Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 16 nº 3 - Jul/Set - 2019

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Páginas 102 a 110


Percepção e satisfação corporal de alunos do ensino médio de uma escola privada em Orleans-SC

Perception and body satisfaction of high school students of a private school in Orleans-SC


Autores: Daniel dos Santos de Jesus1; Diego José Cifuentes2; Bruno Thizon Menegali3; Luciano Acordi da Silva4

1. Graduado em Educação Física - Licenciatura - pelo Centro Universitário Barriga Verde (UNIBAVE). Orleans, SC, Brasil
2. Graduado pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). Fisioterapeuta do NASF da Secretaria Municipal de Saúde de Lauro Müller, Proprietário e Diretor Clínico da Clínica São Giles - Clínica Integrada de Saúde, Lauro Müller - SC, Professor de Fisiologia e Fisiologia do Exercício do Centro Universitário Barriga Verde (UNIBAVE). Orleans, SC, Brasil
3. Graduado em Licenciatura Plena em Educação Física, Especialização em Fisiologia do Exercício, Especialista em Gestão e Liderança Universitária pelo IGLU OUI e Mestre em Ciências da Saúde. Atualmente atua como Diretor de Comercial e de Planejamento do Grupo CORE Sports e professor universitário no Centro Universitário Barriga Verde (UNIBAVE) e Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). Orleans, SC, Brasil
4. Graduado em Educação Física pela Universidade do Extremo Sul Catarinense e pós-doutorado pelo programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). É professor horista nos cursos de graduação e pós-graduação na universidade UNESC e no Centro Universitário Barriga Verde (UNIBAVE). Orleans, SC, Brasil

Daniel dos Santos de Jesus
(danieldossantos1593@gmail.com)
Fundação Educacional Barriga Verde (UNIBAVE)
Rua Padre João Leonir Dall'Alba, 601, Murialdo
Orleans, SC, Brasil. CEP: 88870-000

Submetido em 21/12/2018
Aprovado em 11/03/2019

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Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Imagem Corporal; Adolescente; Docentes; Educação Física e Treinamento.
Keywords: Body Image; Adolescent; Faculty; Physical Education and Training.

Resumo:
OBJETIVO: Essa pesquisa tem por objetivo descrever a percepção e satisfação da imagem corporal de alunos do ensino médio de uma escola privada de Orleans - SC.
MÉTODOS: Para a realização desse estudo foram utilizados alguns instrumentos para análise da percepção e satisfação corporal: o questionário sobre a imagem corporal (BSQ-34), a figura de silhueta corpórea-BFS, e avaliação do índice de massa corporal (IMC).
RESULTADOS: Observou-se que 19,1% dos alunos tem percepção correta de sua imagem corporal e 80,9% não tem percepção correta da sua imagem corporal.
CONCLUSÃO: Há preocupação com aqueles que obtiveram algum grau de distorção da imagem corporal no questionário BSQ e também os alunos que apontaram sobrepeso ou obesidade. Nesse contexto, o Professor de Educação Física tem papel fundamental.

Abstract:
OBJECTIVE: This research aims to describe the perception and satisfaction of the body image of high school students of a private school in Orleans-SC.
METHODS: To perform this study, some instruments were used to analyze perception and body satisfaction: the body image questionnaire (BSQ-34), body silhouette figure-BFS, and body mass index (BMI).
RESULTS: It was observed 19.1% of the students had correct perception of their body image and 80.9% did not have correct perception of their body image.
CONCLUSION: There is a concern about those who obtained some degree of the body image distortion in the BSQ questionnaire and also the students who indicated overweight or obesity. In this context, the Physical Education Teacher plays a fundamental role.

INTRODUÇÃO

Estudos mostram que pesquisas a respeito da imagem corporal se iniciaram no século XX, para descobrir no que uma lesão afetava a percepção do sujeito sobre seu corpo ou o espaço que o rodeava. Com o passar do tempo, os estudos sobre percepção corporal mudaram e foram criadas novas formas de pesquisá-la, por isso há um amplo material para pesquisa no século XXI1.

