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Obesidade e sexualidade na adolescência: um olhar interdisciplinar no campo da saúde

Adolescence obesity and sexuality: an interdisciplinary view within the healthcare field

 


Autores: Marília Mello de Vilhena1, Stella R. Taquette2

Resumo:
A adolescência é um período da vida de grande crescimento e desenvolvimento no qual a questão nutricional adquire enorme importância, não só pela aumentada necessidade de nutrientes, mas também pela mudança rápida da auto-imagem. Assim, o adolescente é convocado a ter que se reapropriar de uma imagem corporal transformada, entretanto seu corpo não se inscreve numa referência pura e simples à necessidade, ao prazer ou à realidade, sujeitando-se inteiramente às complicações do psiquismo. Nessa época, os distúrbios nutricionais são comuns, comprometem a saúde e vêm crescendo em níveis alarmantes no mundo, inclusive no Brasil. O sobrepeso e a obesidade acarretam sérias repercussões orgânicas e psíquicas para os indivíduos, pois a comida ultrapassa a simples satisfação instintiva de uma necessidade, ou seja, de uma pura fome biológica. Aquilo que se come e o corpo são meios privilegiados pelos quais o adolescente nos aponta seus impasses sexuais. Ao articular os campos de medicina, história, arte e psicanálise, este artigo visa investigar a problemática da obesidade/sexualidade na adolescência, distinguindo-a de um naturalismo organicista e atemporal.

Abstract:
Adolescence is a human developmental period where nutrition gains crucial importance, not only because the rapid development of all organs and its necessity of proper nutrients but also because of the self-image element in constant and rapid mutation. Thus, the adolescent is invited to recapture his body image in constant transformation (and already transformed) beyond the simple reference of the biologic (linked to the necessity apparatus), also beyond his own pleasure or the external reality. This invitation is completely bounded to the rules and complications of the adolescence psyche functioning mechanism. At this developmental life stage, eating disorders are common, jeopardizing the adolescents' health and are increasing in alarming proportions worldwide and in Brazil specially. Obesity and its more visual symptom, overweight, cause relevant organic and psychological issues to the obese individual. Food becomes something bigger and beyond than the pure instinctive necessity, the pure biological hunger. The adolescents through their food choice and quantity consumption with immediate repercussions in their body image tell us their sexual discontents. By interfacing and linking medicine, history, art and psychoanalysis, this article tries to investigate the pair obesity/sexuality problem within adolescence, thus differentiating it from an organic naturalistic and a temporal concept.

INTRODUÇÃO

No atendimento de adolescentes que procuram o ambulatório do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NESA/UERJ), mais especificamente no Projeto de Assistência e Prevenção da Obesidade, observamos em suas falas a relação inexoravelmente problemática do sujeito consigo mesmo e com seus objetos de desejo. A comida, aí, reveste-se de inúmeras significações, ultrapassando a simples satisfação instintiva de uma necessidade orgânica, ou seja, de uma pura fome biológica. Vários jovens se sentem doentes, incomodados, constrangidos, insatisfeitos com seu peso, como Paula, uma paciente que deseja emagrecer, mas não consegue, pois é mais forte do que ela a vontade de comer. Daí forçar-se a vomitar quando come muito. A seu ver, "tem que sair o que entrou".

Aos 12 anos, a mãe de Fernanda (119 kg) a trancava no quarto para que não comesse. Com ódio, ela berrava: "vocês vão me deixar morrer de fome!", afirmando ter medo de morrer de fome e comer para viver ("Se eu não comer na hora, fico nervosa e acho que vou morrer"). Tal adolescente receou a morte quando o médico lhe indagou se desejava morrer de tanto comer...

Em relação à alimentação, no campo da psicanálise, Freud(10) percebe que as crianças trazem ao mundo rudimentos de atividade sexual, já gozam de satisfação sexual quando começam a alimentarse e procuram repetir persistentemente a experiência na conhecida atividade de sugar o polegar. A primeira organização sexual reconhecível, a chamada fase oral ou canibalesca, durante a qual predomina ainda a ligação original entre a excitação sexual e a nutrição, deixa marcas permanentes em todo ser humano. Freud nos remete a um paciente em cujos sonhos doces e guloseimas significavam, em geral, carícias ou gratificações sexuais; refere-se ao auge do paroxismo de um amante ao dizer "eu poderia devorá-la com amor"; assinala a aversão à sexualidade numa adolescente anoréxica. Se, por exemplo, a posse comum da zona labial pelas duas funções é a razão da satisfação sexual surgir durante a ingestão de alimentos, o mesmo fator, então, possibilita-nos entender por que há distúrbios de nutrição, de apetite como resultado de algum processo na esfera da sexualidade. Segundo Freud, muitas de suas pacientes que sofriam de globus hystericus, constrição da garganta e vômitos entregaram-se energicamente ao ato em sua infância. Os sintomas traduzem, na verdade, aquilo que consistiu numa satisfação para o indivíduo em determinada época, mas que na atualidade origina resistência e repugnância.

