada ao aumento de gravidez na adolescência e IST's13. Percebeu-se claramente através da dinâmica aplicada que o diálogo deve ser estimulado, uma vez que a ausência de informações ou informações inadequadas podem comprometer o processo natural de crescimento além do desenvolvimento físico e emocional, podendo implicar em consequências, como as já mencionadas. Dessa forma, a educação sexual pode se dar de várias maneiras, desde as mais simples como por intermédio de diálogo franco e facilitador e sem mais complicações.

Embora a atividade educativa ter apresentado resultados satisfatórios, são reconhecidas limitações pelo pequeno número de participantes e tempo restrito da ação14. Dessa forma, vale ressaltar que são necessárias futuras ações para dar continuidade ao trabalho educativo, aprofundando o tema de acordo com entendimento do público alvo. Vale ressaltar que quase totalidade dos profissionais envolvidos nesse estudo era do sexo feminino, o que pode ter facilitado a abertura das participantes para a realização da dinâmica. Além disso, considera-se essencial que sejam desenvolvidas atividades com a finalidade de estimular um ambiente acolhedor livre de tabus e que propicie conversas sobre o tema no ambiente familiar.


CONCLUSÃO

Houve participação favorável de ambos os grupos além de boa receptividade. A ação se tornou efetiva na medida em que dúvidas foram respondidas quanto ao desenvolvimento puberal, uso de preservativos e relações interpessoais. Assim, ações como essa se fazem necessárias para promover a saúde e o bem-estar físico e psicológico das jovens, principalmente aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade social.


REFERÊNCIAS

1. Ferreira V, Portella AP. Marco teórico e referencial: saúde sexual e saúde reprodutiva de adolescentes e jovens/Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2006.

2. Dallo L, Martins RA. Associação entre as condutas de risco do uso de álcool e sexo desprotegido em adolescentes numa cidade do sul do Brasil. Ciência & Saúde Coletiva. 2018;23(1):303-314.

3. Taquette SR, Ruzany MH, Meirelles Z, Ricardo I. Relacionamento violento na adolescência e risco de DST/AIDS. Cad. Saúde Pública. 2003;19(5):1437-1444.

4. Campanha do Ministério da Saúde Carnaval 2018 [Internet]. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/fevereiro/06/Apresentacao-Campanha-Carnaval-2018.pdf.

5. Magalhães C. Dinâmicas de Grupo sobre Sexualidade. Rio de Janeiro: Wak Editora; 2011.

6. Souza RP. Sexualidade - Riscos - Escola. In: Morais de Sá CA, Passos MRL, Kalil RS. Sexualidade humana. Rio de Janeiro: Revinter; 2000.p.160.

7. Costa MCO, Souza RP. Avaliação e cuidados primários da criança e do adolescente. Porto Alegre: Artes Médicas; 1998. p.290.

8. OPAS - Organização Panamericana de Saúde. Educación de la Sexualidad en el Contexto de la Salud Integral en la Adolescencia. Washington, DC: OPAS/OMS; 1997.p.65.

9. Andrade HHSM. Desenvolvimento psicossexual na infância e na adolescência. Ginecologia Infanto-Juvenil. Rio de Janeiro: Medsi; 1998. p.515-21.

10. Basso SC. Sexualidad Humana. Montevideo, Brasília: OPS OMS; 1991.p.232.

11. Brenner C. Noções básicas de psicanálise e introdução à psicologia psicanalítica. Rio de Janeiro: Imago; 1973.p.195.

12. Freitas KR, Dias SMZ. Percepções de adolescentes sobre sua sexualidade. Texto Contexto Enferm [Internet]. 2010[citado 2016 Mar 15];19(2):351-7. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tce/v19n2/17.pdf

13. Ferreira EA. A expressão de adolescentes sobre sexualidade, saúde reprodutiva e métodos contraceptivos no município de Macapá [dissertação]. Niterói (RJ): Universidade Federal Fluminense; 2017

14. Almeida RAAS, Corrêa RGCF, Rolim ILTP, Hora JM, Linard AG, Coutinho NPS et al. Conhecimento de adolescentes relacionados às doenças sexualmente transmissíveis e gravidez. Rev. Bras. Enferm. 2017 Out [citado 2018 Out 06]; 70 (5): 1033-1039. Disponível em: http://www.revenf.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672017000501033&lng=pt.
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