Os jovens nesse período buscam uma forma de serem "aceitos" na sociedade, procurando formar uma identidade que seja bem quista. Com isso, há uma preocupação maior com a aparência e o modismo que a mídia impõe, fazendo com que cresça cada vez mais os jovens que buscam um corpo perfeito2.

A educação física foca muito mais que no corpo, mas sim no homem por inteiro. Para tanto, o Professor de Educação Física deve estar qualificado para trabalhar com jovens, faixa etária em que a preocupação com a aparência física vem aumentando, podendo orientá-los não apenas em atividades físicas, mas levantando debates e reflexões sobre temas relevantes como a percepção corporal, a mídia, a saúde e outros que podem ajudar na busca da identidade de cada um3.

Essa pesquisa se justifica pela necessidade em analisar a visão dos adolescentes de nossa região sobre seu corpo e sua satisfação diante de tantas mudanças que essa fase da vida oferece, visto que há poucas pesquisas a respeito desse tema em nosso território.

Esse estudo teve como problema responder às perguntas: qual a percepção e satisfação corporal dos alunos do ensino médio e qual a contribuição do professor de educação física para esse fato? O objetivo geral é descrever a percepção e satisfação da imagem corporal de alunos do ensino médio, e os objetivos específicos são verificar a satisfação corporal dos alunos do ensino médio através de um questionário e de uma escala, descrever as consequências da percepção e insatisfação corporal na saúde dos adolescentes através de revisão de literatura, e citar as contribuições do Professor de Educação Física na promoção à saúde em relação à insatisfação corporal dos adolescentes através de revisão de literatura.

Essa pesquisa é de suma relevância, pois a maioria dos estudos encontrados a respeito de percepção e satisfação corporal com alunos do ensino médio é em escolas públicas. Ratificando o que foi exposto anteriormente, essa pesquisa foi realizada em uma escola privada de Orleans. Outra característica que a qualifica é o fato de ter apenas um estudo publicado a respeito desse tema na região, encontrada através de uma busca nas bases de dados das instituições próximas.

A escolha desse tema se deu devido as várias mudanças que os adolescentes sofrem durante a puberdade, como Papalia e Feldman (2013, p. 387) afirmam: "A puberdade envolve alterações físicas dramáticas"4. Diante disso despertou-se a curiosidade de saber como esses indivíduos se veem e se estão satisfeitos com a sua imagem corporal.

A importância de uma avaliação de percepção e satisfação corporal se dá pela frequente insatisfação de jovens diante de seu corpo, que pode acarretar em problemas sérios, sendo um deles um distúrbio conhecido, a anorexia. Neste distúrbio o indivíduo cria uma obsessão por tudo que come e com seu peso, muitas vezes rebaixando seu corpo a uma faixa abaixo do seu peso ideal5.

Essa pesquisa servirá para que os Professores, a Escola e, consequentemente, os pais, tenham um feedback sobre a auto percepção dos adolescentes quanto ao seu corpo, seus sentimentos e anseios. Os resultados dessa análise poderão contribuir para o planejamento de futuros projetos de saúde na referida Escola. Portanto, essa pesquisa se torna de grande valor ao verificar a percepção e satisfação corporal de adolescentes.


PERCEPÇÃO CORPORAL

A percepção corporal nada mais é do que uma representação mental do que realmente é o nosso corpo e, para a pesquisa de percepção corporal, há duas subdivisões, a atitudinal e a perceptiva, sendo que este trabalho focou na perceptiva. Para sua avaliação podem ser utilizados aparatos que possibilitam a distorção das dimensões do corpo através de testes, como a manipulação de luzes e compassos e registro do corpo em molduras ou folhas de papel, ajudando o sujeito a estimar o tamanho e forma no qual ele se vê6.

Já no século passado, mais precisamente em 1962, houve uma pesquisa onde se propôs que um sintoma da anorexia nervosa fosse "uma perturbação na imagem corporal de proporções delirantes"(p. 189)7.