A adolescência é um período da vida de grande crescimento e desenvolvimento no qual a questão nutricional adquire enorme importância, não só pela aumentada necessidade de nutrientes, mas também pela mudança rápida da auto-imagem. Por ter que se defrontar com questões sobre sua identidade associadas a uma nova imagem corporal, o adolescente se encontra imerso em conflitos e numa maior suscetibilidade a somatizações. Os distúrbios orais em que se inclui certamente a obesidade em adolescentes revelam-nos a tempestade da puberdade, na qual irrompem múltiplos, intensos e desenfreados desejos sexuais, transformações corporais importantíssimas que afetam profundamente o sujeito em questão. Nesse período fundamental para cada um de nós, a boca, aquilo que se come e o corpo serão meios privilegiados pelos quais o adolescente nos aponta seus impasses sexuais, dificuldades e traumas em sua história singular, enfim, seu modo de posicionar-se no mundo(21).


"VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?"[1] AS GORDURAS, AS VAGENS, AS PÊRAS OU A TRANSGRESSÃO

O sobrepeso e a obesidade na adolescência comprometem a saúde de modo geral e vêm crescendo em níveis alarmantes no mundo, inclusive no Brasil. Alguns autores consideram que o padrão alimentar faz parte da conduta geral de promoção à saúde e não deve ser isolado de outros comportamentos(13,17). Prevenir a obesidade depende do incentivo a hábitos saudáveis de vida, como, por exemplo, a atividade física e sua associação com uma alimentação de qualidade(8, 23). Durante a adolescência devemos intensificar a prevenção das principais situações de risco nutricional, como desnutrição crônica, anorexia, bulimia, obesidade, etc.(6).

Atendo-nos ao campo da promoção da saúde e da prevenção da obesidade, gostaríamos de ilustrar tal preocupação através do curioso artigo Seu Filho Está Gordo(16), que anuncia a obesidade infanto-juvenil como um problema de saúde pública nos EUA. Os pais de 300 (de um total de 3 mil) alunos entre 6 e 13 anos da escola East Penn, na Pensilvânia, receberam uma carta estritamente confidencial com o seguinte aviso: "seu filho está gordo". Quase uma ficha médica com peso, altura e índice de massa corpórea (IMC). A correspondência, referência de conduta para outras escolas americanas, é um alerta acerca dos malefícios advindos do excesso de gordura. Oliveira(19), em estudo realizado entre escolares brasileiros em Belo Horizonte, concluiu que a prevalência de obesidade vem crescendo numa velocidade assustadora nos últimos anos, o que exige imediata intervenção para evitar que se repitam aumentos epidêmicos observados em diversas populações(24). Em levantamento bibliográfico na literatura médica dos últimos cinco anos sobre o tema obesidade na infância e adolescência, Escrivão(7) verificou que as alterações de peso acarretam sérias repercussões psíquicas e orgânicas, aumentando a morbimortalidade para diversas doenças(5,22).

No âmbito literário, Luiz Fernando Veríssimo, em O Clube dos Anjos/Gula(26), ilustra singularmente a avidez da oralidade humana: o homem é homem porque quer mais. A sobra, o excesso, a companhia incômoda do corpo e de seu apetite diabólico conduzem de modo determinante aqueles estranhos anjos da história às delícias de uma refeição no corredor da morte. "E eu confesso que a perspectiva de morrer aumentava meu prazer na comida", afirma-nos o narrador Daniel. Trata-se, no Clube dos Anjos, de matar as pessoas com o excesso do que mais gostam, com prazeres terminais, casos perdidos em derradeiros êxtases pelo desejo de sempre mais. Os anjos de Veríssimo desconhecem o porquê de se deixarem envenenar nos jantares aos quais irremediavelmente comparecem. Lembremo-nos aí de Freud em seu remetimento à insatisfação geral dos filhos, sempre insaciados, como se nunca tivessem sugado o seio materno, tão grande a voracidade da libido infantil...Em Inibições, Sintomas e Angústia(10) ele nos diz: "a função da nutrição é, com a maior freqüência, perturbada por uma falta de inclinação para comer, acarretada por uma retirada da libido. Um aumento do desejo de comer não constitui coisa incomum. A compulsão para comer é atribuída ao medo de morrer de fome, mas isto é um assunto pouco estudado".

Recorrendo à esfera artística, convém salientar que o excessivo desejo de comer, marcado por sua historicidade, nem sempre foi estigmatizado. Em La Cultura de la Gordura(14), Marco Miranda ressalta Rubens e seus modelos de elegante obesidade que refletiam a magnitude das carnes, a alegria, a sensualidade, os maciços membros, amplas poses plenas de promessas e mistério. Além de Rubens, também Giotto, Goya, Rafael, Tintoretto, Masaccio, Renoir, Picasso e, mais recentemente, Botero preferiram retratar mulheres de indubitável robustez. Botero, por exemplo, deforma a realidade e se inclina para o volume e o exagero. Jorge Guido Brocca proclama o bem-estar na abundância e exuberância das formas de uma mulher gorda. O excesso de quilos, os silenciosos depósitos de colesterol, as artérias sobrecarregadas, os muitos metros de intestino em pleno trabalho manifestam uma realidade sensual que simboliza a cornucópia da visão humana. Para Brocca uma gordinha oferece todos os limites possíveis, desde os prazeres terrenos até os sopros da inspiração.

Se para André Burguière(2), nas cidades italianas da Idade Média, popolo grasso (povo gordo) designava a aristocracia dirigente e popolo magro (povo magro), a plebe; se a pintura de Rubens, no século XVII, nos mostra como eram apreciados corpos femininos numa época em que a magreza era símbolo de pobreza e as carnes indicavam opulência; se o roliço homenageado na burguesia da belle époque simbolizava um status elevado; contrariamente vivemos nos dias de hoje um período que considera a gordura ruim e a obesidade, vulgar. Trata-se da estética da magreza imposta pelo sistema da mídia, da ótica que culpabiliza quem come. Vivendo numa sociedade que supervaloriza a delgadeza no estilo de Giacometti, Modigliani e Brancusi, a existência do peso ideal e do padrão de magreza ideal desencadeia em nossa cultura depressão e transtornos alimentares. Ao evitar gorduras, sobram as vagens, as pêras ou a transgressão. Assim, uma das formas mais ultrapassadas da liberdade é ser gordo. E há gordos felizes.

A fim de ampliar a discussão, inferimos que a vontade de emagrecer incide numa razão dramática, o ajustamento psicológico e social a uma sociedade que considera a obesidade uma espécie de deformação dupla, física e da personalidade. Mesmo sem grande aumento de peso, a pessoa dificilmente se satisfaz consigo mesma por ser a todo momento bombardeada por exemplares jovens e desumanamente bem torneados em anúncios publicitários, desfiles de moda, capas de revistas, novelas de TV e na academia de ginástica que freqüenta. O gordinho e a gordinha são zombados na escola, não arrumam namorado na adolescência e perdem para concorrentes ao enfrentarem o mercado de trabalho. Por isso os remédios para emagrecer são usados por tanta gente de peso saudável ou apenas ligeiramente acima do padrão recomendável.

Segundo C. Fischer, em História da Vida Privada(2), a cultura desregula ou perverte a natureza, ou seja, a sabedoria do corpo é enganada pela loucura da cultura. O consumidor moderno não sabe mais o que come, o alimento se tornou um objeto sem história conhecida. Enfim, comemos demais; percebemos que estamos com fome, mas somos incapazes de discernir os sinais de nossa saciedade. Paradoxalmente, os meios de comunicação nos estimulam a comer, nos intimam à magreza e empurram-nos para os fogões com receitas para emagrecer. Corpo cultivado é o que não falta, sobretudo em novelas e reality shows, onde desfilam homens e mulheres com músculos estarrecedores. Influenciáveis e, para seu profundo desgosto, muitas vezes divididos entre magrelos e rechonchudos, os adolescentes são os primeiros a correr para a academia.