METODOLOGIA

Essa pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa- CEP sob o número 2.787.474.

Quanto ao método utilizado, empregou-se a pesquisa transversal, que tem por objetivo observar fator e efeito num momento histórico e, que atualmente vendo sendo utilizada em muitas pesquisas8.

Para a realização desse estudo foram utilizados alguns instrumentos para análise da percepção e satisfação corporal, como o questionário sobre a imagem corporal (BSQ-34)9, a figura de silhueta corpórea- BFS10, e avaliação do índice de massa corporal (IMC)11 para verificar a relação com a condição alimentar.

A presente pesquisa, realizada com adolescentes do ensino médio de uma escola privada de Orleans-SC, é caracterizada como qualiquantitativa (mista), pois houve o uso de técnicas estatísticas para traduzir em números as opiniões e informações contidas na pesquisa. Posteriormente, essas informações foram classificadas de forma descritiva, empregando significado aos resultados12.

Quanto aos objetivos, essa pesquisa se caracteriza como descritiva, tendo como foco principal a descrição de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis. Vários estudos podem ser classificados sob este princípio e uma de suas características mais expressivas é a utilização de técnicas padronizadas de coleta de dados13.

A amostra foi composta por 47 adolescentes, sendo 23 do sexo masculino e 24 do feminino. Todos os estudantes do ensino médio, com idade entre 14 e 18 anos, que receberam uma autorização para que os pais/responsáveis consentissem a sua participação na pesquisa. Posteriormente, foram aplicados os instrumentos de pesquisa, onde cada aluno recebeu um questionário e uma figura de silhueta impressos, e tiveram 15 min para responder. Posteriormente, mediu-se o peso, onde cada aluno se dirigiu à balança (Balança Digital Miltary Trail Pegada), estando apenas com o uniforme escolar. Foi solicitado ao estudante dividir seu peso igualmente entre os dois membros inferiores para melhor resultado. A altura foi medida através de um estadiômetro portátil (estadiômetro compacto 2 MTS HT-01 MD). Para isso, o adolescente colocou-se em postura ereta, com os pés fixos no chão, para ter uma medição eficaz. Para o cálculo de IMC (Índice de Massa Corporal), além de registrada a idade, foi calculada a diferença entre peso e a altura ao quadrado. Após isso fez-se comparação com a tabela padrão de IMC e foi verificado se o estudante estava dentro dos percentuais para sua idade. Todos os instrumentos foram aplicados em sala de aula.

O Questionário Sobre Imagem Corporal (Body Shape Questionnaire - BSQ) é um teste de autopreenchimento, com 34 perguntas para serem respondidas segundo a escala LIKERT de 1 a 6 (1 - nunca, 2 - raramente, 3 - às vezes, 4 - frequentemente, 5 - muito frequentemente, 6 - sempre). Conforme a resposta assinalada, é marcado ponto para a questão, de acordo com a opção feita (por exemplo: "sempre" vale 6 pontos). São somados os pontos obtidos e o nível de preocupação com a imagem corporal é refletido no resultado final. Caso obtenha resultado igual ou menor a 110 pontos, constata-se um padrão de normalidade e não há distorção da imagem corporal. Obtendo resultado entre 110 e 138, a classificação da distorção da imagem corporal é tida como leve. Já entre 138 e 167 a classificação se dá como distorção da imagem corporal moderada e, acima de 167 pontos, a classificação apresenta uma distorção da imagem corporal grave.

Na Figura de Silhueta Corpórea- BFS, os adolescentes tiveram que marcar com um "X" a imagem que eles consideram que os representa, e com um "O", aquela que eles consideram ideal para si. Para a análise os dados foram representados como maior, igual e menor, em relação as imagens assinaladas.

Foram excluídos os questionários que tiveram uma ou mais questões sem resposta, excluindo também os IMCs e figura de silhueta corpórea desses adolescentes. Um total de seis (10,3%) questionários, juntamente com o restante dos dados, foram excluídos.