"A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA"[2] AS DIVERSAS SIGNIFICAÇÕES DA ALIMENTAÇÃO

Os transtornos da imagem corporal são comuns entre os adolescentes, mesmo naqueles em que não há distúrbios alimentares. Devido a normas sociais e culturais reforçadas pela mídia, a questão do peso corporal inclui-se entre os fatores que determinam a aparência e o potencial de sedução dos jovens. A maioria dos adolescentes não se satisfaz com seu próprio corpo. Os meninos, em geral, superestimam a própria magreza e as meninas, sua obesidade(4,9,20), o que os leva precocemente a comportamentos dietéticos. Pesquisa realizada por Katiala-Heino(11) com 38.517 estudantes secundaristas na Finlândia verificou que a baixa idade da menarca é um fator de risco à patologia bulímica. A maturação precoce está associada à auto-imagem negativa, principalmente entre as meninas, intensificada pelo culto à magreza na sociedade ocidental. Adolescentes que amadurecem prematuramente se julgam diferentes de seus pares e às vezes recorrem à bulimia para não terem sua imagem corporal tão alterada. Nesse estudo finlandês houve uma associação estatisticamente significativa entre menarca/experiência sexual precoce (desde beijos até o coito) e patologia bulímica. Os obesos com alterações de imagem corpórea geralmente têm uma voracidade alimentar associada a história de obesidade familiar e atitudes de submissão, passividade e evitação de atividade sexual(3).

As relações familiares com o adolescente obeso vêm sendo investigadas, visando o conhecimento dos fatores desencadeantes e mantenedores da obesidade. Em trabalho qualitativo com adolescentes obesos e suas famílias, Muller(15) verificou que conflitos individuais e interpessoais não resolvidos, como, por exemplo, dificuldades na relação mãe/bebê, podem levar o indivíduo a desenvolver um padrão de interação afetiva relacionado à alimentação, mantido até a adolescência. Esses adolescentes geralmente apresentam-se inseguros, com problemas de auto-estima e na esfera da sexualidade, sendo que o alimento pode ser usado como substituto do afeto ou conforto emocional. A obesidade de um adolescente pode ser sintoma de um conflito existente em que a grande oferta de alimentos pode mascarar a ausência de amor ou mesmo rejeição. O obeso muitas vezes tenta camuflar impasses, reduzindo as opções de vida. Torna-se evidente que é preciso abordar o problema da obesidade não somente baseando-se em hipóteses lesionais acerca da fome, mas também do ponto de vista dos hábitos alimentares e de sua significação. Para H. Bruch, citado por Ajuriaguerra(1), num meio hiperprotetor, a alimentação não é oferecida somente para apaziguar uma necessidade natural, ela adquire um valor emocional considerável. É o único meio de expressar a afeição, aliviar a culpabilidade e acalmar a ansiedade. O alimento substitui o amor que a mãe não pode manifestar de outro modo. A criança, reprimida e insatisfeita, demanda de modo crescente o alimento e deseja satisfação imediata, tornando-se uma tirana que não suporta a recusa. O psicanalista francês Jacques Lacan(12), por sua vez, nos descreve um infante empanturrado com papinha de forma sufocante pela mãe, que confunde seus cuidados com o dom de seu amor. É a criança alimentada mais amorosamente que recusa o alimento e assim o faz como um desejo (anorexia mental). Pesquisa realizada na Eslovênia com 4.700 estudantes de 14 a 19 anos, com o objetivo de examinar o costume alimentar e sua relação com algumas características sociais e psíquicas, identificou entre as adolescentes descontentes com o peso a ocorrência mais freqüente de relações afetivas pobres com os pais, uso de psicofármacos e idéias suicidas. Igualmente entre rapazes e moças, o desagrado em relação ao peso esteve associado a altos níveis de depressão e baixa auto-estima(25).

A questão da alimentação e de seus transtornos se relaciona a normas culturais diferentes segundo as sociedades e variáveis de acordo com as épocas. Em História da Vida Privada - Da Primeira Guerra a Nossos Dias(2), numa abordagem estruturalista da culinária, inspirada na obra de Lévi-Strauss, Mary Douglas conclui que os princípios de seleção que orientam o ser humano na escolha de seus recursos alimentares não são de ordem fisiológica, e sim cultural. É a cultura que cria entre os homens o sistema de comunicação referente ao comestível, ao tóxico e à saciedade. Ao referir-se às antigas regras mosaicas da mesa, a autora nos mostra que elas se inscrevem num conjunto de regras que regem tanto o culto e o asseio ritual quanto o comportamento em matéria de relações sexuais e conjugais.

Afinal, por que se come?


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através de um olhar interdisciplinar no campo da saúde, por meio de uma breve articulação entre as áreas de medicina, história, arte e psicanálise, visamos investigar a questão da obesidade e da sexualidade na adolescência, distanciando-nos de um viés organicista. Isso é o que nos confirmam, por exemplo, as diversas pesquisas na esfera da saúde pública levantadas por Escrivão(7) ao assinalarem a importância das repercussões psíquicas no domínio das alterações de peso, assim como as reveladoras investigações de Muller(15) apontando, em adolescentes sexualmente inseguros, a substituição do conflito pelo alimento. No campo da história, observamos que as regras alimentares humanas são de ordem cultural e variáveis segundo as épocas, como evidenciado por Mary Douglas(14). Na esfera artística, o pintor Rubens valoriza a obesidade elegante e sensual de seus modelos, enquanto o escritor Veríssimo enfatiza no ato de comer o prazer mortífero e a voracidade libidinosa.

Concluímos neste ensaio teórico que a adolescência, longe de ser um momento do desenvolvimento de uma essência evolutiva chamada supostamente indivíduo, implica, para o sujeito que a atravessa, uma reformulação de grandes proporções em seu posicionamento subjetivo. O adolescente é convocado, num certo ponto de desamarração, a ter que se reapropriar de uma imagem corporal transformada. Ora, se o corpo não se inscreve numa referência pura e simples à necessidade, ao prazer ou à realidade, sujeitandose inteiramente às complicações do psiquismo, podemos dizer que, tratando-se do humano, o subjetivo corrompe o biológico. A obesidade na adolescência, então, implica múltiplos fatores que não se resumem apenas ao ato mecânico e compulsivo de comer em excesso. Conseqüentemente, não mais inscrita numa pura e simples nosologia ou taxionomia, a obesidade em cada sujeito e nos sujeitos adolescentes, singularmente, esbarra de modo irredutível num estranho limite de toda a problemática do desejo.

Ao tomar o presente artigo à luz da psicanálise, podemos afirmar que, para nós, o corpo se apresenta na dimensão do discurso, no âmbito da linguagem e, em suma, será sempre esse estranho íntimo que desnaturaliza o organismo. Malgrado Freud ter inicialmente buscado na ciência fundamentos para suas descobertas, os modelos biológico, fisiológico e químico tatearão em novidade e mistério. A pulsão freudiana como um conceito fronteiriço entre as esferas da psicologia e da biologia nos revela desde o começo que não são simplesmente os órgãos genitais, mas muitas outras partes do corpo, aí se destacando a boca, que constituem sede de excitação sexual. Lembremo-nos de sua obra O Interesse Científico da Psicanális e, na qual Freud afirma, em 1913, que a sexualidade não é meramente uma função que serve aos fins de reprodução, no mesmo nível que a digestão, a respiração, etc.

No NESA, nosso trabalho é interdisciplinar e cada profissional, em sua especialidade, busca não se reduzir a mero especialista em seu gabinete. Assim, não lidamos com a obesidade, a sexualidade e a adolescência como conceitos abstratos vagando no campo platônico das idéias, e sim com jovens que se dizem obesos e que, na construção de sua identidade sexual, delineiam uma história única sobre seu mal-estar.

No campo da saúde sabemos que não basta orientar os adolescentes obesos em relação a seus hábitos alimentares. Produzindo em suas falas um estreito e angustiante laço entre sexualidade e obesidade, expostos radicalmente ao real do sexo, ao real do corpo, os adolescentes criam sem cessar sentido acerca de suas questões, e é a isso que devemos estar atentos, propiciando-lhes permanentemente um espaço de escuta. Seus corpos se opõem radicalmente ao corpo do homem-máquina cartesiano que se resume a um conjunto de molas e engrenagens, massa de ossos e carne, mecânica articulada comparada a um relógio composto de arruelas e contrapesos. Nosso desafio maior consiste em pensar o corpo em suas múltiplas dimensões, não se restringindo a padrões estéticos. No atendimento do adolescente obeso, esse, por sua vez, produz um discurso sobre o seu próprio corpo, ou seja, ele o subjetiva. Por outro lado, quando o escutamos, nós, profissionais de saúde, ressignificamos o que tal sujeito nos endereça. Com isso favorecemos a abertura de um espaço que exclui dicotomias rígidas do tipo certo/errado, bom/mau em termos de comportamentos alimentares e podemos, assim, criar a possibilidade constante de promover saúde e bem-estar, sabendo que eles são sempre contextualizados e contextualizáveis.


REFERÊNCIAS

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1. Psicanalista; mestra em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ);graduada e Licenciada em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ);doutora em Comunicação pela Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ;psicóloga do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NESA/UERJ).
2. Professora-adjunta da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da UERJ e do NESA/ UERJ;graduada em medicina pela FCM/UERJ;mestra e doutora em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP/Ribeirão Preto).



[1] Extraído de "Comida"-letra e música de Arnaldo Antunes, Marcelo Frommer e Sérgio Brito.

[2] Extraído de "Comida"-letra e música de Arnaldo Antunes, Marcelo Frommer e Sérgio Brito.