Além dos processos de exclusão, houve também adolescentes que não foram autorizados pelos pais/responsáveis a participar da pesquisa, totalizando cinco (8,6%) adolescentes.


RESULTADOS

Participaram da pesquisa 47 adolescentes do ensino médio, com idade entre 14 e 18 anos. Os resultados obtidos (Tabela 1) demonstram que todos os meninos (100%) apresentam um padrão de normalidade quanto ao Questionário Sobre Imagem Corporal (BSQ), sendo que o maior resultado entre eles foi 110, e o menor 39. A média obtida foi de 62,73, resultado longe do padrão de leve distorção da imagem corporal. Já as meninas obtiveram resultados mais preocupantes em relação aos meninos, havendo 18 (75%) meninas com padrão de normalidade da distorção da imagem corporal, três (12,5%) com classificação leve, uma (4,2%) com padrão moderado, e duas (8,3%) com grave distorção da imagem corporal. A maior pontuação entre as meninas foi de 192, sendo a pontuação máxima de 204, e a menor 39, resultando numa média entre de 86,16, consideravelmente maior do que a média dos meninos.




Fazendo uma análise de questões isoladamente, podemos observar que a questão com maior quantidade de marcações "nunca" foi a de número 26 (Você já vomitou para se sentir mais magra (o)?), com 91,49%. Já a questão com maior quantidade de marcações "sempre" foi a 33 (Você fica particularmente consciente do seu físico quando em companhia de outras pessoas?), com 29,79%.

Em relação ao IMC (Índice de Massa Corporal) (Tabela 2), dos 23 meninos que participaram da pesquisa, nenhum apresenta desnutrição, sendo 15 (65,2%) normais, seis (26,1%) com sobrepeso, e dois (8,7%) apresentaram obesidade. Os dados referentes às 24 meninas mostram que nenhuma está com desnutrição, sendo 22 (91,7%) dentro da normalidade, e apenas duas (8,3%) com sobrepeso e nenhuma apresentou obesidade.




No último instrumento de pesquisa aplicado, a Escala de Silhueta Corpórea- BFS, os resultados (Tabela 3) demonstram que dos 23 meninos, 10 (43,5%) desejam ter uma silhueta menor, cinco (21,7%) assinalaram como atual é ideal, e oito (34,8%) almejam ter uma silhueta maior do que as que assinalaram como atual. Em relação as meninas, 14 (58,3%) assinalaram desejar uma silhueta menor do que a atual, quatro (16,7%) marcaram que a silhueta atual é a ideal, e seis (25%) desejam ter uma silhueta maior do que a atual.




Realizando uma análise dos três instrumentos de pesquisa juntos (Tabela 4), podemos comparar os resultados para saber se os adolescentes obtiveram percepção correta de sua imagem corporal, porém, serão destacados aqui aqueles que tiveram alguma alteração em algum dos instrumentos, representando 82,9% do total de adolescentes participantes. Ressalta-se que os participantes foram identificados como números devido a questões éticas.




Os adolescentes 16, 19, 27, 47 e 50, todas meninas, apontaram IMC normal. No BSQ tiveram distorções leve, moderada e grave e quanto à silhueta, e todas desejaram ter uma silhueta menor. Assim, pode-se observar que essas adolescentes não tem uma percepção corporal correta, pois o BSQ indicou que elas têm preocupação com sua imagem corporal, ao assinalarem que desejam ter uma silhueta menor apesar dos IMCs normais.

As adolescentes 28, 22, 3, 12, 17, 24, 32 e 48 apresentaram sobrepeso, porém, apenas a adolescente 28 se mostrou com uma boa percepção de seu corpo, uma vez que mesmo com sobrepeso, seu BSQ apresentou grave distorção da percepção corporal, mostrando uma preocupação com seu peso, se achando acima do peso e assinalando que deseja ter uma silhueta menor. O adolescente 22, do sexo masculino, teve resultado normal no BSQ, entretanto, assinalou o desejo de ter uma silhueta igual à atual, sendo que o mesmo tem sobrepeso, indicando uma percepção incorreta da imagem corporal. Já os adolescentes 3, 12, 17, 24, 32 e 48, do sexo masculino, obtiveram resultado normal no BSQ e desejaram ter uma silhueta menor, mesmo com o resultado do IMC ter indicado sobrepeso. Assim, os resultados indicam uma percepção incorreta da sua imagem corporal por esses adolescentes. Resultados semelhantes tiveram os adolescentes 54 e 55, masculinos, porém, indicando obesidade.

Observa-se na tabela 4 os valores de IMC dos adolescentes onde 33,3% estavam normais, 53,3% com sobrepeso, e 13,3% com obesidade, sendo que apenas uma menina apresentou sobrepeso.

Quanto ao BSQ, 20% apresentaram distorção leve da imagem corporal, 6,6% moderado, 60% com normalidade, e 13,3% com distorção leve, sendo que nenhum menino apresentou grau de distorção da imagem corporal.

Ainda nessa comparação, porém não estando apresentados na tabela, ocorreram casos em que os adolescentes alcançaram um IMC normal, BSQ com resultado normal, mas expressaram desejo de ter uma silhueta diferente da atual. Dez adolescentes, sendo dois meninos e oito meninas, assinalaram ter o desejo de uma silhueta menor, e 14 adolescentes, contando com oito meninos e seis meninas, assinalaram o desejo de ter uma silhueta maior. Assim, esses 24 adolescentes apresentam percepção da imagem corporal incorreta.

Na escala de silhueta corpórea, 93,3% dos adolescentes desejaram ter uma silhueta menor, 6,6% igual, e nenhum adolescente desejou ter silhueta maior, havendo apenas um menino com desejo de silhueta igual, com o restante de ambos os sexos desejando ter silhueta menor.

Um dado que se mostrou interessante é que oito (17%) adolescentes, sendo cinco (10,6%) meninos e três (6,4%) meninas, obtiveram percepção da imagem corporal correta, estando com IMC normal, BSQ com padrão de normalidade, e assinalaram a silhueta ideal como sendo a mesma assinalada como atual.

De acordo com os dados apenas 19,1% dos adolescentes apresentaram uma percepção correta quanto à sua imagem corporal, e 80,9% apresentaram percepção incorreta da sua imagem corporal.


DISCUSSÃO

Essa diferença de insatisfação entre meninos e meninas em relação a autoimagem corporal é observável em muitos locais inclusive países desenvolvido, onde de 40% a 70% de adolescentes do sexo feminino apresentam insatisfação com seu corpo, sendo que a metade delas almeja um corpo mais magro14.

A bulimia é o transtorno que mais se associa com os resultados, pois geralmente o indivíduo está dentro ou acima do seu peso adequado, com tendência a episódios compulsivos recorrentes, vômito auto induzido para controle de peso, medo de engordar e medidas restritivas para controlar o peso15.

Foi anteriormente dito que os adolescentes poderiam vir a desenvolver anorexia porque nenhum destes, mesmo com alterações no BSQ, apresentaram IMC apontando desnutrição, estando todos em seu peso ideal ou acima do mesmo.

Os resultados apresentados em parte são contrários aos dados da OMS que identifica maior prevalência de sobrepeso para os meninos (13,1%) em relação às meninas (7,5%). Da mesma forma, os dados de obsesidade da OMS são diversos do presente estudo onde há maior prevalência entre as meninas (10,4%) em comparação aos meninos (7,6%), dados que se opõem aos apresentados nesse estudo16.

Conforme os dados apresentados, podemos observar que os adolescentes do sexo masculino, dessa escola privada de Orleans, apresentam prevalência de sobrepeso maiores do que a média nacional e da região Sul, enquanto que os do sexo feminino encontraram-se abaixo destas médias.

Essa insatisfação corporal tem sido construída transcendendo a percepção subjetiva de cada ser, visando uma perspectiva social, tendo muitas fontes midiáticas fortes, apelando para um padrão de beleza estereotipado para a magreza das meninas e aumento da força e musculatura dos meninos, o que pode acarretar grandes padrões de insatisfação17.

Tal informação é observável nos resultados, pois a maioria das meninas assinalou o desejo de ter uma silhueta menor, sendo esse dado verdadeiro entre os meninos também, pois os meninos foram os que apresentaram maiores índices de sobrepeso e obesidade. Porém, uma grande quantidade de meninos apresentou desejo de ter uma silhueta maior.

Segundo Mahan, em um estudo realizado sobre comportamento de risco para jovens, cerca de metade (53%) das mulheres e 28% dos homens relataram ingerir menos calorias ou menos gordura em relação ao mês anterior, em tentativa de perder peso ou evitar o ganho. Ainda, 67% das mulheres e 55% dos homens realizaram exercícios no último mês com intuito de perder ou ganhar peso, mostrando que as mulheres têm maior preocupação do que os homens quanto ao seu corpo ou sua imagem corporal18.

A mídia também tem grande influência nesse aspecto, fazendo a cabeça de muitos jovens, devendo então haver ensino sobre o assunto para os adolescentes, com intuito de auxiliá-los na determinação de precisão e validade das mensagens expostas nos anúncios18.

Os adolescentes, a maioria meninas, ficam desesperadas, deprimidas por não conseguirem alcançar o padrão de beleza que a mídia impõe perante à sociedade, muito embora estejam em processo de formação corpórea. Este fato não deveria ser o mais preocupante, visto que devemos saber quem somos, porém, ficam limitados à visão de que corpo ter e como parecer. É neste ponto que entra a Educação Física, que tem como objetivo fazer com que os alunos reflitam sobre o arquétipo de imagem que a mídia difunde a partir de sua imagem corporal19.

A percepção e satisfação corporal sofrem influências em aulas de Educação Física, onde várias atividades podem causar mudanças na percepção da imagem corporal, sendo que os exercícios aeróbicos e atividades com relaxamento, meditação, flexibilidade, desempenham maior influência quanto à ansiedade e bem-estar, e os treinamentos com peso atribuem resultados mais satisfatórios quanto à aparência física e satisfação corporal20.

É de fundamental importância que se possam ter discussões em sala de aula a respeito desse padrão corporal e sobre as influências corporais e procedimentos ou exercícios físicos que a mídia utiliza para divulgar os modelos de imagem corporal considerados perfeitos. As aulas de Educação Física podem ser a oportunidade dos alunos realizarem atividades práticas que realmente venham lhes trazer benefícios e também que possam refletir sobre o corpo que desejam ter19.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essa pesquisa serviu para descrever a percepção e satisfação corporal de alunos do ensino médio de uma escola privada de Orleans e citar as contribuições do Professor de Educação Física para este fato. A partir disso, observou-se que 19,1% dos alunos tem percepção correta de sua imagem corporal e 80,9% não tem percepção correta da sua imagem corporal, apresentando alteração em algum dos instrumentos de pesquisa. Há preocupação com aqueles que obtiveram algum grau de distorção da imagem corporal no questionário BSQ e também os alunos que apontaram sobrepeso ou obesidade.

Dentro desse contexto, o Professor de Educação Física tem papel fundamental, levantando discussões sobre a imagem corporal, mídia, procedimentos cirúrgicos e atividade física, englobando os alunos nesses assuntos.

Quanto às limitações, a escala de silhueta não tem expressões ou desenhos no interior da figura, sendo que os mesmos poderiam facilitar a percepção e o desejo de silhueta assinalada pelos alunos. Espera-se reflexões importantes diante dos resultados obtidos e suas limitações, para que haja mais pesquisas nesse âmbito, até mesmo podendo comparar os futuros resultados com os atuais. Lembrando que estudos sobre esse tema em nossa região são de suma importância, visto os resultados dessa pesquisa e o fato de que há apenas um estudo a respeito na região.


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